Rua do Cotovelo

Escritores e poetas, em prosa ou verso, têm celebrado as belezas desta leal e heroica cidade.

Porque não poderei também contar o passado da rua em que nasci?

Quase rival da Rua do Ouvidor, ei-la hoje decaída, desmoralizada, com o nome na polícia e termo de bem-viver, espantalho constante das autoridades de São José, quartel general de capoeiras, cenário de rolos, de facadas e de lutas, por amor de Dulcineias da mais baixa classe!

Nos seus solilóquios bem pode repetir os célebres versos:

Quando as glórias que eu gozei
Vou na mente revolvendo, etc.

Entretanto, nem sempre foi assim. Deu-lhe o tiro de honra, em 1862, a Companhia Ferry, fazendo desaparecer da Praia de Dom Manoel a ponte das barcas de Niterói, e Botafogo, que constituíam a great attraction do antigo Beco do Cotovelo.

Av. Erasmo Braga no trecho da antiga Rua do Cotovelo e depois Vieira Fazenda.

Quem não se lembra da quotidiana, contínua e obrigada procissão de tudo quanto havia no high-life desse tempo? Era encantador ver as senhoras ostentando os vestidos nesgados, as mangas de presunto, os xales de Tonkin, os sapatos sem salto, com fitas cruzadas no peito do pé e na parte inferior das pernas, e mais tarde as imensas saias-balão e os chapéus salta-caroço, os petizes com suas botas contidas pelas correias de fivela, e as jovens trazendo os leves vestidos de cassa, de fustão ou organdi. Vultos políticos, poetas distintos, capitalistas, notabilidades, enfim tudo passava pelo beco, dando-lhe aspecto festivo de um verdadeiro pequeno boulevard, no tempo em que a calça de ganga ou as presilhas eram o requinte da moda.

A barca das nove era a dos empregados públicos, que, morando na cidade, tinham de ir à antiga Vila Real da Praia Grande, assinar o ponto e fazer jus ao cobre. Foi nesse tempo que vi pela primeira vez o Itaboraí, o Sousa Franco, o Aureliano, o velho Castro e Silva, o Firmino Silva.

Quantum mutatus ab illo!

Começando na ladeira do Castelo, ia terminar no antigo Porto dos Padres da Companhia, tão elogiado por sua posição na correspondência de Luiz Vahia (o Onça), quando começou a jogar as cristas com o Senado da Câmara desta cidade.

Aí se constituiu mais tarde a estação das faluas, que não só serviram, umas para conduzir passageiros para a banda d’além, e outras para trazer lenha, cal e materiais para os vastos armazéns, de cujos donos apenas existe hoje o velho Diogo Faria, que deve ter perto de cem anos.

A parte entre a ladeira e a Rua da Misericórdia era também conhecida por Beco do Açougue, por estar na esquina o Açougue Grande.

No Sábado da Aleluia enfeitava-se de flores de mangueira e bandeiras, para denotar a terminação da quaresma e do reinado do camarão, do bacalhau e do mulato velho.

Nesse tempo custava a carne 160 réis a libra, e vinha de muito perto, ali do matadouro de Santa Luzia, sem monopólio, sem baldeação nem contratos.

Tudo isso era regulado pelo almotacé, que tinha no açougue uma cadeira por trono, e por cetro um grosso cacete, com que afugentava os atravessadores.

Para o lado do mar era conhecido também por Beco do Padre Vicente, no canto do qual havia o antigo oratório de Nossa Senhora das Brotas, na esquina do sobrado possuído em 1760 pelo capitão Ignácio de Vasconcellos. Nesta casa, onde nasceu em 1866 um dos turunas do P. R. F., o mansueto A. G., era visto com muita assiduidade o chefe cá de casa. Quando, chegado havia pouco de São Paulo, vestia umas calcinhas coevas dos calções do Balduíno das ditas e do escrivão José Gomes, os quais, ambos moradores no Beco do Cotovelo, nunca quiseram passar por sans culottes e usaram sempre até à morte esse vestuário.

Havia duas célebres confeitarias: a de São Januário, em cuja tabuleta estava pintada a imagem do santo, de báculo e mitra, parecendo convidar os transeuntes a virem saborear as belas empadinhas de palmito ou as roscas do barão, e a do José Henrique, notável pela fama de suas geleias de galinha, marmelo e mocotó! Como alfaiate de fama notava-se o velho Mirindiba, mulato prosa; na sua loja existia pendurado um retrato do Nunes Machado, cuja biografia ele conhecia de cor e salteado.

Havia também o Teatro de São Januário, do qual já alguma coisa disse o Velhote, inaugurado em 2 de Agosto de 1834, pelo J. Evangelista, Maria Soares, Victor de Borg e Ludovina.

Nele brilharam João Caetano, Joaquim Augusto, Gabriela, o Germano, o Pimentel, e começaram a carreira o Heller e a esposa, o Thomaz Espiuca e o octogenário José Luís da Silveira, que ainda vive; estes faziam parte da companhia do Florindo, que, representando, pelos seus esgares e ranger de dentes, chegava a meter medo à meninada, como acontecia no Homem da Máscara Negra; nos Dois Renegados e outros dramalhões tão apreciados pela classe caixeiral nos espetáculos da tarde.

Nesse teatro se deram os primeiros bailes carnavalescos, representaram-se os primeiros vaudevilles, no tempo de uma companhia francesa. Nele esteve, por algum tempo, a Ópera Nacional, onde cantavam o Amat, a Luiza Amat, o Trindade, o Higino, a Carlota Milliet, a Julia Millan e o Ribas, impagável na Volta de Columela, no Brincar com fogoCrispim e a comadre e Expostos!

Nas lutas a propósito do 29 fui sempre, ainda que menino, do partido de João Caetano, porque a música do 29 no São Pedro era mais entusiasta e era tocada pelo 1º batalhão de fuzileiros! Como era bom ir-se ao teatro naqueles tempos! Ninguém ficava em casa; até as mucamas e cozinheiras iam apreciar as mutações das Pílulas do Diabo.

Levavam-se esteiras para crianças de mama, cadeiras para os mais taludos, comia-se nos intervalos peixe frito com pão, e nunca era esquecida a clássica moringa de dois bicos, capaz de dar de beber a um regimento.

O pano de boca representava o Largo do Rocio (sem estátua), onde morava uma parenta nossa, e lembro-me de uma, feita que eu, ao chegar ao camarote, berrava como um doido, porque não queria ficar ali, mas ir para defronte, para casa da prima Maria Rita. Das 9 as 9 ¾ era desagradável estar nos camarotes do lado do mar; sentia-se um mau cheiro de entontecer, devido aos tigres que se atiravam da ponte dos despejos, para tomar o costumado e noturno banho.

E não havia micróbios, nem febre amarela, nem cólera! Bons tempos dos lampiões de azeite de peixe!

A gente com dois vinténs podia tomar um fartão de balas do Parto, amendoins, pipocas, pamonhas, pés de moleque, ou roletes de cana crioula!

Houve para o nosso beco um dia de tristes recordações, em 1844, quando se deu a explosão da barca Especuladora, em uma véspera do Espírito Santo!

Tirante isso, tudo eram alegrias.

Subiu de categoria de beco, passou a rua; mas a decadência começara e, apesar de a crismarem com o nome de frei Vital, as bichas não pegaram e ela aí está mostrando a todos o vanitas vanitatum das causas humanas.

Podia erguer-se, quando se falou na construção de uma doca na praia, contra o que se opôs, no ministério Dantas o nosso amigo Del-Vecchio!

Para consolar-se tem ela o Desinfetório e o Necrotério!

Irá para ali a Praça do Mercado. Não sei – dicant Paduani, isto é, o prefeito, o governo, o Nuno Alvares, o Heredia e o Júlio do Carmo.

Vamos acabar. Em fraldas de camisa, jogando o seu peão, soltando papagaios, brincando o tempo será, passou ali a infância o inspirado carioca, futuro sucessor do José Mauricio – o hoje maestro Henrique de Mesquita. Enquanto vai caminho do Capitólio o autor do Guarany, o redivivo Carlos Gomes, é lançado na rocha Tarpeia o autor do Vagabundo, graças ao veto com que o velho Henrique foi mimoseado pelo prefeito, que, entretanto, gosta muito e muito de música.

Chegamos ao fim desta caceteação… e ao clou. Conhecem o Bitu, soldado do batalhão dos Henriques, vítima das águas do monte em 1811?

Pois morou, morreu e está sepultado na Rua do Cotovelo!

Sobre a campa do pobre Victorino existe hoje um jardim. Se algum dia, por exigências do recuo, tiver de ser demolido tal horto, e na terra revolta se encontrar um esqueleto, fiquem sabendo os pósteros, que não se trata de um novo Castro Malta, mas da carcaça autêntica do Bitu (vítima do alcoolismo), esperando pela ressurreição da carne para, como outrora, poder cantar:

Vem cá, Bitu, vem cá
Que é d’ele, o teu camarada?
Água do monte o levou.
Não foi nada, não foi nada,
Foi cachaça que o matou!

11 de Novembro de 1896.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Beco e Rua do Cotovelo no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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