Rua do Piolho

Acudo pressuroso a responder à questão que me foi proposta pelo infatigável e operoso colaborador da Gazeta de Notícias, signatário do Aqui, Ali, Acolá.

Na edição de anteontem, o ilustre M. A., dando notícia do um assassinato cometido em São Paulo no Morro do Piolho, escreveu: “Seria interessante saber por que os piolhos tiveram em tantos lagares a honra de batizar ruas e montes. Aqui, tivemos, de fato, a rua, como São Paulo tem o Morro do Piolho.”

Cartão Postal Rue Carioca

Pouco conhecedor das coisas da antiga capitania de São Vicente, nada posso dizer com referência ao precitado morro.

Fazendo das fraquezas forças, algo referirei acerca da via pública do Rio, conhecida até 1852 pelo nome de Rua do Piolho, crismada depois em Rua da Carioca[1], São Francisco de Assis e ainda muito mais tarde de novo Rua da Carioca.

Aumentada a sua largura, com bom calçamento, fartamente iluminada, e ostentando belíssimos edifícios, a velha e escura Rua do Piolho, parafraseando, pois, inscrição do sino de Santa Rita pode hoje contente exclamar:

Da Carioca fui,
da Carioca sou.
Prefeito Passos
Me reformou.

Em tese, varro já das cabeças dos antigos habitantes da rua, por onde passou o Tiradentes em caminho da forca, a pecha de pouco limpa e asseada.

Piolhos de galinha podiam e deviam existir em penca nos terreiros das chácaras ali existentes. Seus proprietários criavam essas úteis aves não só para mastigo da família, como para vendê-las no mercado, primitivamente em frente à Rua do Rosário e depois em outros pontos da cidade, inclusive perto do palácio dos vice-reis e por detrás da Cadeia.

Moscas e mosquitos, sim, pululavam ali em quantidade. Basta lembrar a vala que corria na direção da atual Rua de Uruguaiana, outrora imunda, que só foi coberta no tempo do Conde da Cunha.

Rua da Carioca

Esta vasta e extensa sentina pública, depósito geral de imundícies, chamou a atenção do referido vice-rei que, escreveu Monsenhor Pizarro ficou “ciente dos frequentes danos que sentia o público, porque a vala destapada era assim ruinosa à saúde da povoação, pelo depósito imundo que infeccionava o ar ambiente, como por sustentar também aluviões de mosquitos.”

Para tal fobia aos mosquitos cabe a prioridade entre nós ao Conde da Cunha. Quem sabe se ele não entrevia já os perigos de que podiam ser portadores esses insuportáveis insetos tão amoladores com as suas cançonetas como a célebre “banda” de que ultimamente tem falado a imprensa?

Que o conde quis salvar a pele e os ouvidos maltratados por tão incômodos hóspedes prova o pedido que dirigiu ao Governo para transferir a governamental residência da Praça do Carmo para o antigo Colégio dos Jesuítas. E conseguiu tudo por medo e horror aos mosquitos.

Quando não fosse esse serviço, em bem da Higiene pública, bastante para sagrar o conde verdadeiro benemérito, há outro que também se prende à antiga história da Rua do Piolho.

Esta principiava no Largo da Carioca, perto da vala, dobrava encostada ao Morro de Santo Antônio e ia esbarrar em uma grande chácara. Seguia torta em direção do atual Beco da Carioca e continuava pela Travessa das Boiotas através dos terrenos pantanosos de Pedro Dias Paes Leme.

O Conde da Cunha, vendo o defeito da rua, obteve do proprietário da chácara que ficava em frente, ceder o terreno para continuação da antiga Rua do Egito (Piolho), o mandou cordeá-la até à Lagoa da Sentinela a se unir com a estrada de Bica ou de Matacavalos[2].

Não sei se o dono da tal chácara, possuída antes por José de Souza Barros, e pelos Moura Brito, pai e filho, pediram indenização. É certo, porém, que o melhoramento ficou. Por isto até há poucos anos a rua em questão ao desembocar no Rocio, apresentava maior largura. Tudo foi modernamente regularizado.

Como outros tantos pontos hoje importantes da nossa cidade, a Rua do Piolho teve origem modesta: a princípio simples estrada, que atravessava o chamado Areal.

Já em 1667 existia. Nela se fincou um dos marcos da demarcação da sesmaria concedida por Estácio de Sá e modificada por seu tio Mem de Sá.

Depois foram concedidas pelo governador D. Álvaro de Albuquerque algumas sesmarias a particulares para ali estabelecerem roças. Por seu lado a Câmara também distribuiu terrenos com o foro de pataca e meia a seiscentos réis.

Nesses primeiros tempos o caminho passou a ser denominado Rua do Egito, ou porque na esquina, onde mais tarde esteve o armazém do Lourenço – casa do bom e barato, – houve um oratório em que se venerava a família sagrada fugindo à ferocidade de Herodes, ou, como querem outros, porque os cavaleiros que por ali passavam em magros bucéfalos, lutando com a natureza arenosa do terreno, se viam em apuros e risco de quebrar as costela. O povo sempre propenso à pilhéria, dizia que os tais iam para o Egito, frase que chegou a nossos dias e se verifica nas festas da Penha, quando os devotos cavalgam burros de carroça ou míseros cavalos lazarentos, como dizia o satírico Nicolau Tolentino.

Nem se envergonhe a hoje smart Rua da Carioca de tão humildes primórdios. Console-se com outros exemplos. Olhe, a atual Rua Visconde de Inhaúma, alagada por um braço de mar, servia de habitação aos pescadores em choças cobertas de palha de sapé.

O Largo de São Francisco de Paula era ocupado por parte da Lagoa da Pavuna por trás do Rosário. Aí tomavam banho os negros novos e os caboclos escravos.

No Largo da Carioca e Rua Treze de Maio existia a Lagoa de Santo Antônio, onde até se criavam jacarés. O mesmo acontecia nos sítios das atuais ruas do Lavradio, Senado, Resende e Inválidos, avenidas Mem de Sá e Gomes Freire. A Praça da República foi por muito tempo o receptáculo omnium purgamentorum[3] da cidade.

No local do Passeio Público existiu, até o vice-reinado de Luiz de Vasconcelos, a célebre Lagoa do Boqueirão. Disto dava notícia a inscrição do demolido Chafariz das Marrecas. O aterro desse foco pestilencial foi cantado pelo poeta Manuel Ignácio da Silva Alvarenga.

Na Praia do Flamengo (Avenida Beira-Mar) as águas invadiam todo o litoral. O sapateiro Sebastião Gonçalves pediu ali terras à Câmara. Fez casa de residência. Teve de fugir, porque um belo dia as ondas puseram por terra o modesto habitat do simplório industrial.

E para que mais exemplos? A própria Rua do Ouvidor, até princípios do século passado, era simples estrada percorrida pelos carros de bois e carroças de capim.

Havia ali de tudo: vendas, cocheiras, quitandeiras e até, em tempos anteriores, um curtume pertencente a Gonçalo Andrade.

Não te envergonhes, pois, oh Rua do Piolho.

E quando te disserem, como na “Nebulosa” do Macedo: “Nem sempre, rosa, linda flor hás sido”, nem sempre mimo de secreto lago, manda-os à tabua e ri-te dos que chasqueiam do teu nome pouco asseado.

Dize-lhes que proveio de um certo morador alcunhado o Piolho, rábula e procurador de causas, terrível chicanista e amigo de demandas. Andava pelos cartórios e tribunais em busca de questões, sempre metido como piolho em costura. Daí a alcunha. E fez fortuna. Pelo menos vivia na aurea mediocritas do poeta. Construiu na rua, que o tornou célebre, quatro casinhas e em uma delas fixou residência.

Sinto não poder dar o seu verdadeiro nome. A ingrata crônica esqueceu-o. Em todo caso, ficou o tipo do tal Piolho perfeitamente conservado no estudo feito pelo Almeidinha – no Sargento de Milícias. – Quem se não lembra do trêfego José Maria, procurador da velha demandista D. Maria?

Lembro-me, agora, a propósito destas velharias, do infeliz e inolvidável Euclides da Cunha. Com sua amizade muito me honrava o ilustre autor d’Os Sertões. Tinha ele em mente escrever um estudo de costumes nacionais, o qual denominaria Os Homens Bons. Todas as vezes que ia ao Instituto Histórico sentava-se, pedindo-me informações sobre usos, costumes, tradições, tipos de rua e anedotas sobre personagens da História.

Há cerca de um mês conversávamos sobre a frequência das alcunhas dadas no Brasil até a governadores e vice-reis. Falei-lhe então não só do Piolho como também do Zé Pequeno, Sexta-Feira, Zé das Presilhas, C… negócios, C… rabos, C… sebo, Cheira dinheiro, Cheira vinagre e Mal das Vinhas, Castro Urso, Mandioca, Onça, Gravata, Arrebenta cabresto, Camaradinha ou Padre Quelé, Passarinho triste, Brusundanga, Piolho, Viajante, Pica-Pau, Batata roxa, Bexiga, Olho de vidro, Petisco, Joaquim Sotterio, P. Chicote, Camarão, Rato molhado, Dolorosa, Lagartixa, Arrota contos, Ripanço, Cartucho, Bota Bisca, Dr. Biscoito, Ferrabrás, Fome negra, Mata Gente Braço de prata, Xumbrega, Gavião molhado, etc.

Mais feliz do que muitos destes o Piolho teve a honra de dar o seu nome a uma rua do Rio de Janeiro.

E apesar de todos os progressos ainda hoje é lembrada ela, como também o Largo do Paço, Largo do Rocio, o da Mãe do Bispo, ruas da Cadeia, das Violas, da Ajuda, Direita, Sabão et reliqua.

O povo foi sempre conservador. Só o tempo pode muito lentamente apagar da memória das classes populares lembrança transmitida pela tradição de coisas e pessoas do passado.

Foi o que aconteceu ao célebre “Piolho”.

Nota do Editor

  1. Rua da Carioca, anterior Caminho do Egito. Fonte: Atlas da Evolução Urbana da Cidade do Rio de Janeiro – Eduardo Canabrava Barreiros.
  2. Rua Riachuelo. Fonte: Restier Gonçalves, Extratos de Manuscritos sobre Aforamentos 1925, 1926-1929.
  3. [56] Intentus perficiendo templo, fabris undique ex Etruria accitis, non pecunia solum ad id publica est usus sed operis etiam ex plebe. Qui cum haud parvus et ipse militiae adderetur labor, minus tamen plebs gravabatur se templa deum exaedificare manibus suis quam postquam et ad alia, ut specie minora, sic laboris aliquanto maioris traducebantur opera foros in circo faciendos cloacamque maximam, receptaculum omnium purgamentorum urbis, sub terra agendamLivio – Ab urbe condita I, 56 (Tradução do trecho final: a ser implementado sob a terra, a Cloaca Máxima, o receptáculo de todo o esgoto da cidade.)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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