Santa Teresa – A Nova Linha

Conversemos sobre a inauguração da ferro-carril Carioca.

Uns falarão da festa, descreverão toaletes: outros informarão sobre a amabilidade dos diretores da Companhia; estes, pondo em contribuição as obras da eletricidade, dirão os milagres desta em prol da civilização e do progresso; finalmente alguns mais práticos provarão as vantagens da tração elétrica sobre a do gado muar, neste tempo em que o milho e a alfafa andam pela hora da morte, graças às oscilações do câmbio!

Nada disso. Paulo majora canamus, como diz o poeta. Como o leitor gosta de histórias do tempo da Maria Castanha do Vidigal e do filósofo do Cais, vou entretê-lo com algumas coisas antigas que vem de molde em dia de tantas galas, quando o foguetório e as bombas de dinamite rebentam com sacrifício das posturas municipais e dos ouvidos do próximo.

Senta-te, pois, leitor, em um dos bancos dos cômodos carros elétricos, acende um charuto e ouve-me, enquanto o motorneiro não faz mover a geringonça, dando o sinal de partida e pondo-nos em movimento.

Supõe que estais no começo do século XVII.

Aqui, onde fica a elegante estação ornada de vitreaux, foi infecta lagoa, onde um tal Filipe Fernandes e o senhor seu pai tiveram curtume, no qual preparavam o seu pelame. Ali, onde campeia o edifício da Tipografia Nacional, esteve o humilde hospício, em que se alojaram os Franciscanos em 1608, quando, tendo abandonado o sítio de Santa Luzia por questões com os Jesuítas, obtiveram o Monte do Carmo, hoje Santo Antônio, que fora doado aos Carmelitas por Crispim da Costa, os quais, o desprezaram (scilicet, o monte).

Como menos tolos, os filhos de São Francisco passaram a perna nos filhos do Carmelo; e é por isso que nos edifícios mais tarde construídos no referido monte verás a cada passo pintadas as armas do referido São Francisco. Ali existiu um belo cruzeiro de mármore, que o tempo ou antes o progresso destruiu.

Ao nosso lado direito, onde mais tarde foi edificada a Carioca foi cemitério de escravos, que por cristã caridade eram sepultados pelos Franciscanos. Faze o pelo sinal em memória desses pobres párias, que tendo com o suor do rosto, como se diz em linguagem bíblica, desbravado os matagais desta nossa Capital de São Sebastião (que os nossos intendentes não querem ver nem pintado) iam dormir o sono derradeiro, envolvidos em imundas esteiras, única mortalha que seus senhores lhes concediam! Felizmente, para honra do Brasil, depois de 13 de Maio tudo isso acabou.

Aqui, fica este imenso casarão de pedra chamado a Carioca, obra monumental, sem elegância, que substituiu o pequeno chafariz, construído em tempo de Aires de Saldanha, fonte que podes ver pintada nas obras de Debret ou no Ostensor Brasileiro.

Apesar de tudo, essa mole de granito não tem rachas, tendo sido feitos os seus alicerces com cal do reino; que te digam os engenheiros da Companhia, os quais tiveram de suar o topete para poder destruir o tanque de pedra, bebedouro do gado cavallar e vaccum, quando a Rua do Ouvidor era percorrida pelos carros puxados a bois. Bons tempos em que não eram conhecidos o hipnotismo, o sonambulismo, as eleições, o parlamentarismo et reliqua, e em que as balas do Parto constituíam o melhor presente que namorados mandavam às suas belas!

Lá se põe o trem em movimento.

Entremos neste corredor em forma de garganta, ocupado outrora pela ladeira por onde subiu para esconder-se Agostinho Barbalho Bezerra, fugindo àqueles que queriam por força elegê-lo governador em lugar de Salvador Correia em passeio pelas terras de São Paulo. Hoje esse toleirão seria o primeiro a votar em si mesmo, voto o mais certo e seguro, como diz um amigo nosso, que segue esse bom sistema. Aqui ao lado ficou conservada a caixa em forma de torre, como diz em suas obras o cônego Perereca, reservatório onde se juntavam as águas alimentadoras do chafariz. Não quero amolar-te sobre os célebres buracos de Santo Antônio, chegando-se a nomear uma comissão, que nunca deu sinal de si, nem informou se os tais buracos iam ao Castelo, a Villegagnon ou ao Pão de Açúcar.

Por baixo de uma ponte de madeira dá volta o bonde, e nós vamos rodando em direção às ruínas da ermida de Santa Bárbara e Santa Catarina, muito simpática ao coronel Dr. Santos, diretor da Ferro Carril, que na ilha da referida Santa Bárbara fez brilhaturas, curando de varíola ou bexiga os míseros mortais, e que por uma coincidência veio encontrar aqui em ruínas a capela da advogada das trovoadas. Isso não lhe demoveu o ânimo, nem ele tomou tal fato como mau agouro.

E a prova temo-la nós na Ferro Carril, esse dente (de cavação) que vai prender o morro de Santa Teresa, verdadeira esmeralda, na frase do Macedo, engastada no diadema da cidade.

Olhando para o lado oposto, aí tens a vasta frontaria da igreja da Penitência, em cujo teto o Driendl fez brilhaturas, restaurando o magnífico painel do artista brasileiro José de Oliveira; e a do convento de Santo Antônio, em cuja portaria lá está a lanterna, que desde 1710 se acende em louvor do Santo. A que vês é nova e, segundo diz o velho Praxedes guardião do convento, custou há dias 50$ dados por um devoto. A antiga vai ser guardada ad perpetuam rei memoriam. Aquelas janelas quantas vezes Mont’Alverne, Sampaio, Lado de Cristo não se chegaram para respirar as frescas brisas da tarde, contemplando o belo panorama da cidade!

Ali naquele paredão, junto à casa do comandante do 7º batalhão, onde existiu a portaria dos pobres, sítio em que os Franciscanos davam aos desfavorecidos da fortuna as sobras de seu refeitório, armava-se pelo Natal, como melhor te contará o Mello Moraes, um lindo presepe, só excedido pelo do cônego Filipe – no morro do Livramento – de lendária memória.

Olha; ali há um terraço, em cujo pavimento inferior estava a cafua dos frades recalcitrantes, que não tinham para quem apelar, pois nesse tempo não se havia posto em prática o recurso do habeas-corpus. Aquele lance do Convento que se salienta em direção à Rua da Guarda Velha[1] era a enfermaria dos monges, teatro da caridade mais evangélica, posta em prática por um simples leigo, durante mais de 50 anos, leigo que morreu com fama de santidade e que curava moléstias de olhos com a água de um velho moringue, quando a Oftalmologia não estava descoberta no Rio de Janeiro, nem se conhecia o Pires Ferreira, o Hilário, o Moura Brasil, o Neves da Rocha, e se curavam erisipelas com chá de picão da praia[2] e com o clássico fedegoso.

Olha; ali está, o portentoso original, que viste reproduzido pelo Victor Meirelles no seu primeiro panorama.

Aí tens a magnífica Guanabara, com todos os seus contornos, belezas e magnificências, narradas pelo general Fausto e cantadas em prosa e verso por prosadores e poetas, desde o mavioso Velho da Silva até o celebérrimo poeta Garcia, desde o grande São Carlos, na sua Assumpção, até o Maranhense.

Vamos passando pelos fundos do quartel do Corpo de Polícia, lembrando-nos de Polidoro, Caxias, Assumpção, Andrade Pinto, antigos chefes desse Batalhão. Aqui vês a capelinha de Nossa Senhora das Dores, que substitui a antiga ermida dos Barbonos, na qual se enterrou o poeta Antônio Diniz da Cruz e Silva, autor do poema Hyssope e membro da alçada que veio julgar os inconfidentes de 1789, – Cruz e Silva, tão rigoroso para esses mártires da República, tão mau para seu colega o mavioso Gonzaga, poeta e magistrado como ele!

Tira o chapéu em memória ao chanceler da Relação João Alberto Castelo Branco, que ali na horta dos Barbonos plantou os dois primeiros pés de café, por ele trazidos do Maranhão!

Coisas desta terra. João Alberto não tem o seu nome numa esquina de rua, quando ilustres desconhecidos o têm nas principais desta cidade!

Falei-te do primeiro panorama de Victor Meirelles; pois fica sabendo que esse autor da Primeira Missa no Brasil, está pintando outro, que fará grande sucesso.

Imagina tu, que saltando de um bonde ali no Largo do Terreiro da Polé, ou Rocio do Carmo, ou Largo do Paço[3], e depois de percorrer um corredor escuro da rotunda, cuja permanência tem incomodado a tanta gente, te achas sem gastar um nicolau em bote, falua ou bonde marítimo, em plena fortaleza de Villegagnon, tendo à vista a nossa soberba baía, no dia da entrada da esquadra legal.

Aí tens o Pão de Açúcar com o primitivo assento da cidade, que faz recordar o nome de Estácio de Sá. Ali a praia de Santa Cecília, ou de Martim Affonso, onde está o Hospício dos Alienados, monumento erguido por José Clemente. Lá a Glória, com sua capela toda garrida, que nos faz lembrar o Alencar no primeiro capítulo da sua Lucíola.

Eis-nos chegados ao clou da situação: a passagem do bonde por cima dos Arcos do Bobadella[4], erguidos em 1750. Não tenhas algum tremelique. Os arcos, construídos sobre o terreno de uma lagoa, destinados a ligar Santo Antônio a Santa Teresa, podem suportar perfeitamente o tráfego da Ferro Carril. Isso jurou por seu grau o Castro Barbosa e também outros engenheiros. Podes ficar tranquilo. Aí caminha o bonde mais devagar, ad cautelam, apesar dos parapeitos, que obstam qualquer desastre.

Olha acolá a casa de vivenda da grande chácara das Mangueiras, ali no começo da ladeira do Desterro, tal qual como era em 1752! Nesse ponto um frade de nome Francisco Santos à frente de duzentos paisanos, deu pancada de cego nos Franceses comandados por Duclerc, dando-lhes o pano de amostra do que lhes ia em breve acontecer: a completa derrota. Isso foi em 19 de Setembro, dia de São Januário, que pela folhinha do tempo era feriado dentro dos muros da cidade, os quais se estendiam do morro da Conceição até o do Castelo, seguindo a direção da antiga Rua Pedro da Costa, depois da Vala, e hoje da Uruguaiana.

Arcos da Lapa visto de Santa Teresa

Fica para outra vez o contar-te quanto custou essa obra do aqueduto. Eras capaz de dormir quando eu te citasse os alvarás, cartas régias e portarias dirigidas aos governadores desta cidade, desde Tomé Corrêa de Alvarenga até ao nosso Gomes Freire de Andrada, cujo retrato está colocado na sala do Conselho Municipal, tendo o Bobadella na mão uma coisa que parece um óculo ou um protocolo enrolado.

Aqui nos fica à esquerda o convento de Santa Teresa, no lugar da ermida fundada em 1628 por Antônio Gomes do Desterro, onde esteve sepultado o supracitado Bobadella, protetor da Madre Jacinta, cujas miraculosas façanhas tão bem descritas foram por Balthazar Lisboa, e cujo nome (da Madre Jacinta) se liga à capelinha do Menino Deus, situada na antiga chácara da Bica, ou Mata-Cavalos, hoje em ruínas, apesar de uma subscrição, que se liga à questão do Cristo no Júri.

Vê aqui os fundos do Hospital do Carmo, com seus magníficos jardins e a sua monumental caixa d’água.

Olha ali o vale, onde vês as ruas do Resende, Lavradio, Riachuelo, Silva Manuel[5], Senado, etc.

Vê os bondes que parecem carrinhos de crianças. Vê o povo embasbacado, de ante deste bonde que nos leva sem ser puxado por burros.

Dois Irmãos no Morro de Santa Teresa de P. G. Bertichem. Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856.

Não verás os clássicos Dois Irmãos[6]… Foram destruídos pelas conveniências do traçado da linha.

Deves estar caceteado com tanta bacharelice.

Não te importunarei mais. Contempla em silencio e a vontade todas essas paisagens que se desenrolam a teus olhos.

Medita sobre tudo isso, e dize-me se pode na terra haver coisa igual, como dizia o Jacques Arago, autor da Gargalhada, peça na qual se imortalizou o nosso João Caetano!

O resto conversarei em casa. Chega o jornal, e este anuncia aos seus leitores que tudo isso custa a módica quantia de mil réis (ida e volta) amanhã será um Deus nos acuda no Largo da Carioca, em frente da casa, onde se toma leite de Minas. Conta tudo isso, e a Companhia Ferro Carril se tornará em breve um colosso.

Olha, que ir a Santa Teresa em vinte minutos, quando no tempo das adagas de gancho se gastava um dia, e isto por dez tostões, já é uma pechincha!

1 de Setembro de 1896.

Notas do Editor

  1. Rua Treze de Maio. Fonte: Restier Gonçalves – Extratos de Manuscritos sobre Aforamentos.
  2. Bidens Pilosa, Lineu; conhecida como picão da praia, picão preto e fel da terra – toda a planta – chá (ingestão ou banho): hepatite, icterícia, febres , corrimento vaginal, azia, crise renal, inchações. Fonte:INEPAC – Medicina Popular
  3. Atual Praça XV de Novembro.
  4. Atual Arcos da Lapa.
  5. Atual Rua André Cavalcanti. Fonte: Restier Gonçalves – Extratos de Manuscritos sobre Aforamentos.
  6. Duas pirâmides quadrangulares, em cujo interior instalaram os registros das águas do aqueduto da Carioca. Fonte: Magalhães Corrêa – Terra Carioca, Fontes e Chafarizes.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

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Mapa

O arquivo GPX (GPS eXchange Format) gerado encontra-se no GitLab em pcrj_bonde_santa_teresa_rio.gpx. Veja também Dados do Rio.

Fonte: Portal de Dados Geográficos Abertos da Cidade do Rio de Janeiro

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