São Domingos (I)

Aí vão os subsídios, que me foram pedidos pelo infatigável Sr. Dr. Araújo Vianna, a respeito da velha igreja de São Domingos.

Possam eles, unidos às criteriosas palavras do douto professor, arredar o caiporismo que pesa sobre esse santuário dos tempos coloniais, e dele afastar a picareta demolidora.

Em um dos altares da igreja matriz de São Sebastião (no morro do Castelo), colocaram em meados do século XVII os crioulos da cidade a imagem do patriarca São Domingos, prestando-lhe sempre muita devoção.

Ali por muito tempo consagraram a seu padroeiro as mais ardentes provas de respeito e veneração.

Instituído o Cabido, surgiram dúvidas e contestações entre os capitulares e as diversas confrarias constituídas principalmente pelos homens de cor.

Igreja de São Domingos, por Augusto Malta, via Biblioteca Nacional

Resolvidas as irmandades de São Benedito e do Rosário a sacudir o jugo que lhes parecia por demais pesado, resolveram retirar-se da Sé e fundar capela própria na várzea ou campo da cidade[1]. Obtida de D. Francisca Pontes grande área de terreno, lançaram em princípios do século XVIII os alicerces de um templo na rua então de Pedro da Costa, hoje de Uruguaiana e antes da Vala.

Desejavam seguir-lhes o exemplo os devotos de São Domingos, mas não dispondo de meios resolveram pedir à Câmara certa porção de terras com o intuito de nelas erigir um templo consagrado ao patriarca fundador da Ordem dos Dominicanos.

Satisfeitas tão louváveis pretensões, obtiveram do Conselho a competente autorização representada pelo seguinte documento:

“Carta de aforamento aos irmãos do Padroeiro São Domingos de vinte braças de chãos com vinte e seis de fundo de rua a rua e fazem testada pela Rua dos Escrivães, os quais chãos se lhes deram de esmola, sem foro, para fazerem a sua igreja.
O Juiz, Vereadores, Procurador do Senado, da Câmara que servimos este presente ano na forma da Lei, etc. Fazemos saber aos que a presente nossa carta de aforamento virem que por parte dos Irmãos do Padroeiro São Domingos, que fazendo a este Senado uma Petição para lhes dar de esmola uns chãos que ficam adiante do Cemitério do Rocio desta Cidade, para efeito de poderem fundar uma Igreja do dito Senhor São Domingos e sendo referido por vossas Mercês que o escrivão deste Senado da Câmara fosse fazer a vistoria com um oficial do Senado; e por quanto está feita a diligência pelo dito Sr. Vereador mais velho e Escrivão do dito Senado, os quais mandaram ao arruador lhes medissem vinte braças de testada, com vinte e seis de fundo de rua a rua, de que meteram já suas balizas e para poderem começar a obra da dita Igreja: — Pedem a Vossas Mercês lhe façam mercê mandarem ao Escrivão deste Senado lhe passar sua carta de aforamento sem foro, visto lhe fazerem esta esmola — E receberão Mercê — a qual petição sendo apresentada e por nós vista mandamos por nosso despacho o seguinte: Passe carta de aforamento sem foro na forma do estilo, visto ser para obra pia — Rio em Câmara — 20 de novembro de 1706 — Leitão — Abreu. Segundo se continha no dito nosso despacho em virtude do qual lhe mandamos passar a presente nossa carta aos ditos foreiros sem foro algum, para a dita obra da Igreja de São Domingos, que não poderão vender, alhear nem por algum outro modo traspassar os ditos chãos sem o consentimento deste Senado e querendo o fazer, farão Petição dizendo nela que eles o querem vender a Fulano, por tal preço e com as condições originárias que para isso lhes deem licença conveniente e com outorga que no caso que se der, então se poderão passar ao novo pertençam, contanto que recebam eles nova carta deste Senado para efeito de sempre reconhecer a pessoa a quem o foro se há de pedir, com condição de que os ditos chãos não serão partidos, nem divididos, entre os herdeiros deles foreiros e quando não tenha efeito a dita Igreja de São Domingos, tornarão para este Senado os ditos chãos por esmola, de que lhe mandamos passar a presente por nós assinada de que se darão aos Interessados traslados necessários, com esta concertados e selados com o selo deste Senado — Rio, 21 de novembro de 1706 — E eu Antônio Vaz Gago o escrevi.”

Dessa carta de aforamento, a qual só foi confirmada pelo Governo da Metrópole em 17 de junho de 1791, existe outro traslado no segundo volume do Arquivo Municipal, pág. 517.

Em todo caso é documento importante para nossa história territorial, e aqui fica arquivado, podendo servir para o futuro a quem pretenda escrever as memórias da Avenida Passos.

Escassos são os dados fornecidos pelos nossos antigos historiógrafos sobre o passado da igreja, assunto destes apontamentos: pouco ou quase nada sobre ela diz o padre Luiz Gonçalves dos Santos, que se limita a considerá-la capela decente. Monsenhor Pizarro, quando trata de descrever os santuários filiais da paróquia da Sé, confessa até desconhecer a origem da igreja de São Domingos!

Moreira Pinto, em artigo (Apóstolo de 27 de maio de 1900) pouco adianta. Cita a carta de aforamento, a elevação da Irmandade a Ordem Terceira pelo breve de 30 de setembro de 1831 autorizado com o beneplácito imperial de 10 de maio ele 1832.

Passando à descrição do templo, disse: “é uma igreja pequena e sem arquitetura. Tem o pórtico, duas janelas no coro, um frontão reto, um óculo no tímpano e uma torre do lado direito. Tem três altares: o de São Domingos, o de Nossa Senhora da Conceição e o de Nossa Senhora das Dores. Na sacristia há um só altar, que é o da Senhora Santa Anna. Está esta igreja com as obras de sua reparação paralisadas há muito tempo”.

O aliás minucioso em outros pontos Moreira de Azevedo descreve em poucas linhas a arquitetura do templo, dá informações sobre a carta de aforamento e apenas refere o seguinte: “em 1854 tentou a Ordem, que é composta de pretos, erguer um novo templo, mas sobrepostas as primeiras pedras do alicerce ficou a obra interrompida até hoje”.

Eis as textuais palavras do finado Dr. Mello Moraes:

“A igreja de São Domingos da cidade do Rio de Janeiro é muito antiga, e o que se sabe é que a Irmandade tinha a imagem primitiva do patriarca São Domingos, na igreja de São Sebastião do Castelo e dali passou a nova casa, que seus devotos lhe construíram no Campo e subúrbio da cidade, cujo campo pela presença da igreja ficou conhecido pela denominação de São Domingos”.
Esta igreja possuía o patrimônio de 13 ou 14 propriedades, MAS HOJE nada mais possui, porque as diferentes administrações COMERAM-LHE o patrimônio!

Não sei em que provas se baseou o provecto historiador para sustentar tão absoluta opinião, principalmente quando nesse tempo estava o Estado unido à Igreja, e havia o juiz da Provedoria encarregado de fiscalizar a vida das corporações religiosas e examinar as contas dos sodalícios e ter presente o estado dos bens patrimoniais considerados então bens de mão morta.

Os boateiros e amantes de mexericos explicam a decadência da Ordem de São Domingos como castigo. Esse fato é, até certo ponto, confirmado por documentos existentes no arquivo da Ordem Terceira da Conceição da Rua General Câmara.

Eis o caso: desde o ano de 1797 reuniram-se em São Domingos alguns devotos tendo como padroeira a Senhora da Conceição.

Vendo a Irmandade do Patriarca o progresso desse núcleo de devotos, entrou a suscitar embaraços aos mesmos, exigindo a contribuição anual de uma arroba de cera, impedindo a celebração do culto e querendo até apoderar-se de várias joias que para ornato da Senhora haviam sido adquiridas com as esmolas dos fiéis, no que foi impedida pelo bispo.

Mais longe foi o irregular procedimento da gente de São Domingos: no dia 8 de dezembro de 1812, em que a devoção festejava a padroeira, além de desornar o altar da sacristia, fechou a porta da escada que conduz ao púlpito, obrigando o orador sagrado a fazer sua oração em outro lugar que não o próprio para tal fim.

Essas tricas podem ser melhor apreciadas com a leitura do relatório da Venerável Ordem Terceira da Imaculada Conceição, apresentado pelo ministro Bento de Araújo Sampaio na sessão de posse de 25 de maio de 1903.

Caiporismo ou castigo é fato provado: saindo de São Domingos os devotos da Conceição aboletaram na capela fundada pelo cônego Antônio Lopes Xavier (Rua General Câmara), e constituídos a princípio em Irmandade e depois em Ordem Terceira têm sempre progredido, como é de todos conhecido.

Enquanto se passavam esses acontecimentos entrava em plena decadência a capela fundada pelos crioulos em 1706, chegando hoje ao ponto de estar ameaçada de imediata demolição, atento o estado de ruínas, em que se acha.

Só grande esforço de zelo dos atuais administradores, poderá, reunindo cabedal necessário, obstar o desaparecimento do vetusto santuário, reedificando-o.

São Domingos não deixará ficar mal seus filhos arrependidos e terá força para por eles interceder junto de quem pode tudo, o qual, enfim, não é tão mau como se pinta.

(20 de junho de 1904.)

Nota do editor

  1. Chamava-se Campo da Cidade toda a vasta superfície compreendida entre o antigo fosso (Rua da Vala) e os mangues de São Diogo (hoje Cidade Nova). Ainda em 1711 toda esta imensa área era assim designada nas memórias que relatam a tomada da Cidade pelos franceses, apesar de se achar já por esse tempo retalhada e edificada em muitos lugares por diferentes chácaras. (Haddock Lobo, Tombo das Terras Municipais, pág. 10, 1863)

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Largo de São Domingos no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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