São Domingos (II)

A sentença de demolição, que como espada de Dâmocles pesa sobre a igrejinha de São Domingos, saiba ainda o ilustrado Dr. Araújo Vianna, é o último anel de uma longa cadeia de infelicidades, algumas das quais já referi.

Construída a capela, dominou esta como senhora absoluta da várzea da cidade além da vala, constituída por alagadiços, restingas e mangues. Como é sabido, o vasto campo da cidade antiga, sertão cortado pelo caminho de Capuerussú, recebeu por isso o nome do santo patriarca.

Igreja de São Domingos, por Augusto Malta, via Biblioteca Nacional

A pouco e pouco, graças ao progresso material do Rio de Janeiro, foi essa vasta superfície perdendo a antiga denominação devida às igrejas do Rosário, Santa Anna e Lampadosa. Novos quarteirões foram paulatinamente sendo construídos: de sorte que, do antigo Campo de São Domingos, já em 1808 como esse nome só existia a pequena praça que chegou até nossos dias e cujos lados foram demolidos para construção da bela Avenida Passos, a qual em breve será um dos pontos mais apreciados desta boa Sebastianópolis.

No tempo do rei tinha o largo apenas seis prédios em toda a quadra, e em frente existia um cemitério, mandado inutilizar em 1820, o que foi uma nova fonte de infortúnios para o santo pelos desmandos a que deu lugar, como a seu tempo mostrarei.

Logo em princípio, teve São Domingos, ou antes, tiveram seus devotos questões com o célebre Antônio Vieira, conhecido por antonomásia pouco odorífica. Essas tricas com vizinhos confrontantes continuaram com os herdeiros de Vieira e seus sucessores: Manuel Casado Viana, dono da grande chácara, através da qual foram abertas as ruas General Câmara, São Pedro, Larga de São Joaquim, seu irmão o coronel Francisco Gonçalves da Rocha e o sobrinho João Luiz Telles, os quais têm seus nomes mencionados em diversos documentos que se prendem à igrejinha de que vou tratando (a propósito de limites de terrenos), principalmente quando os sucessores de Casado brigavam entre si, sustentando questões, que duraram até 1818.

Quando o cônego Xavier ainda não era possuidor de terras na quadra da Rua da Conceição até São Domingos e tudo era ainda aí campo aberto, das janelas da capelinha do nosso santo via-se a forca na hoje Praça General Osório, permanentemente armada para escarmento dos ladrões e assassinos. Por esse motivo o instrumento da alta justiça deu nome à Rua São Pedro, no trecho compreendido hoje entre as duas praças.

Para cúmulo de caiporismo, até o nome de São Domingos figura como Pilatos no Credo, na sentença proferida pela alçada, e em virtude da qual subiu ao cadafalso o infeliz Tiradentes. Está hoje patente que esse lúgubre acontecimento teve lugar distante da igreja de São Domingos, completamente separado por quarteirões de diversas ruas. E houve até quem sustentasse que foi a terra do hoje largo de São Domingos que bebeu o sangue do mártir, sem se lembrar de que, em 1792, a praça tinha as mesmas dimensões pouco mais ou menos que as de hoje, e não se podia prestar à formatura de tropas, etc. Até nisso foi infeliz São Domingos tendo sido dado como testemunha de sua tragédia, que não podia presenciar.

Por ali, é verdade, transitaram outros mártires – os da escravidão – levados como animais ferozes para os armazéns do Valongo, quando o marquês de Lavradio proibiu depósitos de carne humana, no interior da cidade.

Cumpre não esquecer: em tempos não mui remotos pretendeu a Câmara dar aspecto decente ao pequeno largo, mandando colocar ali frades de pedra ligados por correntes de ferro.

Pois bem; em poucos anos estavam as correntes arrebentadas e os frades deitados por terra. Ultimamente foi construída nessa mesma praça uma fonte de ferro, que ainda existe; mas, segundo é fama, o chafariz de São Domingos nunca deu uma gota d’água!

Para se ter explicação de como foi aos poucos desaparecendo o patrimônio do patriarca São Domingos, basta recorrer aos livros da Candelária ou melhor ao trabalho do Dr. Marques Pinheiro. Para dar a origem dos prédios da Rua de São Pedro nº. 193, 203 e 205, com os terrenos adjacentes, pertencentes à Repartição da Caridade, diz mais ou menos o erudito escrito: foram adquiridos, em 1788, por adjudicação – na execução promovida à Irmandade de São Domingos. Esta questão vinha de 1755.

Por mandado do Dr. Manuel Monteiro de Vasconcellos, de 1º de outubro daquele ano, foi ordenada a penhora dos bens da referida Irmandade, para pagamento da quantia de 404$305 de capital e custas, devidos à Caridade. Nesse mesmo dia se fez a penhora, indo o escrivão e meirinho geral ao Campo de São Domingos ao pé da igreja, e, sendo aí o dito meirinho fez penhora em doze moradinhas de casas térreas: duas à ilharga do templo e seis ditas nos fundos destas, que fazem frente para à rua que vai para a forca (São Pedro) e quatro na outra ilharga, no canto da banda de fora da parte da mão direita, cujas casas já se achavam hipotecadas, por uma escritura para pagamento da execução.

Não prosseguiu esta, até que a 14 de janeiro de 1788 foi a requerimento da Candelária, expedido novo mandado, por ordem do ouvidor geral e corregedor, o Dr. Francisco Luiz Álvares da Rocha. As casinhas que estavam em 1655 à ilharga da igreja haviam desabado e só podiam ser aproveitados os chãos. Do lado da Rua de São Pedro havia ainda duas casas térreas alugadas por cinco patacas por mês, e os inquilinos estavam em atraso, um de dois meses e outro de três.

A Candelária, afinal, em 28 de julho de 1788 deu quitação de 518$400 e tomou posse judicial desses terrenos, onde foram pouco depois construídos novos prédios em 1795, 1801 e 1809, os quais pertencem ainda hoje à Repartição da Caridade da Candelária. Que esta fez uma pechincha, não há negar.

Que a Irmandade, apesar das cláusulas expressas de sesmaria de 1706, não se portou sempre com lisura em relação à Câmara temos a prova no Arquivo Municipal (vol. 20), no qual está transcrito o traslado da referida concessão com umas notas do escrivão da Câmara Philippe Cordovil de Siqueira e Mello. Por elas se vê que a confraria vendeu e transferiu terrenos sem consentimento do Senado. Provas mais evidentes devem existir na Repartição do Tombamento Municipal, e, os curiosos que desejarem informações a respeito não têm mais que recorrer ao amável Raul Cardoso, que sabe de cor e salteado todas essas questões de aforamentos, de laudêmios, remissões, et reliqua.

Outra contenda muito curiosa e da qual saiu São Domingos perdendo é a que versa sobre terras aforadas a João Monteiro Celi, demanda continuada pelo herdeiro e sucessor de Monteiro – Hilário Antônio Junior. O primeiro havia obtido da Câmara por aforamento (30 de novembro de 1787) doze braças de terras entre as ruas de São Pedro e Senhor Bom Jesus, no largo de São Domingos, até à cordeação da rua que vai para o Valongo, e cinco braças para o Campo pela Rua do Bom Jesus, com fundos para o adro de São Domingos. Essa carta de aforamento foi devidamente confirmada pelo Governo da Metrópole. Ora, em parte desses terrenos esteve o antigo cemitério da cidade, e dele se aproveitou pouco a pouco a gente de São Domingos para fazer, em frente da igreja, campo santo para enterrar seus irmãos, excedendo os limites da sesmaria de 1706.

A Irmandade, receando ficar privada do lucro, que tirava de dar sepultura no cemitério também aos escravos, prejudicando a Santa Casa, deliberou pedir a nulidade do aforamento concedido a Celi, e que recebera a aprovação régia. Deu-se princípio à grande demanda cujos autos encontrei no Arquivo Nacional. Lida a grande papelada e na impossibilidade de fazer dele extrato, pedi ao meu prestimoso amigo e digno funcionário daquela repartição, o operoso Sr. Eduardo Peixoto, me fizesse um resumo daquele in folio, em que há letras de todos os caracteres. Com a gentileza que lhe é própria, o Sr. Peixoto enviou-me em algumas tiras de papel o transunto dessa questão, que pode interessar a quem tiver de escrever o histórico da Avenida Passos.

Foi advogado da Irmandade José de Olivero Fagundes, o mesmo que defendeu o Tiradentes e seus companheiros, e pela parte contrária Manuel Ignácio da Silva Alvarenga, conhecido poeta, que no tempo do conde de Resende fora preso e perseguido como jacobino por formar com outros literatos do tempo, uma sociedade literária, denunciada ao conde de Resende por certo rábula, fuão Frade, como clube revolucionário.

Seria enfadonho dar aqui, ainda que em resumo, todas as minúcias do processo, as razões apresentadas pelas partes contendoras, autos de vistoria e medição, depoimentos das testemunhas e as razões finais dos advogados. Sempre caipora, São Domingos perdeu a causa e teve as propriedades de seu patrimônio penhoradas para pagamento de custas, etc.

Não se conformando com tanta infelicidade, a Mesa de São Domingos enviou ao príncipe regente circunstanciada representação. Da Metrópole, por provisão de 3 de setembro de 1807, ordenava o Governo pôr em silêncio perpétuo na causa pendente devassar o terreno e assinar auto pela Câmara para cemitério com intervenção de Diocesano.

Apesar, porém, dessa ordem, o cemitério de São Domingos continuou a funcionar dentro dos limites da concessão de 1706 e só foi extinto em 1820.

A vista do exposto, fica o ilustrado Dr. Araújo Vianna sabendo que, de longa data, pesa a FATALIDADE sobre o nosso São Domingos.

Diz a canção popular:

“Os paus da floresta
Têm sua destinação;
Uns servem p’ra fazer santos,
Outros p’ra fazer carvão.”

O patriarca espanhol fez, pelo menos, entre nós, exceção à regra: foi sempre um santo DESINFELIZ, como disse uma velha, ardente devota dele, muito minha conhecida.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Largo de São Domingos no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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