São Joaquim

É para mim sempre de gratas e saudosas recordações esta semana, que vai passando.

No domingo seguinte ao dia da Glória, o rapazio do Internato do Colégio de Pedro II, então na Rua de São Francisco Xavier, festejava, na data consagrada pela igreja, o avô de Cristo, o patriarca São Joaquim, antigo padroeiro do Seminário, que, em 1837, mudou de nome.

Realizava-se na véspera grande baile, em que reinavam a maior alegria e entusiasmo. Tal era a concorrência, que os convites andavam por empenho e eram disputados, como são hoje os das reuniões dadas pelos próceres da atualidade.

Para matar saudades, passei há dias por aqueles sítios, chamados da Segunda Feira. Tudo está mudado. Da rua já se não veem as copadas mangueiras, a cuja sombra, em horas de recreio, brincávamos a valer. Belos prédios encheram o espaço entre o muro e o palacete do Mattos, onde funciona o Gymnasio Americano Brasileiro. Foi demolida a venda do Pechincha, a qual, naqueles templos, conservava o aspecto de passadas eras, em que os Jesuítas foram donos de extensa área.

Lembrei-me da imagem de São Joaquim, ante cujo altar rezávamos de manhã e à noite. Foi sempre santo de minha especial devoção.

Quantas vezes com ele me peguei para não ser chamado nas rigorosas sabatinas de grego! Uma nota má era um verdadeiro desastre. Nunca se me apagou da memória a efigie paternal e carinhosa do velho pai de Nossa Senhora: calvo, barbas brancas e em posição contemplativa, tendo à mão lindo cajado de prata.

Também, coitado, andou sempre em constante peregrinação. Por vezes, como desterrado, teve de abandonar seu habitat. Hoje, porém, encontrou casa nova e deve ficar sossegado.

Tanto se tem escrito sobre o nosso Seminário de São Joaquim e igreja contígua, demolida por exigências da Estética da cidade, que me dispenso de tratar da matéria.

Se aqui passou quase despercebido o dia 21 do corrente, o mesmo não aconteceu na Bahia, onde os mesmos órfãos festejaram, como sempre, seu padroeiro nessa instituição de caridade, verdadeiro monumento erguido pela perseverança de um pobre homem, que se chamou Joaquim Francisco do Livramento ou o irmão Joaquim. Refiro-me à Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim.

Colégio Pedro II e Igreja de São Joaquim de P. G. Bertichem. Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg, Rio de Janeiro, 1856.

Há tantas afinidades na criação deste asilo e os primórdios do Colégio Pedro II, que referi-los não é demais. Não pretendo tratar aqui da vida do infatigável irmão Joaquim, Vicente de Paulo brasileiro, virtuoso filho de Santa Catarina, o qual inscreveu seu nome entre os dos maiores beneméritos da Humanidade. Miseravelmente vestido, pedia e pedia sempre esmolas, não para si, mas para estabelecimentos que fundava.

Gozou da amizade e consideração dos grandes da terra, os quais o veneravam como a um santo. Conquistou eternamente a gratidão dos infelizes, a quem nunca deixou de amparar, curar, aliviar e consolar.

Não sei por que varão de tão exemplares virtudes não teve ainda nem ao menos as honras da beatificação. Sim, foi um verdadeiro santo. Tem altares nos corações daqueles que souberam continuar, após mais de um século, a obra do pobre Joaquim, morto longe da pátria, sem que se saiba onde paira a sua ossada!

O que se segue é pálido resumo do que leio nos relatórios do conselheiro Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque, do Dr. Joaquim dos Reis Magalhães e na Notícia Histórica do conselheiro João Nepomuceno Torres, os dois primeiros provedores, e o terceiro escrivão dessa importante casa, que faz honra à cidade, fundada por Thomé de Souza. Modificados os seus primitivos moldes, é o Colégio dos Órfãos de São Joaquim um estabelecimento moderno. Os filhos de Joaquim do Livramento recebem o cultivo do espírito de par com os exercícios de vários ofícios mecânicos. Saem preparados para as lutas da vida e perfeitos artistas, podendo resistir às inclemências da sorte.

Quem vive de seu braço não pode morrer de fome. Há no asilo uma boa banda de música, solicitada sempre para as festas da Religião e da Pátria. Os mesmos têm uma tipografia e redigem um jornal – O Incentivo.

Em fins do século 18º, veio à Bahia o Irmão Joaquim.

Confrangeu-se-lhe o coração, vendo o desamparo dos meninos órfãos, inteiramente ociosos, vagando pelas ruas sem sujeição e educação, dormindo pelas portas dos templos e adros dos conventos. Era uma miséria, a que se devia de pronto atender. Em 27 de Maio de 1798, impetrou de D. Maria I, o evangélico Brasileiro licença para pedir esmolas e com auxílio das boas almas, manter pequeno asilo.

Foi plenamente atendido, por aviso de 4 de Janeiro de 1799.

Lançada a boa semente, fundou-se o asilo. Por aviso de 17 de Outubro de 1803 tudo aprovou o príncipe regente. Fez mais: ordenou ao governador Francisco da Cunha Meneses entregasse ao irmão Joaquim a capela de São José de Riba-Mar, o que se realizou em 10 de Dezembro de 1805, sendo recolhidos cerca de 40 órfãos, que o bom Joaquim já tinha sob sua proteção.

Mais tarde foram-lhe também concedidos pequenos prédios contíguos à referida capela. Tudo reverteria à Coroa, no caso da extinção do asilo.

Peregrinando sempre por amor do próximo, o irmão Joaquim retirou-se da Bahia. O asilo ficou entregue à generosidade e carinho dos filhos da cidade do Salvador. Pela carta régia de 29 de Outubro de 1808, ficou cometida a inspeção e a administração do Colégio dos Órfãos ao Arcebispado da Bahia.

Por isso ganhou o estabelecimento o nome de Seminário de São Joaquim. Essa carta régia, porém, foi revogada pelo aviso de 31 de Julho de 1818.

Por ele, o rei D. João VI encarregou ao conde da Palma, governador da Bahia, e a seus sucessores o cuidado de inspecionarem e administrarem e “promoverem tudo quanto fosse concernente e proveitoso ao destino de uma Instituição pia e tão útil ao Estado”.

Este alvitre fora motivado pela atitude patriótica dos negociantes da Bahia.

Haviam promovido grande subscrição para festejarem a coroação de D. João VI.

Apareceu a boa ideia de se tirar da quantia agenciada o quanto apenas bastasse para um Te-Deum. Destinaram a soma restante para reedificação da casa. Consignaram os comerciantes um fundo de quarenta contos para patrimônio dos órfãos.

Sempre incansável, o conde da Palma dirigiu ao rei petição, na qual dizia, que para se aproveitar tão generoso donativo, era preciso que o Asilo fosse transferido para a antiga casa do Noviciado, que pertencera aos Jesuítas, situada na praia da Jiquitaia.

O Noviciado fora construído por Domingos Affonso Sertão. Gastara na edificação 28 contos. Legou o prédio aos Jesuítas. Pela expulsão destes, em 1759, passou o imóvel a fazer parte dos próprios da Coroa. Foi deferido o requerimento do governador. Este, na qualidade de provedor, fez abrir nova subscrição, destinada à reconstrução do Noviciado, na qual se despenderam cerca de 80 contos, além de importantes ofertas de materiais feitos por pessoas abastadas.

Em 12 de Outubro de 1825, passaram-se os órfãos para sua nova residência. Foi pomposa a solenidade. Os meninos foram recebidos pelo presidente da Província. Houve Te-Deum, entoado pelo vigário capitular. Pregou o padre João Quirino Gomes. Em 1859, foi o Colégio de São Joaquim visitado pelo imperador D. Pedro II.

O estabelecimento está sob a proteção do governo do Estado da Bahia, de quem depende a aprovação dos eleitos, em conformidade dos estatutos aprovados pela carta imperial de 30 de abril de 1828 e modificados por ato do governo da Província, em 5 de Maio de 1863.

A administração é composta de 13 pessoas ou vogais, eleitos por três anos. A direção interna é confiada a um reitor (pode ser sacerdote ou secular).

As mesas tomam posse no mês de Agosto, depois da festividade a São Joaquim.

Têm exercido o cargo de provedor os homens mais eminentes da Bahia. De 1894 a 1903 ocupou a cadeira da Provedoria o conselheiro Salvador Pires de Carvalho e Albuquerque. Por ocasião da festa do 102º aniversário da fundação do Colégio, disse o ilustre magistrado: “Animado do ardente desejo de manter a Instituição no nível dos modestos intuitos da sua fundação, mas quanto possível de acordo com a civilização hodierna, ou ante no propósito firme de conservar aperfeiçoando o seu primitivo molde, a Mesa atual empreendeu a faina em que se acha empenhada com tenaz esforço, do qual tem fé inabalável em Deus, não recuará uma linha até o momento de passar a administração e direção da Casa a obreiros mais possantes, ou a mais hábeis timoneiros.”

E conseguiu por maneira brilhante. Esta tenacidade e perseverança em contribuir para o engrandecimento da obra do irmão Joaquim Coimbra a atitude de José Clemente Pereira, ao empunhar a vara de provedor da nossa Santa Casa da Misericórdia.

A Higiene, boa alimentação dos órfãos mereceram-lhe especiais cuidados. Foram criadas novas oficinas. Cortou despesas inúteis. Aumentou a receita. Atendeu à reconstrução dos prédios. Aumentou a renda do patrimônio. Conseguiu enfim o equilíbrio orçamentário. O benemérito descendente de uma das mais notáveis famílias da Bahia teve digníssimo sucessor de 1903 a 1906, no conselheiro Dr. Joaquim dos Reis Magalhães, que tem sido reeleito até hoje.

Durante tal estadia, a Casa Pia e Colégio dos Órfãos de São Joaquim vai sempre a caminho de constante progresso. É uma das mais belas e simpáticas agremiações brasileiras de caridade.

E dizer-se que foi ela de iniciativa particular de um homem “que nasceu rico, viveu mendigando e expirou na miséria”!

Ele e seus fiéis continuadores nunca serão esquecidos. Peregrinos da beneficência, mourejaram em proveito do próximo. Tiveram alma para amar os fracos e desprotegidos e coração para participarem das magnas, dores, aflições e lágrimas das crianças abandonadas.

Domingo, 25 de Agosto de 1910.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Imagem da Igreja de São Joaquim e da antiga sede do Externato de Pedro II, do livro Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro, de Joaquim Manoel de Macedo, publicado na década de 1860, via Arquivo Nacional.

Mapa