São Roque

I

Muito agastado com o povo desta nossa capital deve estar o santo advogado contra a peste. O dia 16 de agosto, consagrado pela Igreja ao antigo e milagroso padroeiro da esmeraldina Paquetá, passou este ano quase despercebido dos cariocas. Se não fossem o zelo e solicitude do bom e digno vigário, o padre Juvenal Madeira, auxiliado pelos velhos devotos da ilha, São Roque não teria nem novenas, nem missa cantada.

Até a chuva impertinente afastou da proverbial romaria os poucos que se lembravam da festa. A maioria, porém, apesar da inclemência do tempo, olhos voltados para a Exposição, deixou no esquecimento o santo, de cujo patrocínio muito havemos mister, agora que a varíola vai atirando ao túmulo tantas e tantas vítimas!

Até os santos sofrem os caprichos do tempo e das modas! E São Roque, neste 1908 dernier cri, bem pudera, em solilóquio, repetir os versos da modinha cantada pelos trovadores da ilha:

– Quando as glórias que eu gozei
Vou na mente revolvendo.

Em verdade, não vai longe o tempo, em que o grande santo gozava de verdadeira popularidade nos meses, que decorrem de agosto a dezembro.

Quase sempre era escolhido um domingo destes meses, quando se previa que o tempo fosse mais conveniente, para a enorme concorrência de fiéis, que da cidade e das redondezas da faceira Guanabara deviam vir à ilha por D. João VI denominada dos Amores.

Na grande massa dos devotos destacavam-se navegantes, pescadores e homens do mar.

Deles era São Roque também o supremo recurso, como atestavam sugestivas placas de madeira penduradas do teto ao chão, nas paredes da sacristia da velha capela ora demolida. Continham tais placas a história e os nomes dos náufragos salvos pela poderosa intervenção de São Roque.

As chamadas promessas de cera eram tantas todos os anos, que de vez em quando se tornava preciso mandar converter as mais velhas em tochas e velas para o serviço religioso do Santo.

Era isto necessário para dar lugar e acomodar novos testemunhos de graças e milagres alcançados.

Na véspera da festa, as praias de Paquetá ficavam coalhadas de faluas e barcos da roça, embandeirados e garridamente engalanados de flores e folhagens. Conduziam famílias vindas de longe. Cozinhavam e dormiam a bordo, aguardando o alvorecer do grande dia. Neste, às 3 horas da tarde, chegavam de Petrópolis, Magé, Niterói e da cidade os devotos em numerosas caravanas. E na Enseada da Freguesia podiam ser contados 14 a 16 vapores. Não seria isto para admirar hoje. Tal quantidade de embarcações, há 20 ou 25 anos atrás, era verdadeiro acontecimento.

Havia cavalhadas, fados, argolinha e cavalinhos de pau. Terminava a festança com o tradicional leilão de prendas e o fogo de artifício, queimado às 10h da noite.

Começava, então, o movimento da retirada, e de terra e do mar ouviam-se as aclamações do povo, dando vivas – a São Roque para o ano. E tudo acabava em alegrias e santa paz, sem desordens nem facadas.

Fez exceção à regra o ano, em que se deu o sinistro, do qual foi vítima o Dr. Sabino Frougeth.

Este distinto cavalheiro fora visto no meio de amigos visitar contente a Ermida de São Roque. Na volta e ao entrar na barca, tropeçou em um balde e caiu no mar. Apesar de todas as providências, só foi encontrado o corpo dias depois, já meio devorado pelos peixes!

Como tudo muda! Este ano nem a Cantareira pôs barcas extraordinárias no dia da Festa de São Roque. Também para quê? Se não havia concorrência, e seria certo o prejuízo. Bem o compreendeu o benemérito Visconde de Moraes (somente o conheço de retrato e pela fama de seu espírito igual ao de Frontin, Mauá e José Clemente). S. Exa., perfeito conhecedor das coisas e dos homens, viu que São Roque seria este ano posto à margem.

Nem se pense que nas romarias antigas figurasse somente gente de pouco mais ou menos. O próprio D. João VI lá foi algumas vezes, e em uma delas pagou promessa pelo curativo de uma úlcera, que muito o molestava. Esta havia resistido à ciência dos médicos, cirurgiões e licenciados do tempo, não somente cá da terra como de fora. Dera causa à queixa um carrapato imprudentemente arrancado pelo príncipe. Ainda há dias, o ilustrado Dr. Pereira da Silva, aludindo a esse fato, asseverou que D. João ficara livre da úlcera graças à intervenção de um curandeiro de nomeada. Não sei por que o meu amigo aceitou esta versão, ele tão devoto de São Cristóvão. Por que atribuir à obra humana – milagre que o filho de Dona Maria I obteve por intermédio de São Roque? Pelo menos, é esta a tradição conservada entre os antigos habitantes de Paquetá.

Hospedava-se D. João na grande casa pertencente ao oficial de milícias, Francisco Gonçalves da Fonseca (negociava para Angola), o qual, por esta honra foi promovido a brigadeiro. O prédio ainda existe, colocado no meio de grande chácara e sito na Rua dos Muros. Em tempos posteriores, se me não falha a memória, deste solar foi proprietária Dona Anna de Brito, mãe do desembargador Luiz Fortunato de Brito Souza e Menezes.

Do lado oposto da rua existe também ainda um prédio baixo, subdividido hoje em diversos compartimentos. Aí dava D. João audiência e despachava. Prova é de que o rei divertia-se na ilha. Não se olvidava todavia de seus deveres de monarca e de cuidar dos negócios da república, como então se dizia, e da felicidade de seus vassalos.

Em parte desta casa reside um amigo meu, a quem visitei no dia 9 do corrente. Cheguei às 2 horas e parti na barca das 7. Foi um dia cheio; percorri os principais e mais pitorescos lugares da ilha. Havia mais de 40 anos que eu não pisava terras onde, segundo Theodoro Sampaio, havia abundância de pacas. Na opinião do ilustre filólogo, etá significa em língua tupi – muito – grande número, quantidade.

Visitei de propósito a antiga Capela de São Roque. Foi demolida, e em seu lugar está outra em via de construção. O motivo ao diante se dirá. Eis por que São Roque está hospedado na freguesia – São Bom Jesus do Monte, belo e elegante santuário reconstruído pelo comendador Antônio Martins Lage e aberto ao culto em 2 de setembro de 1900.

Tive uma decepção ao procurar o célebre poço, do qual, segundo a tradição, se tirava água para as obras da primitiva ermida. Segundo é fama, moça solteira que fosse a Paquetá e bebesse da tal água, casaria infalivelmente dentro de um ano. É mais uma virtude que possui São Roque. Não é, pois, Santo Antônio o único a ter este privilégio, com referências às jovens.

Quanto às velhas, gozou e ainda goza do monopólio de casamenteiro delas São Gonçalo de Amarante. E por sinal que aqui tem altar na Igreja de São Pedro; foi instituído pelo bispo D. Antônio de Guadalupe, compatriota de São Gonçalo. Formou-se até uma confraria numerosa, que durou enquanto aqui esteve o prelado. Removido este para outra diocese, caiu o sodalício em decadência, e São Gonçalo de Amarante é hoje conhecido por pouca gente. Sic transit gloria mundi!

Mas o poço de São Roque já não é o mesmo. Esboroado, de paredes sujas, cheias de plantas parasitas contém pouca água, e esta mesma cheia de limo. Creio que se alguma jovem quisesse, hoje, verificar o milagre casamenteiro, não ficaria ligada pelo conjugo vos. Agarraria com certeza alguma febre intermitente.

Voltemos, porém, ao passado. Das visitas de D. João VI guarda Paquetá perpétua lembrança. É uma peça enterrada na antiga Praça do Medeiros. Quando moço e muito frequentador de Paquetá, nunca obtive explicação para este fato. Velho e conversando com antigo habitante da ilha, eis o que este me referiu: esse pequeno canhão e outro que desapareceu serviram para salvar e anunciar a aproximação do rei. Partiu ele da Quina do Caju, do Engenho da Pedra ou mesmo da Ilha do Governador, onde se hospedava na casa dos frades Bentos. A galeota real fazia proa para Paquetá, e o rei desembarcava saudado e aclamado pelos fiéis insulanos. Queriam todos beijar-lhe a mão carnuda. Ele a dava com satisfação, vendo em tudo e por toda parte quanto era querido e respeitado. Por isto derramava lágrimas sentidas, quando ao deixar as plagas do Rio de Janeiro dizia a seus favoritos: “aqui passei os melhores anos da minha vida”.

D. Pedro I, José Bonifácio, o regente Bráulio Moniz, Evaristo da Veiga e muitos outros personagens ilustres frequentavam Paquetá e fizeram parte das romarias de São Roque. A mocidade do tempo, médicos, advogados, capitalistas, visitavam a Ilha dos Amores, do mesmo modo por que hoje se prefere o Leme, a Tijuca, o Sumaré e Petrópolis. Era a moda e o smartismo da época.

Aos dias de folgança sucederam para Paquetá outros de sustos, horror e desgraças. Foi em nossos tempos. Ninguém ainda se esqueceu dos lutuosos dias da Revolta de 1893-94. Citarei aqui trechos de uma carta que me foi dirigida por pessoa respeitável e digna da maior consideração. Testemunhou os fatos e deles escreveu.

“Os poucos mortos na cidade encontravam seu último agasalho nas necrópoles dos arrabaldes. E os que morriam sobre as salsas águas da baía, vitimados pelas peças e obuses de terra? Houve geral repugnância em atirar ao mar os cadáveres dos que heroicamente perdiam a vida, persuadidos de se sacrificarem pela honra da pátria. Paquetá os acolheu.

Todas as tardes para ali seguia uma lancha e às vezes duas, carregadas de marinheiros mortos, de troncos sem pernas, de braços despedaçados, de cabeças irreconhecíveis, e esses membros, ainda sangrando, enchiam de dó e de pavor os que esperavam na Praia de São Roque tão lúgubres despojos. Daí eram transportados para a capela e depostos no chão. Não podia ser de outra forma. Procedia-se ao cálculo da extensão de terra, que era necessário cavar para receber aqueles restos. Chegavam as carroças às 2 ou 3 horas da noite à porta da capela. Os coveiros eram os próprios carroceiros, e fazia-se o enterro às primeiras horas da madrugada. O sangue empoçado no soalho entranhou-se de tal modo, que, cessando o morticínio, depois de seis meses de lutas, foi impossível extinguir ou apagar as rubras nódoas, que pareciam haver atravessado a madeira de lado a lado. As pessoas que visitavam a igreja, depois de passada a época de terror mais intenso, não querendo pisar sobre tais manchas, andavam cosidas às paredes, porque somente junto delas havia um trilho estreito sem aqueles sinais de morte violenta.”

Felizmente, com a demolição da capela de São Roque desapareceram estes terríveis vestígios das amaldiçoadas lutas civis de irmãos contra irmãos, filhos todos desta generosa e grande terra brasileira!

Domingo, 30 de agosto de 1908.

Interior da Igreja de São Roque em Paquetá

II

Na Ilha de Brocoió, a oeste, e distante, da de Paquetá cerca de 400 metros, fundara importante fábrica de cal um operoso português.

Fora homem do mar e, após repetidas viagens de longo curso em navio de sua propriedade, juntara cabedal. Visitando as cercanias da baía do Rio de Janeiro, enamorou-se de suas maravilhosas belezas. Feitos os necessários cálculos econômicos, resolveu mudar de vida e tornou-se industrial.

Chamava-se este capitão de navio Joaquim José Pinto Serqueira, tronco da árvore genealógica da muito conhecida e distinta família dos Serqueiras de Paquetá. Dela, seja-me lícito salientar Thomaz José Pinto Serqueira, modelo dos funcionários públicos, publicista notável e auxiliar de prestígio junto de Bernardo Pereira de Vasconcellos, amigo e dedicado companheiro de mesa de José Clemente Pereira, na Santa Casa de Misericórdia.

Foi Serqueira quem, na qualidade de escrivão, assumiu a provedoria e anunciou a seus confrades a morte do grande provedor. Tais eram as qualidades morais de Thomaz Serqueira, que a terceira imperatriz por vezes lhe confiou missões de verdadeira e confiante amiga. Leia quem quiser no Álbum Imperial, publicado em São Paulo, a narrativa do arranjo de oito contos de réis emprestados. Deles carecia a imperatriz para salvar de apuros e vexames um velho e dedicado amigo de D. Pedro II. O modo criterioso por que em tal emergência se houve Thomaz Serqueira dá bem medida do quilate de seu belo caráter.

Mas o patriarca Joaquim Serqueira, incansável trabalhador, viu em breve satisfeitas suas aspirações. Aumentou a sua fortuna e em 1822 mandava vir a família, que deixara em Portugal. Pouco depois comprou a Dona Maria Florência de Gordilho, irmã da Marquesa de Jacarepaguá, a fazenda de São Roque, situada em Paquetá. Desta fazenda fazia parte a capela do mesmo santo. As terras adquiridas haviam constituído, outrora, importante sesmaria concedida quando ainda a Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro tinha por defesas naturais o Pão de Açúcar e o Morro Cara de Cão (hoje São João).

Cabe aqui rápida descrição da capela, tal qual a recebeu o velho Serqueira. Sirvo-me ainda aqui da carta, a que já aludi. Nela existem importantes notas, das quais, com a devida autorização, me aproveito.

Era o pequeno e antigo santuário consagrado a São Roque, dividido em três partes: a menor e mais estreita constituía a capela-mor, onde se elevava o trono do padroeiro, e era naquele tempo o único altar existente. Seguia-se a nave, ocupando maior espaço e dividida em duas outras partes: a primeira tinha entrada por larga porta lateral, próxima de púlpito móvel. A segunda parte (terceira de todo edifício) era formada por uma parede com porta ao centro e uma janela de cada lado. Por último se via de dentro da capela a porta principal ou da frente e mais uma ao lado.

Por cima destas duas últimas portas ficava o coro, para o qual da rua se subia por uma escada a céu aberto, feita de tijolos e do lado do Morro de São Roque.

A portinha do coro, que era de teto baixo, dava também entrada para uma única tribuna, sustentada por varões de ferro, e da qual assistia a todas as cerimônias a família Serqueira.

Esta mesma escada comunicava com a da torre, de medíocre altura, levantada sobre paredes de grossura despropositada. Desse mesmo lado, e junto à igrejinha, estava da outra extremidade uma pequena casa, dividida em dois compartimentos: no maior, comunicando-se com a capela-mor, estava a sacristia, e no menor eram guardados os objetos do culto.

Vire folha e não seja cacete, dirá o amável leitor. Tende paciência e nada de egoísmo.

Pedra da Moreninha em Paquetá

Da capela não foram, creio, tiradas fotografias. Ora, demos de barato que daqui a muitos anos algum romancista queira ter a celebridade do Macedo com a sua Moreninha. Preciso é que ele não confunda alhos com bugalhos e não coloque à direita o que ficava à esquerda e vice-versa. Pelo menos com a minha pálida descrição ficam salvas as minúcias da cor local.

Mas que indicava no corpo da capela a parede sólida com uma porta e duas janelas gradeadas, de ferro batido, como se fossem de cafua? Para que serviria? Di-lo a tradição. Era a indústria de cal a única explorada em Paquetá e nela se ocupavam negros cativos. Quando à missa ia toda a gente moradora nas terras da fazenda e no resto da ilha, os livres tomavam lugar no corpo da igreja e os escravos, no espaço ladrilhado apenas, das grades para o fim da nave por baixo do coro.

De tal separação ainda existem vestígios em capelas do Brasil, as quais pertenceram a fazendas onde era numerosa a escravatura, como se brancos ou negros, livres ou escravos não fossem todos irmãos perante Deus. A família Serqueira, seja dito em honra sua, nunca fez sair da parte média da capela qualquer preto, que ali entrasse inconscientemente.

Faleceu o velho Joaquim Serqueira a 2 de maio de 1848, e em partilha julgada a 6 de julho do ano seguinte coube a capela ao 2º filho Pedro José Pinto Serqueira. Fez este sérios reparos na antiga ermida. Mandou derrubar a parede afrontosa, assoalhou toda a nave, apagando assim o último sinal de separação de classes.

Nos últimos tempos a Capela de São Roque possuía mais dois altares: o primeiro dedicado a Nossa Senhora das Dores, por haver salvo da morte uma doente – a filha do comendador Pedro Serqueira.

A belíssima imagem foi mandada vir de Portugal em cumprimento de promessa feita em 1861 pelo dedicado amigo da família, o Comendador Guilherme Pinto de Magalhães, abastado habitante de Paquetá. De Pinto de Magalhães escreveu a biografia o meu amigo Dr. Marques Pinheiro.

O leitor encontrá-la-á não só em opúsculo separado como em uma das Revistas do Instituto Histórico.

O outro altar ainda não definitivo era ocupado pela imagem de São Sebastião em consequência de um voto feito por distinta senhora da corte perigosamente enferma, e que na ilha recuperara a saúde.

Em 13 de outubro de 1876 faleceu o comendador Pedro Serqueira, e a Capela de São Roque ficou pertencendo a Dona Adelaide Adelina Serqueira de Alambary Luz, verdadeira e virtuosa mãe de família.

A 1 de outubro de 1897 deixou de existir a proprietária da capela, que hoje pertence ao Arcebispado do Rio de Janeiro. A leitura dos seguintes documentos dará explicação do fato:

“Eu, abaixo firmado, no pleno gozo do direito que me é assegurado pela sentença do Tribunal Civil e Criminal de 25 de Abril do ano próximo pretérito de 1901, nos autos de inventário dos bens deixados por minha falecida mulher Dona Adelaide Adelina Serqueira de Alambary Luz, mandando lançar à minha meação a Capela de São Roque, em cuja posse nesta ilha me acho há mais de um quarto de século (primitivamente como cabeça de casal, depois como proprietário); atendendo a que maior lustre e merecimento assumirá o culto do referido e venerado santo, estando o seu pequeno e velho templo sob a imediata administração das altas autoridades eclesiásticas, e ao mesmo tempo acedendo às instantes solicitações de meus filhos, que de igual modo pensam, acerca de tão elevado assunto, – resolvi muito voluntariamente, e sem a menor insinuação de pessoa estranha à minha família, ceder, como de fato cedo, com todos os meus direitos sobre a mesma Capela de São Roque ao Arcebispo do Rio de Janeiro, hoje, sob o paternal governo do muito digno e ilustrado Exmo. e Revmo. Sr. Arcebispo D. Joaquim Arcoverde, transferindo para as benignas mãos de Sua Eminência Revma., não só a sobredita capela, como tudo quanto a ela pertence. E para que produza todos os efeitos legais, escrevo do meu próprio punho esta irretratável declaração, que é por mim assinada e pelos meus dois filhos Adelina e Pedro, meus únicos e legítimos herdeiros. Ilha de Paquetá, 17 de Agosto de 1902. – José Carlos d’Alambary Luz – Adelina Verginia Serqueira d’Alambary Luz – Pedro Serqueira d’Alambary Luz”.

O Sr. Arcebispo, hoje Cardeal, mandou lavrar o seguinte ato:

“Declaramos, para que em todo o tempo conste, que aceitamos no devido valor canônico a declaração acima de cessão de todos os seus direitos sobre a Capela de São Roque na Ilha de Paquetá e tudo que a ela pertence, feita ao Arcebispado de São Sebastião do Rio de Janeiro pelo Sr. Dr. José Carlos d’Alambary Luz e seus filhos Adelina Serqueira d’Alambary Luz e Pedro Serqueira d’Alambary Luz.

“Querendo agora Nós dar uma prova de Nossa benevolência ao mesmo Sr. Dr. José Carlos d’Alambary Luz pela piedosa correção, com que se houve nessa circunstância para com a autoridade eclesiástica, Havemos por bem determinar, como pela presente determinamos, que a tribuna existente na dita Capela de São Roque seja exclusivamente reservada para uso do mesmo Sr. Dr. José Carlos d’Alambary Luz e qualquer de seus filhos acima assinados enquanto viverem, etc., etc. – Cumpra-se. Conceição, 24 de Agosto de 1902. – Assinado + Joaquim, Arcebispo do Rio de Janeiro”.

Demolida a velha capela, vai outra sendo construída no mesmo local.

Mas aquele antigo e modesto santuário deve ter história anterior à aquisição feita pelo velho Joaquim Serqueira.

É o que procurarei conhecer para concluir estas notas.

6 de Setembro de 1908.

Barca chegando a Paquetá vendo-se a estação das barcas e a Igreja do Senhor Bom Jesus do Monte

III

A Ilha de Paquetá, em nossa Baía de Guanabara, está na distância de quase dez milhas da Capital Federal e estende-se irregularmente por quase meia légua, obedecendo em seu maior comprimento à linha norte-sul.

Nas extremidades destes dois pontos alarga-se extraordinariamente e na parte média estreita-se, de modo que um canal apenas de quatro ou cinco dezenas de metros poderia converter aquela unidade de belezas naturais em duas outras, – não rivais, mas ostentando ambas igual lindeza e força de atração.

Parece que alguns dos antigos, de mais fino gosto, personalizaram aquele todo em fada mágica de terrestre perfeição; porquanto, ainda hoje, o ponto em que o mar lhe constrange extremamente o corpo adorável é conhecido pelo nome de cintura.

Outros habitantes, mais positivos, os que não se abandonavam a enlevos poéticos, deram a essa faixa de terreno nome de Ladeira do Vicente, devido a seu principal morador, conhecido geralmente na ilha por Vicente da ladeira.

Tal é a sucinta, exata e poética descrição da antiga Pacataá, ou Paquetá, feita pelo ilustre missivista, a quem devo preciosas notas acerca do assunto destes artigos sobre São Roque.

Mal havia lançado Estácio de Sá junto do Pão de Açúcar os alicerces da Cidade de São Sebastião, seus companheiros de lutas e fadigas pediram a este primeiro capitão-mor terras e sesmarias com intuito de as cultivar. Deu-lhas com generosidade o sobrinho de Mem de Sá, não só nas redondezas da baía como em diversas ilhas nelas existentes.

Para se avaliar o número de aquinhoados basta ler a lista de seus nomes, no volume 63º da Revista do Instituto Histórico. Um deles, Ignácio de Bulhões, requereu e obteve em 10 de setembro de 1565 um lote de terras na Ilha de Paquetá.

A porção concedida ficava entre o caminho hoje do Vicente e o extremo norte da ilha. Compreendia por isso todos os montes, enseadas e praias circunjacentes, formando quase metade de Paquetá e fronteira a São Francisco de Coroará, São Gonçalo e Suruí.

Pouco depois, e foi título de 11 de fevereiro de 1566 outro povoador do Rio de Janeiro, Fernão Baldez, obtinha ainda de Estácio de Sá a parte sul da ilha.

Este Baldez parece ter sido pessoa de importância. Ligou seu nome ao trecho de uma rua da cidade. Suponho ser a da Misericórdia, no ponto em que se abriu a antiga Ladeira do Colégio.

Por maiores diligências feitas para saber a data primeira da fundação da Capela de São Roque, nada consegui. Apelei para o meu amigo Eduardo Marques Peixoto, a ver se ele, no Arquivo Nacional, do qual é digno e operoso funcionário, algo encontrava nos antigos livros da Mesa de Consciência e Ordens.

Por enquanto tenho que me contentar com o que escreveu Monsenhor Pizarro. Refere este que na parte norte da ilha (portanto na sesmaria de Bulhões) existiu uma capela dedicada a São Roque, pelo Padre Manoel Antônio Espinha, que a fundara com provisão de 29 de dezembro de 1697, passada em Lisboa por faculdade do Bispo D. José de Barros Alarcão e fora benzida a 24 de novembro do ano seguinte para entrar em uso.

Como já disse em outro artigo, este bispo fora chamado à Metrópole para se defender de sérias acusações, que lhe faziam os povos, não só do Rio de Janeiro, como de São Paulo.

Distando Paquetá da Paróquia de Magepe (hoje Magé), a que pertencia, cerca de duas ou três léguas, os habitantes da ilha, tendo necessidade de socorros espirituais, eram obrigados a vencer grande extensão de mar, nem sempre bonançoso.

Para atenuar tais inconvenientes, o Bispo D. Antônio de Guadalupe, em visita de 17 de novembro de 1728, concedeu à Capela de São Roque o privilégio de pia batismal e o de conservar a Extrema-Unção.

Anos depois, outro prelado, D. Frei Antônio do Desterro, aumentou aquelas graças e concedeu à citada capelinha a permissão de conservar perpetuamente o Sacramento em Sacrário. Erigiu a Capela Curada e nomeou para primeiro capelão o Padre Antônio Ramos de Macedo, provido em data de 1761.

Ora, por aquele tempo levantava, na parte sul da ilha, Manuel Cardoso Ramos uma capela edificada ao Senhor Bom Jesus do Monte. Para patrimônio do santuário, doara o mesmo Ramos terras com 20 braças de testada sobre 27de fundo, – tudo por escritura de 29 de novembro de 1758.

Por sugestão, talvez de Ramos, os habitantes da antiga Sesmaria de Baldez pediram ao Bispo Desterro a criação de uma paróquia, cuja sede fosse o Bom Jesus do Monte. Para ganhar as boas graças do prelado, ainda Ramos doou nova porção de terras.

Cedeu o Bispo Desterro, e a nova freguesia foi ereta por edital de 23 de junho de 1769. Foram desmembradas terras das freguesias de Magé e São Gonçalo.

Sacerdote cordato, não protestou o pároco de Magé contra o corte que sofreram os seus domínios. Não o podia nem o devia fazer, atentos às condições com que, quando nomeados, os sacerdotes aceitavam as paróquias.

Não esteve pelos autos o Vigário de São Gonçalo: tiravam-lhe as ilhas Jurubaíbas e do Itaocara. Tanto fez que conseguiu, em 1770, voltassem para sua jurisdição as precitadas ilhas.

Por sua vez os habitantes do norte da Ilha de Paquetá requereram ficasse toda a ilha sujeita de novo à freguesia de Magé, conservando-se o antigo statu quo, isto é, que São Roque continuasse a ter sacrário, pia batismal e capelão curado! Por aí se deixa ver a desordem, ciúmes e intrigas que separavam então os insulanos no norte dos do sul de Paquetá.

Alcançaram o desejado por um acórdão, ao qual se seguiram mais três, por não haver sido cumprido o segundo pelo bispo, e por fim pelo assento do Desembargo do Paço, de 21 de julho de 1771.

Baseava-se este nas seguintes razões: 1ª incompetência do bispo de poder a seu arbítrio erigir paróquias sem autoridade do rei padroeiro e grão-mestre da Ordem de Cristo. 2ª, a falta de justa causa para a desmembração; 3ª, a falta de consentimento e vontade dos paroquianos; 4ª, a falta de assento do padroeiro.

Em extensa nota, Monsenhor Pizarro discute todas essas questões (Págs. 276-277, tomo 5 das Memórias Históricas). Mostra-se favorável ao proceder do bispo.

Ficou suprimida a freguesia do Bom Jesus. Durante o tempo do litígio e final decisão foram vigários de Paquetá os padres José da Silva Furtado e João de Araújo Macedo.

Reunida de novo a Ilha de Paquetá à freguesia de Magé e decorridos 30 anos, diz o Dr. Moreira de Azevedo (que resume o referido por Monsenhor Pizarro) pretendeu o Padre Joaquim José da Silva ser pároco daquela ilha. Conseguiu ser apresentado sob o falso pretexto de haver sido novamente ereta essa paróquia. Pediu demissão da vigararia de São Barnabé. Foi esta aceita por aviso de 19 de junho de 1806.

Mas, não existindo paróquia em Paquetá, não teve efeito a graça pedida. Foi feliz. Não ficou sem Deus, sem amor e sem ti. Voltou para o seu antigo benefício! E Paquetá continuou como dantes, anexa ao distrito de Magé.

Com a vinda da Família Real, D. João visitou a ilha, e os moradores dela, esquecidos de antigas dissidências, requereram ao príncipe a criação ali de uma paróquia.

O bispo informou a favor em 13 de janeiro de 1809. Consultada a Mesa de Consciências e Ordens, não houve por parte desse tribunal oposição alguma. Afinal, por decreto de 4 de agosto de 1810, foi apresentado como pároco do Bom Jesus do Monte o Padre Manuel Teixeira Campos.

Por decreto de 23 de março de 1833, a freguesia de Paquetá foi desmembrada do Distrito de Magé, e passou a fazer parte do município da Corte.

De tudo quanto vai dito, se conclui: os antigos habitantes de Paquetá, apesar dos encantos de sua natureza “de suas praias de límpidas areias prateadas à noite pela lua” e onde tudo convida à paz e tranquilidade, também pagaram seu tributo à mania do tempo. Houve brigas por amor dos Santos. Quem não era São Roquista, devia ser por força São Bom Jesuísta.

Depois vieram as lutas políticas, e Paquetá contou em seu seio patriotas, corcundas, exaltados, moderados, federativos, luzias e saquaremas!

Em época mais próxima de nós, a encantadora ilha ficou até convertida em praça de guerra! Mas ponhamos de lado coisas tristes.

Hoje felizmente já não existem questões em Paquetá, nem por motivos divinos, nem por pendências devidas à fragilidade humana.

Todos são amigos e vivem contentes sob a autoridade espiritual do Padre Juvenal Madeiro.

Tempora mutantur. São Roque ficou sem teto e é gentilmente recebido e hospedado no Bom Jesus do Monte, antigo quartel do partido contrário!

Reina enfim a paz na igreja d’Elvas.

Antes assim. Há pelo menos ali ordem e progresso incontestável. Paquetá vai-se constituindo em verdadeira pequena vila moderna, sem contudo destruir a luxuriante moldura que a cerca.

Já tem água encanada, teatro, boa iluminação, novas ruas, fon-fon, telefone e até cinematógrafo!

Que no meio de tantas novidades não se esqueçam os Paquetaenses de São Roque, o antigo padroeiro da ilha dos Amores.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto original

Imagem destacada

  • Igreja de São Roque em Paquetá.

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