Travessa do Paço

Era, para o que lhe havia de dar o Bombacha? Correr por cima dos telhados como lobisomem ou alma penada, com grave susto e abalo dos pacatos moradores dessa travessa (a do Paço) uma das mais lúgubres, sobretudo à noite, das ruas da nossa antiga City.

É isto passado o Carnaval, quando o povo havia entrado nos quarenta dias de orações e penitência! Custou-lhe caro esse passeio ao ar livre: o gaiato noctâmbulo foi purgar pecados nos macios colchões de um xadrez de polícia. Muito podem os efeitos do parati!

Vem de molde narrar aqui dois fatos idênticos, frutos do champanhe nacional, ocorridos nessa mesma travessa, onde por muitos anos residiu o notável político Dr. José Lino Coutinho.

No segundo andar de um dos prédios pertencentes ao patrimônio da Santa Teresa e, ora recentemente reedificado, havia festa de casamento.

Depois de opípara ceia regada por generosos vinhos, e quando a companhia estava prestes a se dissolver, ocorreu ao jovem noivo, Lourenço (chamava-se ele) uma despedida estapafúrdia.

Foi a um quarto do interior e de lá trouxe meia dúzia de foguetes do ar. Fazendo do peitoril da janela animal montado – eis o tal excêntrico a soltar o foguetório, dando vivas a si, à jovem noiva e aos convivas. Faltou-lhe o equilíbrio, e Lourenço iria à rua se os amigos pressurosos não lhe embargassem a queda. E morreria, não podendo (e isto seria o mais triste) colher as virentes rosas do himeneu! O mesmo risco de ir à calçada correu o Bombacha, se não fosse a intervenção da polícia!

O segundo fato, de que perfeitamente me recordo, deu-se com o Gato, vendedor de peixe na Praça do Mercado. Era um mulato já velhote, barrigudo, cabelo à escovinha e cara de padre. De quando em vez tomava o seu pifão e nesse estado inspirava respeito.

Além de tudo o Gato era um capoeira de truz e verdadeiro representante da alta e clássica escola, ligeiro de pé e de cabeça, e nada de faca, navalha ou revólver. Poderia ser professor emérito, se, como pretende o meu velho amigo Trovão, se pudessem criar em toda a República escolas como a de que foi chefe célebre político, que tinha a flor de sua gente bem disciplinada e pronta para o que desse e viesse.

Em uma bela tarde lembrou-se o Gato de trazer da Praça dentro de grande tina e amarrado em uma tábua, pequeno jacaré. Um pouco chumbado mostrava aos desocupados e curiosos o animalejo, quando este, sem se saber como, desprende-se da prisão e procura pôr-se na picada.

Foi um charivari medonho. Houve verdadeiro fecha-fecha. Crianças choravam, as mulheres caíam com ataques, pois o jacaré investia contra todos. Propalou-se a notícia de incêndio, e o sineiro de São José se propunha a dar o rebate da pragmática: duas badaladas espaçadas e, um segundo depois, outras repetidas sem interrupção. Trilaram apitos, e às vozes de socorro compareceram os urbanos. Estes sacaram dos chanfalhos e deram cabo do jacaré que tanta polvorosa havia causado. O Gato foi preso e convidado a ir cozinhar a mona na cafua.

No dia seguinte foi posto em liberdade, graças ao patrocínio do prestigioso chefe político da freguesia. E a razão é simples: Gato era valente cabo de guerra eleitoral. Apesar de quebrantado pelos anos, em ocasião de sarilho mostrava suas habilidades. Quando desconfiava do voto de algum eleitor, punha-se a berrar: é fosfi, é fosfi! dava princípio ao rolo e o sujeito não votava.

Ainda existem algumas pessoas, moradoras antigas da Travessa do Paço, que me não deixarão ser tido por exagerado.

Não sei por que na última nomenclatura das ruas da cidade a citada travessa foi relaxada a beco. Felizmente não teve efeito semelhante novidade. Nem sempre, porém, a Travessa do Paço foi tão triste e monótona como atualmente.

Ali residiu a fidalga pertencente a um ramo colateral da família de Gomes Freire de Andrade, e em tempos antigos a Rua da Quitanda e depois dos Madeireiros, foi centro de vida, atividade e até de algazarras.

No largo atual da Assembleia, aboletavam-se as quitandeiras em cabanas de que pagavam módico aluguel ao senado da Câmara. Eram tais a azáfama, as gritarias e as rixas, que os Desembargadores da Relação, estabelecida por cima da cadeia [1], protestavam contra semelhante abuso, profanador do silêncio que devia reinar em casa, onde se reuniam os sacerdotes da Lei e da Justiça. É certo, porém, que as quitandeiras levaram à parede os juízes togados, e estes nada conseguiram.

Elas lá ficaram e só muito depois mudaram de local por determinação ulterior da Câmara.

No tempo do Teatro de Manuel Luiz[2], na travessa estacionavam rindo e brincando os escravos dos frequentadores da Casa da Ópera.

Aguardavam os senhores para com lanternas ou archotes, depois do espetáculo, iluminarem o caminho pelas ruas escuras e tortuosas.

No tempo do Rei, na travessa do Paço, faziam ponto e às vezes desordens, os toma larguras[3], criados de D. João VI, os quais como é sabido, residiam no edifício da atual Câmara dos Deputados, denominada então América Inglesa. Isto era um epigrama dos engrossadores do tempo. República para eles significava desordem, confusão, pancadaria, intrigas, et reliqua.

Na citada travessa estabeleceram seus armazéns os madeireiros. A madeira entrava pela Rua D. Manuel, então praia e saía pela Travessa do Paço ou Rua dos Madeireiros. Entrava por uma porta e saía por outra, tal qual como nas histórias contadas pelas nossas velhas amas.

Ainda há pouco faleceu em Portugal um dos últimos representantes desse comércio. Em testamento deixou a instituições brasileiras importantes legados.

Em tempos mais próximos era, sobretudo nos dias de gala, imenso o movimento.

Ali juntava-se em fila as carruagens dos fidalgos que iam ao beija-mão o cortejo. A arraia miúda se aglomerava para ver as traquitanas dos graúdos e o desfilar da guarda de honra, etc.

Na Travessa do Paço residiram pessoas de posição e respeitáveis famílias; entre estas me lembro das seguintes: as dos Pestanas, dos Pires, dos Sevéne, do oficial de marinha Ferreira (Corta pescoço), e de D. Maria de Sousa, boa velhinha que curava e era sonâmbula, a do velho médico Pedroso, folgazão e cheio de pilhérias. Entre os primeiros, lembro-me do almirante Lobão, que foi a Nápoles buscar a terceira imperatriz do Brasil, o cônego Santos Lemos, vigário de São José, e depois do Engenho Velho, e o cônego Francisco Figueiredo de Andrade. No prédio de dois andares, n. 23, lado ímpar, esquina com a Rua do Cotovelo funcionou por muito tempo, importante colégio de meninas. Era dele diretora D. Nísia Floresta Brasileira Augusta, nascida em 2 de Outubro de 1810 e falecida na cidade de Ruão, em 20 de Maio de 1885.

Literata de valor, poetisa, infatigável polemista e erudita publicista, no Brasil e em Portugal exerceu com grande proficiência o magistério. Colaborou essa ilustre compatriota no Jornal do Commercio, no Mercantil, e no Diário do Rio, bem como em várias revistas do tempo. Conhecia diversas línguas e escrevia o francês com graça e facilidade.

Dentre os seus numerosos trabalhos vem a ponto citar o Direito das Mulheres e a Injustiça dos Homens. Foi ela quem há mais de cincoenta anos advogou os direitos do sexo fraco e sustentou com brilho o problema da emancipação das senhoras.

Se pudesse ressuscitar veria com prazer satisfeitos muitos dos seus desejos. Travaria relação com muitas Brasileiras médicas, farmacêuticas, parteiras, dentistas e advogadas. Só lhes falta o direito de intervir nas eleições. Mas isto virá mais tarde, conforme a orientação de que se fazem apóstolos brilhantes escritores nossos. Não será preciso meter na cadeia as nossas patrícias que quiserem o sufrágio eleitoral.

Escreveu também D. Nísia Um passeio ao Aqueduto da Carioca. Mas desse monumental encanamento, que tantos sacrifícios e mil cruzados custou, ela não veria senão ruínas e os escombros !

Em compensação se admiraria com prazer de tudo quanto o progresso tem realizado, pondo em rápida comunicação pontos afastados da nossa cidade.

Protestaria, porém, ela que adotou o apelido de Floresta contra a selvática destruição das nossas opulentas matas, feita sem método, com grave detrimento para os nossos mananciais.

Verdade é que contra tanto vandalismo se tem revoltado a imprensa por boca de seus mais prestimosos representantes.

Bastaria que os poderes públicos pusessem em execução os dois sábios decretos, promulgados por D. João VI, em 9 e 17 de Agosto de 1817.

Mas isto, dirá o leitor, são coisas do tempo do Onça. Faça ponto.

Obedeço. Manda quem pode.

Notas do Editor

  1. Onde está atualmente o Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).
  2. Casa da Ópera de Manuel Luiz (1776)
  3. Anderson, em sua Historia do Brazil, cita, a esse respeito, exemplos curiosos. “Os cortesãos do Paço – diz o autor – são apelidados pelos brasileiros de toma-larguras para significar que essas personagens tomam toda a largura das ruas e não fazem cerimônias para atropelar o povo ou atirar o seu carro de encontro à carruagem, liteira ou cavalo de qualquer plebeu que encontrem no seu caminho.” Impressões do Brazil no Seculo Vinte.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

Texto Original

Imagem destacada

  • Travessa do Paço vendo-se o Palácio Tiradentes ao fundo.

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