Morro do Castelo

A PRIMEIRA LADEIRA que conduzia ao alto do morro, ladeira ou calçada da Sé, ficava mais ou menos ao meio da Rua da Misericórdia, em ponto, portanto, bastante próximo do porto. Apesar disso, por ser muito íngreme e tortuosa, por ela não era nada fácil o transporte de tudo o que se fazia necessário às edificações na lombada da colina e, assim, os jesuítas trataram de construir a seu lado uma espécie de guindaste ou tosco plano inclinado, pelo qual faziam o carreio da pedra e outros materiais pesados. Desse guindaste permanece reminiscência no Beco do Guindaste, ainda hoje existente a meio da Travessa Costa Velho, que vai da Rua da Misericórdia à Rua Dom Manuel[1]. Por sua vez, a Travessa Costa Velho se chamou anteriormente Rua do Guindaste.

Morro do Castelo, vendo-se à esquerda o Centro Cultural Justiça Federal, à direita a Biblioteca Nacional e, ao fundo, o Convento de Santa Teresa c. 1914, via Library of Congress.

Mas mesmo para os que a subiam de mãos abanando, essa ladeira era esfalfante e pouco depois abriu-se outra pedindo menos esforço aos que vencessem os sessenta e poucos metros que o morro tinha de altura. Esta ladeira, precursora ou contemporânea do Hospital da Misericórdia, acabou por tomar-lhe o nome: Ladeira da Misericórdia. O hospital, segundo a maioria dos historiadores, teria sido uma iniciativa de Anchieta, em 1582, para atender a numerosos enfermos de uma armada de Castela que, sob o comando de Diogo Flores Valdez, após longa e tormentosa viagem, viera fundear na nossa baía. Não pensava assim Capistrano de Abreu e, em abono deste, pesquisas posteriores do Padre Serafim Leite vieram comprovar que o hospital já existia por aquela época ou era mesmo contemporâneo da fundação da cidade. Destarte, à chegada da frota de Valdez, Anchieta e outros jesuítas teriam apenas providenciado para que àquele hospital fossem anexados novos pavilhões, a fim de abrigar um tão grande número de doentes.

A Ladeira da Misericórdia, de cuja rampa inicial ainda hoje se veem os restos junto à igreja do mesmo nome, teve as honras do primeiro calçamento a pedra realizado no Rio, em 1617, quando se calçou também da mesma maneira a praça defronte à igreja matriz, no alto do morro. A essa rudimentar pavimentação das vias públicas, feita com lajes grandes e irregulares, chamou Simão de Vasconcelos “caminhos de pé posto”.

Mais tarde, duas outras ladeiras permitiam alcançar o governo da cidade. Destas, a primeira, em ordem cronológica, teve vários nomes: Ladeira do Poço do Porteiro, Ladeira do Seminário, Ladeira da Mãe do Bispo, Ladeira da Ajuda. Ficava do lado meridional do morro e principiava onde hoje está a Biblioteca Nacional. Se era a mais longa, pela sua situação tinha a vantagem de facilitar as comunicações com a zona agrícola: Lapa, Catete, Botafogo e Lagoa Rodrigo de Freitas. Por outro lado, se a Ladeira da Misericórdia vinha morrer quase às portas do Colégio dos Jesuítas, aquela seria mais cômoda para quem, vindo da zona sul, se dirigisse à Matriz. Dos vários nomes que teve, Ladeira do Poço do Porteiro parece o mais antigo. Originou-se da existência de um poço, franqueado ao público, na casa do porteiro da cidade, que morava ao pé do morro. As outras designações devem ser do Século XVIII. Mãe do Bispo, porque a ladeira partia do Largo do mesmo nome, onde residia D. Ana Teodora, mãe do sexto Bispo do Rio, D. José Joaquim Justiniano, e cujos salões eram muito frequentados. É de 1750 o Convento da Ajuda, situado nas imediações e que também crismou a ladeira. Diga-se, porém, que por ali mesmo, no princípio da Rua dos Barbonos, desde o fim do século XVI, existia uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Ajuda. O seminário, que também deu nome à ladeira, por ficar localizado na encosta, era o de São José, fundado em 1739.

A outra e última ladeira, do Colégio, do Castelo, do Cotovelo, do Carmo, só foi rasgada quando se desenvolviam as ruas que correm perpendiculares à Avenida Rio Branco, de São José para baixo. No alto do morro, a Ladeira do Castelo, como a da Misericórdia, desembocava na praça à frente do Colégio e poderia ser considerada uma continuação da última na vertente oposta. Aí, o seu início era onde hoje terminava, na Rua São José, o pouco que restava da Rua Vieira Fazenda, antiga do Cotovelo, e que é o ponto em que também começa a Rua do Carmo.

Nota

  1. Chamou-se antes Porto dos Padres da Companhia, porque aí faziam os jesuítas os seus desembarques. Só depois é que passou a ser Praia Dom Manuel, enquanto não foi a rua ainda existente hoje. A homenagem é a Dom Manuel Lobo, Governador empossado a 8 de outubro de 1678, e que se tornou notável pelo assentamento, no Rio da Prata, da fortaleza, depois Colônia do Sacramento.

Fonte

  • Cruls, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro: Notícia histórica e descritiva da cidade. Prefácio de Gilberto Freyre, desenhos de Luis Jardim e fotografias de Sascha Harnisch. Rio de Janeiro: José Olympio, 1949. 2 v. (Edição do IV Centenário, 1965).

Imagem destacada

  • Ladeira da Misericórdia.

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