A Conjuração Mineira, movimentos precursores

Das guerras civis dos Mascates e Emboabas e conflitos congêneres, entre filhos do país e colonos reinóis, surgiu o espírito de nativismo no Brasil, com o ideal de uma pátria nova, e independente da metrópole portuguesa.

Já em 1579, a ideia da separação do Brasil, formando uma monarquia à parte, com renúncia à coroa portuguesa e domínio sobre a colônia sul-americana, fora aventada por Felipe II.

Os surtos libertários de Pedro Ribeiro da Silva e Bernardo Vieira de Mello, em 1711, em Pernambuco; de Filipe dos Santos, em 1720, em Minas-Gerais – foram os principais movimentos precursores da independência nacional.

Ainda em 1786, o Conde de Aranda, formara o projeto de União Ibérica na Europa, pelo qual eram cedidos, como países independentes, sob o governo da Casa de Bragança, o Brasil, o Chile e o Peru; mas é fato que jamais convieram os Portugueses nem na aliança luso-espanhola, nem no separatismo colonial.

O movimento de 1789 denominado Conjuração ou Inconfidência mineira, que teve por figura central o Tiradentes, formando um grupo, de sonhadores poetas, doutores e clérigos, acha-se intimamente filiado às correntes filosóficas do século XVIII, de que resultaram a independência dos Estados Unidos da América do Norte, em 1776, e a revolução francesa de 1789.

Portugal trancava sob jugo secular o direito de liberdade no Brasil.

Em 1747, fundara-se no Rio de Janeiro, à clandestina, a primeira oficina tipográfica, dirigida por Antônio Isidoro da Fonseca.

Pouco durou.

O governo da metrópole mandou-a empastelar, com receio da propaganda de ideias contrárias aos interesses do Estado.

Enquanto os ideais da liberdade se traduziam por toda parte em conquistas definitivas da política do Velho e Novo Mundo, o Brasil jazia sob opressão.

Um alvará de 1785, da rainha Dona Maria I, mandava proibir em nosso país toda e qualquer fábrica ou indústria, permitido apenas o fabrico do algodão grosseiro, destinado ao enfardamento de mercadorias e indumentária da escravatura.

Nossas minas se achavam em decadência; e não suportavam o excesso de tributação.

Em 1788, montava o déficit do quinto do ouro em 528 arrobas, ou seja, 3.305:472$000, pelo valor da moeda do tempo, que correspondia a 1$500 a oitava de ouro.

De há muito não se fazia a derrama para completar as 100 arrobas anuais, que representava o quantum do acordo feito com as câmaras.

Mas nesse ano de 1788, veio como sucessor de Luiz da Cunha Menezes, no governo da capitania das Minas Gerais, Luiz Antônio Furtado de Mendonça, Visconde de Barbacena, que tomou posse a 11 de Julho desse ano, trazendo instruções especiais do ministro de Dona Maria I, Martinho de Mello e Castro.

Na Europa, prenunciavam-se graves sucessos políticos e sociais; e as sociedades secretas trabalhavam ativamente, espalhando germens de ideias libertárias.

Em Portugal, a polícia do intendente-geral Pina Manique espreitava atenta.

As colônias inglesas na América, em 1783, já eram emancipadas do regímen colonial com auxílio da França, e constituíam um povo autônomo.

O Brasil, é claro, não podia assistir indiferente, a essa nova aurora de redenção nacional.

Por fim do século XVIII, achavam-se em estudos no Velho Mundo vários jovens patriotas brasileiros, entre os quais José Joaquim da Maia, natural do Rio, e os mineiros: José Álvares Maciel, filho do capitão-mor de Vila Rica; José Pereira Ribeiro, Domingos Vidal de Barbosa e José Mariano Leal, adeptos dos novos ideais emancipacionistas.

Desses estudantes, sabe-se que José Joaquim da Maia teve uma entrevista em Nimes, em 1787, com o embaixador americano na França, Thomas Jefferson (1743-1826) que foi o 3º presidente da República dos Estados Unidos da América do Norte, e um dos fundadores e chefe do partido republicano.

Maia, que faleceu sem tornar ao Brasil, escrevera a Jefferson com o pseudônimo Vendek, e este último chegou a prometer-lhe o apoio do seu país, no caso da independência da nossa pátria.

Vidal Barbosa e Álvares Maciel, regressaram trazendo para Minas Gerais o pensamento de autonomia nacional.

Ambos tiveram parte relevante no movimento da Inconfidência mineira.

A derrama dos quintos atrasados que iria ser feita pelo novo capitão-mor Visconde de Barbacena, constituindo odiosa medida para o povo mineiro, serviria de pretexto aos conspiradores.

A Conjuração mineira teve por teatro a antiga Vila-Rica (atual Ouro Preto) que muito se ressentia do grau de decadência da nossa indústria de mineração, a ponto de ser alcunhada pelo povo de Vila Pobre.

O rendimento do ouro era ali tão exíguo que, havia tempos não atingia o mínimo das 100 arrobas anuais, exigido pela coroa de Portugal.

Lançada a derrama, a senha convencionada para a explosão do movimento seria: Hoje, faço meu batizado.

Revoltado o povo, acudiria o comandante Francisco de Paula Freire Andrada à frente dos dragões, como para subjugar os amotinados, mas, de fato, para confraternizar com os rebeldes. O Visconde de Barbacena seria preso em Cachoeira, e daí conduzido ao Rio Paraibuna.

Era plano dos inconfidentes: proclamar a república, que teria por capital São João del Rei; abolir a escravidão e instalar numerosas fábricas importantes para o enriquecimento da nova nação, cuja bandeira teria por lema Liberdade ainda que tarde, do verso latino virgiliano: “Libertas quae sera tamen”,

O alferes do regimento de dragões da capitania de Minas Gerais, natural de São João del Rei, Joaquim José da Silva Xavier – o Tiradentes (antonomásia que lhe valera a habilidade como dentista) foi o protagonista dessa conspiração malograda.

Era um patriota entusiasta pela causa que abraçara.

A 22 de Março de 1788, Tiradentes, obtendo uma licença para tratar de negócios, partiu para o Rio de Janeiro, onde se avistou com José Alves Maciel, que se formara em Coimbra e tinha viajado pela Inglaterra.

Sendo Maciel cunhado do tenente-coronel comandante do regimento de dragões, em que servia o Tiradentes, foi este visitá-lo, e em confabulação, expôs-lhe o estado precário da capitania e a ameaça da extorsão pela derrama imposta ao povo.

Notou-lhe Maciel, incidentemente, que na Europa se estranhava geralmente não houvesse ainda o Brasil sacudido o jugo da metrópole, à exemplo das colônias britânicas na América do Norte.

A observação de Maciel foi uma palavra de luz para o espírito de Tiradentes para quem, desde aí, libertar a nossa terra se constituiu em ideia dominante, e empresa viável.

Convidou Silva Xavier, seu jovem amigo, para uma excursão aos rios Andaraí e Maracanã, onde pretendia instalar moinhos de vento, segundo os planos que submetera ao vice-rei do Brasil – Conde de Resende.

Falou a Maciel sobre o plano da sublevação da capitania com o qual concordou plenamente.

De regresso à Vila Rica, já no sítio de Cebolas, na Borda do Campo, em palestra com o coronel José Ayres e na fazenda do Registro, com o padre Manoel Rodrigues da Costa, foi dando início à propaganda quase sem reserva.

No seu regimento confiou o plano do levante ao tenente coronel Freire de Andrada, que a princípio a repeliu, mas acabou aquiescendo, tendo entrado a conjurar com Maciel, com o vigário de São José padre Carlos Corrêa de Toledo e Mello, o coronel Ignácio José de Alvarenga Peixoto, poeta e ex-ouvidor do Rio das Mortes, o padre José da Silva Oliveira Rolim, do Tejuco (Diamantina) e o coronel Domingos de Abreu Vieira.

Foram o padre Carlos de Toledo e Alvarenga Peixoto os emissários da ideia ao desembargador Thomaz Antônio Gonzaga, e ao advogado e poeta vizinho e amigo íntimo deste último, o Dr. Cláudio Manoel da Costa.

Estava lançada a conspiração.

Quadro Sinótico

Os movimentos de reivindicação nativista precursores da Inconfidência mineira foram, além das guerras civis dos Emboabas e Mascates, e de conflitos congêneres, os de Pernambuco, 1711, de Pedro Ribeiro da Silva e Bernardo Vieira de Mello; e o de Minas Gerais, 1720, de Filipe dos Santos.

Já em 1579, Felipe II, de Espanha, aventou a ideia de separação do Brasil, abraçada pelo Conde de Aranda, em 1786, projeto da União Ibérica na Europa.

Mas a Inconfidência mineira teve por fontes internacionais mais diretas – a Independência dos Estados Unidos (1776-1783) e a Revolução francesa, de 1789, cuja ideologia principalmente influiu nos chefes desse movimento, civis, eclesiásticos e militares.

Serviu de pretexto ao movimento dos Inconfidentes, a derrama do imposto do quinto do ouro em 1789, pelo Visconde de Barbacena, capitão-mor das Minas Gerais.

Foram suas principais figuras: o alferes do regimento de dragões dessa capitania, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, Alvarenga Peixoto, Thomaz Antônio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa, tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, José Álvares Maciel, padre Carlos Corrêa de Toledo e Mello, e coronel Domingos de Abreu Vieira.

Traços Biográficos

Dona Maria I, a Piedosa (1734-1816), filha de Dom José I, casada com seu tio, Dom Pedro III, Reinou de 1777 a 1816. Destituiu e fez processar o Marquês de Pombal.

Foram principais figuras do seu reinado, Martinho de Mello e Castro, o Duque de Lafões, e Sousa Coutinho, arcebispo de Tessalonica.

Fundou a Academia de Ciências, Biblioteca Pública e Casa Pia. Em 1792, a emoção produzida pelos sucessos da Revolução Francesa alteraram-lhe as faculdades mentais, assumindo a regência o príncipe Dom João. Em 1807, com a trasladação da corte e família real portuguesa veio para o Brasil, onde faleceu, em estado de demência, em 1816.

Nota

  • Ponto 15º – Lição 39ª

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Museu Sacro Histórico de Tiradentes, criado em 1972, em Sebollas, distrito de Paraíba do Sul, RJ.

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