Confederação dos Tamoios. Primeira Invasão dos Franceses no Rio de Janeiro. França Antártica

Até ao fim do governo de Thomé de Sousa e ao falecimento, em 1554, do donatário de Pernambuco, Duarte Coelho, manteve-se pacificamente o gentio do Nordeste, recolhido às suas tabas, na Bahia e Pernambuco, tais o respeito e a confiança que lhe souberam inspirar esses dois administradores.

A partir do segundo governo geral, porém, vítima de iniquidades e traições dos que administravam de Pernambuco até ao Rio de Janeiro, entraram os selvagens a investir contra as caiçaras que defendiam os povoados, destruindo plantações e assassinando, de surpresa, os colonos desprevenidos.

Nas capitanias de Porto-Seguro, Ilhéus e Espírito Santo mantinha-se verdadeira guerra de extermínio, movida pelos Tapuias, em represália.

Por sua vez os Tamoios, que campeavam em todo o litoral, entre a baía de São Salvador e Cabo Frio, se arregimentavam contra os portugueses.

À frente dessa ofensiva achavam-se Cunhambebe (movimento rasteiro da língua, exprimindo o falar cu-nhã-bebe. O homem de fala vagaroso e baixo — mansa — Th. Sampaio) e Aimbirê (o lagartejo).

Não eram propriamente aliados, mas cediam ao impulso comum de desforço contra os colonizadores.

Contínuas e cada vez mais audazes eram suas correrias e assaltos aos núcleos de povoação em São Vicente e Rio de Janeiro, não só nas ilhas, mas também em terra firme.

Centenas de ubás (canoas feitas com casca de árvore) e igaras (canoas grandes) formavam esquadrilhas de ataque, envolvendo os navios mercantes, a ponto de não mais temerem o estrondo dos canhões de bordo.

Tornavam-se tão perigosas as comunicações com as capitanias do Sul que, em grande parte, ficaram interrompidas.

Na abordada, em chusma, às próprias naus de guerra e aos navios de corso, durante a noite, conseguiam por vezes subjugar os tripulantes, trazendo-os amarrados para seus festins canibalescos.

Odiavam os Tamoios aos caraís (brancos europeus), mormente aos perós (Portugueses), mostrando, entretanto, simpatias pelos mairs (Franceses) de que foram seus aliados, em 1555, por ocasião do estabelecimento de Villegagnon, na baía de Guanabara.

A salvação da nascente colonização portuguesa no Brasil, que foi, em maior parte, obra social e moral dos jesuítas, e que esteve a ponto de submergir-se na carnificina, dependeu da missão de paz, levada a Iperoig (cercanias de Ubatuba), em 5 de Maio de 1563, ao cacique Coaquira pelos jesuítas Manuel da Nóbrega e José de Anchieta, como representantes oficiais da colônia lusitana.

Enquanto se negociava o tratado de Iperoig, ficaram esses dois jesuítas como reféns, pela plena aceitação e cumprimento das cláusulas do mesmo tratado por parte dos portugueses.

Ali souberam que cerca de duzentas canoas velozes, tripuladas por índios canoeiros e frecheiros, das margens do Paraíba, estavam prontas para um ataque e que todas as hostes de Tamoios em aliança com os Franceses, fortificados, havia alguns anos, no ilhéu de Serigipe, ou forte de Coligny (atual Villegagnon), teriam jurado não depor as armas senão depois de destruírem a capitania e reconquistado o senhorio de seu litoral.

Aliás desde a época do descobrimento, os corsários franceses nunca deixaram de percorrer a costa do Brasil.

Expelidos de Porto Seguro e Bahia, desceram até à ponta de Itapuã, daí ao litoral do Espírito Santo até Cabo Frio e Rio de Janeiro, principal ponto de concentração fortificado, e mais São Vicente.

Sempre rechaçados, buscaram a costa despovoada do Norte, de Itamaracá ao Maranhão.

Já o rei de França, Henrique II, demonstrava interesse pelo intercâmbio mercantil dos bretões e normandos com selvagens brasileiros.

Em 1533 e 1539 o francês Jean de Beserets aqui teria vindo sob o pretexto de procurar certa planta balsâmica para seu soberano Francisco I.

Em 1541 saíram de Rouen nove barcos com destino às costas de Guiné e do Brasil.

Em 1544 organizou-se um sindicato ruanês para o comércio ao sul do Atlântico, o qual armou e expediu do Havre, em 1546, 28 naus, com rumo ao nosso litoral. A bordo de um desses navios veio ao Brasil o aventureiro alemão Hans Staden, que esteve prisioneiro do cacique Cunhambebe, e, de volta, à terra natal, publicou uma narrativa de suas aventuras, algumas fantasistas. Desse livro há várias traduções, sendo a primeira do conselheiro Tristão de Alencar Araripe, estampada na Revista do Instituto Histórico (tomo 55, p. 1ª, 1892).

Por fim, no ano de 1555, foi preparada a primeira expedição com o objetivo oculto de colonização.

Nessa empresa entrou de parceria, em caráter particular, sob sigilo do verdadeiro destino, o próprio Henrique II, com a contribuição de 10 mil libras francesas e dos navios — La Grande Roberge e La Petite Roberge, saídos dos estaleiros de Brest e Saint Malo.

Constava ainda a frota de um transporte, La Rosée com cerca de 600 homens, entre os quais, além de fidalgos e pastores calvinistas, vinha a escória dos criminosos das prisões de Paris e de Rouen, todos sob o comando de Villegagnon.

Por uma trégua de cinco anos, assinada com dom João III, havia, aliás, o rei de França se comprometido a não autorizar incursões de pirataria contra os domínios portugueses.

A expedição, sob a proteção do almirante Gaspar Chatillon de Coligny, teve ainda por fim fundar no Brasil uma colonia francesa — a França Antártica, onde se refugiassem os protestantes, perseguidos na Europa.

Partiram as naus do Havre em Julho de 1555; um temporal, porém, obrigou-as a arribar por duas vezes a Dieppe, onde ficaram muitos condenados e mercenários.

A 10 de Novembro do mesmo ano chegava Villegagnon à baía de Guanabara, não ocupando nem a ilha da Lage (Ratier dos Franceses), nem a do Governador (Paranapucú, dos Tamoios), por achá-las pouco favoráveis à fortificação, preferindo levantá-la no ilhéu de Serigipe (atual Villegagnon), designado por forte de Coligny.

A princípio, soube Villegagnon impor-se aos seus compatriotas, devido, principalmente, à aliança feita com Cunhambebe e os Tamoios e também à artilharia do forte. E assim por perto de quatro anos puderam os invasores estabelecer no Rio de Janeiro, até Cabo Frio, um entreposto de contrabando em larga escala, de que auferiam grandes lucros.

Aliás se entendia, até ao século XVII, que essas terras não pertenciam mais a Portugal do que à França.

Em 1558, indispôs-se Villegagnon com os colonos, que promoveram um levante, sufocado a preço de muito sangue.

Nesse ano chegou ao Rio o cavalheiro Legendre, senhor de Bois-le-Comte, sobrinho de Villegagnon, acompanhado de mais alguns pastores protestantes, entre os quaes Jean de Lery, que escreveu interessante obra sobre a viagem e estadia no Brasil — História de uma viagem à terra do Brasil (1578), igualmente traduzida em primeira mão, para o português, pelo conselheiro Araripe.

Em 1559 Villegagnon regressou à França, com o fim de buscar novos elementos para estabelecer a Henriville, a nova capital da França Antártica, deixando Bois-le-Comte como substituto.

Quadro Sinótico

A falta de energia do segundo governador geral e desmandos de alguns donatários, bem como ao abandono em que o clero secular deixou os aborígenes, deve-se a revolta dos índios confederados contra os Portugueses (1554).

Nesse levante, que somente cessou depois do tratado de Iperoig (1563), negociado pelos padres Nóbrega e Anchieta, foram principais chefes dos selvagens os caciques Cunhambébe e Coaquira, aliados dos Franceses.

O rei de França, Henrique II, que se comprometera com dom João III a uma trégua de cinco anos nas incursões da pirataria francesa em nosso litoral, aprestou ocultamente a expedição de Nicolau Durand de Villegagnon, que em 10 de Novembro de 1555 aportou á baia de Guanabara, onde levantou no ilhéu de Serigipe (atual Villegagnon) o forte de Coligny, pretendendo construir a Henriville, que seria a capital da França Antártica.

Após um levante dos colonos, Villegagnon retirou-se em 1559 para a França, deixando por substituto Bois-le-Comte, seu sobrinhco vindo no ano anterior.

Traços Biográficos
Padre José Anchieta (1534-1597)

O padre José de Anchieta foi denominado o — Apóstolo do Brasil. Companheiro de missão e continuador de Nóbrega.

Jesuíta, sagrado venerável pela Igreja, naceu nas Canárias em 19 de Março de 1534. Estudou em Coimbra. Não era ainda padre e contava menos de 20 anos, quando acompanhou em 1553 0 segundo governador geral.

Era, ao mesmo tempo, missionário, mestre, médico, enfermeiro, intérprete e embaixador dos índios. Negociou o tratado de Iperoig, que salvou a colonia portuguesa de ser destruída pelos Tamoios. Dedicou-se, durante 44 anos, à missão no Brasil.

Deixou uma Gramática da língua mais usada na costa do Brasil (1595) e Informações e fragmentos históricos (1584-1586). Fundou o hospital da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, e é justamente considerado o criador da literatura e do teatro nacional.

Faleceu em 9 de Junho de 1597, na aldeia de Reritiba, atual cidade de Anchieta, no Estado do Espírito Santo.

Nicolau Durand de Villegagnon (1510-1571)

Nascido em Provins (França), era cavalheiro, nobre, soldado, marinheiro, diplomata, filólogo e historiógrafo. Publicou uma relação em latim sobre o malogrado ataque do imperador Carlos V a Argel.

Paul Gaffarel (Histoire du Brésil Français) considerava-o um dos maiores vultos do século XVI.

Filho de Luis Durand, senhor de Villegagnon, era tio do cavalheiro Legendre, senhor de Bois-le-Comte. Foi condiscípulo de Calvino na Universidade de Paris.

Homem de grandes ideias e de perseverança que não vacilava, Villegagnon era o indicado pelos Franceses para resolver e vencer as dificuldades na realização da França Antártica, que imaginara.

Nota

  • Ponto 4º – Lição 14ª

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • La France Antartique autrement le Rio Janeiro: tirée des voyages que villegagnon, et Jean de Leri ont faits au Brésil les années 1557 et 1558. [França], [17–?]. 1 mapa, 16,4 x23,3 em f. 22 x29,8. Disponível na: Biblioteca Nacional

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