Emboabas e Paulistas

Desde o século XVII, surgira no Brasil o sentimento nativista.

Os reinóis eram antipatizados, principalmente pelos mamalucos de São Paulo, que, peritos nas batidas do sertão, à caça dos escravos índios, se sentiram depois excitados como os portugueses, pela febre do ouro, ante a descoberta das primeiras jazidas.

Os bandeirantes da escravidão vermelha e dos garimpos não viam com bons olhos aos portugueses senhores dos sertões que eles haviam desbravado com tantos perigos; antes cobriam-nos de sarcasmos e alcunhas, tais como o de emboabas (a palavra que, diz Th. Sampaio, significa agredir-provocar), nome pelo qual eram os Lusitanos conhecidos em língua geral pelos gentios do Espírito Santo, e extensivo a todos forasteiros lusos na região das minas.

Essa animosidade étnica, incitada, porém, de parte a parte, menos pelo espirito de amor ao solo do Brasil do que as riquezas nele contidas, explodiu sob a forma do movimento rebelde chamado dos Emboabas.

Tendo chegado ao conhecimento de Portugal a notícia das descobertas das jazidas auríferas, logo se operou o êxodo de aventureiros lusos, verdadeiras levas de forasteiros, em demanda da nova Colchida maravilhosa.

Os Paulistas não disfarçaram seu ressentimento, e os reinóis foram tratados com prepotência e desprezo, o que gerou a irrupção dos ódios concentrados, provocada por um incidente mínimo.

Os Portugueses se constituindo exclusivos mercadores daqueles sertões tudo vendiam a preços exorbitantes.

O rompimento se deu no Caeté, por causa de um mosquete pertencente a um português, tratado brutalmente.

Contra isso, protestou seu compatrício Manuel Nunes Vianna, poderoso e rico emboaba, senhor de fazendas à margem do Carinhanha, destro na guerra contra os índios.

Em fins de 1708, começaram os Paulistas a armar-se e arregimentar-se, certos de que o trono e a legislação portuguesas não lhes dariam ganho de causa.

Manuel Nunes Vianna foi então escolhido chefe do movimento dos Portugueses, fartos de suportar em silêncio a arrogância e insultos dos garimpeiros e os capitães de mato Paulistas.

Já se haviam ferido os primeiros encontros à mão armada entre grupos adversários, quando na opulenta região aurífera do Rio das Velhas um português foi morto pelos escravos índios de um paulista, na vizinhança do já chamado rio das Mortes.

Em consequência disso, travou-se uma ação em que os Emboabas, pela exiguidade numérica, saíram vencidos.

Pedidos, porém, reforços a Nunes Vianna, acudiu-lhes este de pronto com um contingente de mil homens, do comando de Bento do Amaral Coutinho.

Após a ação, haviam os Paulistas se concentrado num capão abrigado, à margem do rio das Mortes, onde, de surpresa, se viram cercados por todos os lados pela tropa de Amaral Coutinho.

Depuseram os Paulistas as armas, com a condição de lhes serem poupadas as vidas sob juramento do chefe vencedor, que, entretanto, não cumpriu a palavra dada aos vencidos, pois, uma vez desarmados, mandou-os passar, um a um, a fio de espada, só escapando os poucos que lograram fugir, atravessando o rio.

Esse morticínio verificou-se no, por isso, chamado Capão da Traição, local, depois, conhecido por Matosinhos, nas proximidades de São João del Rei.

Orgulhosos com a vitória, os Portugueses proclamaram governador das minas a Manuel Nunes Vianna, que, em pouco, restabeleceu a ordem e administrou com bom senso. Bento do Amaral Coutinho e frei Francisco de Menezes, que representaram papel saliente na luta dos Emboabas, nos anos seguintes de 1710 e 1711, prestaram ainda assinalados serviços em defesa da cidade do Rio de Janeiro, por motivo das invasões francesa de Duclerc e Duguay-Trouin.

Diante dos sucessos ocorridos na região das minas, o governador e capitão-mór do Rio de Janeiro, d. Fernando Martins Mascarenhas de Lencastre, que tinha jurisdição sobre as minas, partiu logo para o local da ação, mas ao seu encontro marchou Nunes Vianna, que, em Congonhas, lhe embargou a passagem, e o intimou a retroceder.

Foi, assim, Nunes Vianna o primeiro ditador em nossa história pátria.

D. Fernando de Lencastre recolheu-se, então, a São Paulo, onde tratou de aumentar suas forças, para atacar os Emboabas, desistindo, porém, desse intento, em vista de, logo após, haver chegado o novo governador do Rio de Janeiro, que foi Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho.

Dirigindo-se este às Minas, foi sua autoridade, sem relutância, reconhecida por Nunes Vianna.

Concedido o indulto geral, seguiu para São Paulo onde lavrava grande descontentamento.

De regresso aos lares, os Paulistas, batidos, haviam sido recebidos com desprezo pelas próprias mães, esposas e filhas, que os estimulavam a retomar as armas e vingar a afronta sofrida com a expulsão das regiões auríferas.

Arregimentaram-se de novo sob o comando em chefe de Amador Bueno da Veiga e remarcharam para as minas.

Em Taubaté, o governador do Rio procurou demovê-los desse propósito, mas nada tendo conseguido, depois de avisar os Emboabas dos riscos que corriam, regressou à sede da capitania.

Durou a luta vários dias, sendo o número dos Paulistas muito superior ao dos Portugueses.

Entretanto, à notícia dos esforços do Rio de Janeiro, retiraram-se os Paulistas, durante a noite.

Buscaram, porém, aprestar nova expedição de ataque às minas, quando a metrópole solucionou em definitivo o caso entre reinóis e Paulistas, elevando a região do ouro à categoria de governo e jurisdição à parte, com o desmembramento pela carta régia de 9 de Novembro de 1709, de São Paulo e Minas do Ouro — da capitania do Rio de Janeiro.

Por seu governador, foi nomeado, em 1709, o mesmo Antônio de Albuquerque Coelho de Carvalho, que procedeu com grande tino político e administrativo, conseguindo obter o juramento de submissão definitiva, prestado por Nunes Vianna.

Em compensação aos serviços prestados indiretamente pelos bandeirantes paulistas, como fundadores dos primeiros núcleos de povoamento do sertão brasileiro, resolveu dom João V elevar a então vila de São Paulo à categoria de cidade, pela carta régia de 24 de Julho de 1711.

A perda das minas dos rios das Velhas e das Mortes levou os Paulistas, como compensação, a procurarem a zona ocidental do Brasil, ainda quase de todo inexplorada.

Assim foi que, em 1719, Paschoal Moreira Cabral descobriu ricas jazidas minerais em Mato Grosso; e em 1723, um filho de Anhanguera, Bartholomeu Pereira da Silva, devassou as lavras de Goiás.

Quadro Sinótico

Emboabas era o alcunha dado por escárnio aos Portugueses pelos Paulistas, em fins do século XVII.

Os reínóis, com a descoberta das minas, entraram a concorrer com os de São Paulo na exploração das lavras, a ponto de monopolizar o comércio, até se apoderarem da região aurífera.

O chefe dos Portugueses foi Manuel Nunes Vianna.

A guerra rebentou em fins de 1708.

O primeiro encontro de Bento do Amaral Coutinho, à frente de mil homens, deu-se junto ao rio das Mortes, depois chamado Capão da Traição, onde o chefe português mandou degolar os Paulistas.

Nunes Vianna foi aclamado governador das minas, e chefe militar com toda a autoridade no governo do rei d. Fernando de Lencastre.

Amador Bueno da Veiga, à frente de numeroso exército, marchou contra o inimigo com quem combateu vários dias, sem resultado.

O governo da metrópole pôs fim à luta, criando, pela carta régia de 9 de Novembro de 1709, a capitania de São Paulo e Minas de Ouro, desagregada da do Rio de Janeiro; e elevou a vila de São Paulo à categoria de cidade, em virtude da carta régia de 24 de Junho de 1711.

Traços Biográficos

Bento do Amaral Coutinho foi o comandante da companhia de estudantes por ocasião da primeira invasão francesa de João Francisco Duclerc (1710). Perto do morro do Desterro, bateu-se heroicamente, assim como frei Francisco de Menezes.

Na segunda invasão, de Duguay-Trouin, (1711), Amaral Coutinho prestou também excelentes serviços.

A 23 de Setembro desse ano, quando voltava de um reconhecimento à fortaleza de São João, encontrou perto da lagoa da Sentinela, no ponto de junção dos caminhos de Matacavalos e Capueruçú, (hoje rua Frei Caneca), duas companhias de granadeiros franceses, que foram logo atacadas; mas acudindo outras duas, do comando dos capitães Brugnon e Cheridan, foram os nossos destroçados, e Amaral Coutinho, que dois dias antes recebera a patente de mestre de campo, morreu em combate. (Rio-Branco, Ephemerides Brasileiras, pág. 459.)

Nota

  • Ponto 11º — 30ª Lição

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