Campa de Estácio de Sá

Estabelecimento da Segunda Sede da Cidade do Rio de Janeiro. — A Aldeia de São Lourenço

Em 1565 e 1566, prosseguiram, sem resultado, os recontros com os Franceses e Tamoios, à entrada e no interior da baía de Guanabara.

Num desses combates, junto à ilha de Paquetá (paca-etá, as pacas), distinguiu-se Belchior de Azevedo, capitão mór do Espírito Santo; noutro, empenharam-se 160 embarcações do inimigo, havendo sempre mortos e feridos de ambos os lados.

Naus francesas continuavam, nesse entretanto, no contrabando com os índios do litoral e ilhas da baía, desembarcando artilharia, munição e gente de guerra, e os Tamoios recebiam instrução militar dos Franceses.

Após a retirada, para o reino, da esquadrilha portuguesa, viu-se Estácio de Sá em grandes embaraços para defender a nascente cidade do Rio de Janeiro das investidas do gentio contra a primeira tranqueira da casa forte na várzea do morro Cara de Cão.

Informado Mem de Sá por Anchieta, que se fora ordenar à Bahia, da situação difícil em que se achava seu sobrinho Estácio de Sá, capitão mór do Rio de Janeiro, representou à Corte e dela alcançou, em março de 1566, a expedição de uma esquadrilha de três galeões, sob o comando de Christóvão de Barros.

Chegou este em agosto seguinte à Bahia, onde Mem de Sá fez incorporar à frota mais dois navios guarda-costas e seis caravelões.

Reunidos os reforços que obteve da gente e mantimentos das capitanias e dos índios da Bahia e Espírito Santo, partiu o terceiro governador-geral, em novembro de 1566, com destino ao Rio de Janeiro, onde aportou a 18 de janeiro de 1567, levando em seu séquito o 2º bispo, dom Pedro Leitão, em visita pastoral, e o missionário Ignácio de Azevedo, figura de santidade no martirológio da Companhia de Jesus (1570).

Desembarcados no Rio de Janeiro, reuniu Me, de Sá em conselho, a 19 de Janeiro, as primeiras autoridades civis e religiosas e as pessoas mais gradas da cidade.

Ficou resolvido que no dia seguinte, — 20 de janeiro, consagrado a São Sebastião, onomástico do monarca de Portugal, — se desse sob a invocação do santo, mártir e guerreiro, e tomado por Estácio de Sá por padroeiro da cidade, o ataque geral ao inimigo, em seus próprios redutos fortificados.

Antes de entrarem em ação foram as forças abençoadas pelo bispo dom Pedro Leitão, e Mem de Sá dirigiu-lhes uma fala, concitando-as a bater-se pela fé e pelo rei.

Achavam-se os Portugueses de posse do local da fundação da primitiva cidade e da Enseada da Carioca, que distava “da lage para dentro um tiro de berço (a boca de fogo curta, na artilharia antiga)”.

O ataque às fortificações de Biraoçú-mirim foi dirigido pelo padre Anchieta em pessoa, empunhando um crucifixo.

A primeira tranqueira do inimigo foi tomada de assalto; era defendida por onze Franceses, como oficiais dos Tamoios.

Morreu na refrega o capitão português Gaspar Barbosa, além de outros.

Dos Franceses pereceram seis e os cinco restantes foram passados a fio de espada. Perderam os Tamoios muitos dos seus e grande número deles conseguiu fugir.

Foi também ferido Estácio de Sá por uma flecha tamoia, envenenada, vindo a morrer um mês depois e sendo seus restos mortais depositados com todas as honras no chão da ermida por ele ereta, em frente ao altar de São Sebastião.

Em 1583, foram os despojos do primeiro fundador da cidade removidos para a igreja no antigo morro do Castelo, de onde, em nossos dias, por ocasião do primeiro centenário da Independência, foram trasladados para o convento provisório dos Capuchinhos e depois para o edifício definitivo desse convento, à rua Haddock Lobo.

Vencidos no primeiro encontro, retiraram-se em fuga os inimigos para a ilha de Paranapucú, atual Ilha do Governador, onde se concentraram mais de mil homens de guerra e muita artilharia.

Passados alguns dias, Mem de Sá mandou tomá-la de assalto, durando três dias o combate e nele se salientando Araribóia, o cacique dos Temiminós.

A tradição, dizem Mello Moraes pai e outros cronistas, conta ter sido visto o próprio santo, protetor da cidade, de envolta com os Portugueses, mamelucos e índios, batendo-se contra os calvinistas.

Rocha Pitta assinala que de sua imagem, colocada à proa das embarcações lusitanas, se irradiava tanta luz, que ofuscava a mira dos artilheiros franceses.

Varnhagen descreve também o combate naval.

Nos anais históricos da cidade, a efeméride de 20 de janeiro de 1567 consagra a ocupação definitiva de todo o litoral do Rio de Janeiro, e ficou sendo, desde 1896, feriado municipal.

Fundando a primitiva cidade a 1º. de março de 1565 na várzea do Cara de Cão, arbitrou-lhe Estácio de Sá o termo até um raio de seis léguas para cada lado; para patrimônio do conselho de vereança (Câmara Municipal) e rocio (largo) da povoação, doou-lhe légua e meia de terras, e deu-lhe por brasão de armas um molhe de setas.

Nomeou-lhe também as primeiras autoridades, que foram: juiz ordinário das terras, Pedro Martins Namorado, presidente da Câmara, vindo de igual cargo em Santos; provedor de fazenda real, dom Antônio de Mariz Coutinho; alcaide mór, Francisco Dias Pinto, ex-capitão em Porto Seguro; tabelião, escrivão de sesmarias e oficial de armas da cidade, Pedro Costa; carcereiro da cadeia pública, Domingos Fernandes.

Preencheu ainda os cargos de porteiro, meirinho, pregoeiro e outros de menor importância.

Concedeu datas de terras de sesmarias, lançou editais e posturas (bandos), um dos quais contra o jogo, impondo severas multas em beneficio da Confraria de São Sebastião, que tinha a seu cargo o culto do mesmo santo, na ermida levantada por Estácio de Sá, a qual se transformou na primitiva Sé Metropolitana do Rio de Janeiro.

Por iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, foi inaugurado, em 1915, na várzea do morro Cara de Cão, o marco determinando o local da fundação da primitiva cidade do Rio de Janeiro.

Celebradas as exéquias de Estácio de Sá, foi pelo governador-geral, seu tio, ordenada a trasladação da sede da cidade para sítio mais seguro no interior da enseada do Guanabara, sendo escolhido, ao meio dela e fronteiro à ilha de Villegagnon, o morro do Castelo, antigo de São Januário, pela sua posição estratégica.

Fez Mem de Sá construir as obras fortes da nova cidade, revestida de tranqueira, toda murada, de 20 palmos de largo por 20 de alto, com a cidadela (Castelo), no viso do morro.

Com auxílio dos colonos, missionários e índios, edificou a Sé, de três naves, baixa e quadrangular, a igreja e colégio dos padres da Companhia de Jesus, a Casa da Câmara, assobradada, os Armazéns da Fazenda Real, com varandas, e casas particulares de morada, cobertas de telha.

Para povoar a cidade, Mem de Sá mandou vir colonos portugueses e mamelucos e deu inicio à lavoura e grande criação de gado.

Confirmou, na forma da lei, a área de seis léguas e légua e meia para o termo, patrimônio e rocio, fixados por Estácio de Sá, em relação à Vila Velha, e concedeu as terras necessárias aos padres jesuítas para a fundação de seu terceiro colégio, no Rio de Janeiro.

Depois de assim estabelecida, considerou-se a capitania do Rio de Janeiro, qual era a da Bahia, como patrimônio exclusivo da real coroa, tendo Martim Affonso de Sousa, a quem pertencia antes o litoral do Rio de Janeiro, cedido a parte que lhe competia, desanexada da donataria de São Vicente.

Construíram-se mais dois fortes em frente ao morro do Castelo: — os de São Tiago, depois do Calabouço (onde esteve o Arsenal de Guerra), e Santa Cruz, nas proximidades da atual igreja da Cruz dos Militares, e ainda dois outros, à entrada da barra: — Nossa Senhora da Guia e São Teodósio.

Mem de Sá deu provimento aos cargos de administração e justiça, nomeando ouvidor Christóvão Monteiro, almoxarife real Ruy Gonçalves, porteiro e medidor de terras Mestre Vasco e os demais de alcaide mór e pequeno, juiz de órfãos, provedor de fazenda real, escrivão de notas e da câmara, almotacéis, meirinhos, etc.

Aos índios, auxiliares da conquista do Rio de Janeiro, foram distribuídas sesmarias no recôncavo e enseada fronteira (Niterói), onde se estabeleceram, formando aldeamentos ou reduções, que floresceram sob a catequese dos jesuítas.

A mais importante dessas doações foi a das terras da aldeia de São Lourenço, concedidas por foral de 16 de março de 1568 a Araribóia, o chefe dos Temiminós. Compreendiam três mil braças de comprimento por seis mil de largura, desde o morro de São Lourenço, por toda a praia, até Icaraí.

Confiando o governo da capitania do Rio de Janeiro ao seu sobrinho Salvador Corrêa de Sá, regressou Mem de Sá à Bahia em maio de 1568, com escala pelo Espírito Santo.

Quadro Sinótico

De 1565 a 1566, prosseguiram sem resultado os recontros com os Franceses e Tamoios.

1566 — Março — Expedição da esquadrilha portuguesa, de Christóvão de Barros, a que se incorpora Mem de Sá, composta de dois navios guarda-costas e seis caravelões, que em novembro desse ano partem para o Rio de Janeiro.

1567 — 18 de Janeiro — Aportam ao Rio de Janeiro, trazendo em seu séquito dom Pedro Leitão, segundo bispo do Brasil, em visita pastoral, e o missionário Ignácio de Azevedo.

1567 — 20 d Janeiro — Vitória dos Portugueses em Biraoçú-mirim, onde foram mortalmente feridos Gaspar Barbosa e Estácio de Sá, que faleceu um mês após.

Estabelecimento da nova sede da cidade do Rio de Janeiro, no morro do Castelo.

1568 — 16 de Março — Em atenção aos serviços que prestou na conquista definitiva do Rio de Janeiro, é concedida a Araribóia a sesmaria com a aldeia de São Lourenço (Niterói).

Tracos Biográficos
Estácio de Sá

Sobrinho do terceiro governador-geral do Brasil, Mem de Sá.

Veio provavelmente com este, em 1557, à Bahia, e também com Fernão de Sá, filho do governador, e outros primos, entre os quais Salvador Corrêa de Sá, o velho.

A 22 de novembro de 1559, foi nomeado capitão da galé Conceição, com o ordenado mensal de dois mil réis e mantimento de 500 réis.

Tomou parte na primeira expedição de Mem de Sá, em 1560, ao Rio de Janeiro.

De São Vicente foi mandado ao reino, em navio tomado aos Franceses pela galé Isaura.

Arribou à cidade do Salvador em 28 de dezembro de 1560, levando a bordo João Cointa, senhor de Bolés, em cujo processo depôs a 3 de janeiro de 1561.

Foi fundador, primeiro capitão mór e governador da capitania do Rio de Janeiro, cuja capital estabeleceu a 1º de Março de 1565 na várzea junto ao morro Cara de Cão.

Morreu a 20 de Fevereiro 1567, vítima de uma flechada no rosto, recebida no combate de Biraoçú-mirim, a 20 de janeiro daquele ano.

Foi sepultado na primeira ermida da primitiva cidade por ele fundada, sendo seus ossos trasladados para a Sé no antigo morro do Castelo e depois para a sede provisória do convento dos capuchinhos e posteriormente para a sede definitiva desse convento, à rua Haddock Lobo.

Nota

  • Ponto 5º – Lição 17ª

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Paróquia de São Sebastião – Frades Capuchinhos – Campa de Estácio de Sá

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