Expulsão dos Holandeses. Capitulação da Campina de Taborda. Tratado de Haia

Com a retirada do príncipe de Nassau, ficara à testa do governo do Brasil Holandês uma junta governativa, composta de Hendrik Hamel, Van Bullestrate e Kidd van der Burgh, sendo que, este último, pouco tempo depois foi substituído, entrando para seu lugar Pieter Jansen Baas.

Esses três membros não possuíam o valor de Nassau; praticaram vícios e erros de administração militar, que apressaram o desfecho da luta, com a expulsão definitiva dos Holandeses do Brasil.

Liberto previamente o Maranhão pela ofensiva do sargento-mor de batalhas Antônio Teixeira de Mello, com o triunfo obtido no combate do Outeiro da Cruz, em que obrigara os invasores a se retirarem para o Ceará, (28 de Fevereiro de 1644), iniciou-se o desmoronamento do Brasil Holandês.

André Vidal de Negreiros fora nomeado governador e capitão-general do Maranhão, em 11 de Agosto de 1645; e em Setembro seguinte partiu para Pernambuco com Nicolau Aranha, levando munições de guerra, a fim de ali avistar-se com o rico negociante português, senhor das terras e engenhos, João Fernandes Vieira, e com outros chefes, moradores abastados do Recife, seguindo depois para a Paraíba, munido de um salvo-conduto militar.

Regressando, à Bahia, Vidal de Negreiros foi nomeado governador das fronteiras do norte. Ordenou então ao capitão Antônio Dias Cardoso, que partisse para os sertões de Pernambuco, com 70 soldados, tendo o mesmo procedimento com Martim Soares Moreno e em relação aos chefes dos negros e dos índios e mamelucos, Henrique Dias e Poti (Felipe Camarão).

Em 23 de Maio de 1645, Fernandes Vieira, Antônio Cavalcanti e vários outros em Pernambuco, animados secretamente pelo governador geral do Brasil português, Antônio Telles da Silva, assinavam o compromisso de provocar uma insurreição para “libertar sua pátria”.

A revolução deveria explodir a 24 de Junho, mas João Fernandes Vieira e Antônio Dias Cardoso precipitaram-na, diante da delação feita por Sebastião de Carvalho, rompendo por isso a 13 de Junho de 1645. Os regimentos dos índios e dos negros comandados respectivamente por Camarão e Henrique Dias, para depois operar a junção com os insurretos e entrincheiraram-se no Engenho das Covas.

Os batavos, dirigidos pelo coronel Haus, com uma força de 800 homens, bem armados para ali se dirigiram; mas, saindo ao encontro o sargento-mor Antônio Dias Cardoso, infligindo-lhe completa derrota na batalha de Monte das Tabocas (3 de Agosto de 1645).

Dias Cardoso tinha um efetivo de mil homens, dos quais 200 armados de espingardas. Valeu-se de hábil tática para esmagar o inimigo. No calor da ação, fingindo uma retirada das forças do capitão Domingos Fagundes, atraiu os Holandeses, que saíram em perseguição do inimigo, vendo-se envolvidos entre dois fogos pelas forças adversárias de Fagundes e de Vieira, que lhes atacou de emboscada, pela retaguarda. A ação foi violentíssima, em meio do taquaral grosso (tabocas), que deu nome ao monte. Durou cinco horas, batendo enfim em retirada os Holandeses, deixando estendidos no campo de batalha 400 mortos, ou seja metade de seu efetivo e incluídos os feridos, que foram em número avultado, pôde-se dizer que o inimigo foi esmagado.

O chefe holandês Haus foi obrigado a depor as armas no combate de Casa forte (7 de Agosto de 1645).

Em regozijo da vitória, João Fernandes Vieira libertou 50 escravos, seus, que se haviam batido, alistando-os como soldados, tendo sido aclamado pelo clero, nobreza e povo, governador da Independência, cuja divisa era – Deus e Liberdade.

André Vidal atacou então a coluna holandesa, comandada por Jan Blaer. Entrincheirou-se este no engenho de With, tendo resistido por algum tempo, mas afinal capitulou.

Entrementes rendiam-se também três fortes do inimigo – o de Sirinhaém, a Soares Moreno; o de Nazareth, a Vidal de Negreiros, e o de Maurício, hoje cidade de Penedo, ao capitão Nicolau Aranha.

Em Porto Calvo, os Holandeses renderam-se a Cristóvão Lins.

Olinda foi retomada.

Lichthardt havia desbaratado a 9 de Setembro a esquadrilha de Benício de Paiva, vinda da Bahia.

Formaram então uma nova base de operações, denominada – Arraial Novo do Bom Jesus – sendo aclamado governador João Fernandes Vieira.

Por seu turno, Camarão derrotava os Holandeses no Rio Grande do Norte, seguindo após para a Paraíba. Cada vez, se apertava o cerco do Recife, já prestes a capitular, quando chegou a esquadra do almirante Banckert, que trazia o general Segismundo van Schkoppe com 2.400 homens de tropas frescas e vasta cópia de material bélico.

E, para pôr termo às hostilidades, vendo perigar seu domínio no Brasil, ofereceu o governo batavo a anistia geral, que não foi aceita, prosseguindo a luta encarniçada.

À aproximação daqueles reforços, Vidal e Vieira, que já haviam batido o inimigo em Itamaracá, viram-se obrigados a evacuar essa ilha, tendo Camarão saído ferido em combate.

A 15 de Agosto de 1646, van Schkoppe sofreu um revés no ataque à Olinda; e pelo fim desse ano os Holandeses reocuparam Penedo, a foz do Rio São Francisco, e a 8 de Fevereiro de 1647, a Ilha de Itaparica, ação em que morreu o Mestre de Campo Francisco Rebello (10 de Agosto).

Mas logo após, van Schkoppe teve de abandonar a ilha, embarcando precipitadamente, chamado ao Recife.

Chegava depois à Bahia, com algum reforço, o novo governador geral do Brasil, Antônio Telles de Menezes (Conde de Vila Pouca de Aguiar). Por Mestre de Campo e general das tropas de Pernambuco veio Francisco Barreto de Meneses. Aos Holandeses chegavam, também, grandes reforços, trazidos pelo almirante De With; e o general van Schkoppe resolveu romper no Recife a ofensiva geral contra o exército sitiante, comandado pelo general Barreto de Meneses.

A 19 de Abril de 1648, sobre os montes Guararapes, travou-se a primeira batalha que a nossa história registra com esse nome. Completa foi a vitória de Barreto de Meneses. Logo após, em combate naval em águas da Bahia, entre as esquadras de De With e de Silva Telles, no qual o comandante do galeão português Rosário, frei Pedro Carneiro, abordado por dois navios adversários, vendo baldados todos seus esforços para resistência, deitou fogo ao paiol, e com a explosão, arrastou dois navios holandeses.

Por esse tempo, o capitão-mor do Rio de Janeiro, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, apoderava-se dos fortes de Loanda, retomando Angola aos Holandeses.

Em 19 de Fevereiro de 1649, feriu-se a segunda batalha dos Guararapes, vencida por Barreto de Meneses, que infligiu sérias perdas aos de Holanda.

Rio-Branco diz que só a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres recorda estas duas jornadas.

O coronel Van den Broeck, à frente de 3.500 homens, foi derrotado e morto na ação. Barreto de Meneses comandava 2.600 homens.

Além de Van den Broeck, Brinck, e do vice-almirante Gillissin, perdeu o inimigo 92 oficiais e grande número de inferiores e praças.

Alguns meses após, tombavam no Arraial Novo, o bravo Poti, Antônio Felipe Camarão, cuja mulher, Dona Clara Camarão, com suas companheiras do Tejucupapo, celebrizaram-se nas lutas holandesas. Felipe IV dera-lhe o título de Dom, o foro de fidalgo, o hábito de Cristo e a patente de capitão-mor das Índias Ocidentais.

Prolongou-se ainda a luta durante cinco anos, mas o declínio do poder holandês no Brasil foi apressado pela declaração de guerra entre a Holanda e Inglaterra, em 1652, assim também pela criação da Companhia do Comércio do Brasil, em contraposição à das Índias Ocidentais, a qual, além do monopólio de alguns gêneros, tinha por obrigação mandar duas esquadras por ano, para comboiar os navios mercantes, o que concorreu para expulsar definitivamente do Brasil os Holandeses.

Com várias dessas esquadras vieram consideráveis reforços, até que, em Dezembro de 1653, a frota sob o comando de Pedro Jacques de Magalhães, depois Visconde de Fonte Arcada, com 60 navios, pôs termo à luta, por uma ação conjunta entre os chefes de mar e terra.

Sigismundo van Schkoppe foi atacado, a 20 de Janeiro de 1654, em seu reduto, o Recife, defendido pelo forte das Cinco Pontas, e capitulou, assinando-se a 26 de Janeiro seguinte o acordo de Campina da Taborda. Mas o tratado definitivo de paz entre Holanda e Portugal, por mediação da Inglaterra, só foi firmado em Haia, a 6 de Agosto de 1661.

Em virtude desse tratado, Portugal, além de abrir mão de seus direitos sobre as Molucas, Malaca, Ceilão e mais terras que havia perdido, se obrigou a pagar por si e pela sua colônia, o Brasil, no prazo de 16 anos, em prestações anuais de 250 mil cruzados, a quantia de quatro milhões de cruzados em dinheiro, açúcar ou tabaco!

Ao Brasil, cumpriu-lhe entrar com a quota anual de 120 mil cruzados, durante esse prazo, não bastando, o sacrifício e a luta que teve de sustentar, quase sozinho, tal o insignificante auxílio que recebera da metrópole!

Quadro Sinótico

Maurício de Nassau foi substituído em 1644, por um triunvirato, composto de Hamel, van Bullestrate, van der Burgh, e depois Jansen Baas. Muito inferiores a Nassau, apressaram a queda do poder batavo no Brasil.

Teixeira de Mello, sargento-mor, libertou o Maranhão (combate de Outeiro da Cruz, 28 de Fevereiro de 1644).

Vidal de Negreiros, governador do Maranhão, foi nomeado governador da fronteira do norte.

Em 23 de Maio de 1645, um rico negociante luso do Recife, João Fernandes Vieira, assinava com os chefes Antônio Cavalcanti, Dias Cardoso e vários outros, em Pernambuco, animados secretamente pelo governador geral, Antônio Telles da Silva, o compromisso de provocarem um levante, para libertar o Brasil do jugo holandês.

A revolução rebentou a 13 de Junho de 1645.

Pouco depois operavam junção aos insurretos os chefes Felipe Camarão (Poti) que comandava os índios, e Henrique Dias, dos negros, regimento henriquino, entrincheirando-se no Engenho das Covas.

O coronel holandês Haus, com 800 homens, foi batido no Monte das Tabocas (batalha de 3 de Agosto de 1645).

Seguiram-se os revezes infligidos a Jan Blaer, no engenho de With, a tomada ao inimigo dos fortes de Sirinhaém, por Soares Moreno; de Nazareth, por Vidal de Negreiros; e o de Maurício, sítio da atual cidade de Penedo, pelo capitão Nicolau Aranha; de Porto Calvo, por Cristóvão Lins.

Formou-se a nova base de operações no Arraial Novo do Bom Jesus (Janeiro de 1646).

Lichthardt desbaratou a esquadrilha de Serrão de Paiva, vinda da Bahia (9 de Setembro).

Depois da rendição de Olinda, começaram os Independentes a sitiar o Recife.

Em 1648, foi enviado do reino, por mestre de campo e general das tropas de Pernambuco, Francisco Barreto de Meneses.

A 19 de Abril de 1648, e 19 de Fevereiro de 1649, feriram-se as duas batalhas de Guararapes, contra os Holandeses.

A guerra entre Inglaterra e Holanda e a formação da Companhia de Comércio do Brasil decidiram o desfecho da guerra holandesa.

Em Dezembro de 1653, a esquadra de Pedro Jacques de Magalhães (60 navios) operou ação conjunta final com o exército de terra, de que resultaram a capitulação de Campina da Taborda (26 de Janeiro de 1654) e a negociação definitiva da paz (Tratado de Haia, 6 de Agosto de 1661).

Traços Biográficos

João Fernandes Vieira, natural da Ilha da Madeira, aportou como emigrante a Pernambuco, onde conseguiu fazer fortuna no comércio e desposou uma senhora de abastada família pernambucana. Chefe da conspiração, reuniu mil homens e soltou o brado de independência, alcançando vitórias sucessivas sobre o inimigo nas Tabocas (1645) e em Guararapes (1648 e 1649), tendo por companheiros Camarão, Henrique Dias, Soares Moreno e Dias Cardoso.

A 7 de Outubro de 1645, o clero, nobreza e povo o aclamaram por “governador da independência”.

Dom João IV o recompensou com o foro de fidalgo, o governo da Paraíba e, mais tarde, de Angola.

Faleceu em Olinda, a 10 de Janeiro de 1681.

André Vidal de Negreiros – uma das figuras da guerra da independência contra os invasores holandeses.

Natural da Paraíba do Norte; herói das batalhas de Casa Forte e Guararapes.

Quando, em começo de 1646, Dom João IV, constrangido pela Holanda, mandou ordem aos chefes dos revoltosos para que abandonassem a insurreição, aceitou-a Martim Soares Moreno, mas Vidal de Negreiros e João Fernandes Vieira protestaram em prosseguir a luta, declarando se sujeitarem a receber no reino o castigo dessa desobediência só depois de expulsos do Brasil os Holandeses.

Foi, depois da vitória, governador do Maranhão, de Pernambuco e de Angola. Faleceu em 1691.

Padre Antônio Vieira (1608-1697), o Crisóstomo Português e um dos melhores clássicos seiscentistas.

Nasceu em Lisboa em 1608, veio para o Brasil com oito anos de idade.

Em 1640 acompanhou a Portugal Dom Fernando de Mascarenhas.

Foi no ano de 1640 que ele pregou o famoso sermão pelo sucesso das armas de Portugal contra as da Holanda.

Faleceu em 1697.

Nota

  • Ponto 8º – 26ª Lição

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Batalha dos Guararapes, de Victor Meirelles. Óleo sobre tela, 500 x 925 cm, 1875. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.

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