Guerra da Sucessão da Espanha

Efeitos no Brasil: Invasão Francesa do Rio de Janeiro, por João Francisco Duclerc

Em 1700, faleceu, sem descendência, Carlos II, rei da Espanha, legando, em testamento, o trono ao duque Filipe de Anjou, neto do rei de França, Luís XIV.

O tratado de Londres, assinado pouco antes, com as outras potências, atribuía, entretanto, a sucessão quase total ao arquiduque Carlos, filho do imperador da Alemanha.

Afinal, Luís XIV decidiu-se pela validade do testamento, e o trono espanhol foi ocupado pelo duque de Anjou, sob o nome de Filipe V.

Infringido que foi assim o tratado de Londres, a Inglaterra, a Holanda e a Alemanha formaram uma aliança contra Filipe V e seu protetor, Luís XIV, isto é, contra a Espanha e a França.

Travada a guerra, após treze anos de luta, saíram derrotadas estas últimas; e pelos tratados de Utrecht e Rastatt, se regulou a divisão sucessória, objeto da campanha.

Filipe V manteve, ainda assim, o trono de Espanha, porquanto o arquiduque Carlos havia sido, nesse entremente, coroado imperador da Alemanha.

A França ficara exausta.

Quanto a Portugal, seu soberano vacilou no partido a tomar, pois aliado, a princípio, da Espanha e da França, passou-se depois para os Ingleses, seguindo a velha política diplomática. Assinou, em 1703, o tratado de Methuen, negociado pelo plenipotenciário desse nome.

Feita a paz, ainda Portugal e Espanha debateram por largo tempo a questão, firmando afinal o tratado de Utrecht, de 6 de Fevereiro de 1715.

Da entrada de Portugal na Guerra de sucessão da Espanha, em hostilidade à França, decorreram desastrosas represálias para o Brasil, entre as quais as invasões francesas d 1710 e 1711, de que resultaram a tomada e resgate da cidade do Rio de Janeiro e o ataque dos espanhóis à colônia do Sacramento.

Durante o governo de Francisco de Castro Morais, verificou-se, em 1710, a invasão de João Francisco Duclerc, natural de Guadalupe, sob a proteção oficial de Luís XIV para o fim da ocupação pelas armas e saque de cidades, como já haviam praticado por mais de uma feita, os piratas franceses com a cidade de Cartagena, na Colômbia.

A expedição de Duclerc foi uma aventura, no conceito de Duguay-Trouin, o segundo invasor francês do Rio de Janeiro, em 1711, em suas Memórias, publicadas em 1740, com uma planta desta capital.

Acreditou Duclerc ser de fácil empresa o assalto à praça forte do Rio, que já possuía 12 mil almas, constituindo florescente núcleo de lavoura e comércio, e gozando, no exterior, seus habitantes de fama de opulentos, mas indolentes fazendeiros.

O porto era regularmente fortificado, embora com as guarnições muito desfalcadas, possuindo as fortalezas de Santa Cruz, Villegagnon, São João, Lage, São Thiago, Boa Viagem, Praia Vermelha, São Sebastião, Santa Luzia e São Januário, antigo Castelo.

Ao governador Castro Morais faltavam recursos materiais de defesa, e qualidades militares para organizá-la.

A expedição de Duclerc constava de uma nau, quatro fragatas e uma balandra de mantimentos, com 1.100 homens de armas e equipagem, que a 10 de maio de 1710 levantaram ferro do porto francês de La Rochelle.

Avisado em tempo dos preparativos dessa expedição, solicitou Castro Moraes à metrópole portuguesa auxílios de homens e material bélico, não sendo, entretanto, atendido.

Uma nau inglesa, que se achava em Cabo Frio, e os moradores dessa vila e os da Ilha Grande, aonde a expedição do corso arribara, praticando atentados e saques, deram-lhe aviso da próxima chegada ao Rio dos navios atacantes.

Como providência, convocou o governador as milícias da terra e mandou escavar um fosso, que ia do morro de Santo Antônio ao da Conceição.

Em começo de setembro de 1710, as fragatas francesas, a balandra na vanguarda, chegavam à vista da barra do Rio de Janeiro; mas, repelidas pelos fogos da fortaleza de Santa Cruz, simularam um desembarque na barra da Tijuca e em Copacabana; e, iludindo a vigilância das sentinelas de milícias, destacadas de guarda ao litoral, fizeram seus homens saltar na praia de Guaratiba, de onde vieram por Camorim e Jacarepaguá, guiados por um preto, sem encontrar resistência alguma, em sete dias de marchas forçadas, mato a dentro, rotos, descalços, mortos de cansaço, evitando a estrada.

A 18 de Setembro de 1710 acamparam, à noite, no Engenho Velho.

O governador concentrou-se com o grosso das tropas, no campo do Rosário, em vez de aguardar o inimigo fora das portas da cidade e cortar-lhe a retirada.

A ação durou três horas, das 8 às 11 da manhã.

Vendo a inércia de Castro Moraes e a deserção dos oficiais da Câmara, o povo carioca acorreu em massa, a pegar em armas, em defesa da cidade.

Paisanos, operários, estudantes do páteo do Colégio dos Jesuítas, companhias de ordenanças, milicianos, clérigos e frades do Carmo e de Santo Antônio, mulatos e escravos, correram ao encontro do invasor, que, às 7 horas da manhã de 19 de Setembro, levantou acampamento do Engenho Velho.

Chegando à Lagoa da Sentinela, cruzamento do Capueruçú, tomaram pelo Caminho de Mata Cavalos, atuais ruas Frei Caneca e Riachuelo, em direção ao morro do Desterro (Santa Teresa), onde foram hostilizados, de flanco, por um contingente sob o comando de dois heróis da luta dos Emboabas, travada no ano antecedente (1709) — Bento do Amaral e frei Francisco de Menezes, que manejavam uma peça de artilharia.

Duclerc caminhava na vanguarda, empunhando o bastão de general.

Descendo o morro do Desterro, deixando mortos e feridos pelo caminho, seguiram pelo caminho do Castelo, hoje rua Evaristo da Veiga, em direção ao forte que pretendiam tomar, sendo, porém, obrigados a recuar, em consequência de uma descarga de artilharia do Castelo, que lhes produziu muitas baixas.

Em frente à atual igreja do Parto, bateram-se com a companhia do capitão Francisco Xavier, seguindo depois para o centro da cidade, sempre alvejados das janelas e telhados, pelos moradores, que sobre eles descarregavam armas, móveis, garrafas, tábuas, pedras, água e azeite fervente.

Junto ao convento do Carmo (hoje praça 15 de Novembro), travou-se a luta corpo a corpo, a arma branca.

Explodiu então o depósito de pólvora da Casa da Alfândega; e os franceses buscavam apoderar-se da casa contígua ao palácio do governador, que foi defendida pelo irmão do mesmo governador.

Houve 400 baixas entre os franceses, e 70 óbitos dos nossos, segundo consta dos assentos da Sé.

Gregório de Castro Moraes, ex-capitão-mór do rei, com seu regimento de infantaria, uma companhia de estudantes e cavalaria, bateu-se com denodo, em frente ao forte de São Thiago, sede da atual igreja Cruz dos Militares, caindo aí mortalmente ferido, bem como outro comandante da companhia do seu terço.

Vendo-se perdido, entrincheirou-se Duclerc, com o remanescente das forças, no denominado Trapiche da Cidade, esperando pela entrada dos seus navios.

Às 11 horas, estava terminada a luta e os sinos de todas as igrejas entraram a tocar festivamente.

Só então o governador Castro Moraes resolveu-se a sair do campo do Rosário e por cerco ao reduto de Duclerc, intimando-o a render-se, sob pena de mandar por fogo ao trapiche.

Entregou-se o invasor à prisão com os seus, sendo recolhido ao Colégio dos Jesuítas, com sentinela à vista, e depois transferido para uma casa da rua da Candelária, do tenente Thomaz Gomes da Silva, sob a guarda de dez soldados, onde, na noite de 18 de março de 1711, foi misteriosamente assassinado, por quatro indivíduos embuçados, sendo sepultado na igreja da Candelária, capela de São Pedro.

Quadro Sinótico

Da entrada de Portugal na guerra de sucessão de Espanha, contra a França, para cujo trono Luís XIV designara seu neto, o duque de Anjou, que assumiu o trono sob o nome de Filipe V, resultaram as duas invasões francesas para tomada e saque da cidade do Rio de Janeiro, em 1710 e 1711, chefiadas, respectivamente, por — João Francisco Duclerc e Duguay Trouin.

Era então governador do Rio de Janeiro Francisco de Castro Morais.

Duclerc, tendo aparecido com uma esquadrilha de cinco velas e 1.100 homens, a 16 de agosto de 1710, repelida pelos fogos da fortaleza de Santa Cruz, foi desembarcar, às ocultas, em Guaratiba, donde, por Jacarepaguá e Engenho Velho, a 18 de setembro, marchou até o centro da cidade, onde foi batido pelas milicias e população carioca. Bento do Amaral Coutinho, frei Francisco de Menezes e Gregório de Castro Morais, são os nomes que mais honraram a defesa, tendo este último sucumbido na luta. Duclerc, que se encurralara no trapiche da cidade, foi preso e recolhido ao Colégio dos Jesuítas, e daí transferido para uma casa da rua da Candelária, onde foi misteriosamente assassinado, seis meses após.

Traços Biográficos

João Francisco Duclerc, cujo prenome aparece também como Carlos Francisco, chefe da primeira expedição francesa, que invadiu, em 1710, a cidade do Rio de Janeiro, era um crioulo de Guadalupe.

Ainda jovem e audacioso, exercera funções de administrador numa cidade do Haiti, onde estivera em contacto com os corsários da ilha de Tartaruga, que infestavam os mares meridionais e o sul do Atlântico, especialmente as águas brasileiras.

Depois de seu insucesso completo, na invasão do Rio de Janeiro, foi preso a 19 de Setembro de 1710 e recolhido primeiro ao Colégio dos Jesuítas, depois a uma casa da rua da Candelária, do tenente Thomaz Gomes de Lisboa, sob a guarda de dez soldados.

Não obstante, apareceu morto com um pontaço, na noite de 18 de março de 1711, por quatro indivíduos embuçados, dois dos quais ficaram à porta e dois outros entraram. Foi sepultado na igreja da Candelária, capela de São Pedro, conforme se vê do registro de óbitos, lavrado na mesma igreja.

Nota

  • Ponto 12º — 32ª Lição

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Trapiche da Cidade no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A. M. Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

Mapa (Igreja da Candelária)