Invasão do Rio de Janeiro, por Duguay-Trouin

O insucesso da aventura de Duclerc levou Luís XIV, em desagravo, a prestar mão forte à organização de outra expedição, composta de 17 navios, com 742 bocas de fogo, 5.396 homens, sendo quatro mil de desembarque, sob o comando de Renato Duguay-Trouin, com carta de corso a serviço e título de almirante.

Essa empresa teve por diretores seis abastados armadores franceses, e custou cerca de 1.200.000 libras francesas.

As unidades foram armadas, sob o maior sigilo, em vários portos e estaleiros de Brest, Rochefort, Dunkerque e Saint-Malo, sob o pretexto de uma sortida aos mares setentrionais onde Duguay-Trouin exercia o corso.

Governava ainda a capitania do Rio de Janeiro o mesmo Francisco de Castro Moraes, que tão fracas provas dera de resistência na invasão anterior, e piores daria na segunda.

É justo, porém, assinalar que Castro Moraes dispunha de recursos insuficientes para enfrentar a poderosa armada; e que os solicitou reiteradamente do rei dom João V, sem ser atendido, o qual se limitou a fazer partir mais cedo a frota de guerra, então composta de quatro navios e três fragatas.

A guarnição do Rio de Janeiro não passava de 2.270 praças, com 650 bocas de fogo nas baterias e fortalezas da barra e do porto.

A 9 de Junho de 1711, saiu a expedição francesa do porto de La Rochele para a costa do Brasil; e na madrugada de 12 de Setembro seguinte, protegidos pela cerração, entraram os navios na baía de Guanabara, fundeando entre as ilhas das Cobras e Villegagnon.

O mestre de campo do mar, Costa de Albuquerque, o Maquinez, mandou cortar as amarras dos seus navios, e lhe pôs fogo.

Tomada a ilha das Cobras, romperam os Franceses cerrado tiroteio contra o Castelo e as baterias de São Bento, sob o comando de José Correa da Costa e Gillet du Bocage.

Uma bomba fez explodir o paiol da pólvora de Villegagnon, onde sucumbiram, além de mais dois capitães, um filho do mestre de campo Gregório de Castro Moraes.

Ocupou depois Duguay-Trouin a ilha do Pina, no Saco do Alferes, onde montou uma bateria, para proteger o desembarque geral de suas tropas, efetuado a 14 de Setembro, na praia do Valongo.

Estacionados ali cerca de quatro mil homens, formando três brigadas, comandadas pelos oficiais Goyon, (vanguarda); Duguay-Trouin, (centro), e Courserac, (retaguarda), seu imediato na expedição, marcharam pelos mangues de São Diogo, formando no então Campo de Santa Ana (atual Praça da República).

A única resistência que encontraram foi a da força de Bento Amaral Coutinho, morto combatendo como herói.

Confessa Duguay-Trouin em suas Memórias que, embora tivesse o triplo das gentes darmas, não poderia ter evitado que os moradores do Rio conseguissem uma retirada pelos caminhos de São Cristóvão e Engenho Velho, com todos os seus haveres.

A 19 de Setembro de 1711, um ano justo da derrota infligida a Duc1erc, Duguay-Trouin intimou o governador Castro Moraes a entregar a praça ao rei da França, sob pena de levar tudo a ferro e a fogo.

Cumpre ainda consignar a honrosa resposta dada pelo capitão-mór do Rio de Janeiro, de que defenderia a cidade até a última gota de sangue.

Começou então o bombardeio com o fogo das baterias inimigas, especialmente da ilha das Cobras.

Ao mesmo tempo, alguns dos nossos corpos entraram a desertar, impetuosamente alvejados.

O governador não decidiu, por si só, a entrega da cidade; pois é fato que, por várias vezes reuniu em conselho o juiz de fora, os oficiais da Câmara, os mestres de campo e comandantes de corpos; e, tendo-se, por maioria, opinado ser impossível resistir ao invasor, foi afinal deliberada a entrega.

Vendo-se então abandonado pelas forças e pela população, que, tomada de pânico, retirou-se em massa durante o temporal que abateu sobre a cidade, na noite de 21 de Setembro, Castro Moraes refugiou-se na fazenda dos Jesuítas, no Engenho Velho, de onde seguiu para Iguaçu.

Antes disso foi feita a negociação para o resgate do Rio de Janeiro, no mangue da cidade, tendo servido de parlamentários, por parte dos Portugueses, dois oficiais e o velho jesuíta padre Antônio Cordeiro, pela importância de 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois, adiantada pelos cofres públicos, comunidades religiosas e particulares.

Tendo sido retirada a guarda da cadeia, os antigos prisioneiros franceses do tempo de Duclerc, arrombaram-lhes as grades e, antecipando-se aos invasores, saquearam a cidade.

“Era contristador depois do saque, narra um oficial da frota de Duguay-Trouin, testemunha ocular dos fatos, Du Plessis Parseau, o aspecto das ruas e das praças do Rio, arrombados os armazéns pela soldadesca, viam-se os trastes de grande custo dependurados, objetos de luxo no meio da lama.

“O vinho misturado com o açúcar e outros gêneros formavam uma camada espessa, sobre a qual era difícil caminhar.

“Por toda parte, papéis rotos, roupas aos montes; até os ornamentos das igrejas não escaparam à fúria da soldadesca desenfreada”.

Os lucros da empresa organizada, conforme constava da carta de corso, passada pelo rei a Duguay-Trouin, para o fim principal de “saquear a colônia do Rio de Janeiro, uma das mais ricas e poderosas do Brasil”, segundo em suas Memórias se exprime o próprio chefe francês dessa expedição, montaram a 92 % não obstante se haverem perdido de regresso dois navios com grande parte da presa, por motivo de um temporal.

Duguay-Trouin, para fechar imediatamente a transação, levou a mais do estipulado 10 mil cruzados da fazenda particular do governador, com o receio em que se achava de ver inutilizada a aventura de um momento para outro.

De fato, um reforço de cerca de 6 mil homens que o governador mandara pedir, ao ter aviso da invasão por um navio inglês, compostos de Paulistas e Mineiros, sob o comando do governador da respectiva capitania, estava a quatro léguas apenas do Rio, quando se concluiu o resgate.

O comandante das tropas de reforço, nada mais podendo fazer em socorro do Rio de Janeiro, apenas chegado, assumiu logo o governo da capitania, em cumprimento de ordem régia.

Francisco de Castro Moraes que, em consequência desse desastre, recebeu do povo carioca o deprimente vulgo de — Vaca, e cujo procedimento assumiu para alguns as meias cores de uma traição, foi condenado a degredo perpétuo numa prisão da Índia, além do confisco dos bens.

Mas a atitude de Castro Moraes foi, ainda assim, ressalvada pelo próprio Duguay-Trouin, quando, em suas Memórias, o reputou “um defensor valoroso”.

Quadro Sinótico

A segunda invasão francesa e tomada da cidade do Rio de Janeiro foi a de Duguay-Trouin, que, com uma esquadra de 17 navios e mais de cinco mil homens, dela se apoderou facilmente a 12 de Setembro de 1711, sendo governador e capitão-mór do Rio de Janeiro, Francisco de Castro Moraes.

Após bombardeio intenso, e diante da impossibilidade de qualquer resistência, o governador resolveu capitular, entrando em negociação para o resgate da cidade, que foi pelos invasores estipulado em 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois.

O governador, que se retirou para Iguaçu, foi condenado à pena de prisão perpétua numa fortaleza da Índia, sendo seus bens confiscados.

Traços Biográficos

Renato Duguay-Trouin (1673-1736), corsário francês, nascido em Saint-Malo, ilustrou-se durante as guerras de Luís XIV.

Invadiu e saqueou sem resistência a cidade do Rio de Janeiro, em 1711, colhendo abundante presa afora o preço do seu resgate por 610 mil cruzados, 100 caixas de açúcar e 200 bois. De regresso à Europa, viu-se salteado por tempestades e perdeu dois dos 17 navios que trouxera, e boa parte da presa feita.

Morreu quase pobre em 1736.

Gregório de Castro Moraes, mestre de campo, fez parte da junta interina que governou a capitania do Rio de Janeiro, na ausência do governador d. Fernando de Lancastre, e como substituto de Antônio de Albuquerque de Carvalho: pai do capitão Francisco Xavier de Moraes, que se bateu com Duclerc na posição em frente à igreja do Parto.

Morreu a 19 de Setembro de 1710, no final da luta travada na rua Direita, contra Duclerc.

Francisco de Castro Moraes, governador português do Rio de Janeiro durante as invasões francesas de 1710-1711.

Devido à sua atitude, em que deu provas de lamentável fraqueza, embora dispondo de forças precárias, que concentrou no Campo do Rosário, recusando-se a combater na primeira invasão, abandonando a cidade com todas as tropas, e ajustando com o segundo invasor um resgate vergonhoso da cidade, mediante avultada quantia, quando as forças de Antônio de Albuquerque, com cerca de seis mil paulistas e mineiros estavam já a quatro léguas apenas de distância do Rio, ficou alcunhado pelo povo carioca — o Vaca e foi condenado a degredo, confisco de bens e prisão perpétua numa fortaleza da Índia.

Nota

  • Ponto 12º — 33ª Lição

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