Mascates e Pernambucanos

Em 1710, irrompeu na capitania de Pernambuco, sendo governador Sebastião de Castro e Caldas, outro movimento nativista, entre os senhores de engenho, pertencentes à aristocracia brasileira, com residência em Olinda, e os negociantes portugueses, que habitavam o Recife, e eram pelos primeiros alcunhados, por menosprezo, de mascates (vendedor ambulante).

Entre as causas principais desse antagonismo figuravam — a ruína da antiga capital pernambucana; incendiada em 1631, pelos invasores holandeses; e o confronto entre a primeira destas cidades mal reconstruída, e muito aquém do seu primitivo esplendor e a segunda, povoação marítima em crescente grau de grandeza e prosperidade, não sendo mais admissível que a nova Recife permanecesse sob a jurisdição da decadente Olinda.

Além disso, preponderava entre as razões do dissídio, o espírito nativista dos Pernambucanos, que nunca puderam tolerar a ascendência dos Portugueses, os quais, como negociantes, eram, de ordinário, credores por fornecimentos feitos aos ricos, e muitas vezes, imprevidentes e perdulários senhores de Olinda.

Sobre a lavoura, exerciam os gananciosos e usurários capitalistas do Recife a maior pressão.

Acirrava ainda essa odiosidade a ambição do poder político: os Portugueses se viam sempre excluídos do exercício dos cargos municipais, pelo que pediram reiteradas vezes à coroa fosse o Recife elevado à categoria de cidade, o que era de justiça, e afinal obtiveram, em 1710, despacho favorável da corte de Lisboa.

O governador lusitano Sebastião de Castro e Caldas, embora parcial, sarcástico e desdenhoso para com os de Olinda, simpatizante aos reinóis, seus patrícios, procedeu com prudência na demarcação do novo termo da cidade e município do Recife, a que ficaram subordinadas as três paróquias — Península, ilha de Santo Antônio e Boa Vista — que constituíam o antigo perímetro da cidade holandesa, deixando para Olinda todo o resto do território.

Erigiu-se o novo município, segundo os dispositivos do velho direito português, levantando-se na praça municipal o pelourinho, símbolo da autoridade e da justiça.

Esse cerimonial foi feito, porém, quase à clandestina, sendo as pedras do poial do pelourinho depositadas, previamente, no páteo do forte do Recife, e daí transportadas e assentes durante a noite.

Ao raiar d’alva, Recife já era cidade e foi dado provimento aos ofícios competentes.

Logo, o presidente da Câmara Municipal de Olinda foi ler com o governador Castro e Caldas e lavrou perante ele seu protesto, terminando por convidá-lo a demolir a picota, erguida na praça do Recife.

O capitão-general fê-lo prender, bem assim a outros oradores exaltados, que, sucessivamente, o procuraram, um dos quais da prestigiosa família dos Bezerras, dois outros foram também presos, por antigos delitos de morte, que haviam ficado impunes.

A nobreza de Olinda sentiu-se ultrajada, e o movimento estava prestes a explodir, quando o governador Castro e Caldas ordenou o desarmamento geral e proibiu aos particulares de ter armas, medida que não foi cumprida, antes mais fez acrescer o número dos revoltosos armados.

Correndo, então, a notícia de que intentavam depô-lo, entrou o governador a fazer, sem maior exame, prisões de pessoas importantes em Olinda; e nesse ínterim, a 17 de Outubro de 1710, à sua passagem em Boa Vista, foi lhe desfechado, de tocaia, do vão de uma janela, um tiro de escopeta, que o feriu.

Dois dos autores materiais desse atentado, além de muitas outras pessoas, foram capturados.

O bispo de Olinda, d. Manuel Alvares da Costa, saíra de visita pastoral pela diocese, levando na comitiva um oficial de justiça, indigitado de conivência no atentado de Boa Vista, e um contingente de tropa foi expedido com ordem de detê-lo; recusou-se, porém, o bispo a entregá-lo e reagiu com suas forças, tendo batido as do governador.

Travou-se então a luta.

A nobreza de Olinda deu o toque de rebate, e, em pouco, se achavam em armas vinte mil homens que sitiaram Recife.

O governador, que se achava de cama, em consequência do ferimento sofrido, não podendo resistir nem receber recursos de outras companhias, quer de gente de armas, quer de víveres, resolveu entrar em negociação com os rebeldes, propondo-lhes a entrega dos presos, em troca do desarmamento dos rebeldes.

Responderam-lhe os Pernambucanos que eles próprios poriam em liberdade os prisioneiros quando quisessem, e que vinham buscar a cabeça do governador e de outros mais.

Reconhecendo que havia perdido a partida, o governador Castro e Caldas tratou de embarcar para a Bahia em companhia de negociantes lusitanos.

Entraram os sitiantes no Recife onde a festa do triunfo durou dois dias; arrasaram o pelourinho, ao som de cânticos sacros; mas é de justiça salientar que não praticaram saque nem desacato algum.

Reunidos numa espécie de comício do povo e representantes da terra, organizou-se um governo provisório, composto de seis membros, todos brasileiros, sendo submetido o caso político à apreciação do rei de Portugal.

Em seguida foi entregue o governo ao bispo d. Manuel Alvares da Costa, como substituto legal do governador, até a chegada do novo serventuário.

Seu primeiro ato, em Novembro de 1710, foi a anistia geral.

Nessa interinidade, valeram-se os rebeldes do ensejo para instituir os juízes do povo, a exemplo do que já se havia feito no Maranhão.

Foi então que surgiu na luta o sargento-mór Bernardo Vieira de Mello, chefe do terço dos Palmares, rico fazendeiro, de enorme prestígio.

Era homem violento e tornou-se chefe dos radicais, com o plano de fazer reembarcar o novo capitão-general, caso não trouxesse a anistia.

Chegando ao Recife, comandando uma força militar, que aparentava destinada ao ataque de um quilombo, foi recebido com atenções pelas autoridades provisórias, que logo lhe descobriram o intento de se apoderar do paiol de pólvora ou fazê-lo voar.

Bernardo Vieira de Mello e João da Motta promoveram o motim, durante o qual, em 1711, se viu o bispo obrigado a deixar a capitania, inteiramente conflagrada.

Os combates mais renhidos foram os de Sebiró ganho pelos recifenses, cujas forças, sob o comando de Miguel Paes Barreto e Sebastião Pinheiro Camarão venceram as tropas olindenses, chefiadas por Christóvão de Mendonça Arraes; e o da lagoa de Garapú, vencido pelos olindenses, sob o comando de João do Rego Barros e Christóvão de Holanda Cavalcante sobre a gente de Camarão.

Em fins de 1711, tomou posse do cargo de capitão-general de Pernambuco, Félix José Machado de Mendonça, perseguidor dos Brasileiros de Olinda, e que, auxiliado pelo ouvidor José Marques Bacalháo e pelo juiz de fora Paulo de Carvalho, restabeleceu a ordem, garantida pela carta régia de dom João V, de 7 de Abril de 1714, pela qual Recife conservou os privilégios municipais, repartidos com Olinda e a faculdade de sede do governo.

Quadro Sinótico

Dá-se o nome de luta dos Mascates ao movimento nativista de 1710 entre os senhores de engenho de Olinda e os negociantes portugueses do Recife, apelidados por desprezo, Mascates, sendo governador Sebastião de Castro e Caldas.

A elevação de Recife à categoria de cidade, devido à sua prosperidade como cidade comercial e marítima, em contraposição à Olinda, mal reconstruída das ruínas em que a deixou a invasão holandesa, apressara esse movimento, em que tiveram parte saliente o bispo de Olinda, d. Manuel Alvares da Costa, e o sargento-mór da terra dos Palmares, e rico senhor de engenhos Bernardo Vieira de Mello.

Castro e Caldas teve de se refugiar na Bahia, e o bispo assumiu o governo provisório, mas em 1711 foi também obrigado a fugir, ficando a capitania conflagrada.

Os principais combates então travados foram os de Sebiró, ganho pelos portugueses recifenses, e o de lagoa de Garapú, vencido pelos olindenses.

A nomeação do novo governador, Félix de Mendonça em fins de 1711 e a promulgação da carta régia de dom João V, de 7 de Abril de 1714, puseram termo à luta.

O Recife conservou seus privilégios.

Nota

  • Ponto 11º — 31ª Lição

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