O Descobrimento do Brasil

Em virtude do litígio suscitado pelo feito de Colombo e consequente assinatura do tratado de Tordesilhas (1494), enquanto não era o mesmo confirmado (1506), buscou Portugal, na iminência de romper hostilidades com a Espanha, resguardar sob sigilo diplomático as descobertas feitas pelas explorações lusitanas, dentro das raias do meridiano convencional.

Dificuldades surgiram na demarcação da área geográfica partilhada entre Portugal e Espanha, devido ainda ao fato de não se especificar na bula de Alexandre VI qual a espécie de unidade das 370 léguas marítimas, isto é, se a légua seria a castelhana ou a portuguesa.

A reserva de Portugal justificava-se, além disso, com relação a Luís XII de França, outro adversário, que cedo se insurgiu contra essa partilha do mundo desconhecido, feita pelo papa entre os dois reinos ibéricos.

Francisco I, de França, após o reconhecimento do Prata, pelo qual se completava o perfil do continente sul-americano, protestou jamais ter visto a cláusula do testamento de Adão, doando a América aos reis de Espanha e Portugal.

Nesse sentido, enquanto se discutia o tratado de Tordesilhas, dom Manuel, o Afortunado, resolveu, após Duarte Pacheco Pereira, citado por Pandiá Calógeras como o verdadeiro descobridor do Brasil (Formação Histórica do Brasil, pág. 21), enviar à nossa terra o seu descobridor, pelo menos oficial, Pedro Álvares Cabral, por comandante da segunda armada portuguesa do Malabar, a qual, segundo o quinhentista João de Barros, foi a mais poderosa das despachadas até aquele tempo.

Três vezes maior que a do Gama, com cerca de 1.200 homens de guarnição, compunha—se de dez naus de três mastros, com destino a Calecute, munidas de bocas de fogo, roteiro e astrolábio, além de duas caravelas para Sofala e uma barca de mantimentos.

Sabe-se que a capitânia se chamava El-Rei; outra nau tinha o nome de São Pedro, sob o comando de Pero de Atayde, e outra, a Annunciada, estava sob o comando de Nuno Leitão.

Eram chefes das naus: Sancho de Toar, Simão de Miranda, Bartholomeu Dias (o malogrado herói do Cabo Tormentório), Pedro Dias, Gaspar de Lemos, Simão de Pina, Vasco de Atayde, Nicolau Coelho, Ayres Gomes da Silva e Luis Pires.

Com Cabral, vinham ainda, na armada de 1500, o físico mór, mestre João Emeneslau, que foi o primeiro a descrever o Cruzeiro do Sul; o escrivão despachado para a feitoria em Calecute, Pero Vaz de Caminha, autor da carta a dom Manuel, sobre o descobrimento do Brasil; seis frades franciscanos, tendo por guardião frei Henrique Soares, de Coimbra; pilotos, intérpretes, carpinteiros, bombardeiros, feitores e degredados.

Vasco da Gama não só teria recomendado Pedro Álvares Cabral ao rei, para continuador do périplo africano, como lhe forneceu dados sobre marinharia e práticos mouros, que o herói do caminho da Índia trouxera de Melinde.

Descrevendo a rota gloriosa, assinalou Camões, nos Lusíadas (canto V, estrofe IV), que foram eles

. . .“abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu”,

e

“Deixando à mão esquerda, que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita”.

De fato, quando o Gama, de rumo pelo Atlântico, passou, a 22 de Agosto de 1497, próximo ao penedo de São Pedro, atalaia oceânica do Brasil, diz em seu roteiro ter avistado — “aves que, à tarde, se dirigiam velozmente para sul-oeste, como em busca de terra”. A carta de capitânia-mór do descobridor do Brasil, datada de 15 de Fevereiro de 1500, traz ainda o seu cognome materno — Pedr’Álvares de Gouvêa (Arquivo da Torre do Tombo).

Realizou-se a partida a 9 de Março de 1500, por entre aclamações festivas.

Na véspera, domingo, a esquadra estivera surta em frente ao Restelo; e o almirante, da tribuna, na ermida de Belém, no lado de dom Manuel, com toda a guarnição, assistiu à missa e sermão pelo bispo de Ceuta.

Após o ato solene, desfilou o cortejo processional até à praia, apinhada de povo, onde el-rei entregou a Cabral o estandarte com a cruz de Cristo, abençoado pelo bispo durante a missa.

Depois de terem passado Cabo Verde, — onde se desgarrou a nau de Vasco de Atayde, a qual arribou ao Tejo, — a armada singrou para o Sul. Daí buscou o mar de longo, que deveria sulcar até a altura do cabo de Boa Esperança, afim de montá-lo de largo, conforme o conselho do Gama.

Lançou-se aí na direção do S. O., no mesmo ponto em que o Gama torcera o rumo para S. E., descendo a costa africana.

Diante das descobertas e conhecimentos marítimos da época, não é mais lícito duvidar de que, — depois de Colombo e Vasco da Gama — tivessem os Portugueses, em 1500, plena certeza da existência de terra firme a S. O., já registrada, aliás, nos mapas de Bianco (de 1460 e 1478).

Só o desconhecimento da história naval portuguesa pode atribuir a exploração do Brasil por Álvares Cabral a um efeito do acaso, ao cego impulso das correntes marítimas ou a algum temporal, de que não há prova histórica fidedigna.

Cabral só se afastou adrede do rumo de Vasco da Gama, não para evitar as calmarias da costa de Guiné, à procura dos ventos alíseos, mas para reconhecer, ou seja descobrir o Brasil, segundo a expressão técnica naval do tempo. A 21 de Abril, viu os primeiros sinais de terra e, na tarde de 22, surgiu-lhe no horizonte o monte, que denominaria de — Pascoal.

A 24, entrou em Porto Seguro, e no domingo, 26, celebrava frei Henrique Soares de Coimbra a primeira missa, no ilhéu de Vera Cruz.

A 1 de Maio, após a segunda missa, foi tomada posse solene de terra, em nome da coroa de Portugal.

No dia seguinte, a armada levantava ferros para a Índia, deixando desembarcados, afim de aprenderem a língua dos naturais. “dois degredados que aqui ficam e mais dois grumetes que esta noite se saíram desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais, e cremos que ficarão aqui, porque, de manhã, prazendo Deus, faremos daqui nossa partida” (Carta de Pero Vaz de Caminha, datada de Porto Seguro da ilha de Vera Cruz, sexta-feira, 1 de maio de 1500).

Quadro Sinótico

Portugal, durante as negociações do tratado de Tordesilhas (1494-1506), ante a possibilidade de romper hostilidades contra a Espanha, viu-se obrigado, contra a pretensão desse país e talvez da França, a guardar reserva diplomática sobre os descobrimentos feitos dentro das raias do meridiano estabelecido pelo papa entre Portugal e Espanha.

Depois das viagens de Colombo, Vasco da Gama e Duarte Pacheco Pereira, não é mais possível admitir que os Portugueses, como povo de mareantes, de maiores conhecimentos náuticos no século XV, ignorassem a existência de terra firme a S. O., já assinalada nos mapas de Bianco (de 1446 e 1478).

O descobrimento não se verificou por acaso; foi, sim, o complemento lógico das expedições anteriores.

A esquadra de Cabral teve por fim principal garantir o monopólio do comércio das especiarias e por fim acessório descobrir a nova terra firme, já assinalada a S. O. do oceano Atlântico, o que, de fato, se realizou a 22 de Abril de 1500.

Duarte Leite, em seu magistral livro — Descobridores do Brasil — afirma (pags. 137-138) que — “quando o descobridor genovês, ao voltar em 1493, de sua famosa viagem, se vangloriava diante de dom João II de ter pisado solo indiano, não lhe deu este crédito, assegurado por seus conselheiros de que o Oriente estava a muito maior distância. Ao mesmo tempo, corroborando sua crença, mostrou-se o Príncipe Perfeito convicto da existência de terras situadas no Austro, e logo no ano seguinte as acautelou da avidez castelhana no convênio de Tordesilhas.

“Em 1500, quando Cabral avistou a sua Vera Cruz, não lhe passou pela cabeça que fosse asiática”.

Traços Biográficos
Pedro Álvares Cabral (1467-1518)

Filho de Fernão Cabral, alcaide mór de Benavente, e neto de Fernão Álvares Cabral, guarda mór do infante dom Henrique, sobrinho de Gonçalo Velho Cabral, descobridor dos Açores.

Na carta régia que o nomeou capitão mór das Índias, lê-se o nome de Pedro Álvares de Gouvêa. O patronímico foi por ele usado depois da morte de seu irmão mais velho.

Sobre as datas de seu nascimento e de sua morte, nada ficou averiguado de positivo até hoje.

Rocha Pombo afirma (vol. 1º, pag. 148, de sua “História do Brasil”) que — “do próprio Cabral não consta cousa alguma”, não obstante Sanches de Baena dizer em seu trabalho — O descobridor do Brasil (1897) estar longamente desenvolvida a genealogia de Cabral.

Rodolpho Garcia, anotando a História Geral do Brasil, de Varnhagen (3ª ed., 1º vol., pag. 88), repete as palavras do mesmo Varnhagen, que assegurava viver ainda Cabral em 1518, ano em que se lhe pagavam de moradia 2.437 réis por mês.

Em 1839, Varnhagen, então secretário da Legação do Brasil em Lisboa, descobriu na sacristia do Convento da Graça, em Santarém, o jazigo de Pedro Álvares Cabral, de que não havia memória escrita. Era uma sepultura rasa com uma lousa simples de treze palmos de comprimento, por seis e meio de largura, e o seguinte dístico em gótico florido: — “Aqui jaz Pedralvares Cabral e dona Izabel de Castro sua molher, cuja he esta capella he de todos seus herdeyros aquall depois da morte de seu marydo foi camareira-mór da infante dona Marya fylha de El Rey dõ João noso Snor hu terceyro deste nome”.

Em 1903, o advogado brasileiro Alberto de Carvalho conseguiu que o “Jornal do Commercio” iniciasse uma subscrição, cujo produto seria empregado na execução de uma obra ornamental no sítio em que repousam os restos mortais de Cabral.

No dia 20 de Abril de 1904, o arcebispo do Rio de Janeiro presidiu à cerimônia do encerramento da urna contendo resíduos mortuários extraídos do jazigo de Cabral, resíduos estes trazidos pelo mesmo Alberto de Carvalho e que se acham numa das paredes da catedral.

É tudo quanto se pôde dizer sobre a pessoa do descobridor oficial do Brasil.

Frei Henrique Soares, de Coimbra

Pouco se apurou até hoje sobre a individualidade do primeiro sacerdote que pisou terra do Brasil. celebrando nela a primeira missa.

Frei Henrique Soares de Coimbra fora desembargador da Casa de Suplicação e trocara a toga pelo hábito de franciscano do convento de Alenquer.

“Na Índia recebeu algumas feridas pelas costas, no assalto que os indígenas deram à feitoria de Calecute; de regresso, foi confessor do rei, seu embaixador em missão de pêsames junto à princesa dona Joanna, bispo de Ceuta e inquisidor.

É o que ensina Rodolfo Garcia no 1º vol. da 3ª edição da “Historia Geral do Brasil”, de Varnhagen, pag. 87. Faleceu, opinam, a 14 de Abri de 1532.

Notas

1. Lusíadas, canto V, estrofe IV

Assim fomos abrindo aqueles mares,
Que geração alguma não abriu,
As novas ilhas vendo e os novos ares,
Que o generoso Henrique descobriu;
De Mauritânia os montes e lugares,
Terra que Anteu num tempo possuiu,
Deixando à mão esquerda; que à direita
Não há certeza doutra, mas suspeita.

2. Ponto I — Lição 3ª

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Desembarque de Cabral em Porto Seguro. Óleo sobre tela. Século XIX. Oscar Pereira da Silva. Acervo: Museu Histórico Nacional/IBRAM/Ministério da Cultura.

Veja também

Mapa (Marco do Descobrimento, em Santa Cruz de Cabrália)