Os Holandeses na Bahia. Primeira Invasão

Quando, em 1580, Portugal passou ao domínio espanhol, era a Espanha adversária da Holanda.

Os naturais da antiga Batávia (Países Baixos), exerciam, até então, livremente o comércio com os portos de Europa, mas, a partir daquele ano, Felipe II resolveu fechar o porto de Lisboa aos seus inimigos.

Em represália, os Holandeses fizeram primeiro o corso e depois organizaram empresas e expedições para as Índias e para o Brasil, figurando principalmente nesse número as duas Companhias das Índias Orientais e das Índias Ocidentais.

Em 1624 tentaram um primeiro ataque, bem sucedido, à Bahia, sendo, porém, repelido no ano seguinte pela ação conjunta dos habitantes dessa capitania, da de Pernambuco e pessoal da metrópole.

Em 1602 fundava-se na Holanda a primeira daquelas companhias, que em pouco tempo auferiu imensos lucros no Levante.

Em 1609 foi assinada uma trégua por 12 anos, entre a Espanha e a Holanda, mas em 1621, antes de expirado o prazo de suspensão de hostilidades, já os Holandeses se apressavam em estabelecer a segunda companhia, destinada a operar na África e na América, com a denominação de Companhia das Índias Ocidentais.

Aprestaram forte expedição para invadir e apoderar-se do litoral nordestino do Brasil.

O governador geral, Diogo de Mendonça Furtado, não dispunha de suficientes recursos bélicos para defender a capital da colônia e disso tinham conhecimento os invasores holandeses de 1624.

Procurou-se explicar, política e militarmente, a invasão holandesa uma consequência da guerra de setenta anos entre a Holanda e a Espanha, como defesa do credo e liberdade de religião, mas a agressão neerlandesa teve por principal aspecto histórico a luta entre o livre câmbio e o monopólio, em virtude do descobrimento da América e do caminho marítimo das Índias.

João Ribeiro afirma: “Portugueses e Espanhóis pretenderam haver aberto o Oriente, fechado pelos Turcos, e o Ocidente, ao mundo, mas, em verdade, um e outro ponto do quadrante estavam fechados para o resto dos homens. Foi justamente nessa luta, em que faziam o papel de piratas ou corsários, que Franceses, Ingleses, e, sobretudo, Holandeses, começaram a formar esse imenso poder naval, essa supremacia marítima, que acabou por se substituir à dos seus rivais. O comércio livre foi a obra do individualismo das empresas privadas: os governos europeus, por impotência, reconheciam o monopólio ibérico, o que não os impedia de auxiliar secretamente as tentativas contra aquele privilégio.”

A Companhia das Índias Ocidentais, de fato, era dirigida pelo denominado Conselho dos Dezenove, composto de armadores e negociantes, interessados nessa empresa, cujo capital montava a 20 milhões de florins.

De 1623 a 1636 chegou a armar oitocentos navios, apresar muitos outros, dividindo entre seus associados lucros fabulosos.

Sua primeira esquadra, aparelhada especialmente para atacar a Bahia, compunha-se de 23 navios e três iates, sob o comando do almirante Willekens, tendo por vice-almirante Pieter Pieterszoon Heyn e por comandantes das tropas e governador militar das cidades a conquistar Jan van Dorth.

Arvorava a esquadra flâmulas vermelhas, tendo 1.700 soldados, 1.600 homens de tripulação, e possuindo 500 bocas de fogo.

Tendo zarpado da Holanda, esses navios foram, de um em um, reunir-se em Cabo Verde, no mês de Março de 1624, de onde rumaram para a Bahia, surgindo em frente à cidade do Salvador a 8 de Maio.

Iniciaram o ataque ao alvorecer do dia imediato e, a 10, capitulou a praça da Bahia.

O governador geral, Diogo de Mendonça Furtado, recebera de Lisboa e Madri avisos de partida dessa esquadra e, como providências, chamou às armas os homens das capitanias vizinhas, fez guarnecer de artilharia os fortes e preparou mais um, improvisou batalhões de voluntários descalços, como vulgarmente foram conhecidos, visto não trazerem uniforme, nem calçado.

Contava apenas com três mil homens.

Grande foi o pânico da cidade do Salvador, quando os canhões dos navios holandeses entraram a despejar sobre ela sua grossa artilharia.

Em seguida, Albert Schott comandou as tropas que desembarcaram no pontal de Santo Antônio.

O governador geral, com seu filho Antônio de Mendonça, o sargento-mor da cidade, o ouvidor geral, o provincial dos jesuítas e mais quatro padres, foram aprisionados quando defendiam o palácio do governo e, embarcados numa das naus, seguiram para a Holanda.

O governador militar Jan van Dorth só chegou após a tomada da capital da Bahia.

Assumindo o governo, declarou ali estabelecido o domínio holandês, proclamando a liberdade de religião e a dos escravos, com o que supunha tornar simpático o jugo batavo.

Apresaram 30 das naus surtas no porto, além de outras que foram nele entrando descuidosamente, na ignorância do ocorrido e, entre elas a do governador do Potosi – Sarmiento Sotomayor, cuja carga representava grande riqueza.

Os moradores da capital, que se haviam refugiado no interior, trataram de organizar a resistência.

Foi escolhido, para sucessor de Diogo de Mendonça o bispo Dom Marcos Teixeira, que entregou o comando das forças a Lourenço Cavalcante de Albuquerque e a Antônio Cardoso de Barros; pôs em sítio a cidade do Salvador, conseguindo arregimentar cerca de dois mil homens. O excesso de trabalho produziu, porém, a morte do bispo, ocorrida a 8 de Outubro de 1624.

Assumiu então o comando das forças baianas o capitão-mor da Paraíba – Francisco Nunes Marinho, enviado de Pernambuco com grande reforço por Mathias de Albuquerque.

A 3 de Dezembro de 1624 chegou da Europa Dom Francisco de Moura, brasileiro, que, como soldado, tomara parte na guerra de Flandres. Com o título de capitão-mor do Recôncavo, substituiu a Nunes Marinho na chefia das tropas da Bahia.

O sistema de guerrilhas adotado pelos Portugueses, infligiu grandes perdas aos inimigos.

Jan van Dorth caiu logo numa emboscada e foi morto pelo capitão Francisco Padilha. Igual sorte tiveram outros capitães holandeses.

A notícia da perda da Bahia causou grande excitação em Madri, resolvendo a metrópole dar um golpe decisivo contra o invasor, e apelando para a nobreza espanhola e portuguesa, organizou uma expedição de 52 navios, com 12 mil homens.

Essa esquadra libertadora, sob o comando de Dom Fadrique de Toledo Osório, surgiu em águas da Bahia, a 29 de Março de 1625, entrando em comunicação com o exército de terra, reforçando-o com suas tropas de desembarque.

O comandante geral holandês Johann Ernest Kijf resistiu apenas um mês, capitulando a 30 de Abril de 1625, de sorte que em 1º de Maio tremulavam de novo nos fortes da Bahia as bandeiras ibéricas.

A 22 de Maio chegou à cidade de Salvador uma esquadra de 34 navios, de reforço aos Holandeses, sob o comando de Hendrickszoon, com atraso devido a um temporal na viagem. Não se animou o comandante à luta e retirou-se.

Os Holandeses entregaram a cidade com toda a artilharia, armas, munições, navios, tendo-lhes sido permitida a retirada com suas tropas para a Europa.

Quadro Sinótico

A invasão holandesa não foi apenas uma consequência da guerra entre a Holanda e a Espanha, mas teve, por principal razão histórica a luta entre o comércio livre dos mares e o monopólio ibérico.

Em 1621 os Holandeses haviam fundado duas empresas denominadas – Companhia das Índias Orientais e Companhia das Índias Ocidentais, – destinada esta última a operar na África e na América e aprestar forte expedição para a conquista do nordeste do Brasil.

A cidade do Salvador, na Bahia, foi tomada a 10 de Março de 1624, por uma esquadra holandesa de 23 navios, três iates, com 500 bocas de fogo e 3.300 homens.

O governador Diogo de Mendonça Furtado foi preso em uma das naus e os habitantes da cidade retiraram-se para os arredores.

Mendonça Furtado foi substituído no comando, sendo adotado o sistema de guerrilhas, pelo bispo Dom Marcos Teixeira, que, vindo a falecer, teve por sucessor o capitão-mor da Paraíba, Francisco Nunes Marinho e Dom Francisco de Moura.

Finalmente a esquadra libertadora luso-espanhola de Dom Fadrique de Toledo Osório, composta de mais de 60 navios e cerca de 12 mil homens de desembarque, retomou a cidade de Salvador a 1º de Maio de 1625.

Traços Biográficos

Mathias de Albuquerque (Conde de Alegrete), general, nascido em Pernambuco, onde serviu como governador ao tempo da invasão holandesa. Teve existência atormentada, sofrendo injusta prisão, por muitos anos.

Em 1635 partiu para Portugal, sendo, depois da restauração, em 1640, nomeado comandante do exército de Alentejo. A vitória de Montijo, que alcançou sobre os espanhóis, foi o apogeu de sua carreira militar.

Faleceu em 1647.

Dom Francisco de Moura, natural de Pernambuco, militara em Flandres. Era sobrinho de Dom Cristóvão de Moura.

Foi nomeado capitão-mor de Recôncavo, assumindo as funções em 3 de Dezembro de 1624.

Assinalou-se pela ocupação de vários postos fortificados no Recôncavo e pela proteção aos engenhos por uma esquadrilha de barcos armados.

Dom Marcos Teixeira. Era já bastante idoso quando, em 1618, exerceu, na Bahia, as funções de inquisidor e visitador do Santo Ofício, comissionado por Dom Fernando Martins Mascarenhas, bispo-inquisidor geral dos reinos e senhorios de Portugal.

Fora arcediago e inquisidor em Évora e, depois, membro da Mesa de Consciência e Ordens. Era licenciado.

Partiu em 1622 para assumir o bispado do Brasil e chegou à cidade do Salvador com próspera viagem. Dirigiu a resistência contra os Holandeses e, exausto pelos trabalhos, faleceu a 8 de Outubro de 1624.

Dom Fadrique de Toledo Osório – Fadrique e não Fradique, pois se assinava Fadrique; foi o comandante supremo de terra e mar da esquadra libertadora da Bahia em 1625, composta de duas armadas: uma portuguesa e outra espanhola. A primeira sob a chefia do almirante Dom Francisco de Almeida, tendo por general Dom Manuel de Menezes; e a segunda sob o comando de Dom João Fajardo de Guevara.

Nota

  • Ponto 8º – 23ª lição

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • Vitórias da frota holandesa sob Piet Hein sobre a frota portuguesa na Baía de Todos os Santos em São Salvador no Brasil, 3 de março e 11 de junho de 1627. Vista da batalha entre os navios na baía. No topo um detalhe com uma carta da área maior, na parte inferior direita, um retrato de Piet Hein, via Rijksmuseum.

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