Terceiro Governador Geral do Brasil, Mem de Sá

Fundação da cidade do Rio de Janeiro

A Duarte da Costa sucedeu Mem de Sá, que exerceu o terceiro governo geral, de 1558 a 1572.

Foi um modelo de administrador colonial. Dele disse frei Vicente de Salvador: — “com razão pode ser espelho dos governadores do Brasil, porque, concorrendo nele letras e esforço, se sinalou muito na guerra e na justiça”

Por sua vez, Varnhagen afirma que o governo de Mem de Sá é um dos que a História deve considerar como dos mais profícuos para o Brasil, o qual se pode dizer ter sido por ele salvo, principalmente das invasões francesas e dos índios.

Sua política para com os colonos teve a característica de tolerância.

À própria rainha d. Catharina escrevia ele em 30 de Março de 1570: — “Esta terra não se pode nem se deve regular pelas leis e estilos do reino. Se V. A. não for fácil em perdoar, não terá gente no Brasil, e porque o ganhei de novo, desejo que se ele conserve”.

Mem de Sá inspirava grande confiança a dom João III, de quem era amigo e junto ao qual tinha imenso prestígio.

A carta régia que o nomeou terceiro governador-geral teve a data de 23 de julho de 1556. Os vencimentos anuais eram de 600$; e, quanto ao prazo do mandato governativo, embora se marcasse na carta o tempo de três anos, no fecho da mesma figurava, como ressalva, a prorrogação pelo tempo que aprouvesse ao rei.

Havendo falhado o sistema feudal das capitanias hereditárias, que, em sua desproporção territorial, se reflete na configuração escalena dos nossos atuais Estados, e que, a prevalecer, resultaria no retalhamento do Brasil em governichos autônomos, recuou dom João III em seu primitivo propósito de colonização, com a unidade administrativa sob Martim Affonso de Sousa, instituindo, logo depois, o primeiro governo geral.

Thomé de Sousa unificou a política portuguesa transatlântica, encetando a obra de elevação do nível moral e reabilitação do princípio da autoridade da metrópole; Mem de Sá completou-lhe a obra, consolidando a legitimidade da posse efetiva, pela exclusividade de ocupação definitiva da terra.

Deixaram, além disso, os primeiro e terceiro governadores gerais fundadas as duas capitais, antiga e atual, que tem tido o Brasil: — a Bahia (1549) e o Rio de Janeiro (1567).

A degradação moral da colônia, agravada pelo estabelecimento dos Franceses, com Villegagnon, na baía de Guanabara, levou o rei a mandar para o Brasil Mem de Sá, ouvindo os clamores da Câmara Municipal da Bahia, que, “pelas chagas de Cristo”, implorou a retirada de Duarte da Costa.

Nomeado em 23 de julho de 1556, só em Abril de 1557 partiu Mem de Sá de Lisboa, para chegar à Bahia pelo Natal desse último ano, tendo assumido o posto nos primeiros dias de Janeiro de 1558.

No exercício do poder, reprimiu logo os abusos que punham a colônia em completa desordem, combateu os desregramentos de costumes, atentados contra a moral e proibiu a usura e o jogo.

Mandou aferir os pesos e medidas, punindo as fraudes e a ganância dos mercadores de víveres e de escravos.

Imitando a Thomé de Sousa, aliou-se aos padres da Companhia de Jesus, na propagação do Evangelho e catequese, e de suas medidas resultou a fundação de São Paulo, serviço que, indiretamente, ainda se deve a Mem de Sá.

Teve de repelir os ataques dos selvagens revoltados na Bahia, Ilhéus e Espírito Santo, sendo que, nesta capitania, perdeu, num combate travado com os Goitacás, seu próprio filho, Fernão de Sá.

Expulsou os corsários do litoral da Bahia e aos índios mansos cuidou de civilizá-los, reunindo-os em aldeamentos e reduções, sob a direção dos jesuítas, e aos índios ferozes domou pela força, permitindo, assim, o povoamento do litoral e do interior.

Teve de lutar contra uma epidemia de febres malignas, introduzida entre os índios pela expedição de Villegagnon, contraída na costa de Guiné, e de providenciar quanto à falta de gêneros alimentícios de primeira necessidade.

Aportando à Bahia, em novembro de 1559, a armada do capitão mór Bartholomeu de Vasconcellos da Cunha, com o fim de expulsar os Franceses do Rio de Janeiro, embarcou-se na mesma Mem de Sá, com os homens de guerra das capitanias próximas e índios aliados.

Da Guanabara retiraram-se, então, os Franceses, não, porém, de vez, pois logo que o governador se ausentou, tornaram a ocupar as primitivas posições, onde, melhor ainda, se fortificaram, sendo somente rechaçados completamente em 1567, por Estácio de Sá, sobrinho de Mem de Sá.

Fundado o Rio de Janeiro, por Estácio de Sá, a 1º de Março de 1565, no istmo da península do morro chamado Cara de Cão, onde se acha atualmente a fortaleza de São João, tratou Mem de Sá em 1567 de transferir a cidade para o antigo morro do Castelo, trabalhando jesuítas e índios com o maior empenho em sua edificação.

Segundo Simão de Vasconcellos (Chronica da Companhia de Jesus), e Balthazar Lisboa (Annaes do Rio de Janeiro), a 6 de fevereiro de 1564 houve a primeira tentativa do povoamento do Rio de Janeiro. Para esse fim havia sido despachada do Tejo, na regência de d. Catharina d’Austria, uma esquadrilha sob o comando de Estácio de Sá.

A fundação da Cidade Velha deu-se, entretanto, no dia 1º de Março de 1565 e não a 20 de Janeiro de 1567, sendo esta última data a da vitória decisiva de Mem de Sá contra os Tamoios e Franceses.

A carta do padre José de Anchieta, de 9 de Julho de 1565, diz terminantemente: “Logo no dia seguinte, que foi o último de fevereiro ou o primeiro de março, começaram a roçar em terra”.

Falecido Estácio de Sá. vítima do ferimento que recebeu no combate de 20 de janeiro, resolveu Mem de Sá transferir a cidade para o morro primitivamente denominado do Descanso, depois de São Januário e, por fim, do Castelo.

Criou aí Mem de Sá mais uma capitania da coroa, — a do Rio de Janeiro, nomeando para seu governador outro sobrinho seu, Salvador Corrêa de Sá (1568-1572).

Mais de um ano esteve Mem de Sá organizando a nova cidade do Rio de Janeiro, a cuja fundação assistiu o bispo dom Pedro Leitão.

Em seu governo votou Mem de Sá grandes cuidados e proteção aos interesses materiais da colônia, especialmente à lavoura, comércio e navegação.

As capitanias de Norte a Sul eram constantemente atendidas por ele e muito floresceram, principalmente as de Bahia e Pernambuco.

Entretanto, em carta de 10 de Agosto de 1569, ao secretário de estado Pero d’Alcaçova Carneiro, queixou-se Mem de Sá da solidão e abandono em que a metrópole o deixava no Brasil.

Regressando à Bahia, continuou no governo até 1572, quando, já bastante idoso, faleceu naquela cidade, sendo sepultado na igreja do Colégio dos Jesuítas.

Quadro Sinótico

Mem de Sá foi o terceiro governador geral do Brasil, nomeado em 1556, assumindo o governo em princípio de 1558.

Foi o modelo dos governadores coloniais. Completou a obra iniciada por Thomé de Sousa.

Expulsou os corsários franceses, moralizou os costumes da colônia, pacificou, com o auxílio dos jesuítas, o gentio.

Transferiu a Cidade Velha, primeira fundação do Rio de Janeiro, para o morro do Castelo.

Auxiliou os Jesuítas a transferirem para São Vicente o colégio que os mesmos haviam fundado em 25 de janeiro de 1554, em São Paulo, ainda no governo de Duarte da Costa, e que constituiu o inicio da grande cidade desse nome.

Saneou a terra, fomentou a agricultura, o comércio, a navegação.

Fez florescer as capitanias, mormente as da Bahia e Pernambuco. Fundou a do Rio de Janeiro. Faleceu na Bahia.

Traços Biográficos
Mem de Sá

Fidalgo da casa e conselho do rei, desembargador da Casa de Suplicação. Homem de costumes rígidos e de grande fé. Governou o Brasil cerca de 15 anos (1558-1572).

Revelou-se verdadeiro continuador da grande obra encetada por Tomé de Sousa e, como este, amigo do provincial da Companhia de Jesus, padre Manuel da Nóbrega, e de seus missionários.

Foi excelente administrador, restabeleceu a ordem e a moralidade na colônia. Expulsou da baía do Rio de Janeiro os Franceses, que aí se haviam fortificado com Villegagnon e Bois-le-Comte.

Transferiu a sede do Rio de Janeiro da Cidade Velha, no morro Cara de Cão, para o morro do Castelo.

Faleceu em 1572, na Bahia.

Nota

  • Ponto 5º – Lição 15ª

Fonte

Texto original

Imagem destacada

  • GUIA e plano da cidade do Rio de Janeiro. [S.l.: s.n.], 1858. 1 planta ; 30,2 x 40,7 em f. 35,5 x 47cm. Disponível na Biblioteca Nacional

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