Monumento a Frei Leandro do Sacramento

Frei Leandro do Sacramento, botânico brasileiro, nasceu na cidade de Recife, no ano de 1778. Professou na Ordem dos Carmelitas reformados de Pernambuco (1798), formando-se em Filosofia na Universidade de Coimbra. Quando regressou a Pernambuco, foi nomeado lente de Botânica da Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro e nesta qualidade dava suas aulas práticas no Passeio Público, de que era diretor e onde podia mostrar aos seus discípulos e a quem quisesse ouvi-lo, as plantas cujo organismo tinham de estudar. Foi também procurador geral da sua Ordem e o primeiro diretor do Jardim Botânico fundado por D. João VI. Seu nome tem sido perpetuado em muitas plantas por vários botânicos estrangeiros, admiradores da sua grande capacidade científica. De seu amor e dedicação ao Jardim Botânico ficaram até hoje vestígios inapagáveis.

Era membro da Academia de Ciências de Munique e de Londres e da Real Sociedade de Horticultura, de Gand. Escreveu: “Theses & Philosophia Naturali” (1806); uma monografia relativa às “bulanophoreas”, plantas parasitas das raízes das árvores; uma memória a respeito da cultura do chá e processo de preparação das folhas (1825) e vários trabalhos botânicos, publicados em revistas alemãs.

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Cômoro Frei Leandro do Sacramento no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

Em 13 de junho de 1808, o príncipe regente, que foi mais tarde D. João VI, então no Brasil, para onde viera em virtude dos acontecimentos políticos que ocorriam na Europa, mandou preparar, perto da casa do inspetor da Fábrica da Pólvora, criada no dia 13 de maio do mesmo ano, o terreno necessário ao estabelecimento de um jardim de aclimação, destinado a introduzir no Brasil a cultura de especiarias das Índias Orientais. Em 11 de outubro, de acordo com o decreto citado, foi nomeado um intendente para o novo jardim, que passou a denominar-se Real Horto. Era esse o passeio favorito do Regente, que sempre demonstrou o mais vivo interesse pela cultura das plantas. Coroado mais tarde rei do Reino Unido de Portugal e Brasil, D. João VI aumentou o Real Horto, tornou-o público, sob a denominação de Real Jardim Botânico e anexou-o ao Museu Nacional. Eis a letra do decreto que instituiu o Real Jardim Botânico:

“Tendo mandado estabelecer na Fazenda da Lagoa, de Rodrigues de Freitas, um jardim para plantas exóticas: Sou servido que ele se aumente, destinando-se lugar próprio, o mais próximo que for possível, para uma plantação de cravo e algumas outras árvores de especiaria; sendo diretores João Severino Maciel da Costa e João Gomes da Silva Mendonça, a cujo cargo está a do Jardim que ali se acha estabelecido. E ficará este novo estabelecimento anexo ao Museu Real para se fazerem pela folha dessa repartição as despesas necessárias, assim como a arrecadação do que em qualquer tempo possa produzir; do que se apresentará, nos tempos competentes, o devido balanço, ao meu Real Erário, pelos diretores deste estabelecimento, que Hei por bem, fique na inspeção do ministro e secretário de Estado do Reino, por quem Me serão presentes os negócios relativos a este estabelecimento. Tomaz Antônio Vilanova Portugal, do meu Conselho, ministro e secretário de Estado dos Negócios do Reino. Encarregado da Presidência do Real Erário, o tenha assim entendido e faça executar. – Palácio do Rio de Janeiro, em 11 de maio de 1819”.

O Jardim Botânico floresceu e todas as culturas, procedentes de vários países, tomavam melhor desenvolvimento; mas, por ocasião de festas, principalmente as que realizava a Santa Casa da Misericórdia, no tempo de José Clemente Pereira, o abuso da destruição das plantas para ornamentação, principalmente as de cravo e canela da Índia, muito prejudicava o Jardim. Voltando D. João VI a Portugal a 25 de abril de 1821, a chamado das Cortes, foi D. Pedro, seu substituto, quem dedicou boa atenção ao Jardim Botânico, separando-o do Museu Nacional por decreto de 29 de fevereiro de 1822, quando ficou sob a alçada do Ministério do Interior.

Em 25 de março de 1824, os diretores do Jardim Botânico passaram a administração a Frei Leandro do Sacramento, primeiro diretor botânico do estabelecimento no Primeiro Reinado, e dessa época em diante o jardim de aclimação passou a ser também um campo de estudo, com uma organização científica. Assumindo esse encargo aos 50 anos de idade, o ilustre carmelita consagrou o seu esforço e a sua inteligência aos trabalhos daquele vasto campo de aclimação e de estudo, obtendo pleno êxito. Aumentou consideravelmente a área cultivada; aterrou vários pontos baixos; delineou uma cascata; cavou o lago, ainda hoje tão apreciado pelos visitantes; traçou diversas aleias que mandou plantar de mangueiras, nogueiras, pitombas, pau de jangada e cravo da Índia; construiu um cômoro de terra artificial, no qual edificou a “Casa dos Cedros” ou “Castelo”; distribuiu plantas e sementes pelos jardins de várias cidades brasileiras. E, quando faleceu, em 1 de julho de 1829, o Jardim Botânico estava inteiramente transformado.

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Pertence ao Dr. J. Barbosa Rodrigues, diretor do Jardim Botânico, nomeado em 1890, a iniciativa do monumento a Frei Leandro[1]. No seu importante livro “Hortus Fluminensis”, publicado em 1893, encontra-se, por ele mesmo feita, a descrição daquele monumento. Eis o que informa o prof. J. Barbosa Rodrigues:

“… Como se viu, Frei Leandro do Sacramento, que fora o primeiro professor de Botânica da Escola de Medicina, foi também, no primeiro reinado, o primeiro diretor-técnico que teve o jardim, o que reformou e fez melhoramentos dos quais ainda hoje muitos perduram. Era justo que o jardim lhe prestasse uma homenagem de reconhecimento, que atestasse aos vindouros o valor do sábio botânico, amigo de Saint-Hilaire, cujo nome está perpetuado em muitas plantas por vários botânicos estrangeiros, como tributo de apreço ao seu saber; por isso, com os minguados recursos que possuía, à força de economia, procurei levantar-lhe um monumento. Simples, modesto, de estilo rústico, levantei um pavilhão-estufa, que cobre o pedestal sobre o qual assenta o seu busto, rodeado de flores que mensalmente são renovadas. O monumento é octógono e para ele se entra por duas portas, depois de subir uma escada de três longos degraus, que circunda todo o edifício. Está assentado sobre o cômoro feito pelo próprio Frei Leandro, no centro da antiga casa dos cedros. Morrendo os troncos, foram serrados e aproveitados para a grade que cerca o edifício. Junto fica, restaurado, o quadrante solar por ele estabelecido, perto da mesa de granito que o mesmo mandou fazer para as refeições imperiais. Fronteia o monumento o lago feito pelo mesmo diretor, ficando em frente, pelo lado posterior, a alameda de longanas, o grande repuxo e a jaqueira sob a qual ele se assentava para a direção do trabalho e onde começou a agonia que lhe tirou a luz eterna. Ergue-se o monumento, pois, no meio das obras que recordam a sua atividade. Interiormente, como quase não é conhecido no Brasil esse sábio brasileiro, ornam as faces das paredes coroas de bronze, no centro das quais, sobre fundo que indica uma nação, têm-se os nomes das plantas que perpetuam o seu e os dos botânicos estrangeiros que pagaram esse tributo de veneração. Todos os ângulos são ornados com vasos de flores, bem como o chão e a base do pedestal. Neste, uma placa de mármore cinzento contém a seguinte inscrição, em letras de ouro: “Memoriae Fr. Leandri Sacramento Carmelitarum Ordinis Conimbricensis Universitate Scientiis Naturalibus Docti Primi Herbariae Professoris Medicae Scholae Fluminis Januarii Hujusque Horti Primi Technici Director Hoc Monumentum Sexagesimo Mortis Anniversario Calendis Julii MDCCCXCIII Joannes Barbosa Rodrigues [Tunc Ejusdem Horti Director] Publici Aerarii Auxilio Erigendum Curavit”.

A tradução é a seguinte:

“À memória de Frei Leandro do Sacramento, da Ordem dos Carmelitas, formado em ciências naturais pela Universidade de Coimbra, primeiro professor de Botânica da Escola de Medicina do Rio de Janeiro e primeiro diretor técnico deste jardim, levantou este monumento, com o auxílio do Governo, no sexagésimo aniversário de sua morte, no dia 1 de julho de 1893, João Barbosa Rodrigues, então diretor”.

Nota

  1. Frei Leandro, diretor do Jardim de 1824 a 1829, aproveitando a terra retirada para a construção do lago, que depois teria seu nome, mandou preparar uma elevação, o Cômoro, na qual edificou a “Casa dos Cedros”. Fonte: Jardim Botânico do Rio de Janeiro.

Fonte

Publicado na edição de 13 de agosto de 1944 do jornal Diário de Notícias.

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Jardim Botânico do Rio de Janeiro