Monumento ao Barão de Taunay

Félix Emílio Taunay, barão de Taunay, nasceu na França, em Montmorency, no dia 1 de março de 1795, na mesma casa que foi habitada por João Jacques Rousseau, adquirida por seu pai, o pintor Nicolau Antônio Taunay, pertencente a uma das mais antigas famílias da aristocracia francesa e um dos fundadores do Instituto de França. Não desejando contemplar na sua própria terra o ocaso do regime da sua época, ao qual dera o concurso da sua inteligência e do seu saber e do qual recebera homenagens e demonstrações de apreço, resolveu Nicolau Antônio Taunay ausentar-se de sua pátria e veio para o Brasil, depois de estabelecer contacto, em Paris, com o marquês de Marialva, enviado por D. João VI para atrair ao Rio de Janeiro vários artistas de mérito a fim de fundarem uma Academia de Belas Artes.

Nicolau Taunay para aqui se transportou em 1816, acompanhado dos seus cinco filhos, Félix Emílio, Carlos Augusto, Adriano, Hipólito e Teodoro Maria. Apenas chegado ao Rio, foi nomeado professor de Pintura Histórica da Academia de Belas Artes, sendo proveitosíssima a sua atuação durante os três anos que marcaram a sua permanência em nosso país. A rogo de amigos e patrícios, regressou à França no fim desse período e ali faleceu a 20 de março de 1830, aos 75 anos de idade.

Félix Emílio Taunay, entretanto, não acompanhou seu pai no regresso à França, aqui ficando com os irmãos. Homem de letras, tendo herdado de seu pai as qualidades superiores de inteligência e de caráter, foi igualmente o seu grande discípulo, tornando-se um pintor de grandes méritos. Nomeado professor de Pintura e Paisagem da Academia de Belas Artes, muito se distinguiu, conquistando uma situação de relevo, motivo pelo qual os seus companheiros o elegeram diretor, em sessão de 12 de dezembro de 1834, ato esse confirmado por decreto de 9 de fevereiro de 1835. Instituindo exposições de pintura que se renovavam anualmente, tomando outras iniciativas úteis, a sua administração deu grande prestígio à Academia. Pintou quadros notáveis, entre os quais “Morte de Turenne”, “Derrubada das matas”, “Mãe d’água”, “Descobrimento das Caldas”, “O caçador e a onça”, tendo pintado também um retrato do Imperador, na infância. Nas letras igualmente se distinguiu, fazendo a versão para o francês, em versos, dos “Idílios Brasileiros”, escritos em latim pelo seu irmão Teodoro, e das obras de Píndaro, das sátiras de Pérsio e a tradução da “Astronomíe du jeune âge”. Escreveu “Batalha de Poitiers”, poema em 24 cantos. A 1 de janeiro de 1835, foi nomeado professor de Desenho, Grego e Literatura do Imperador. Não foi, porém, apenas o mestre zeloso, mas também o amigo dedicado, perto de 40 anos. Em 1851, já então Barão de Taunay, comendador da Ordem da Rosa, Cavalheiro da Legião de Honra e da Ordem do Mérito e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, desde a sua fundação, obteve aposentadoria, recolhendo-se à vida privada. Daí por diante, passou a cuidar inteiramente da educação dos três filhos que tivera do seu consórcio com Dona Gabriela d’Escragnolle Taunay, filha do conde d’Escragnolle. Foi esforçado propugnador da grande naturalização e das mais indispensáveis medidas de higiene e estética do Rio de Janeiro, do esgotamento dos pântanos e canalização das águas, da arborização da cidade, do alargamento sucessivo e retificação das ruas, como se verifica de manuscritos, projetos e memórias de sua autoria. Traçou a Estrada Nova da Cascatinha, na Tijuca, onde residiu; construiu a ponte sobre o rio Maracanã e exerceu influência real e decisiva nas Belas Artes do Brasil. Morreu nesta capital, em 1881. As últimas palavras que articulou foram estas: “Adieu, belle nature du Brésil! Adieu, ma belle cascade!”. E como trazia um gorro à cabeça, tateando-o para tirá-lo nas trevas da cegueira em que mergulhara havia três anos, murmurou: “Voici la mort. Il faut découvrir”, cortesia que – observa Franklin Távora, em discurso pronunciado em 1881, no Instituto Histórico e do qual extraímos os principais elementos destes traços biográficos – revela mais o poeta do que o crente, apesar de ser o barão de Taunay profundamente cristão.

Em sua memória foi erigido um monumento, em 1926, em frente à Cascatinha, no Alto da Boa Vista.

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No mesmo sítio onde se ergue esse monumento – é o fotógrafo Bachmeyer, que ali exerce sua profissão há 32 anos, quem informa – existia, até alguns anos passados, a casa centenária onde viveram os Taunay até 1881, sendo o seu último habitante, do ramo dessa família, o barão Félix Emílio Taunay, a cuja iniciativa se devem os primeiros melhoramentos locais. Essa casa foi desapropriada sendo, em seu lugar, aberta uma pequena praça, onde, em 1928, no governo do Sr. Washington Luiz, foi erigido o monumento que ali se encontra. Passou, então, a denominar-se “Cascatinha Taunay” a linda queda d’água que se despenha sobre a rocha granítica e se canaliza através da espessa mata do Alto da Tijuca.

Não houve inauguração solene do monumento. Construído pela Municipalidade, ali ficou, sem qualquer aparato ou cerimônia inaugural, como uma recordação perene de quem, nascido no estrangeiro, tanto amou o Brasil e prestou serviços inestimáveis à terra onde viveu.

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O monumento ao barão de Taunay compõe-se de uma rotunda construída em granito da Tijuca, junto a uma palmeira. A rotunda tem a sua base num pedestal de dois degraus, também em granito. Na face fronteira à cascata, sob um retrato de Taunay, em cor azul, lê-se: “Félix Emílio Taunay (1795-1881)”. Na parte posterior, do lado da palmeira, vê-se uma paisagem em azul sobre ladrilho branco incrustado no granito, representando a floresta da Tijuca e a casa onde habitou Taunay, com essa inscrição: “Cascatinha Taunay, na Tijuca – Alto da Boa Vista. Sítio de propriedade do Barão de Taunay (1855)”. Numa das faces laterais: “Neste sítio da Cascatinha Taunay vieram em 1817 estabelecer-se, a fim de observar a natureza brasileira em sua intimidade, os irmãos Taunay, membros da missão artística de 1816, fundadora da Escola Nacional de Belas Artes: Nicolau Antônio (1755-1830), Augusto Maria (1768-1821)”. E do outro lado: “Em memória destes tão prestantes servidores do Brasil, ordenou o Exmo. Sr. Dr……………….. presidente da República dos Estados Unidos do Brasil, que se lhes consagrasse esta oblação no local de sua antiga casa patrimonial – Agosto de 1928”.

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Há um detalhe que causa a mais viva estranheza a quantos, nacionais ou estrangeiros, vão visitar a Cascatinha e se detêm ante o monumento. É que o nome do presidente da República, em cujo quadriênio se promoveu a homenagem, foi eliminado da inscrição ali gravada, aparecendo, no lugar correspondente, um claro esburacado. Revolucionários de 1930, logo que aqui aportaram, foram visitar a cascatinha. Empolgados pela exaltação do momento, entenderam de apagar o nome do presidente, sr. Washington Luiz, que mandara erigir o monumento. Conta-se que o sr. Getúlio Vargas indo, um dia, visitar o Alto da Tijuca, deteve-se alguns momentos na Cascatinha Taunay e ao ver o monumento com aquela mutilação sentiu natural estranheza, declarando que mandaria restaurar o nome do ex-presidente. Efetivamente, alguns dias depois, ali surgiram algumas pessoas que pareciam incumbidas dessa tarefa, tomando medidas e apontamentos. Entretanto, não mais voltaram até hoje. Desconhece-se se o Serviço do Patrimônio Artístico e Histórico Nacional e a Prefeitura do Distrito Federal têm ciência do fato.

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