Monumento ao Cristo Redentor

Teve uma acolhida entusiástica, em todo o país, a ideia da ereção de um monumento ao Cristo Redentor, lançada no curso do ano de 1921 e que se destinava à comemoração do primeiro centenário da nossa Independência política. Os propugnadores de tão bela iniciativa viram-se calorosamente animados com as manifestações de aplausos recebidas de todos os Estados, subscritas por elementos representativos de todas as classes sociais, e encorajados com o apoio leal e decidido que lhes emprestou o então arcebispo-coadjutor do Rio de Janeiro, Dom Sebastião Leme.

O projeto aprovado era, entretanto, de um vulto que tornava hesitantes, por suas dificuldades técnicas e por seu custo, os mais otimistas. O histórico do empreendimento está bem resumido no artigo do Conde Afonso Celso, publicado em 1931, sob o título: “A Iniciativa”, de onde retiramos estas informações:

“A 20 de março do ano de 1921 efetuou-se, no Círculo Católico, a primeira assembleia destinada a estudar o projeto, que mereceu a aprovação e o apoio de Sua Eminência o Senhor Cardeal Arcoverde. Seguiram-se, sempre no Círculo Católico, outras assembleias muito concorridas, nas quais se adotaram resoluções relevantes, quais a de se preferir o Corcovado ao Pão de Açúcar, para sede da estátua, a de se receberem propostas relativas à construção, a de se nomear um júri julgador de tais propostas. Das apresentadas, prevaleceu, após animados debates, a do Doutor Heitor da Silva Costa, sendo igualmente muito apreciadas as do Doutor José Agostinho dos Reis e Morales de los Rios. Continuou a trabalhar a comissão, fazendo a propaganda do plano, promovendo a obtenção de recursos materiais e combatendo a opinião dos que se opunham à licença do Governo, considerando-a inconstitucional. Havendo assumido, em 1921, o governo da arquidiocese, Dom Sebastião Leme, em cuja ausência se haviam adotado as determinações referidas, nomeou assistente eclesiástico dos trabalhos o vigário da Glória, monsenhor Luiz Gonzaga do Carmo. A Comissão Executiva achava-se desfalcada, entre outras, por duas graves perdas, as do Doutor Antero de Almeida e da Condessa de Paranaguá. Tendo-se exonerado da presidência da Ação Social Nacionalista, convencido de que o Senhor arcebispo-coadjutor devia reconstituir a comissão, resolveu o autor deste escrito pedir também dispensa da direção desta. O preclaro pastor arquidiocesano nomeou então outra Comissão Executiva e, graças à sua alta e diligentíssima orientação, à de monsenhor Gonzaga e à esclarecida competência do Doutor Heitor da Silva Costa, o empreendimento, sem embargo de grandes dificuldades, prosseguiu em marcha feliz. Mostrou o Doutor Heitor da Silva Costa a dificuldade da construção no alto de uma montanha de 700 metros de altura, dominando um círculo de cerca de 276 graus, visível do mar, do centro da cidade e de seus diversos arrabaldes. Depois de acurados estudos, fixaram-se-lhe a forma e as dimensões. Mais de uma vez teve o Doutor Heitor da Silva Costa de ir à Europa, onde lhe prestou valioso concurso o eminente escultor Paulo Landowsk, de acordo com o qual se modificaram as linhas da primitiva “maquete”. Começados em 1924, os trabalhos de escultura do modelo em gesso somente depois de longo prazo puderam concluir-se. Exigiu o cálculo da resistência dos materiais atenta investigação. É uma obra em que colaboraram estatuário, arquiteto e engenheiro, e que, pela sua estrutura, estabilidade, condições especiais do local, significação, simbolismo, depende da intervenção simultânea de múltiplos e complexos elementos, como talvez nunca anteriormente se houvesse tentado.”

Além da Comissão Arquidiocesana do Monumento ao Cristo Redentor, que teve a incumbência de levar à execução a iniciativa que chegou a feliz termo, inaugurando o monumento no dia 12 de outubro de 1931, estava constituída também outra comissão encarregada da construção do monumento propriamente dito, esta composta dos engenheiros Heitor da Silva Costa, Pedro Viana da Silva e Heitor Levi, tendo este último nos prestado preciosos informes sobre a obra.

A fim de dirigir as solenidades da “Semana Nacional do Cristo Redentor” e da inauguração do monumento, foi organizada a seguinte comissão: cônego Doutor Henrique Magalhães, padre Leonel Franca, S. J.; padre João Carlos Bezerril, cônego Doutor Alfredo de Vasconcelos, padre Olímpio de Melo, Conde Afonso Celso, Doutor Joaquim Moreira da Fonseca, Professor Augusto Paulino, Doutor Alceu de Amoroso Lima, Paulo Sá, Doutor João E. Peixoto Fortuna, Doutor Cristiano Benedito Ottoni, Doutor Horácio Ribeiro da Silva, Doutor Bento José Ribeiro de Castro, Doutor Otávio Macedo Soares, desembargador Alfredo de Almeida Russell, Doutor Henrique José do Carmo Neto, Doutor Alfredo Baltazar da Silveira, Doutor Hamilton Nogueira, Durval de Morais, Doutor Sobral Pinto, J. C. Melo e Sousa, Pedro Fabrício de Barros, Com. Manuel Pedro de Miranda Montenegro, Doutor Pedro Fernandes Viana da Silva, Carlos Marques, Pedro Veloso Rebelo, Doutor Luiz Augusto do Rego Monteiro, Rubens Porto, Doutor Henrique Tanner de Abreu, Horácio Dias da Silva e Doutor Joaquim Henrique Mafra de Laet.

A Comissão Geral de Senhoras esteve sob a direção dos padres Luiz Rion, S. J., presidente; Afonso Germe, C. M., Manuel Macedo, Solano Dantas e Leovigildo Franca; e era assim constituída: senhoras Tasso Fragoso, Ávila Matos, Hermínia Gomes, Leão Teixeira, Álvaro Pereira, Lineu de Paula Machado, Monteiro de Castro, Zulmira Muniz Barreto, Adelaide Kaufus, Melo Matos, Almeida Fagundes, Ferreira de Faro, Estela de Faro, Antonina da Justa, Albertina Borges, Heitor da Silva Costa, Maria Sales Bravo, Isabel Borges, Teresa Simonete, San Juan, Otávio Teixeira, Sílvia Borges, Roberto Laje, Lacerda Dias, Crockat de Sá, Fontes Ferreira, Ana de Resende, Estela Borges, Maria Carolina Rebouças, Barros Henriques, Dagmar Cortines, Firmina Moreira da Fonseca, Ercília Viana de Castro, Nair Pederneiras, Franklin Sampaio, Luci Grandmasson, Higina de Sousa Leão, Ida Leão Teixeira, Carmem Taafe, Eugênia Borges, Emília Baía, Augusto de Lima, Sara de Fialho, Maria Ribeiro, Alfredo Guimarães, Epitácio Pessoa, Joana Vieira Souto, Maria José Frota, Antonieta Lins, Monteiro Leão, Oscar Weinshenck, Lucília de Sousa Ribeiro, Helena Baiana, Cordélia Magalhães Castro, Alaíde Guimarães, Angelina Pedreira de Sousa, Armando Burlamaqui, Maria de Lourdes Lima Rocha, Mary Cata Preta, Carqueja de Fuentes, Xavier Pedrosa, Mariana Nabuco, Maria Luíza Delamare, Bekiss de Araújo Góis, Cecília Resende, Luíza Baltazar, Moreira de Sousa, Amélia de Resende Martins, Maria Luiza Werneck Niemeyer, Margarida Boselli, Raja Gabaglia, Laura Lacombe, Cid Braune, Maria Amélia Braga, Ernesto Isnard e Marina França Medine.

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Busto do Cardeal Dom Sebastião Leme

Previamente designados, falaram durante a “Semana Nacional do Cristo Redentor” e inauguração do monumento os Senhores Professor Fernando Magalhães, reitor da Universidade do Rio de Janeiro; José Maria Whitaker, ministro da Fazenda; Belizário Pena, ministro da Educação; coronel Gregório da Fonseca, secretário da Presidência da República; Doutor Levi Carneiro, consultor da República; Professor Leitão da Cunha, diretor da Faculdade de Medicina; Conde Afonso Celso, da Academia de Letras; Professor Cândido de Oliveira Filho, da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro; Luiz Carlos da Fonseca, da Academia de Letras; Doutor Heitor da Silva Costa, autor do projeto e construtor do monumento; Alceu Amoroso Lima, presidente do Centro Dom Vital; Edmundo Pinto, Phocion Serpa, Afonso Pena Júnior, Augusto Teixeira de Freitas, Sérgio Teixeira Macedo, Carlos Barbosa de Oliveira, Felipe dos Reis, Everardo Backeuser e João Piragibe. Também prestaram sua contribuição as Senhoras Dona Francisca Bastos Cordeiro, Mário Ribeiro de Almeida, Leontina Licínio Cardoso, Maria Luíza Bittencourt, Vera Delgado de Carvalho, Carolina Nabuco e Marieta Lopes de Sousa.

A “Semana Nacional do Cristo Redentor”, instituída para solenizar de um modo muito expressivo a inauguração do monumento que se ergue no alto do Corcovado, teve início no dia 4 de outubro de 1931, quando se reuniu, nesta capital, o Congresso Católico, no qual tomaram parte cerca de 50 bispos e arcebispos, procedentes de quase todos os Estados, e ainda dois prelados argentinos. Numerosas peregrinações, organizadas em vários pontos do país, vieram também assistir aos imponentes festejos. Nunca, em toda a América, se reuniram tantos bispos, como naquela época, nesta capital, conforme se vê da relação seguinte: Dom Sebastião Leme, Cardeal Legado; Dom Benedito Aloisi Masella, Núncio Apostólico; Dom Augusto Álvaro da Silva, arcebispo da Bahia e Primaz do Brasil; Dom Duarte Leopoldo da Silva, arcebispo de São Paulo; Dom Joaquim Silvério de Sousa, arcebispo de Diamantina; Dom João Backer, arcebispo de Porto Alegre; Dom Miguel de Lima Valverde, arcebispo de Olinda e Recife; Dom Antônio Augusto de Assiz, arcebispo de Jaboticabal; Dom Otaviano Pereira de Albuquerque, arcebispo do Maranhão; Dom Helvécio Gomes de Oliveira, arcebispo de Mariana; Dom Antônio dos Santos Cabral, arcebispo de Belo Horizonte; Dom João Francisco Bravo, arcebispo de Curitiba; Dom Joaquim Domingues de Oliveira, arcebispo de Florianópolis; Dom Alberto Luiz Gonçalves, bispo de Ribeirão Preto; Dom João de Almeida Ferrão, bispo de Campanha; Dom Francisco de Campos Barreto, bispo de Campinas; Dom João Tomaz Gomes da Silva, bispo de Aracaju; Dom Serafim Gomes Cardim, bispo de Araçuaí; Dom Antônio Malan, bispo de Petrolina; Dom José de Oliveira Lopes, bispo de Pesqueira; Dom Otávio Chagas de Miranda, bispo de Pouso Alegre; Dom Joaquim Mamede da Silva Leite, bispo de Sebaste; Dom Benedito Paulo Alves de Sousa, bispo do Espírito Santo; Dom Antônio José dos Santos, bispo de Assiz; Dom Ático Eusébio da Rocha, bispo de Cafelândia; Dom José Pereira Alves, bispo de Niterói; Dom José Maurício da Rocha, bispo de Bragança; Dom Rosalvo da Silva Farias, bispo de Guaxupé; Dom Manuel Alves Coelho, bispo de Aterrado; Dom Manuel Gomes de Oliveira, bispo de Goiás; Dom Inocêncio Englike, bispo coadjutor de Campanha; Dom Justino José de Santana, bispo de Juiz de Fora; Dom José Carlos Aguirre, bispo de Botucatu; Dom José Maria Pereira Lara, bispo de Santos; Dom Henrique C. Fernandes Mourão, bispo de Campos; Dom André Arcoverde, bispo de Valença; Dom Guilherme Muller, bispo de Barra do Piraí; Dom Fernando Tadei, bispo de Jacarezinho; Dom Juvêncio Brito, bispo de Caitité; Dom Adalberto Sobral, bispo de Barra do Rio Grande; Dom Fortunato Devoto, bispo auxiliar de Buenos Aires; Dom Eduardo Herterhold, bispo de Ilhéus; Dom Luiz de Santana, bispo de Uberaba; Dom Augustinho Barreto, bispo de Tucumã, na Argentina; Dom Lafaiete Libânio, bispo do Rio Preto; e Dom Aristides de Araújo Porto, bispo coadjutor de Montes Claros.

Busto de Heitor da Silva Costa

Presidiu à mesa do Congresso, em cada dia, um dos bispos presentes, sendo vice-presidente monsenhor Rosalvo Costa Rego, vigário geral do Arcebispado; segundo vice-presidente, monsenhor Gonzaga do Carmo, vice-presidente da Comissão Construtora do Monumento, sendo secretário o cônego Doutor Henrique de Magalhães, vigário da Candelária, e o Doutor Mafra de Laet, curador das Massas.

Para acompanhar as grandiosas solenidades da “Semana Nacional do Cristo Redentor” e a inauguração do monumento, Sua Santidade o Papa nomeou um Cardeal Legado. A escolha recaiu em Dom Sebastião Leme, o que ocorreu pela primeira vez na América Latina, jamais tendo cabido a um sul-americano essa honrosa incumbência. Não se tratava, no caso, de uma simples carta de nomeação, mas, antes, de um documento da mais alta significação pelo que encerrava de deferência para com o Brasil e de estima pelo então segundo Cardeal da América Latina.

A Comissão Promotora da Construção do Monumento fez publicar, na antevéspera da inauguração, que, por falta absoluta de espaço no Corcovado e de condução, pela respectiva estrada de ferro, só iriam à cerimônia da inauguração e bênção do Monumento as autoridades eclesiásticas e civis e os membros da mesma Comissão Promotora, não havendo convites.

O Governo resolveu considerar ponto facultativo o dia 12 de outubro de 1931, em atenção ao acontecimento. Acompanhando essa decisão, o interventor no Distrito Federal também considerou o ponto facultativo nas repartições municipais. A primeira parte do programa organizado constou de missa campal celebrada no Fluminense Futebol Clube, cerimônia a que, apesar do tempo ameaçador, assistiram milhares de pessoas. O ato religioso foi celebrado por Dom Helvécio Gomes de Oliveira, arcebispo de Mariana. Falou Dom Plácido de Oliveira, monge beneditino. Em seguida, Dom Sebastião Leme deu a bênção papal, a fim de desincumbir-se da missão de que o investira o chefe da Igreja.

A benção do Monumento ao Cristo Redentor, realizada no Alto do Corcovado, na manhã de 12 de outubro de 1931, revestiu-se de grande imponência e teve o comparecimento do chefe do Governo Provisório, dos membros do Ministério, dos membros do episcopado brasileiro, e de numerosas pessoas de representação social. Mas não foi apenas o elemento oficial da igreja e do Estado que se achava aos pés do monumento, encontrando-se ali, também, considerável massa de famílias e de cavalheiros, que haviam conseguido subir ao Corcovado. O trem que transportou o Cardeal Dom Sebastião Leme, os altos dignitários e o episcopado da Igreja brasileira atingiu o alto do Corcovado cerca das 10 horas e 30 minutos. Pouco depois, chegou o trem conduzindo o Senhor Getúlio Vargas, sendo encaminhado, bem como todas as demais pessoas de sua comitiva, para a direita do altar. Com o chefe do Governo, além de sua família, assistiram à solenidade da bênção os ministros de Estado, o chefe de Polícia e o interventor no Distrito Federal. Minutos depois da chegada das altas autoridades federais e eclesiásticas, o Cardeal, acolitado pelos monsenhores Luiz Gonzaga do Carmo e Assiz Caruso, tomou um ramo de cravos e benzeu o Monumento, espargindo água benta sobre o seu pedestal. Terminada essa parte da solenidade, S. E. ofereceu o ramo de cravos à Senhora Getúlio Vargas.

Logo após, teve início a missa, no altar erguido junto ao monumento. O ato religioso foi celebrado pelo Núncio Apostólico, Dom Aloisi Masella, alcolitado pelos monsenhores Gonzaga do Carmo e Francisco de Assiz Caruso. Em seguida, subiu à tribuna Dom João Backer, arcebispo de Porto Alegre, que pronunciou eloquente oração, sendo muito aplaudido. Falou, depois, o Professor Fernando Magalhães, seguindo-se com a palavra o Senhor Luiz Augusto do Rego Monteiro, que leu um discurso escrito pelo Senhor Pandiá Calógeras, ausente por motivo de força maior.

Finda a missa, o Cardeal procedeu à cerimônia, que consistiu em consagrar o Brasil ao Sagrado Coração de Jesus. Monsenhor Melo e Sousa leu as promessas da Consagração, tendo, em seguida, Dom Sebastião Leme pronunciado uma oração à Consagração. Entusiásticos vivas e aplausos saudaram as últimas palavras de S. E. Concluído esse ato soleníssimo, com que se encerrou a cerimônia da bênção, as pessoas presentes desceram em trens especiais. Apesar da chuva, que caía forte, uma verdadeira multidão se estendia ao longo da linha da Estrada de Ferro Corcovado, ovacionando os ilustres viajantes, que foram recebidos, ao chegar à estação de Cosme Velho, por significativa manifestação popular.

Durante a solenidade, evoluiu uma esquadrilha de aviões da Aviação Militar.

Realizada, pela manhã, a benção do monumento, fixava o programa oficial da “Semana Nacional do Cristo Redentor” a inauguração da estátua para a tarde, na praia de Botafogo. A chuva, porém, começara a cair depois das 13 horas, mantendo-se o tempo inclemente durante todo o dia, o que prejudicou bastante o brilho da solenidade. Mas, ainda assim, junto ao pavilhão erguido na Avenida Beira-Mar, nas proximidades da Avenida Osvaldo Cruz, havia considerável multidão. Em outro pavilhão estava o Colégio Salesiano de Niterói com a sua banda de música. Pouco depois das 18 horas e 30 minutos, chegava àquele primeiro pavilhão o Cardeal Leme, com altos dignitários da Igreja, sendo recebido pelos arcebispos, bispos e demais sacerdotes ali presentes. Dom José, bispo de Niterói, foi o primeiro dos oradores daquele ato, sendo a sua oração, por vezes, interrompida pelos aplausos. Teve depois a palavra o operário Mário Michelotto, que falou em nome dos operários católicos. O vigário da Candelária, padre Doutor Henrique Magalhães, falou a seguir, entre palmas da assistência. Também discursou o Professor Alcebíades Delamare. Logo após, isto é, às 19 horas e 15 minutos, a estátua monumental do Cristo Redentor era iluminada da Itália, pelo senador Marconi, de bordo do “Electra”, fundeado no porto de Gênova, sendo essa iluminação reforçada por poderosos refletores colocados em pontos adrede escolhidos. Mais tarde, encerrando a solenidade, realizou-se grandioso préstito luminoso, desfilando as Ligas Católicas. Incorporando-se ao cortejo, os pescadores compareceram à enseada de Botafogo com as suas barcas e lanchas iluminadas e embandeiradas.

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A Comissão incumbida de levar a efeito a construção do monumento mandou cunhar uma medalha comemorativa da inauguração, sendo executados três exemplares em ouro, duzentos em prata e mil em bronze. Os três primeiros destinaram-se ao Papa, ao chefe do Governo Provisório e ao Cardeal Leme.

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Cume do Corcovado, de Marc Ferrez, via Biblioteca Nacional

As formidáveis dimensões da estátua do Cristo Redentor podem ser assim descritas: 30 metros de altura; 30 metros entre os pontos extremos dos dedos, medidos ao longo dos braços distendidos; 9 toneladas de peso para cada mão; 20 para a cabeça e 80 para os braços. O peso de toda a estátua é de cerca de 700 toneladas, que, conjugado com o pedestal de 500 toneladas, produz uma resultante capaz de resistir às maiores pressões dos ventos ocasionados pelos fortes temporais que assolam aquelas alturas. É esta uma das maiores estátuas do mundo. É única, porém, na atitude dos braços em cruz, o que criou um problema novo na técnica construtiva. O colosso de Rhodes, a estátua de São Carlos Borromeu, em Avona, a da Vierge de Puy e a de São José, em Espahy, ambas na França, umas existentes, outras destruídas, nenhuma se lhe iguala em altura, em dificuldade de execução. Somente a da Liberdade, nos Estados Unidos, pode servir-lhe de termo de comparação, quanto às dimensões, porém, no mais, há dessemelhança, e se uma representa a apoteose da metalurgia do ferro, a outra é a vitória do concreto armado.

A estas informações, extraídas do próprio discurso no qual o arquiteto-construtor Heitor da Silva Costa apresentava o seu notável trabalho perante o Congresso Católico realizado naquela época, podem ser alinhadas ainda outras, dessa mesma origem, que se referem à segurança do monumento. Sua construção atendeu a todas as exigências do local, sujeito a violentas tempestades. A pressão dos ventos, calculada para a estabilidade da estátua, é das mais fortes que têm sido consideradas, de sorte que o coeficiente corresponde a uma velocidade de cerca de 100 quilômetros por hora, velocidade só verificada nas regiões de tufões que não se podem formar nesta parte do Atlântico. O simbolismo do Redentor forçou a atitude dos braços em cruz, dada a distância a que tinha de ser visto. Essa atitude exigiu a estrutura interna em concreto armado, única compatível no caso, o que, por sua vez, determinou a modelagem em cimento armado para a formação de um todo homogêneo. O que representa na grande imagem aspecto mais inédito, mais moderno e mais original – é ainda o próprio construtor quem informa – é o seu revestimento, por ser constituído de pequenos elementos triangulares de pedra sabão, tendo cada um deles 3 centímetros de lado e 7 milímetros de espessura. Pedra dúctil, para ser trabalhada, tem uma granulação fina e compacta que lhe permite oferecer uma notável resistência no desgaste. A sua tonalidade é branca, ligeiramente esverdeada, como convinha para harmonizar-se com o ambiente e para efeito da maior visibilidade. É pedra que não racha, nem se dilata e assim protege, com grande eficiência, a estrutura interna em concreto armado. É pedra que não absorve água, nem é por ela dissolvida, o que é de superior vantagem para a sua conservação. O seu aspecto é inalterável; apenas quando molhada, a tonalidade verde se acentua, permitindo efeitos dos mais curiosos e inesperados. O custo do monumento e do preparo do local, incluindo todas as obras complementares, foi de dois milhões e cem mil cruzeiros, sendo que no monumento propriamente dito foram gastos um milhão e trezentos mil cruzeiros.

A importância destinada ao custeio da obra foi conseguida mediante subscrição pública, tendo o Governo auxiliado a iniciativa com duzentos mil cruzeiros.

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