Monumento ao General Osório

Os atos de destemor e bravura praticados pelo general Manuel Luiz Osório – Marquês de Herval – nas lutas do Império, desde a campanha da Independência até a do Paraguai, fizeram-no passar à história com o justo renome de “lendário”. Nascido na antiga cidade de Conceição do Arroio (hoje, Osório), no Rio Grande do Sul, a 10 de maio de 1808, alistou-se no Exército aos 15 anos, sendo alferes aos 16; e, daí, galgou todos os postos, até ser nomeado comandante-chefe do Exército Brasileiro, quando sobreveio a guerra do Paraguai. Sua atuação foi notável, então, devendo-se-lhe as vitórias de Estero Belaco e de Tuiuti e o famoso ataque do Passo da Pátria. Soldado, general, deputado e senador do Império pela Província do Rio Grande do Sul; portador dos títulos de barão, conde e marquês de Herval, a vida de Osório foi sempre um espelho de ações harmoniosas e de atitudes destemerosas, motivo pelo qual, falecendo, nesta capital, a 4 de outubro de 1879, os brasileiros decidiram levantar um monumento em sua homenagem, exprimindo a gratidão nacional por tudo o que fez pelo Brasil.

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A estátua do general Osório, que se ergue na praça 15 de Novembro, representa uma homenagem do povo ao grande soldado e foi fundida com o bronze de canhões tomados ao inimigo. Sua construção foi contratada pela importância de cento e sessenta contos de réis, com o escultor Rodolfo Bernardelli, sendo o pagamento efetuado com o produto de uma subscrição popular em que cada pessoa não podia dar mais de quinhentos réis. Recebendo a encomenda em 1887, Bernardelli enviou o modelo para Paris, em 1892, a fim de ser fundido nas oficinas Thibaut. Em 21 de julho desse ano, o corpo embalsamado de Osório foi transportado do Asilo dos Inválidos da Pátria, onde se achava desde 4 de outubro de 1879, para a praça 15 de Novembro, e, aí, precedida de uma homenagem militar aos despojos, foi a urna depositada nos alicerces do monumento.

O pedestal é de granito de Baveno, Alpes, e tem dois baixos relevos de bronze, representando, o primeiro, na face norte, a batalha de 24 de maio, e o segundo, na face sul, o ataque do Passo da Pátria. Em ambos, Osório aparece à frente das tropas. Na face anterior, uma coroa de carvalho circunda o dístico: “A Osório, o povo 1894” – e na posterior há esta inscrição: “Nasceu a 10 de maio de 1808, na ex-Província do Rio Grande do Sul”. A estátua equestre foi colocada sobre a base de granito, em agosto de 1893, apresentando o bronze a figura de Osório, montado a cavalo, ligeiramente inclinado sobre a direita, com a espada em punho. O monumento pesa 5.700 quilos, tem 8 metros de altura e está de frente para o mar.

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Revestiu-se de excepcional solenidade a inauguração da estátua, no dia 12 de novembro de 1894, formando em volta da praça toda a guarnição da capital da República, em grande uniforme; a brigada de alunos do Colégio Militar, alunos e alunas das escolas municipais. Aglomerava-se o povo, cerca de 40.000 pessoas, nas ruas adjacentes.

As altas autoridades civis e militares, os representantes da República Oriental do Uruguai e os membros da família Osório assistiram à solenidade, de uma arquibancada erguida ao lado do “Hotel de France”, (na esquina da praça 15 de Novembro com a rua 1.º de Março, edifício hoje demolido). Às 13 horas, descerravam-se as cortinas verdes e amarelas que envolviam a estátua, em meio a vibrantes aclamações populares, enquanto as fanfarras de quatorze corpos de tropa tocavam o Hino Brasileiro e a artilharia dava as salvas do estilo. Terminada a cerimônia, todas as forças desfilaram em continência.

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Ao observador atento não escapa uma particularidade que apresenta a estátua de Osório. É que o bronze nos mostra a figura do general, a cavalo, porém sem as botas de montaria. Osório pertenceu à Arma de Cavalaria. Além disso, qualquer oficial-general, seja qual for a arma a que pertença, quando montado, usa botas. A estranheza acentua-se ainda mais quando se verifica que na “maquete” modelada por Bernardelli e que se encontra no Museu Histórico, ao qual foi doada em testamento pelo escultor, a figura de Osório aparece com botas. No intuito de informar os nossos leitores sobre o motivo dessa divergência, procuramos ouvir, no Museu Histórico Nacional, o professor Meneses de Oliva, diretor da Seção Histórica, a quem temos recorrido algumas vezes, obtendo preciosos informes, para utilizá-los nesta seção. Mostrando conhecer o assunto nos seus detalhes, disse-nos aquele alto funcionário mais ou menos o seguinte:

– Henrique Bernardelli, irmão do escultor, contou-nos toda a história e pediu que fôssemos o cruzado da sua divulgação. Não foi engano de Rodolfo Bernardelli. Ele estudou tudo o que um escultor estuda para fazer um monumento daquele tipo: indumentária militar, ambiente histórico, etc. E fez o que era certo. Vestiu o general Osório com o segundo uniforme, do qual fazem parte as botas. Quando a “maquete” ficou pronta, convidou a filha do grande cabo de guerra, D. Manuela Luiza Osório Mascarenhas, a visitar seu “atelier”. Vendo o modelo, ela se dirigiu ao escultor, declarando: – “Está muito bonito. Mas é interessante que meu pai esteja com botas, quando desde 1866 ele não as pôde mais usar até o resto da vida”.

A uma pergunta de Bernardelli, ela esclareceu: – “Choveu torrencialmente enquanto se desenvolvia a batalha do Passo da Pátria, na qual meu pai esteve combatendo, durante 24 horas. Quando transpôs o rio, as botas estavam encharcadas e não podia tirá-las, observando que as pernas estavam inchadas. Ordenou ao seu bagageiro que lhe cortasse as botas a faca, o que foi feito. Voltando a combater, já no final dessa batalha, lutou meu pai sem botas. Mais tarde, já sob tratamento, na cidade de Pelotas, o médico sugeriu a aplicação de uma bicha em cada perna, do que resultaram duas feridas de mau caráter, que não cicatrizaram”.

E prossegue o nosso Informante:

“Ante o que lhe expusera a filha de Osório, Rodolfo Bernardelli resolveu fundir o monumento sem botas, inspirado no propósito de realçar, perante as gerações, o sacrifício do grande general. No dia da inauguração da estátua, foi acoimado de ignorante e a poucos pôde explicar a razão daquela aparente lacuna do seu trabalho. Deixou em testamento ao Museu a “maquete”, pedindo-me seu Irmão Henrique que eu contasse o caso aos colegiais que visitam o Museu. E assim o tenho feito”.

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