Monumento ao índio asteca Cuauhtémoc

Cuauhtémoc – quer dizer – águia que tomba, como significa o hieróglifo do seu nome. Último imperador asteca de Anauha (México), nasceu em 1496, segundo alguns, ou em 1502, segundo outros, e morreu em 1522. Era filho do célebre Tiacatecuhtli, asteca Ahuitzatl, cujo caráter indômito herdou, correndo-lhe, pois, nas veias o sangue de um grande guerreiro. Quando o povo mexicano se levantou contra os espanhóis, Cuauhtémoc era o Sumo Sacerdote. A atitude por ele assumida durante os dias que se seguiram à cruel matança dos nativos, praticada pelos conquistadores guiados por Hernán Cortez, no Templo Maior, causou-lhe a mais profunda indignação e desde então passou a hostilizar o invasor. Não havia dia em que não saísse a combater pessoalmente e não perdia ocasião de fortalecer o ânimo dos soldados, encorajando-os. Diante da atitude de Montecuhzoma, aconselhando os mexicanos a não hostilizarem mais os espanhóis que lutavam com superioridade de armas e de forças, tornando inútil a resistência, Cuauhtémoc teve estas palavras de coragem e desafio – “Que é que diz esse velhaco de Montecuhzoma, mulher dos espanhóis, pois que com ânimo mulheril se entregou a eles cheio de medo? Ele não é nosso rei e, como a um homem vil, o havemos de castigar”. Ergueu o braço e, acompanhando com a ação a formidável acusação, fez disparar várias flechas, secundando-lhe os seus comandados, como “Tiacatecati” ou comandante-chefe do Exército. Uma versão de cronistas castelhanos conta que foi então que Motecuhzoma recebeu uma pedrada que lhe ocasionou a morte. Morto o temido senhor, respeitado até esse dia pelos seus vassalos, quase como um Deus, foi eleito Cuauhtémoc para sucedê-lo no governo do México; prosseguiu a luta com ardor, sob as ordens do seu tio e senhor, encabeçando o grupo dos seus valentes companheiros, combatendo nas ruas, na frente do quartel, nas calçadas de Tacuba por onde saíram em fuga os conquistadores, na memorável “Noite Triste” de 30 de junho de 1520. Os louros conquistados naquela jornada pertenciam principalmente a Cuitlahuac, seu primo, irmão de Montecuhzoma, que por essa época ocupava o “lopali” do Império. Cuitlahuac governou, desenvolvendo grande atividade para hostilizar os espanhóis e oferecer-lhes resistência, mas, atacado de varíola, peste que viera importada com um negro de Narvaez, morreu nos fins de novembro de 1520. Cuauhtémoc foi por fim eleito Tiacatecuhtli, elevada dignidade que de direito lhe cabia pelo seu valor e pela sua inteligência, porque foi, sem dúvida alguma, o único dos “fecuhtin” ou rei do México, que concebeu a ideia de construir uma nacionalidade. Não foi um déspota, como os seus antecessores no Império, nem um tirano que pesasse sobre as outras tribos da sua própria raça, impondo-lhes tributos excessivos ou fazendo multidão de prisioneiros, a fim de satisfazer a voracidade de corações e de sangue humano que os ferozes deuses exigiam nos horrendos sacrifícios. Cuauhtémoc, diante do perigo comum que a todas as tribos indígenas ameaçava, convidou-as repetidas vezes para defenderem-se unidas contra os estrangeiros intrusos. Ninguém o compreendeu. As tribos, divididas por oito senhores que haviam criado as sangrentas guerras entre si, para cobrar novos impostos ou obter os que pudessem imolar, deixaram Cuauhtémoc isolado com o seu grupo heroico; os que não ficaram indiferentes à derrota que sobreveio, servilmente ajudaram o conquistador e, às centenas e aos milhares, acudiram ao lado deste para cercar a grande cidade mexicana Tenachtitlan, que surgia no século XIV entre a água dos lagos. Vencedor de Hernán Cortez, outrora, destroçando-o com as suas falanges, Cuauhtémoc foi mais tarde vencido por este, deixando gravados nas páginas da história mexicana os feitos heroicos e as corajosas atitudes que assumiu e defendeu, em prol da nacionalidade. Vencido Cuauhtémoc, preso e supliciado, antes de ser executado, deitaram-no sobre brasas ardentes, para que, pelo sofrimento, indicasse onde tinha escondido os seus tesouros. Junto dele o seu ministro sofria o mesmo suplício e, a um dado momento, pediu-lhe licença para revelar o segredo, por não poder suportar mais tão horrível tortura. “E eu ?” respondeu-lhe Cuauhtémoc. “Julgas que estou num leito de rosas?” – Esta frase correu mundo, tendo sido repetida para exprimir que não se está sozinho a suportar as amarguras de uma empresa daquela ordem.

Tal é a história de Cuauhtémoc, cumprindo salientar que com ele desapareceu para sempre o poderio indígena no México.

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A participação excepcional que o México resolveu tomar nas comemorações do centenário da nossa Independência ficou gravada no espírito do nosso povo que, compreendendo a alta significação desse gesto de cordialidade, vitoriava calorosamente, naquela época, em 1922, os cadetes mexicanos, quando atravessavam triunfalmente a nossa grande Avenida com a sua bandeira desfraldada. Entre tais manifestações de afeto e de solidariedade, destacou-se a oferta de um monumento que ficou erigido na capital da República (Rio de Janeiro), como um significativo marco da amizade mexicano-brasileira. A estátua de Cuauhtémoc, o herói nacional mexicano, o símbolo da força e da energia da raça, é sempre vista como, um dos monumentos mais artísticos da nossa capital, além de ser um símbolo valioso e expressivo dos sentimentos de fraternidade do México para com o Brasil.

No dia 16 de setembro de 1922, data em que o México comemora o aniversário de sua Independência, foi esse monumento inaugurado no cruzamento das avenidas Beira-Mar, Rui Barbosa e Osvaldo Cruz, no trecho conhecido como “Curva da Amendoeira”. Junto ao palanque oficial, formaram uma banda de música do Estado Maior do México, o Batalhão de Cadetes mexicanos, o Primeiro Batalhão da Polícia Militar, uma força do 3.º Regimento de Infantaria e outra do Batalhão Naval. O presidente da República, acompanhado de seus ajudantes de ordens, chegou ao local pouco antes das 13 horas, sendo recebido com as honras do protocolo ao som do Hino Nacional. Depois dos cumprimentos do estilo, o embaixador do México convidou-o a inaugurar o monumento. Dirigindo-se até junto do mesmo, acompanhado do ministro do Exterior, dos embaixadores Torres Diaz e José de Vasconcelos, além de outras pessoas gradas, o Sr. Epitácio Pessoa descerrou as bandeiras do Brasil e do México, que o cobriam, aparecendo aos olhos do povo a estátua do herói mexicano. Nesse momento, a banda de música da nação ofertante tocou o Hino Nacional do México, que também foi cantado pela Srta. Treves, e o Hino Nacional Brasileiro, ouvindo-se, no final, palmas e vivas ao México e ao Brasil. Voltando o presidente da República ao pavilhão oficial, o Dr. José de Vasconcelos, embaixador especial do México, pronunciou um discurso oferecendo o monumento ao Brasil, em nome do governo do seu país. Falou, a seguir, o Sr. Azevedo Marques, ministro do Exterior, afirmando que o Brasil recebia com sincera gratidão e alegria a oferta carinhosa. Em seguida, o presidente Epitácio Pessoa, dirigindo-se ao embaixador José de Vasconcelos, proferiu, de improviso, eloquentes palavras. Falou depois o estudante Hugo Pinheiro Guimarães, em nome da mocidade acadêmica, encerrando-se a cerimônia após esse discurso.

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Sobre um pedestal de granito, artisticamente trabalhado, tendo cinco metros de altura, eleva-se o bronze apresentando, de pé, a figura do famoso guerreiro e último imperador indígena do México, em atitude firme e varonil de quem está em combate. Firmando-se no pé direito, tem nas mãos uma lança ou flecha, das que usavam os índios de sua raça, e o braço erguido, em posição de quem vai golpear com ânimo guerreiro. Veste o manto de chefe “Tiacatecati”, tendo sobre a cabeça o grande penacho característico dos guerreiros de sua estirpe. A estátua tem a face frontal virada para o interior da Guanabara, com 2 metros e 30 centímetros de altura, tendo o conjunto escultural – bronze e pedestal – 7 metros e 30 centímetros de altura. Numa das faces, encontra-se um medalhão em baixo relevo, representando o brasão asteca, circundado por um desenho artístico aberto na cantaria. Há, nessa face, a seguinte inscrição: – Cuauhtémoc México al Brasil – MCMXXII.

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