Monumento aos Heróis de Laguna e Dourados

A retirada da Laguna foi um episódio trágico e emocionante da campanha do Paraguai, constituindo um acontecimento que veio pôr em destacada evidência o heroísmo, a abnegação, o patriotismo e a resistência do soldado brasileiro. No extremo norte do Paraguai estava situada uma importante fazenda do ditador Solano Lopez, que foi tomada, em 1867, por uma coluna brasileira, a qual se viu, porém, obrigada a retirar pouco depois. Essa retirada, a princípio sob o comando do Coronel Camisão e, depois, por morte deste e do seu imediato, o Tenente-Coronel Juvêncio, dirigida pelo major José Tomaz Gonçalves, tornou-se uma passagem dramática. Dizimada pelo “cholera morbus” e outras doenças, perseguida sem tréguas pelo inimigo superior em forças, mas lutando sempre com o maior heroísmo, a coluna, que se compunha de 1.680 homens ao invadir o Paraguai, estava reduzida a 700 quando, sete semanas depois, alcançou o Porto Canuto, na margem esquerda do Aquidabã, conduzindo a bandeira nacional, canhões e material de guerra de que o inimigo não conseguira apoderar-se. Esse episódio foi admiravelmente narrado pelo Visconde de Taunay, no seu livro “La Retraite de Laguna”, escrito em francês para que rapidamente se pudesse divulgar pela Europa tão notável documento do heroísmo brasileiro. Existem desse livro duas excelentes traduções: a de Salvador de Mendonça e a de Ramiz Galvão.

A Nação prestou reverente homenagem àqueles heróis, tendo erigido um monumento que perpetuou no bronze a memória dos que tão abnegadamente elevaram à altura do supremo sacrifício o dever do soldado e o amor da Pátria.

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A Iniciativa do grandioso monumento pertence ao Coronel Pedro Cordolino de Azevedo, que a lançou em 1920, ainda tenente, vendo-a entusiasticamente acolhida. Foi organizada, mais tarde, uma comissão, composta dos Srs. João Pandiá Calógeras, Ministro da Guerra; Coronel Eduardo Monteiro de Barros, Félix Pacheco, prof. José Otávio Correia Lima, capitão Pedro Cordolino de Azevedo e Primeiro Tenente Norival Francisco de Lemos, com a incumbência de levar por diante a idéia vitoriosa que já se apresentava prestigiada pelo apoio de altas autoridades do país. Por circunstâncias diversas, a iniciativa teve desenvolvimento muito lento e só em 1938 foi o monumento inaugurado. Ao concurso aberto para apresentação de “maquetes”, concorreram 16 artistas, cabendo o primeiro prêmio ao escultor Antonino Pinto de Matos. Este artista brasileiro executou a obra, mas faleceu dias antes da cerimônia inaugural.

Marcada esta para o dia 29 de dezembro de 1938, foi transferida para o dia 31 do mesmo mês, em virtude do mau tempo reinante. Nesse dia a praça General Tibúrcio, aberta no terreno anteriormente ocupado pelo quartel do 3.° Regimento de Infantaria, na Praia Vermelha, encontrava-se toda engalanada. Considerável massa popular afluiu ao local. Forças de terra e mar formavam ao longo da praça e em torno do monumento, também tomando parte na solenidade os alunos das escolas desta capital (Rio de Janeiro). Altas autoridades civis e militares, membros do corpo diplomático e pessoas especialmente convidadas estavam presentes ao ato, que se revestiu do maior brilhantismo. Pouco antes das 16 horas chegava o Presidente da República, Sr. Getúlio Vargas, que se fazia acompanhar do ministro da Guerra, General Eurico Gaspar Dutra, e de suas Casas Civil e Militar. Destacamentos do Exército, da Escola Militar, do Colégio Militar, da Polícia Militar, do Corpo de Bombeiros e de Fuzileiros Navais foram passados em revista pelo Presidente da República, enquanto a Primeira Bateria do Grupo de Obuses dava as salvas do estilo. Não houve solenidade para inauguração da praça General Tibúrcio. O prefeito Henrique Dodsworth considerou-a inaugurada com a chegada do Presidente da República. Vários palanques foram armados no local, para autoridades e convidados.

Dando início à cerimônia da inauguração do monumento, o Tenente-Coronel Pedro Cordolino de Azevedo pronunciou um discurso, no qual, depois de exaltar o grande feito da Retirada da Laguna, fez um rápido histórico das atividades dos promotores da iniciativa e destacou os nomes de pessoas que concorreram para o êxito da obra. Em seguida, o Presidente da República, em companhia do ministro da Guerra, do chefe do Estado Maior do Exército, do chefe do Estado Maior da Armada e do prefeito, dirigiu-se para o monumento e, já próximo, destacou-se da comitiva e subiu à sua base, a fim de descerrar a bandeira que o envolvia, aparecendo, em primeiro lugar, uma placa de bronze, com a legenda: Homenagem a Antônio João. O chefe do Governo depositou, então, uma coroa no monumento.

Seguiu-se o desvendamento deste, feito pelo Presidente da República, ao som do Hino Nacional e ao toque de Vitória, executado por um clarim do Batalhão de Guardas, cantando os escolares o mesmo hino, enquanto salvavam os navios de guerra surtos na enseada da Praia Vermelha. A seguir, o Sr. Getúlio Vargas fez a entrega do estandarte do Regimento Antônio João, recém-criado, ao porta-bandeira do 1.º Regimento de Cavalaria Independente, e condecorou com a medalha do Mérito Militar o General Rafael Tobias, único sobrevivente da Retirada da Laguna, contando naquela data 90 anos de idade. Pronunciou, depois, um discurso o professor Fernando Magalhães, agradecendo a homenagem da construção do monumento, em nome do Exército, para o que fora designado. Pouco depois, iniciou-se o desfile das escolas, seguido dos contingentes militares, em continência, o que pôs fim à cerimônia.

A comissão que levou a termo os trabalhos era presidida pelo Tenente-Coronel Pedro Cordolino de Azevedo, compondo-a os senhores capitães Juraci Magalhães, Jaime Alves de Lemos, Hugo Mendes Vilela, Mirabeau Pontes, Ciro Perdigão da Silveira, Mário Guimarães Correia, Reinaldo Pessoa Sobral, Fábio de Castro, Joaquim Francisco Castro Júnior, Sr. João Carlos Martins, tesoureiro, e Cadete Gilberto Passos.

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O projeto do monumento aos heróis de Laguna e Dourados, que se ergue na praça General Tibúrcio, na Praia Vermelha, é de autoria do escultor Antonino Pinto de Matos, falecido em dezembro de 1938. Uma circunferência de 53 metros, em granito branco, forma a sua base. Na ordem histórica, em detalhes nítidos, vão desfilando as cenas culminantes da marcha daquele Exército faminto e seminu, castigado pela perseguição tenaz do inimigo e pelo bloqueio impiedoso dos elementos em permanente hostilidade.

O sacrifício heroico de Antônio João, o Coronel Camisão, mártir do dever e do brio militar, o guia Lopes, a defesa do Forte de Coimbra, a retirada de Oliveira Melo, enfim, todas as façanhas gloriosas da grandiosa epopeia receberam ali a merecida consagração.

No primeiro plano do pedestal encontram-se altos-relevos em bronze, feitos em quadros incrustados no granito, representando: a retirada do Tenente Oliveira Melo, o ataque ao Forte de Coimbra, o combate do Alegre e a retomada de Corumbá.

Nos lados do pedestal encontram-se estátuas em bronze, de tamanho natural, do Coronel Camisão, em atitude de preocupação, tendo numa das mãos a sua espada e na outra, uma folha a de papel; o guia Lopes, sentado, pensativo, mão no queixo, segurando na outra mão um chicote; o Tenente Antônio João, em posição de quem vai tombar, na luta, em desalinho, bainha sem espada, vendo-se ao lado um pedaço da mesma, quebrada no fragor da luta.

Um anel de bronze contorna noutro plano o pedestal, formando-se em alto-relevo as cenas mais culminantes da Retirada, tais como: o transporte dos coléricos, vendo-se os soldados extenuados, carregando aos ombros, em padiolas, os doentes de cólera; o salvamento dos canhões, vendo-se juntas de bois, cansados, puxando carretas, com a ajuda dos soldados, seminus; por fim, a marcha forçada, estando à frente o comandante da força, tendo à mão esquerda um papel e o braço direito estendido em atitude resoluta, indicando aos soldados o caminho a seguir. Figuras alegóricas, de cerca de dois metros, em outro plano, simbolizam a Pátria, a Força e a História.

Sobre o pedestal de granito, em circunferência, eleva-se uma coluna de seis metros de altura, também em granito, tendo ao alto uma estátua em bronze, figura de mulher, representando a Glória. A altura total do monumento é de 15 metros, apresentando um dos conjuntos esculturais mais imponentes da cidade. Completando a obra, uma cripta, cuja construção foi efetuada a nove degraus abaixo do monumento, guarda as cinzas dos heróis de Laguna e Dourados.

O monumento foi fundido na Fundição Artística em Bronze de Covina & Cia, nesta capital, com o emprego exclusivo de matérias primas nacionais, tendo sido aproveitado o bronze de velhos canhões utilizados pelos mesmos heróis glorificados, em defesa do solo da Pátria.

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