1 de janeiro de 1822, Conde Hogendorp

Retrato de Diderik (Dirk) van Hogendorp (1761-1822), 1813
Leiden, Instituto Real de Linguagem. Com base na inscrição no mapa de Hamburgo (onde o comandante foi retratado de 1813-1814) na apresentação.

Terça-feira, 1.º de janeiro de 1822 – Fui pagar uma segunda visita a um ilustre exilado, o conde Hogendorp, um dos generais do Imperador Napoleão; minha primeira visita foi acidental (I). Uma manhã da semana passada, andando a cavalo com dois de nossos guardas-marinha, chegamos a uma agradável casa de campo de aspecto simpático, no alto da encosta do Corcovado; e à porta vimos uma figura muito impressionante, à qual imediatamente pedi desculpas por invadir seus terrenos, dizendo que éramos estrangeiros, e que havíamos chegado ali por acaso. Ele imediatamente, com modos que denotavam não ser uma pessoa ordinária, saudou-nos e perguntou-nos o nome, e ao sabê-lo disse que ouvira falar de nós e que, se não estivesse doente, ter-nos-ia procurado. Insistiu em que apeássemos, visto que se aproximava uma carga d’água, e que nos abrigássemos sob seu teto. Por esse tempo percebi que ele era o conde Hogendorp e perguntei se havia acertado na minha adivinhação. Ele respondeu que sim e juntou algumas palavras significando que os seguidores de seu chefe, mesmo no exílio, conservavam qualquer coisa consigo que os distinguia dos outros homens.

O conde é uma ruína de um outrora belo homem; mas não perdeu o ar marcial. É alto, mas não magro demais; os olhos cinzentos brilham de inteligência e a linguagem pura e enérgica é ainda transmitida em voz clara e bem timbrada, ainda que um pouco gasta pela idade. Conduziu-nos a uma varanda espaçosa, onde passa a maior parte do dia, e que é mobiliada com sofás, cadeiras e mesas. Mandou então que o criado nos trouxesse almoço. Tivemos café, leite e manteiga fresca, tudo produção de sua própria fazenda. E ao sentarmo-nos assistimos à passagem do aguaceiro por nós e depois através do vale que conduz a vista à baía lá em baixo. O general entrou francamente em conversa não só durante o almoço como enquanto durava a pancada d’água, falando quase incessantemente de seu Imperial Senhor. Entrara para o exército muito moço, como soldado aventureiro, sob o comando de Frederico da Prússia. De volta à terra natal, a Holanda, foi aproveitado pelos Estados sucessivamente como governador da parte oriental de Java e como enviado a uma das cortes germânicas. Durante a residência em Java, visitou muitos dos estabelecimentos ingleses em terra firme da Índia e aprendeu o inglês, que falava bem.

Quando da anexação da Holanda à França, entrou a serviço dos franceses no posto de coronel. Teve sempre as preferências de Napoleão a quem sua honestidade e desinteresse em matéria de dinheiro pareceram preciosos, à medida que estas qualidades escasseavam entre seus seguidores. A devoção do conde a Napoleão é excessiva, eu diria mesmo inexplicável, se ele não me tivesse mostrado uma carta que lhe foi escrita do próprio punho do Imperador, sobre a morte de seu filho, na qual, além de uma amabilidade rotineira, há realmente uma nota de carinho que eu não esperava encontrar. Durante a desastrosa expedição à Rússia, Hogendorp foi incumbido do governo da Polônia e manteve sua corte em Wilna. Seu último serviço público foi prestado na defesa de Hamburgo onde era lugar-tenente governador. Ele teria acompanhado gostosamente o Imperador ao exílio. Mas como não conseguiu permissão, veio para aqui, onde com a maior economia, e, penso eu, com algum auxílio do príncipe, que tem por ele grande respeito, vive principalmente da produção de sua pequena fazenda.

Muitas destas circunstâncias aprendi dele próprio, enquanto descansava e me abrigava da chuva, que durou quase uma hora. Ele mostrou-me então a casa, que é de fato pequena, consistindo apenas de três peças, além da varanda; seu escritório com poucos livros, em que dois ou três modelos de antigos baixos-relevos e alguns mapas e gravuras indicavam o retiro de um cavalheiro; seu quarto de dormir, cujas paredes, de gosto caprichoso, eram pintadas de preto e exibiam, sobre este fundo escuro, esqueletos de tamanho natural, em todas as atitudes alegres, lembrando a Dansa da Morte de Holbein; e um terceiro quarto, ocupado com barris de vinho de laranja, e potes de licor feito de grumaxama [grumixama], pelo menos tão gostoso como a aguardente de cerejas, com que aliás se parece. São os produtos de sua fazenda, cuja venda, juntamente com o seu café, ajuda sua pequena renda.

O general, como ele gosta de ser chamado, conduziu-nos em torno de seu jardim e exibiu com orgulho seus frutos e suas flores, louvou o clima, somente culpou o povo, que pela negligência e falta de indústria, desperdiça metade das vantagens que Deus lhe deu. Ao voltar à casa apresentou-me seu velho criado prussiano, que tomou parte com ele em muitas campanhas, e seus negros, que ele libertou ao comprar. Ele induzira uma mulher a usar uma joia no nariz, à moda de Java, o que lhe parece trazer um prazer especial. Fiquei triste por ter de deixar o conde, mas fiquei com medo que em casa se alarmassem a nosso respeito e por isso disse-lhe adeus.

Esta tarde, fiz-lhe outra visita e encontrei-o descansando na varanda após o almoço. Tivemos uma boa conversa sobre o estado deste país, do qual, com prudência, tudo de bom se pode esperar. Disse-me então o conde que estava empenhado em escrever suas memórias, de que me mostrou um trecho, dizendo-me que tencionava publicá-las na Inglaterra. Não tenho dúvida de que serão escritas com fidelidade e fornecerão um capítulo interessante da história de Napoleão. Fiquei triste por ver o velho sofrendo tanto. Sua idade e enfermidades parecem ameaça-lo com rápida terminação de sua vida ativa (83).

Nota da Autora

83. O Conde Hogendorp morreu quando eu estava no Chile. Napoleão deixou-lhe em testamento cinco mil libras esterlinas, mas o velho não viveu bastante para ter conhecimento desta prova de gratidão de seu antigo chefe. Ao aproximar-se o seu fim, o Imperador Dom Pedro deu-lhe a assistência e a atenção que sua posição exigia ou permitia, e havia dado ordens relativas ao enterro. Verificou-se, porém, ao morrer, que ele era protestante, e um dos cônsules protestantes, portanto, promoveu o seu conveniente enterro no cemitério dos ingleses. Ao despi-lo, após a morte, viu-se que seu corpo estava tatuado como os dos nativos das ilhas orientais. Nunca mais vi o conde depois do primeiro de janeiro.

Nota do Tradutor

I. O general conde de Hogendorp escreveu preciosas memórias (a que aliás se refere Maria Graham), em francês, e copiadas por Theodoro Taunay, mais tarde Cônsul Geral da França no Brasil. Remetidos os originais à família, foram publicadas em Haia, em 1887, pelo seu neto o conde D. A. C. van Hogendorp, sob a direção de F. A. G. Campbel. Em 1890, informa Afonso d’E. Taunay (História do Café no Brasil, II, 1939, pg. 215), apareceu em Amsterdam uma biografia do herói por J. A. Sillem, baseada em documentos inéditos. Mais recente é a biografia de Pierre Mélon, Le général Hogendorp, gouverneur à Java, aide de camp de Napoléon I, ermite à Rio de Janeiro, Paris, 1938. A respeito da estada de Hogendorp no Rio de Janeiro, existem curiosos depoimentos de: Jacques Arago, Souvenirs d’un aveugle, Voyage autour du monde, Paris, 1839; Theodor von Leithold, Meine Ausflucht nach Brasilien oder Reise von Berlin nach Rio de Janeiro, Berlim, 1820; e Julien de la Gravière, Souvenirs d’un Amiral, Paris, 1872. Estudou-os Alfredo de Carvalho no artigo O solitário da Tijuca na “Revista Americana” de maio de 1911, pg. 337; o ministro da Holanda no Brasil, Tel B. Pleyte, em conferência realizada no Instituto Histórico em 1923 e publicada no “Jornal do Comércio” de 27 de novembro de 1938 e na “Revista do Instituto” vol. 175, relativo a 1938, Rio, 1940, pg. 818; o prof. Afonso d’E. Taunay, no trabalho citado; e Donatello Grieco, no capítulo “O gen. Hogendorp e seu exílio no Rio de Janeiro” de seu livro Napoleão e o Brasil, Rio, 1939. A propósito da conferência do ministro holandês Pleyte, escreveu o prof. Taunay à redação do “Jornal do Comércio” uma importante carta que ocorre na “Revista”, cit. pg. 834.

Fonte

  • Graham, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Tradução e notas de Américo Jacobina Lacombe. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 403 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana Série grande formato, vol. 8).

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