1 de maio de 1823 – Mercado da Rua do Valongo

1.º de maio [de 1823] – Vi hoje o Val Longo [Valongo]. É o mercado de escravos do Rio. Quase todas as casas desta longuíssima rua são um depósito de escravos. Passando pelas suas portas à noite, vi na maior parte delas bancos colocados rente às paredes, nos quais filas de jovens criaturas estavam sentadas, com as cabeças raspadas, os corpos macilentos, tendo na pele sinais de sarna recente. Em alguns lugares as pobres criaturas jazem sobre tapetes, evidentemente muito fracos para sentarem-se. Em uma casa as portas estavam fechadas até meia altura e um grupo de rapazes e moças, que não pareciam ter mais de quinze anos, e alguns muito menos, debruçavam-se sobre a meia porta e olhavam a rua com faces curiosas. Eram evidentemente negros bem novos. Ao aproximar-me deles, parece que alguma coisa a meu respeito lhes atraiu a atenção; tocavam-se uns nos outros para certificarem-se de que todos me estavam vendo e depois conversaram no dialeto africano próprio com muita vivacidade. Dirigi-me a eles e olhei-os de perto, e ainda que mais disposta a chorar. Fiz um esforço para lhes sorrir com alegria e beijei minha mão para eles; com tudo isso pareceram eles encantados; pularam e dançaram, como que retribuindo as minhas cortesias. Pobres criaturas! Mesmo que pudesse eu não diminuiria seus momentos de alegria, despertando neles a compreensão das coisas tristes da escravidão; mas, apelaria para os seus senhores, para os que compram e para os que vendem, e lhes imploraria que pensassem nos males que traz a escravidão, não somente para os negros, mas para eles próprios e, não somente para eles, mas para suas famílias e para suas descendências.

Cemitério dos Pretos Novos na Gamboa

Afinal de contas, os escravos são os piores e mais caros empregados, e uma prova disso é o seguinte: – O pequeno terreno que cada um é autorizado a cultivar para seu próprio uso em muitas fazendas geralmente produz, pelo menos, o dobro em proporção do que a terra do senhor, apesar das poucas horas de trabalho que lhe são dedicadas (105). Desde então procurei, sem êxito, obter um quadro correto do número de escravos importados em todo o Brasil. Temo realmente que será difícil para mim consegui-lo, em vista das distâncias de alguns portos; mas não descansarei até que obtenha, ao menos, um quadro do número das entradas nas alfândegas daqui durante os últimos dois anos. O número de navios da África que vejo constantemente entrando no porto, e as multidões que se atropelam nas casas de escravos nesta rua, convencem-me de que a importação deve ser muito grande. A proporção ordinária das mortes na travessia é, estou informada, cerca de um em cada cinco.

Nota da Autora

  1. Só na minha volta à Inglaterra vim a conhecer o resultado das atividades de Josué Steele em Barbados. Não preciso acrescentar uma palavra nesta parte do assunto; mas forneço ao leitor os quadros seguintes da entrada de negros na alfândega do Rio nos anos de 1821 e 1822:

1821

Janeiro Fevereiro Março
Moçambique 483 Cabinda 193 Quilemani 311
Moçambique 337 Cabinda 342 Quilemani 385
Ambris 352 Cabinda 514 Quilemani 342
Cabinda 409 Moçambique 277 Quilemani 257
Cabinda 348 Moçambique 600 Quilemani 260
Luanda 549 1.926 Quilemani 291
Benguela 396 Quilemani 287
2.874 Angola 345
Angola 433
Angola 259
3.170
Abril Maio Junho
Angola 430 Angola 342 Angola 680
Quilemani 280 Angola 361
Cabinda 287 Angola 231 Agosto
Cabinda 451 Quilemani 225
1.448 Moçambique 122 Luanda 514
1.281 Luanda 460
Luanda 734
Luanda 304
Luanda 227
Benguela 339
2.578
Setembro Novembro Dezembro
Angola 685 Ambris 220 Angola 516
Benguela 390 Angola 523
Outubro Angola 579 Angola 309
Angola 452 Angola 544 Moçambique 394
Angola 375 Angola 388 Moçambique 330
Benguela 510 Quilemani 446 Cabinda 562
1.337 2.567 2.634

Resumo de 1821

Janeiro 2.914
Fevereiro 1.926
Março 3.170
Abril 1.448
Maio 1.281
Junho 680
Agosto 2.578
Setembro 685
Outubro 1.337
Novembro 2.567
Dezembro 2.634
21.199

1822

Janeiro Fevereiro Março
Cabinda 744 Moçambique 421 Cabinda 667
Cabinda 417 Moçambique 419 Cabinda 400
Cabinda 459 Moçambique 399 Quilemani 504
Cabinda 144 Moçambique 520 Quilemani 487
Moçambique 305 Angola 406 Quilemani 406
Moçambique 278 Angola 400 Moçambique 452
2.347 Angola 406 Moçambique 455
Quilemani 436 Angola 305
Quilemani 446 Angola 354
Benguela 420 Angola 371
4.273 4.401
Abril Maio Junho
Quilemani 323 Angola 398 Cabinda 432
Quilemani 203 Benguela 388 Cabinda 533
Angola 519 786 Angola 302
Angola 418 Angola 761
Cabinda 291 Benguela 390
Cabinda 377 2.418
2.131
Julho Setembro Outubro
Cabinda 427 Angola 572 Luanda 467
Angola 691 Angola 534 Benguela 428
1.118 Cabinda 466 Cabinda 434
Benguela 524 Cabinda 337
Benguela 298 1.666
2.394
Novembro Dezembro
Cabinda 417 Luanda 514
Cabinda 499 Cabinda 534
Luanda 561 Quilemani 450
Benguela 425 1.498
1.902

Resumo de 1822

Janeiro 2.347
Fevereiro 4.373
Março 4.401
Abril 2.131
Maio 786
Junho 2.418
Julho 1.118
Setembro 2.394
Outubro 1.666
Novembro 1.902
Dezembro 1.498
29.934

Fonte

  • Graham, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Tradução e notas de Américo Jacobina Lacombe. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 403 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana Série grande formato, vol. 8).

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