15 de agosto de 1823, Dia de Nossa Senhora da Glória

15 [de agosto de 1823], – O dia da Assunção de Nossa Senhora, aqui chamada Nossa Senhora da Glória, padroeira da filha mais velha do Imperador, é celebrado hoje, e, naturalmente, toda a família real assistiu à missa de manhã e voltou à tarde. Passei o dia com Mrs. May, em sua agradável casa do Outeiro da Glória e combinamos ir à tarde ver a cerimônia. A igreja é colocada em uma plataforma, um pouco acima da metade da altura de uma íngreme eminência, dominando a baía. A nave é um octógono de trinta e dois pés de diâmetro. Entramos entre uma grande multidão de pessoas e colocamo-nos no coro. Pouco depois a comitiva imperial entrou. Não tive uma surpresa desagradável ao ver-me amavelmente reconhecida. A benção, que é como se chama este serviço da tarde, foi bem executada quanto à música, e é muito curta. Depois dela ouvi pela primeira vez um sermão em português. Era, naturalmente, sobre a oportunidade. O texto, (1 Reis, II, 19): “O rei levantou-se para a vir receber, e saudou-a com profunda reverência, e sentou-se no seu trono; e foi posto um trono para a mãe do rei, a qual se sentou à sua mão direita”. A aplicação do texto à lenda da Assunção é óbvia e compreendeu a primeira parte do sermão. A segunda parte consistiu numa aplicação da história do período inicial do reinado de Salomão às presentes circunstâncias do Brasil; a restauração do reino, o triunfo sobre as facções e a instituição das leis constituíram a base da comparação. Todo o povo do Brasil foi convocado a juntar-se nas ações de graças e orações à Virgem da Glória para agradecer-lhe ter dado à nação, como legisladores, os descendentes dos Manuéis, dos Joões e dos Henriques de Portugal e das Maria Teresas d’Áustria e pedir-lhe que continue a dispensar a esses sua graciosa proteção, e muito especialmente à princesa mais velha, esperança do Brasil, que tem Seu nome e a Ela é consagrada. Tudo foi feito com gravidade e decência, com o mínimo de aparência de adulação às pessoas ilustres presentes, e não durou mais que quinze minutos. Nesta ocasião os veadores e outras pessoas, que acompanhavam a Família Imperial, usavam opas de seda branca e carregavam tochas nas mãos.

D. Maria II, Rainha de Portugal, por Fertig, Ignaz, 1809-1858, via Biblioteca Nacional de Portugal

Fui à noite a um baile e concerto em casa da Baronesa de Campos. Ao entrar fui recebida pelas moças da família e conduzida à avó delas. Depois de lhe fazer meus cumprimentos fui colocada entre os membros da família, onde tinha maiores relações. Havia ali somente duas inglesas além de Lady Cochrane e eu, e eram a mulher do cônsul e a do comissário para os negócios da escravidão. Observou um cavalheiro estrangeiro que, apesar de sermos apenas quatro, dificilmente conversávamos juntas. Era perfeitamente exato. Quando estou numa sociedade estrangeira, gosto de falar com estrangeiros, e não penso que seja sensato, nem delicado, formar então grupos de pessoas de sua própria nação. Havia várias salas franqueadas ao jogo de cartas. As apostas, imagino, eram muito altas. Logo que se encheu a sala de chá, passaram as xícaras a circular de mão em mão. Percebi que alguns dos velhos criados, com grande respeito aliás, falavam com os convidados com os quais se davam. Depois do chá tive o prazer de ouvir de novo cantar Dona Rosa e quase praguejei, com escândalo de minhas companheiras mais alegres, contra o baile, que rompeu, por encerrar aquele “despertar da delícia” que a música inspira em todos, e especialmente naqueles que conheceram a tristeza. Não sou música, mas os sons doces, especialmente os da voz humana, seja falando, seja cantando, têm um poder singular sobre mim.

Logo que acabou a primeira dança, andamos pela casa toda e encontramos uma sala de jantar magnífica pelas dimensões, mas escassamente mobiliada em comparação como o resto da casa. Os quartos de dormir e de vestir das senhoras são simples e elegantemente dispostos, com mobília inglesa e francesa, e tudo o mais diferente possível das casas que vimos na Bahia. Informaram-me que são também diferentes do que eram há vinte anos e bem posso acreditar; mesmo durante os doze meses de minha ausência do Rio, vejo que um maravilhoso polimento se processou e tudo está adquirindo um tom europeu.

Tomei a liberdade de observar a uma das senhoras a extrema juventude de algumas das crianças que acompanhavam suas mães naquela noite, e disse-lhe que na Inglaterra consideraríamos isso maléfico para elas, sob todos os pontos de vista. Perguntou-me o que fazíamos delas. Disse que algumas estariam na cama, e outras com as amas e governantes. Respondeu-me que éramos felizes neste ponto; mas que aqui não havia tais pessoas e que as crianças ficariam entregues ao cuidado e ao exemplo dos escravos, cujos hábitos eram tão depravados e cujas práticas eram tão imorais que seria a perdição delas; e que aqueles que amam seus filhos precisam tê-los debaixo da vista onde, se é verdade que podem correr o perigo de haver excesso nesse sentido, ao menos não podem aprender nenhum mal. Apraz-me reunir estas provas dos males da escravidão – mesmo aqui, onde ela existe de modo mais suave que na maior parte dos países. Deixei os dançarinos muito entretidos à meia noite, e soube que continuaram o baile até três. Não há nenhuma peculiaridade na dança aqui, já que as senhoras do Rio são, como nós, discípulas dos franceses neste ramo das belas artes.

Fonte

  • Graham, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Tradução e notas de Américo Jacobina Lacombe. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 403 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana Série grande formato, vol. 8).

Imagem destacada

  • Praça Paris com o Outeiro da Glória ao fundo.

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