31 de dezembro de 1821 – Primeira ida ao Centro da Cidade do Rio

Segunda-feira, 31 de dezembro de 1822 1821[1] – Fui à cidade pela primeira vez. O caminho segue através do subúrbio do Catete cerca de meia milha. Há algumas boas casas de ambos os lados. Os intervalos são preenchidos por lojas e pequenas casas habitadas pelas famílias dos lojistas da cidade. Chegamos então ao outeiro chamado da Glória, do nome da igreja dedicada a N. S. da Glória, na eminência que domina o mar próximo. O morro é verde, coberto de matas e ornado de casas de campo. É quase isolado e o caminho passa entre ele e outro morro, ainda mais alto, exatamente onde uma abundante fonte deriva de um aqueduto (feita, penso eu, pelo Conde de Lavradio) (I), e traz, para esta região da cidade, saúde e refresco das montanhas das vizinhanças.

Adiante, depois de passar a Praia da Glória, voltamos para a esquerda e entramos na parte nova da cidade, por baixo dos arcos do grande aqueduto construído em 1718 pelo vice-rei Albuquerque (II). Este fornece água a quatro copiosos chafarizes. O maior é o da Carioca (81), perto do convento de Santo Antônio. Tem doze bocas e é, ele próprio, muito pitoresco. Está constantemente cercado de escravos, com seus barris d’água e por animais que bebem. Logo adiante estão tanques de granito onde uma multidão de lavadeiras está sempre ocupada (III). E adiante, defronte delas, estão colocados bancos, nos quais estão sempre sentados negros novos para a venda. O chafariz das Marrecas fica defronte do Passeio Público e perto dos novos quartéis (IV). Além das bicas de água para os habitantes, há dois tanques sempre cheios para os animais. O terceiro é um muito belo, no largo do paço (V) e o quarto, chamado do Mouro, não vi (VI). O aqueduto é de tijolo e é sustentado por duas filas de arcos através do vale entre dois dos cinco morros da cidade.

Os edifícios públicos do Rio nada têm de muito notável. Até as igrejas não apresentam beleza arquitetônica e devem o bom efeito que produzem na vista geral, ao tamanho e à colocação. Há sete paróquias e numerosas capelas dependentes de cada uma. A primeira e mais antiga paróquia é a de São Sebastião. A igreja que lhe é dedicada é a Capela Real, a única que hoje vi. É bela interiormente, ricamente dourada, e as pinturas do teto longe de serem desprezíveis, mas não posso louvar a do altar-mor, em que Nossa Senhora está cobrindo com seu manto a Rainha Dona Maria e toda a família real, na sua chegada ao Brasil. O coro é mantido de maneira que não envergonharia a Itália. Assisti as vesperais, e raramente ouvi mais agradável música no ofício da tarde. Isto a capela deve à residência da Família Real, cuja paixão e vocação para a música são hereditárias. Anexos a esta capela ficam a Igreja e convento dos Carmelitas, que formam parte do palácio (VII) dentro do qual fica a Biblioteca Real de 70.000 volumes, em que todos os dias, salvo os feriados, o público tem ingresso para estudo, de nove até a uma hora da tarde e de quatro horas até o pôr do sol (VIII). Esta parte do palácio ocupa um lado de uma bela praça; o próprio palácio ocupa um outro; o terceiro lado é de casas particulares, construídas uniformemente com o palácio; além fica o mercado do peixe, e o quarto lado é aberto para o mar.

Valongo, ou Mercado de Escravos no Rio – Longmam & Cia. e J. Murray, 5 de abril de 1824 – Desenho de Augustus Earle, Gravura de Edward Finden.

A beira do mar é fechada com um belo cais de granito e degraus, cujos blocos são presos com cobre. No centro do cais há um chafariz abastecido com o aqueduto de Albuquerque. No conjunto, o aspecto do largo do Paço é extremamente belo. Fomos daí a uma rua por traz dele e vimos a fachada do Senado (IX), que é ligado com o Paço, e as catacumbas da Igreja dos Carmelitas, que são mais belas do que costumam ser os cemitérios de igreja (X). No centro de um pequeno quadrilátero há uma cruz e junto dela um cipreste novo. Em volta há flores e plantas odoríferas, com vasos de porcelana contendo rosas e aloés colocados em pequenos pedestais e numa parede larga e baixa que circunda o quadrado. A primeira vista procurei em vão os túmulos, afinal reparei nesses muros baixos e nos mais altos no círculo exterior, indicações nas abóbadas, cada uma delas numerada. Estes são os lugares destinados aos mortos, ali emparedados com cal. De tempos a tempos os ossos e as cinzas são retirados para fazer lugar para outros. No momento da retirada, se o morto tiver um amigo que deseje guardá-los, os restos são recolhidos em urnas, ou outros receptáculos, e colocados numa construção apropriada, ou onde o amigo quiser. Senão, irão para o depósito geral e desaparecem totalmente pela adição de mais cal. Esta é, não duvido, a maneira mais saudável de dispor dos mortos, e mesmo sob o ponto de vista humano, melhor que os horríveis enterros na Bahia, onde devem infectar o ar. Mas parece-me tão pouco sentimental esta maneira de se desembaraçar depressa dos restos de alguém que outrora nos foi caro, que saí aborrecida.

A cidade do Rio é uma cidade mais europeia do que Bahia ou Pernambuco. As casas são de três ou quatro pavimentos, com tetos salientes, toleravelmente belas. As ruas são estreitas, pouco mais largas do que o Corso em Roma, com o qual uma ou duas têm um ar de semelhança, especialmente nos dias de festa, quando as janelas e balcões são decorados com colchas de damasco vermelho, amarelo ou verde. Há duas praças, muito belas, além da do Paço. Uma, outrora Roça [Rossio], hoje da Constituição, à qual dão uma aparência muito nobre o teatro, alguns belos quartéis e belas casas, atrás dos quais os morros e montanhas dominam dos dois lados. A outra, o Campo de Sant’Ana, é extremamente extensa (82), mas está inacabada. Duas das ruas principais cruzam-na desde o lado do mar até a extremidade da cidade nova, com perto de uma légua; novas ruas, largas, estão se estendendo em todas as direções. Mas estava muito cansada por sair no calor do dia para fazer mais que uma visita rápida a essas coisas. Não tive ânimo nem mesmo de ver o novo chafariz, abastecido por um novo aqueduto (XI).

Há na cidade um ar de pressa e atividade bem agradável aos nossos olhos europeus. No entanto todos os portugueses fazem a sesta após o almoço. Os negros, tanto livres quanto escravos, parecem alegres e felizes no trabalho. Há tanta procura deles que se encontram em pleno emprego e têm, naturalmente, boa paga. Lembram aos outros aqui o menos possível a triste condição servil, a não ser quando se passa pela Rua do Valongo. Então todo o tráfico de escravos surge com todos os seus horrores perante nossos olhos. De ambos os lados estão armazéns de escravos novos, chamados aqui peças, e aqui as desgraçadas criaturas ficam sujeitas a todas as misérias da vida de um negro novo, escassa dieta, exame brutal e açoite.

Notas da Autora

81. A alcunha dos habitantes do Rio é Carioca, derivado desse chafariz.
82. Tem 1713 pés quadrados.

Notas do Tradutor

I. Refere-se ao Chafariz da Glória, contíguo à chácara de Manuel Álvares da Fonseca Costa, inaugurado em 1772, no vice-reinado do Marquês de Lavradio, (Dom Luís de Almeida Portugal Soares de Alarcão Eça e Melo Silva Mascarenhas, 4.º Conde de Avintes e 2.º marquês de Lavradio). (Noronha Santos, Fontes e chafarizes do Rio de Janeiro, “Revista de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”, 10 – Rio, 1946, p. 61).
II. Os atuais arcos de Santa Teresa, iniciados pelo governador Aires de Saldanha e Albuquerque, foram terminados sob o governo do vice-rei Gomes Freire de Andrada, depois Conde de Bobadela. Durante o governo do Marquês de Lavradio foram feitas, porém, importantes reparações. (Noronha Santos “Aqueduto da Carioca”, “Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional”, n.º 4, Rio 1940).
III. É o antigo Chafariz da Carioca, no largo do mesmo nome. Era revestido de mármore, com dezesseis bicas de bronze. Foi demolido em 1829 e substituído por outro em 1840. Este, por sua vez, foi demolido durante a prefeitura do Sr. Alaor Prata, para ampliação do largo. (Noronha Santos, Aqueduto da Carioca, loc. cit. p. 10).
IV. O chafariz chamado das Marrecas, devido a cinco marrecas de bronze que nele lançavam água pelos bicos, ficava na Rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), entre o quartel e a roda das crianças abandonadas, exatamente em frente à Rua das Belas Noites (depois Rua das Marrecas e hoje Rua Juan Pablo Duarte (e, novamente, Rua das Marrecas – N. do E.)). Colocava-se, assim, em face do portão principal do Passeio Público. Foi destruído em 1902, para ampliação do Quartel de Polícia, antigo Quartel dos Granadeiros, localizado exatamente onde ficava o convento dos Capuchinhos Italianos, chamados Barbonos. (V. Nota de Noronha Santos, às Memórias para servir à História do Brasil, de Monsenhor Luís Gonçalves dos Santos, Rio, 1943, I – 168; Vieira Fazenda, Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro, “Rev. do Inst. Histórico Brasileiro”. Tomo 86, Rio, 1921, pg. 462).
V. É o chafariz ainda existente à Praça Quinze de Novembro. Foi inaugurado pelo vice-rei Luís de Vasconcelos em 1789. O primitivo chafariz, inaugurado pelo Conde de Bobadela em 1753, localizado no centro da praça, viera feito de Portugal. (Noronha Santos, Fontes e chafarizes do Rio de Janeiro, cit. 44).
VI. Refere-se ao Chafariz do Largo do Moura (nome derivado do regimento português de Moura, ali aquartelado). Foi construído pelo vice-rei Conde de Resende em 1794 e destruído no princípio do século XX. O Largo do Moura ficava ao fim da Rua Dom Manuel, em frente do Mercado. (Vieira Fazenda, Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro, “Rev. do Inst. Hist. Brasileiro” t. 88, pg. 253).
VII. A autora refere-se provavelmente só às paróquias da cidade, porque, incluindo os subúrbios, já se elevavam elas, em 1821, a dezesseis. Também não é exato que a Capela Real, depois Capela Imperial, fosse dedicada a São Sebastião e sim a Nossa Senhora do Carmo, a cujo convento pertencia antes da chegada da Família Real. Todo o território restante dos desmembramentos da antiga e única freguesia de São Sebastião, outrora sediada no morro do Castelo, pertencia ao Curato do Santíssimo Sacramento da Antiga Sé, cuja matriz é a Igreja do SS. Sacramento, na atual Avenida Passos. A jurisdição da antiga Capela Real, depois Capela Imperial e hoje Santa Igreja Catedral Metropolitana, restringia-se à igreja e suas dependências. (Monsenhor Antônio Alves Ferreira dos Santos, op. cit. págs. 131 e 178).

Há confusão em dizer que a Igreja e convento do Carmo ficavam anexos à Capela Real. A Capela Real era a antiga Igreja do Convento, como se disse. O próprio convento estava incorporado ao palácio, ao qual fora ligado por um passadiço que cobria a Rua da Misericórdia. Nele funcionavam diversas repartições. O antigo claustro era denominado, então, Pátio da Ucharia. Anexa à Capela Real ficava realmente a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, como até hoje.

O painel a que se refere a autora em termos pouco lisonjeiros é o célebre quadro de José Leandro de Carvalho ali mandado colocar por Dom João VI. Representava a Família Real genuflexa e, sobre uma sucessão de nuvens, Nossa Senhora do Carmo cobrindo-a com o seu manto. Em 1831, atendendo à exaltação de ânimos, o quadro foi alterado pelo próprio autor, que ocultou sob espessa camada de goma as figuras reais. Em 1850 o pintor João Caetano Ribeiro restaurou a grande tela, que Gonzaga Duque considerava a obra-prima do artista. Em 1889 foi enviada à Imperial Academia de Belas Artes para restauração. Ainda lá se encontrava em 1890. Daí por diante, nada se sabe a seu respeito. (Francisco Marques dos Santos, Artistas do Rio Colonial, “Anais do Terceiro Congresso de História Nacional”, vol. VIII, Rio, 1942, pg. 529).

VIII. A Biblioteca Nacional, então Biblioteca Real, foi instalada primitivamente nas salas do Hospital da Ordem Terceira do Carmo, nos fundos da Igreja. Constituía-se inicialmente da Real Biblioteca da Ajuda trazida pelo rei. Em 1812, consideravelmente acrescida, estendeu-se ao pavimento térreo, removendo-se os doentes para o Recolhimento do Parto à Rua dos Ourives (trecho hoje chamado Rodrigo Silva) esquina de São José. (TEIXEIRA DE MELO, Resumo Histórico. “Anais da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro”, V. XIX, Rio, 1897, pg. 219).
IX. Pela Rua da Misericórdia, passou a Autora sob o passadiço e viu o antigo prédio do Senado da Câmara (Câmara Municipal) do Rio de Janeiro, e Cadeia, a esse tempo também incorporado ao palácio por meio de outro passadiço. Mais tarde foi adaptado por D. Pedro I para nele funcionar a Assembleia Constituinte. Nele funcionou a Câmara dos Deputados do Império e da República. No mesmo local ergue-se hoje o Palácio Tiradentes (Atualmente ocupado pela ALERJ – Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro – N. do E.).
X. Refere-se às antigas catacumbas, destruídas em 1850, quando o governo imperial proibiu os cemitérios dentro da cidade. Os primeiros enterros de irmãos terceiros fizeram-se nas cavas subterrâneas, existentes sob o templo atual. Foram estas, porém, por causa de graves inconvenientes, abandonadas. Em 1782 a Mesa Conjunta deliberou que se fizessem jazigos com catacumbas em galerias sobre o solo, no lugar da Capela velha, já muito arruinada. Ficava esta junto à Igreja dos terceiros, no fundo da Igreja do Convento, dentro da respectiva cerca. Foram benzidas em 1785. (Comendador Bento José Barbosa Serzedello, Arquivo Histórico da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Rio de Janeiro, 1872).
XI. Refere-se ao chamado chafariz de Paulo Fernandes [Viana] no próprio campo de Sant’Ana, depois Praça da República. Fora inaugurado em 1818. Abastecia-se não do aqueduto da Carioca, mas de outro, que captava as águas dos rios Catumbi e Maracanã. O mesmo aqueduto abastecia o chafariz do Lagarta. (Noronha Santos – Fontes e chafarizes do Rio de Janeiro – “Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional” n.º 10, 1946, págs., 76 e 99).

Nota do Editor

  1. Na verdade a data correta seria Segunda-feira, 31 de dezembro de 1821, e não 1822. No livro original em inglês também Monday, 31st. Dec. 1822 (pág. 167) precede Tuesday, January 1st, 1822 (pág. 170).

Fonte

  • Graham, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Tradução e notas de Américo Jacobina Lacombe. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 403 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana Série grande formato, vol. 8).

Imagem destacada

  • Carruagem – Museu Histórico Nacional.

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