9 de janeiro de 1822 – O Fico

Quarta-feira, 9 de janeiro [de 1822] – O dia de hoje, espera-se que seja decisivo no destino do Brasil. É preciso, porém, começar pela chegada de uma mensagem das Côrtes de Lisboa ao Príncipe, intimando-o de que aprouve às ditas Côrtes que ele partisse imediatamente para a Europa a fim de iniciar sua educação e empreender uma viagem incógnito pela Espanha, França e Inglaterra. Esta mensagem despertou a mais viva indignação, não somente no ânimo de Sua Alteza Real, mas no dos brasileiros de ponta a ponta do reino. O Príncipe está desejoso de obedecer às ordens do pai e das Côrtes, mas, ao mesmo tempo, não pode deixar de sofrer, como homem, a inconveniência da mensagem, vendo-se, dessa maneira, compelido a voltar a casa, especialmente sendo-lhe proibido levar consigo quaisquer guardas, ao que parece por temerem que elas tenham contraído demasiada dedicação à sua pessoa. Os brasileiros consideram este passo como uma preliminar para extinguir neste país os tribunais de justiça que, durante quatorze anos, se mantiveram aqui, transferindo-se assim as causas para Lisboa, por cujo meio o Brasil será de novo reduzido à condição de uma colônia dependente, em vez de gozar de direitos e privilégios iguais aos da mãe-pátria, o que é uma degradação a que eles não estão dispostos, de maneira alguma, a se submeter.

Dom João VI e Dom Pedro I, por Jean Baptiste Debret, via NYPL

Os sentimentos do povo estão bastante claros na mensagem enviada ao Príncipe há poucos dias, 24 de dezembro, de São Paulo, do teor seguinte:

Senhor – Tínhamos já escrito a V. A. R. antes que pelo último correio recebêssemos a Gazeta Extraordinária do Rio de Janeiro, de 11 do corrente; e apenas fixamos nossa atenção sobre o primeiro decreto das Côrtes, acerca da Organização dos Governos das Províncias do Brasil, logo ferveu em nossos corações uma nobre indignação, porque vimos nele exarado o sistema da anarquia e da escravidão; mas o segundo, pelo qual V. A. R. deve regressar para Portugal, a fim de viajar incógnito somente pela Espanha, França e Inglaterra, causou-nos um verdadeiro horror.

“Nada menos se pretende do que desunir-nos, enfraquecer-nos, até deixar-nos em mísera orfandade, arrancando do seio da grande família brasileira o único pai comum, que nos restava, depois de terem esbulhado o Brasil do benéfico Fundador deste Reino, o Augusto Pai de V. A. R. Enganam-se; assim o esperamos em Deus, que é o vingador das injustiças; Ele nos dará coragem e sabedoria.

“Se pelo artigo 21 das Bases da Constituição, que aprovamos e juramos, por serem princípios de Direito Público Universal, os deputados de Portugal se viram obrigados a determinar que a Constituição, que se fizesse em Lisboa, só obrigaria por ora aos portugueses residentes naquele reino, e quanto aos que residem nas outras três partes do mundo, ela somente se lhes tornaria comum quando seus legítimos representantes declarassem ser esta a sua vontade; como agora esses deputados de Portugal, sem esperarem pelos do Brasil, ousam já legislar sobre os interesses mais sagrados de cada província e de um reino inteiro? Como ousam desmembrá-lo em porções desatadas e isoladas, sem lhes deixarem um centro comum de força e de união? Como ousam roubar a V. A. R. a lugar-tenência que seu Augusto Pai, nosso Rei, lhe concedera? Como querem despojar o Brasil do Desembargo do Paço e Mesa da Consciência e Ordens, Conselho da Fazenda, Junta do Comércio, Casa de Suplicação e de tantos outros estabelecimentos novos, que já prometiam futuras prosperidades? Para onde recorrerão os povos desgraçados a bem de seus interesses econômicos e judiciais? Irão agora, depois de acostumados por doze anos a recursos prontos, a sofrer outra vez, como vis colonos, as delongas e trapaças dos Tribunais de Lisboa, através de duas mil léguas do oceano, onde os suspiros dos vexados perdiam todo o alento e esperança? Quem o crera depois de tantas palavras meigas, mas dolorosas, de recíproca igualdade e felicidades futuras?!

“Na sessão de 6 de agosto passado disse o deputado das Côrtes Pereira do Carmo (e disse uma verdade eterna), que a Constituição era o pacto social em que se expressavam e declaravam as condições pelas quais uma nação se quer constituir em corpo político; e que o fim desta Constituição é o bem geral de todos os indivíduos, que devem entrar neste pacto social. Como pois ousa agora uma mera fração da grande Nação Portuguesa, sem esperar a conclusão deste solene Pacto Nacional, atentar contra o bem geral da parte principal da mesma, qual o vasto e riquíssimo Reino do Brasil, despedaçando-o em míseros retalhos e pretendendo arrancar por fim do seu seio o representante do Poder Executivo e aniquilar de um golpe de pena todos os Tribunais e estabelecimentos necessários à sua existência e futura prosperidade? Este inaudito despotismo, este horroroso perjúrio político, de certo não o merecia o bom e generoso Brasil. Mas enganam-se os inimigos da ordem nas Côrtes de Lisboa, se se capacitam que podem ainda iludir com vãs palavras e ocos fantasmas o bom siso dos honrados portugueses de ambos os mundos.

“Note V. A. R. que, se o reino da Irlanda, que faz uma parte do Reino Unido da Grã-Bretanha (apesar de ser infinitamente pequeno em comparação do vasto Reino do Brasil) e estar separado da Inglaterra por um estreito braço de mar, que se atravessa em poucas horas, todavia conserva um Governo Geral, ou Vice-Reinado, que representa o Poder Executivo do Rei do Reino Unido, como poderá vir à cabeça de alguém que não seja, ou profundamente ignorante, ou loucamente atrevido, pretender que o vastíssimo Reino do Brasil haja de ficar sem centro de atividade e sem representante do Poder Executivo; como igualmente sem uma mola de energia e direção das nossas tropas, para poderem obrar, rapidamente e de mãos dadas, a favor da defesa do Estado, contra qualquer imprevisto ataque de inimigos externos, ou contra as desordens e facções internas, que procurem atacar a segurança pública e a união recíproca das províncias.

“Sim, Augusto Senhor, é impossível que os habitantes do Brasil, que forem honrados, e se prezarem de ser homens, e mormente os paulistas, possam jamais consentir em tais absurdos e despotismos; sim, Augusto Senhor, V. A. R. deve ficar no Brasil, quaisquer que sejam os projetos das Côrtes Constituintes, não só para nosso bem geral, mas até para a independência e prosperidade futura do mesmo Portugal. Se V. A. R. estiver (o que não é crível) pelo deslumbrado e indecoroso decreto de 29 de setembro, além de perder para o mundo a dignidade de homem e de Príncipe, tornando-se escravo de um pequeno número de desorganizadores, terá também que responder, perante o Céu, do rio de sangue, que de certo vai correr pelo Brasil com a sua ausência; pois seus povos, quais tigres raivosos, acordarão de certo do sono amodorrado em que o velho despotismo os tinha sepultado, e em que a astúcia de um novo maquiavelismo constitucional os pretende agora conservar.

“Nós rogamos, portanto, a V. A. R., com o maior fervor, ternura e respeito, haja de suspender a sua volta para a Europa, por onde o querem fazer viajar como um pupilo rodeado de aios e de espias; nós lhe rogamos que se confie corajosamente no amor e fidelidade dos seus brasileiros, e mormente dos seus paulistas, que estão todos prontos a verter a última gota do seu sangue e sacrificar todos os seus haveres para não perderem o Príncipe idolatrado em que têm posto todas as esperanças bem fundadas da sua felicidade e de sua honra nacional. Espere pelo menos V. A. R. pelos deputados nomeados por este governo e pela Câmara desta capital, que devem quanto antes levar a Sua Augusta Presença nossos ardentes desejos e firmes resoluções, dignando-se acolhê-los e ouvi-los com o amor e atenção, que lhe devem merecer os seus paulistas.

“À Augusta Pessoa de V. A. R. guarde Deus muitos anos”.

“Palácio do Governo de São Paulo, 24 de dezembro de 1821. João Carlos Augusto Oeynhausen, presidente, José Bonifácio de Andrada e Silva, vice-presidente, Martim Francisco Ribeiro de Andrada, secretário, Lázaro José Gonçalves, secretário, Miguel José de Oliveira Pinto, secretário, Manuel Rodrigues Jordão, Francisco Inácio de Sousa Queirós, João Ferreira de Oliveira Bueno, Antônio Leite Pereira da Gama Lobo, Daniel Pedro Müller, André da Silva Gomes, Francisco de Paula e Oliveira, Antônio Maria Quartim (84)”.

Esta mensagem ao príncipe exprime os sentimentos de toda a região meridional do Brasil e, até um certo ponto, os das capitanias setentrionais também. As últimas são, por certo, tão contrárias quanto as primeiras à transferência das cortes de justiça para Lisboa, mas prefeririam uma cidade mais ao norte para capital, enquanto aqui há desejo, entre considerável número de pessoas, no sentido de mudar a capital para São Paulo devido à segurança e à vizinhança das minas, onde está situada a maior proporção das riquezas, da indústria e da população do Brasil. S. A. R. não exprimiu ainda sua resolução. Os oficiais das tropas de Lisboa falam alto que ele é obrigado a cumprir o seu dever e obedecer à ordem das Côrtes. Os brasileiros esperam ardentemente que ele possa ficar e alguns há que anteveem a possibilidade de se declarar ele abertamente pela independência desta terra. Qualquer que seja sua resolução, teme-se que haja muito tumulto, se não uma guerra civil. Nossos comerciantes ingleses estão-se reunindo, penso que com o fim de requerer a permanência deste navio, ao menos até que chegue uma força equivalente, temendo que suas pessoas e propriedades não fiquem em segurança, e todo o mundo parece um pouco ansioso.

Quinta-feira, 10 de janeiro – Houve ontem uma reunião da Câmara do Rio e, após uma curta deliberação, os seus membros foram em procissão, acompanhados de grande concurso de povo, ao Príncipe, com uma enérgica petição contra sua saída deste país e uma viva súplica para que ele ficasse no meio de seu fiel povo. S. A. R. recebeu-os gentilmente e respondeu que, desde que parecia ser a vontade de todos, e para o bem de todos, ele permaneceria. Esta declaração foi recebida com gritos e com entusiasmo, correspondidos com descarga de artilharia e com todos os sinais de regozijo público.

O dia, como de costume em qualquer ocasião de interesse público, findou no Teatro. Infelizmente não pude desembarcar, contudo alguns dos oficiais o fizeram. O edifício estava iluminado. O príncipe e a princesa apareceram em grande gala no camarote real, que é no centro da sala. Foram recebidos com entusiasmo pelo povo, cantou-se o hino nacional e, no intervalo dos atos, o público chamou vários de seus oradores favoritos a fim de que falassem ao Príncipe e a todos sobre o acontecimento do dia. Este apelo foi atendido por diversos oradores e alguns dos discursos foram impressos e distribuídos pelo teatro. O melhor, ou, ao menos, o mais aplaudido, foi o seguinte, por Bernardo Carvalho (I):

“– Agora é preciso só recomendar-vos a União e Tranquilidade!!! (85) Expressões realmente sublimes e que contêm toda a filosofia política. Sem União não poderemos ser fortes, sem força não poderemos determinar a tranquilidade. Portugueses. Cidadãos. Tendes um Príncipe que vos fala com gentileza de suas próprias funções; que vos convida a unirmo-nos com ele em torno à Constituição, que vos recomenda aquela força moral que compreende a justiça e que se identifica com a razão, e que só ela pode completar a grande obra iniciada. Hoje quebrastes os laços que vos ameaçavam sufocar. Hoje assumis a verdadeira atitude de homens livres. Mas nem tudo ainda está feito. A intriga e a discórdia, o ânimo murmurador, talvez agora mesmo esteja meditando novos planos, e ainda tentará cavar a divisão e derrubar os troféus que acabais de erguer à glória e à honra nacional. O próprio entusiasmo mal dirigido poderá produzir os maiores crimes. Concidadãos. União e Tranquilidade. A irreflexão partidária é indigna de homens livres. Cumpri vossos deveres. Atendei à amável exortação de vosso Augusto Príncipe,… mas em compensação dizei-lhe: – Senhor. Energia e Vigilância. Energia para promover o bem. Vigilância para evitar o mal. O mundo inteiro tem agora os olhos voltados para V. A. Os passos que V. A. está para dar, poderão levar V. A. ao templo da memória, ou confundir V. A. no número dos príncipes fracos, indignos das honras que os exornam. Talvez V. A. influencie os destinos do mundo inteiro. Talvez mesmo a Europa, ansiosa e suspensa, repouse em V. A. suas esperanças. Príncipe. Energia e vigilância. A glória não é incompatível com a juventude, e o herói de 26 de fevereiro pode-se tomar o herói de 9 de janeiro. Uni-vos com um povo que vos ama, que vos confia os bens, a vida, tudo enfim. Príncipe. Como é doce assistir à expansão cordial dos sentimentos de homens livres. Mas como é penoso testemunhar a crispação em botão de esperanças tão justamente fundadas. Bani, Senhor, para sempre do Brasil a lisonja multiforme, a hipocrisia dúplice, a discórdia com sua língua viperina. Ouvi a verdade, submetei-vos à razão, atendei à justiça. Sejam atributos vossos a franqueza e a lealdade. Seja a constituição a estrela polar que vos guie. Sem ela não pode haver felicidade nem para vós, nem para nós. Não procureis reinar sobre escravos, que beijam as cadeias da ignomínia. Reinai sobre corações livres. Assim sereis a imagem da divindade entre nós – assim correspondereis às nossas esperanças. Energia e Vigilância, e nós cumpriremos a vossa recomendação: União e Tranquilidade”. Um padre, um dos prediletos do povo, foi chamado a falar repetidamente. O hino nacional (86) foi cantado várias vezes e o Príncipe e a Princesa, que se notou estarem cercados principalmente de oficiais brasileiros, foram de novo calorosamente aclamados. E tudo na cidade, que estava brilhantemente iluminada, correu na maior harmonia.

Não há nada mais belo no gênero do que tal iluminação vista do mar.

Os numerosos fortes à entrada do porto, nas ilhas e na cidade, ficam cada um com suas fachadas desenhadas em luz; tornam– se assim castelos encantados de fogo, e as luzes espalhadas da cidade e dos vilarejos ligam-nos com um milhão de brilhantes correntes.

Hoje nossos amigos comerciantes estão de novo alarmados e fizeram uma requisição formal ao capitão para permanecer no porto. Com essa triste mentalidade que passa por diplomática, o cônsul-deputado e os comerciantes, em vez de dizerem aquilo de que têm medo, dizem somente: “Senhor, estamos com medo, e as circunstâncias nos levam a isso, e esperamos que ficareis até” etc., etc., o que vale dizer: “Sois responsável pelos malefícios, se eles ocorrerem”. Mas estão demasiado medrosos para ousar dizer por quê. Não me preocupo agora acerca de seus relatórios oficiais, que compreendo agora serem grandes folhas de papel com grandes selos, sem uma palavra que não possa ser publicada em cada parede de igreja, pelo seu teor insípido. Considero-os, antes, absurdos e perniciosos, porque tendem a excitar a desconfiança e alarmar onde não há perigo. Na verdade agora pode haver algum motivo para temor. Mas porque não o dizem francamente? A linguagem dos oficiais portugueses é a mais violenta. Falam em levar o Príncipe pela força para Lisboa e fazê-lo assim obedecer às Côrtes apesar dos brasileiros. Ambos os lados estão tão violentos que provavelmente entrarão em luta. Nessa luta haverá sem dúvida perigo para a propriedade estrangeira. Porque, porém, não dizer assim? Porque não falar assim no caso? Contudo o homem mais prudente dos tempos moderno (87) há muito tempo que pôs em segundo plano os que não são capazes de ser francos e sinceros em matéria de negócios. Vou, pois, abandoná-los.

Vista da Praça do Palácio e Vista Geral da Cidade, por Jean Baptiste Debret, via NYPL

Sexta-feira, 11 de janeiro – Desembarquei na noite passada para ir à Ópera, pois era nova récita de gala e esperava poder assistir à recepção do Príncipe e da Princesa. A viscondessa do Rio Seco (II) convidou-me amavelmente para o seu camarote, que era junto ao deles. Mas depois de esperar algum tempo, chegou a notícia de que o príncipe estava tão ocupado em escrever para Lisboa que não poderia vir. A guarda dobrada foi despedida e o espetáculo começou. Tive, contudo, o prazer de ver o teatro iluminado, ouvir o hino nacional, e de ver as senhoras mais bem vestidas do que até agora tivera oportunidade.

Há uma grande dose de mal-estar hoje. O comandante português das tropas, general Avilez (III), pediu e obteve demissão. Diz-se, talvez sem fundamento, que as queixas ao príncipe contra sua permanência aqui foram grosseiras e inconvenientes. Ouço dizer que as tropas não consentirão em sua substituição. Elas estão particularmente excitadas com a ideia de que a escolha do sucessor recairá no general Curada [Curado] (IV), brasileiro que, ao que se diz, será chamado de São Paulo para suceder Avilez. É um veterano, que comandou com distinção em todas as campanhas da fronteira do sul, e suas ações são mais conhecidas entre seus patrícios que aquelas longínquas batalhas da Europa, de que se gabam os oficiais portugueses de todos os postos aqui, por mais leve que tenha sido a sua participação nelas, para aborrecer os brasileiros.

[Sábado], 12 [de janeiro] – Ontem estourou a questão do comando militar das tropas daqui, e Curado foi nomeado Comandante-Chefe e Ministro da Guerra. O general português Avilez compareceu aos quartéis dos soldados europeus para despedir-se deles. Armaram-se para recebê-lo e juraram não partir com ele, nem obedecer a outro comandante, e com dificuldade conformaram-se em prometer, ao menos, tranquilidade para aquele dia. Foi dito que, como se percebeu que elas demonstraram algum ciúme porque a guarda de honra da ópera havia sido, nas duas últimas noites, composta de brasileiros, o Príncipe ordenara aos quartéis portugueses que dessem guarda na última noite. Eles, porém, se recusaram, dizendo que, sendo S. A. R. tão favorável aos brasileiros, era melhor que continuasse a ser guardado por eles. Não estou certa se isto é verdade, mas à vista das circunstâncias do dia, não é improvável.

A casa da ópera foi de novo iluminada brilhantemente. O príncipe e a princesa compareceram e foram tão bem recebidos como no dia 9. Cerca de 11 horas, porém, o príncipe foi chamado para fora de seu camarote e informado de que corpos de vinte a trinta homens das tropas portuguesas estavam percorrendo as ruas, a quebrar janelas e insultar os transeuntes em seu percurso de quartel a quartel, nos quais tudo tinha a aparência de um motim organizado. Ao mesmo tempo, ao chegarem as notícias desses fatos ao teatro, os espectadores começaram a se levantar para voltar a casa, quando o Príncipe, após tomar as providências necessárias, voltou ao espetáculo, e apresentando-se com a princesa, então próxima ao parto, à frente do camarote, dirigiu-se ao povo e afirmou que não havia nada de grave; que ele já havia dado ordens para reconduzir os soldados amotinados, que se haviam empenhado em briga com os negros, de volta a seus quartéis, e apelou para que não deixassem o teatro, aumentando assim o tumulto e lotando as ruas, mas que permanecessem até o fim da peça, como ele pretendia fazer. Até então, ele não tinha dúvida, tudo estaria tranquilo. A serenidade e a presença de espírito do Príncipe, sem dúvida, preservaram a cidade de muita confusão e miséria. No momento em que a ópera se acabou as ruas estavam bastante livres para permitir a cada um ir para casa em segurança (V).

Entrementes as tropas portuguesas, com 700 homens, haviam marchado para o alto do morro do Castelo, que domina as principais ruas da cidade, e tendo levado com elas quatro peças de artilharia, ameaçavam saquear a cidade. As peças de campanha pertencentes aos brasileiros, que haviam ficado na cidade depois de 26 de fevereiro, haviam sido enviadas à sede habitual da artilharia, no Jardim Botânico, não havia senão uma semana, de modo que elas não temiam aquela arma (VI). Mas ficaram desapontadas em sua expectativa de receberem a adesão por parte da tropa portuguesa aquartelada em São Cristóvão. Esta alcançava cerca de 500 homens (88) que alegaram ter recebido do Rei a incumbência de guardar a pessoa do Príncipe, e que não tinham mais nada que fazer, declaração que foi encarada pelos brasileiros como suspeita (VII).

Enquanto os portugueses se apossavam de sua nova e ameaçadora posição, os brasileiros não estavam ociosos. Todos os cavalos e burros da cidade foram requisitados; despacharam-se expressos a todos os regimentos de milícia e outras tropas do Brasil, bem como ao Quartel General da Artilharia. O Príncipe foi incansável, de modo que pelas quatro horas da manhã do dia 12 ele se encontrou à frente de uma tropa de quatro mil homens, no Campo de Sant’Ana, não somente prontos, mas ansiosos para a ação, e, ainda que deficientes quanto à disciplina, formidáveis pelo número e pela disposição.

Os portugueses de modo algum esperavam tal prontidão e decisão. Além disso, eles não tinham levado provisões para o Morro e convenceram-se de que não seria difícil serem reduzidos pela fome em vista da imensa superioridade numérica dos que estavam no Campo de Sant’Ana. Dispuseram-se então a obedecer à ordem que lhes mandou cedo o príncipe, – de transferirem-se para a Praia Grande (VIII), do outro lado da baía, com a condição única de conservarem as armas. S. A. R. desejaria colocá-los imediatamente a bordo de transportes para serem conduzidos a Lisboa, mas o comandante do porto disse que não havia condução nem provisão prontas para esse fim. Tiveram, pois, de aquartelar-se na Praia Grande, até que se providenciassem estas coisas.

Desembarquei com um oficial logo que pude, principalmente com o objetivo de ver as tropas do Campo de Sant’Ana. Em consequência, porém, da requisição dos cavalos e burros, levou muito tempo até que eu pudesse obter uma sege que me levasse ali porque estava muito quente para ir a pé. Afinal consegui uma e resolvi procurar a viscondessa do Rio Seco, no meu caminho, para oferecer-lhe abrigo na fragata (IX). Encontramo-la em vestidos caseiros brasileiros e com ar ansioso e fatigado. Ficara no teatro até o Príncipe sair, na última noite, correra então para casa para providenciar quanto à segurança da família e quanto às joias. Despachara a família para a fazenda, na roça. Quanto às joias empacotou-as em pequenos embrulhos, pretendendo fugir com eles ao nosso encontro, disfarçada ela própria, em caso de um ataque sério à cidade. Havia ainda deixado muita prataria à vista em diversas partes da casa para entreter os soldados na primeira investida (X). Tudo, porém, parece melhor agora. Asseguramos-lhe que havíamos visto o primeiro destacamento de um dos regimentos de Lisboa, pronto para embarcar, no momento em que desembarcávamos. Prometemos-lhe que, quando ela fizesse um sinal da casa dela, ou mandasse um recado, teria logo proteção. Ela parece muito apreensiva quanto ao perigo da soltura dos presos concedida pelos brasileiros durante a noite, e disse que há temores de que os portugueses possam tomar as fortalezas do outro lado da baía e as conservem até a chegada dos reforços esperados diariamente de Lisboa. Isso poderia, realmente, ser desastroso, mas creio que o medo é mal fundado.

Havendo encorajado minha amiga quanto podia, fomos para o Campo e encontramos os brasileiros instalados, na maior parte, em alguns prédios inacabados. Os homens, posto que franzinos, pareciam saudáveis, ativos e cheios de ânimo; seus cavalos eram os melhores que vi no país; e pode ser imaginação minha, mas deram-me a ideia de homens resolutos em seus propósitos e determinados a defender seus direitos e seus lares.

O Campo apresentava os aspectos mais diversos.

Dentro do recinto em que a artilharia fora instalada, tudo era gravidade e atenção ao trabalho; os soldados estavam alerta e os oficiais, em grupos, comentavam os acontecimentos da noite precedente e as circunstâncias do dia. Aqui e ali, tanto dentro quanto fora do círculo, estacionava um orador com seu grupo de ouvintes, atentos às discussões políticas ou arengas patrióticas. Na parte aberta do campo vagavam alguns soldados ou companhias inteiras, fugindo ao ardor da multidão dentro do cercado, bem como cavalos, burros e jumentos, muitos dos quais deitados, pela evidente fadiga. Vinham negros de todas as direções, carregados de capim ou milho para os cavalos, ou levando à cabeça bebida fresca ou doces para os homens. Num canto, um grupo de soldados, exaustos pela viagem e pela vigilância, jazia dormindo. Num outro, brincava um círculo de moleques. Em suma, viam-se todas as maneiras de enganar o tempo enquanto se espera por um grande acontecimento, desde aqueles que aguardavam a hora silenciosa e pacientemente, com solene temor do que poderia ocorrer, até os que simplesmente desejavam ocupar-se e enchiam o intervalo com o que poderia fazê-lo passar mais suavemente. Fiquei bem impressionada com o ambiente que encontrei no Campo, e melhor ainda à medida que o dia passava, porque demorei-me algum tempo para assegurar-me de que tudo se resolveria sem derramamento de sangue, salvo duas ou três pessoas mortas acidentalmente durante a noite.

Ao voltarmos para o navio fomos detidos por algum tempo no Largo do Paço por uma grande massa de povo reunida para assistir à entrada da primeira guarda brasileira no Palácio, enquanto saía a guarda portuguesa em meio a grandes vivas da multidão. Ao chegarmos às escadarias onde devíamos embarcar encontramos o último grupo de um regimento e o primeiro de outro, que se transferiam para a Praia Grande, de modo que a cidade poderá dormir tranquila esta noite.

Os habitantes em geral, mas especialmente os comerciantes estrangeiros, estão bem satisfeitos por ver as tropas de Lisboa despedidas, porque por muito tempo foram tiranicamente brutais com os estrangeiros, com os negros e, não raramente, com os próprios brasileiros, e nas muitas semanas passadas a arrogância delas foi revoltante tanto com o Príncipe quanto com o povo (89).

O aspecto da cidade é bastante melancólico. As casas estão fechadas, as patrulhas percorrem as ruas e todo mundo parece angustiado. Os caixeiros estão todos convocados na milícia; andam com cintos e boldriés de couro cru sobre as roupas habituais, mas as armas e munições estavam todas em bom estado. Exceto eles e os ingleses, não vi ninguém fora de casa.

Melhorias progressivas do Palácio de São Cristóvão (Quinta da Boa Vista) no período de 1808 a 1831, por Jean Baptiste Debret, via NYPL

[Domingo] 13 [de janeiro] – Tudo parece quieto hoje. Vimos do navio o resto das tropas que ia para a Praia Grande. Contudo, há naturalmente uma grande dose de ansiedade entre todas as classes de pessoas. Algumas pessoas enviaram alguns de seus valores para bordo da fragata por segurança. Chegou-nos uma mensagem, não sei de que autoridade, indagando se o Príncipe, a Princesa e a Família poderiam ser recebidos e protegidos a bordo. A resposta, naturalmente, foi que, ainda que o navio deva observar a mais estrita neutralidade entre as partes, estamos prontos imediatamente para receber e proteger a Princesa e os infantes, e também, caso ele tenha razão para temer algum perigo pessoal, o próprio Príncipe. Minha cabine está, assim, pronta. Espero que eles não sejam forçados a vir para bordo. Quanto mais puderem confiar nos brasileiros, melhor para eles e para a causa dessa independência que é agora tão inevitável, que a única questão é saber se será obtida com sangue, ou sem ele.

Resolvemos dar um baile a bordo depois de amanhã, a fim de que possamos conhecer as pessoas da sociedade, e então, se alguma coisa ocorrer que torne aconselhável refugiarem-se entre nós, saberão com quem terão de entrar em contato.

[Segunda-feira.] 14 [de janeiro] – As lojas abriram e os negócios se fazem como de costume. O Príncipe está concedendo demissões tanto a oficiais como a soldados dos regimentos portugueses que queiram ficar no Brasil em vez de voltar a Portugal. Isto tem sido estigmatizado pelos portugueses como uma deserção autorizada dos exércitos do Rei e das Côrtes; qualquer que seja o nome, estou convencida de que a medida contribui para a tranquilidade presente da capital. A Princesa e os infantes foram para Santa Cruz, fazenda no campo, pertencente antigamente aos jesuítas e agora à Coroa, a 14 léguas na estrada que vai para São Paulo (90).

15 [de janeiro] – Nosso baile correu muito bem; tivemos mais estrangeiros do que ingleses e, como havia música excelente da orquestra da Ópera e muita dança, a mocidade divertiu-se muito. Eu também deveria tê-lo feito, mas o capitão Graham estava tão atacado de gota, que eu teria preferido suspender a dança. Eu havia encarregado a viscondessa do Rio Seco e algumas outras senhoras de trazer suas amigas portuguesas, o que elas fizeram, e tivemos uma quantidade de belas e agradáveis senhoras e diversos homens de aparência distinta, além de nossos amigos ingleses.

Uma dança a bordo é sempre agradável e pitoresca: há alguma coisa de espantoso no próprio contraste proporcionado pelo cenário de um tombadilho de navio de guerra e as personagens e a ação de um baile,

“O pequeno mundo belicoso,
Os canhões bem guarnidos e limpos”

todos ornados de folhagens e flores, a ondular sobre as cabeças das jovens alegres e seus sorridentes pares, sugerem logo combinações próprias à poesia e ao romance, e que a gente precisa ser de fato estoico para contemplar sem emoção. Não gostei nunca de dançar, talvez porque nunca fui exímia nisso, contudo, uma sala de baile é, para mim, uma cena interessante. Há caras alegres, e corações não menos alegres, como demonstram as ansiosas palpitações que se elevam de vez em quando; há esperanças, e todos os sentimentos amáveis de mocidade e da natureza. Se, no meio disso, surge uma alegria um pouco fora de propósito e provoca um sorriso, de minha parte, inclino-me a respeitar a juventude de um coração que resiste às preocupações e humilhações da vida, e que consegue aderir sem se perturbar, à hilaridade dos moços.

17 – Nada de notável ontem ou hoje, a não ser o perfeito sossego da cidade. O príncipe continua a despedir os soldados.

19 – Hoje os novos ministros chegaram de São Paulo (XI), o primeiro dos quais, tanto em posição quanto em talento, é José Bonifácio de Andrada e Silva. Segundo o juízo que dele faz o povo aqui, diria que Cowper o descreveu quando disse:

“Great offices will have
Great talents. And God gives to every man
The virtue, temper, understanding, taste,
That lift him into life, and lets him fall
Just in the niche he was ordained to fill.
To the deliverer of an injured land
He gives a tongue to enlarge upon, a heart
To feel, and courage to redress her wrongs (XII)”.

Foi enviado ainda moço do Brasil para estudar em Coimbra, onde ficou doente quando da partida do rei de Lisboa. Depois, durante o tempo dos franceses, não conseguiu meios de voltar à terra natal. Mas logo que se deu a primeira reação nos distritos em torno do Porto e Coimbra, pôs-se à frente dos estudantes da Universidade em sua bem sucedida resistência a Junot; depois serviu na campanha contra Soult. Quando voltou a Lisboa, creio eu, entrou para o exército regular, pois que após estar em armas contra Massena, vejo que no fim da guerra tinha a graduação de tenente-coronel, na qual voltou ao Brasil em 1819. Mas a sua estada na Europa não foi gasta em assuntos de guerra: viajou e ficou amigo de várias personalidades mais notáveis da Inglaterra, França e Itália e contraiu uma estima particular em relação à Alfieri. O objeto de suas viagens era antes ver e aprender o que pudesse ser útil à sua própria terra, do que o mero-prazer de visitar as diversas partes do mundo. Estou informada de que se dedicou especialmente aos ramos da ciência que podem desenvolver a agricultura e a mineração do Brasil.

Um de seus irmãos, Martim Francisco, possui um pouco menos de talento. Sua família, seu caráter e a estima de que gozam, pesam não só a favor deles mas do governo que os emprega (XIII).

Dobraram-se as guardas e patrulhas nas estradas pelas quais eles e o veterano general Corado [Curado] alcançaram o Rio, porque se temeu que os portugueses, que desde o dia 12 se haviam separado completamente dos brasileiros, pudessem impedir sua chegada. Mas tudo correu tranquilo.

20 [de janeiro] – A Aurora chegou de Pernambuco e Bahia; em ambos os lugares parece que tudo vai sossegado. Mas como a reunião da câmara da Bahia deve se dar no princípio do mês que vem, para o fim de escolher novo governo provisório (XIV), os ingleses temem alguma perturbação e portanto devemos voltar para ali a fim de proteger nossos amigos em caso de necessidade.

21 – Fui a terra fazer compras com Glennie. Há muitas casas inglesas, tais como seleiros e armazéns, não diferentes do que chamamos na Inglaterra um armazém italiano, de secos e molhados; mas, em geral, os ingleses aqui vendem as suas mercadorias em grosso a retalhistas nativos ou franceses. Os últimos têm muitas lojas de fazendas, armarinho e modistas. Quanto a alfaiates, penso que há mais ingleses do que franceses, mas poucos de uns e outros. Há padarias de ambas as nações, e abundantes tavernas inglesas, cujas insígnias com a bandeira da União, leões vermelhos, marinheiros alegres, e tabuletas inglesas, competem com as de Greenwich ou Depford. Os ourives vivem todos numa rua, chamada, por causa deles, Rua dos Ourives, e suas mercadorias estão expostas em quadros suspensos de cada lado da porta ou da janela da loja, à moda de dois séculos passados. A manufatura de suas correntes, cruzes, botões e outros ornamentos é curiosa e o preço do trabalho, calculado sobre o peso do metal, moderado.

As ruas estão, em geral, repletas de mercadorias inglesas. A cada porta as palavras Superfino de Londres saltam aos olhos: algodão estampado, panos largos, louça de barro, mas, acima de tudo, ferragens de Birmingham, podem-se obter um pouco mais caro do que em nossa terra nas lojas do Brasil, além de sedas, crepes e outros artigos da China. Mas qualquer coisa comprada a retalho numa loja inglesa ou francesa é, geralmente falando, muito caro.

Divirto-me com a visível apatia dos caixeiros brasileiros. Se estão empenhados, como atualmente não é raro, em falar de política, ou a ler jornais, ou simplesmente a gozar fresco nos fundos da loja, preferirão dizer, na maior parte das vezes, que não têm a mercadoria pedida a se levantar para procurá-la. E se o freguês insistir e apontá-la na loja, é friamente convidado a apanhá-la ele próprio e deixar o dinheiro. Isto aconteceu várias vezes enquanto procurávamos algumas ferramentas em nosso percurso ao longo da Rua Direita, onde em cada duas casas há uma loja de ferragens com fornecimentos de Sheffield e Birmingham.

22 [de janeiro] – O aniversário da Princesa foi celebrado com tiros de canhão, uma revista militar e uma recepção. O cap. Prescott, da Aurora e o cap. Graham compareceram. Parece que o Príncipe tomou pouco conhecimento, ou nenhum, dos ingleses. Acho mais provável que os brasileiros estejam desconfiados de nós por causa de nossa longa aliança com Portugal. Além disso eles invertem a máxima: “os que não estão contra nós estão conosco”, e pensam que, pelo fato de não estarmos por eles, estamos contra eles (91).

24 [de janeiro] – Partimos pela madrugada para a Bahia…

Notas da Autora

84. O príncipe respondeu a 4 de janeiro, assegurando aos paulistas que havia transmitido a mensagem a Lisboa e que S. A. R. esperava da sabedoria das cortes que elas tomassem medidas adequadas ao bem e à prosperidade do Brasil.
85. Alusão ao discurso do Príncipe ao resolver ficar no Brasil, que terminava por essas palavras.
86. Composto pelo príncipe.
87. Bacon, Essay on dissimulation and simulation.
88. Não garanto a exatidão desses algarismos, mais creio que se aproxima da verdade.
89. O andar pesado da infantaria portuguesa valeu-lhe o apelido de pé-de-chumbo, agora generalizado a todos os partidários de Portugal.
90. Esta viagem foi muito desastrosa e causou a morte do jovem príncipe. [D. João Carlos Pedro Leopoldo, Príncipe da Beira, nascido em 6 de março de 1821 e falecido a 4 de fevereiro de 1822].
91. Soube depois disso que algumas expressões calorosas de atenção pessoal e simpatia empregadas por um oficial inglês (que, porém, não pertencia quer à Aurora, quer à Doris) a um português, com o qual tinha um ligeiro conhecimento, na ocasião de seu embarque para a Praia Grande, havia levado os portugueses a crerem que eles tinham uma significação maior e que, em caso de necessidade, os ingleses se juntariam aos portugueses. Isto ao menos foi sussurrado na cidade e muito naturalmente agravou a desconfiança mantida contar nós.

Notas do Tradutor

I. Bernardo Teixeira Coutinho Álvares de Carvalho, magistrado, desembargador no Rio de Janeiro. Não encontramos o texto português do discurso.
II. D. Maria Carlota Miliard, casada com Joaquim José de Azevedo, visconde do Rio Seco e depois (em 1826) marquês de Jundiaí, tesoureiro da Casa Real e uma das primeiras figuras da corte de D. João VI. Era irlandesa, e sogra de Luís do Rêgo, governador de Pernambuco, como acima se referiu. (V. o diário de 24 de setembro de 1821) D. Carlota faleceu em 1831 no Rio de Janeiro e o marquês de Jundiaí casou-se novamente com D. Mariana Pereira da Cunha, filha do marquês de Inhambupe.
III. General Jorge de Avilez Zuzarte de Sousa Tavares, mais tarde conde de Avilez, em Portugal.
IV. Joaquim Xavier Curado, depois barão e conde de S. João das Duas Barras. (Pretextato Maciel da Silva, Os generais do exército brasileiro, 2.ª ed., Rio, 1940 – I, 177).
V. A autora narra estes mesmos fatos, com algumas minúcias mais, em seu Escorço biográfico de D. Pedro, (“Anais da Bibl. Nac.”, LX, Rio, 1940, págs. 81-84).
VI. No Escorço biográfico cit., acrescenta a autora esta circunstância valiosa:

“O espetáculo continuou e quando caiu o pano a princesa foi conduzida do camarote por um dos oficiais de serviço de sua Casa e instalada em uma carruagem de viagem, para Ela preparada, com uma escolta, que a levou a São Cristóvão. Dom Pedro ficou no teatro até que todos saíssem e, então, montando a cavalo, dirigiu-se ao Jardim Botânico, a cerca de seis milhas de distância, onde estava postado o corpo principal de artilharia e, depois de colocar os paióis de pólvora e a fábrica em segurança, trouxe os canhões grandes para defesa da cidade. Passou a noite toda a reunir os diferentes corpos da milícia e as tropas nativas brasileiras, a fim de proteger a praça da ameaça de saque pelos portugueses.”

Esta informação que, nota Octávio Tarquinio de Sousa (A Vida de D. Pedro I, Rio, 1952, I, 355), não consta em outros autores, deve ter sido obtida através dos oficiais ingleses da corveta, ou de sua amiga, a Viscondessa do Rio Seco.

VII. “O batalhão 3 de caçadores, português, não se solidarizou com os outros corpos lusos. Cabia-lhe a guarda do Palácio da Boa-Vista e, atendendo a um apelo do Regente, ficou em posição neutra, embora lhe tenham sido atribuídos propósitos traidores de fazer embarcar o príncipe compulsoriamente na fragata União.” (Octávio Tarquinio de Sousa, Op. cit. I, 352).
VIII. Vila Real da Praia Grande é a atual cidade de Niter6i.
IX. O palacete do visconde do Rio Seco ficava no então largo do Rocio, depois Praça Tiradentes, esquina da Rua do Conde, hoje Visconde do Rio-Branco, no local onde está o edifício onde funcionou o Ministério da Justiça até 1930. Era, portanto, caminho para Campo de Santana.
X. Na narrativa, que vimos citando, acrescenta ainda Maria Graham algumas minúcias a esse episódio: “Madame de Rio Seco afirmou a uma amiga que, logo que chegou a casa, de volta do Teatro, tirou todas as suas joias, pô-las no vestido da criada e, procurando toda a roupa suja da casa, pôs um colar de brilhantes dentro de uma meia, outro dentro de uma touca de noite, e assim por diante. Amarrou tudo numa trouxa e resolveu, se a casa fosse arrombada, deixar bastante prata pelas salas, a fim de ocupar os saqueadores, enquanto ela, como se fosse uma lavadeira branca, procuraria fugir com a roupa suja na cabeça, atirar-se ao primeiro barco de pesca que encontrasse e dirigir-se ao navio inglês mais próximo”. (Anais da Bibl. Nac.”, LX, 83).
XI. O ministério de 16 de janeiro era assim organizado: Reino, Justiça, e Estrangeiros – José Bonifácio de Andrada e Silva; Fazenda – Caetano Pinto de Miranda Montenegro (depois marquês de Vila Real da Praia Grande); Guerra – General Joaquim de Oliveira Alvares; Marinha – Almirante Manuel Antônio Farinha (conde de Sousel).
XII. “Os grandes postos exigem grandes talentos. E Deus dá a todos os homens a virtude, o temperamento, a compreensão, o gosto, que os elevam para a vida. Deixa-os ocupar exatamente o nicho que lhes ordenava preencher. Ao libertador de uma terra injuriada concede uma língua para nela expandir-se, coração para senti-la e coragem para corrigir-lhe os erros”.
XIII. Maria Graham, segundo se verifica no Escorço biográfico, que vimos citando, frequentou a casa dos Andrada e foi admiradora fervorosa das altas qualidades desta família. Os dados biográficos que alinha, provavelmente recolhidos em conversas com os parentes do Patriarca, são imprecisos e confusos. Sobre José Bonifácio e seus irmãos há uma imensa bibliografia. Mencionemos especialmente a obra de Alberto Sousa, Os Andradas, São Paulo, 1922, 3 vols.; e Octávio Tarquínio de Sousa, José Bonifácio (1763-1838), Rio, 1945.
XIV. Procedeu-se no dia 21 de janeiro de 1822 à eleição da nova Junta de Governo, de acordo com o decreto das Côrtes Portuguesas de 29 de setembro, a qual foi empossada a 2 de fevereiro. Foram escolhidos: Francisco Vicente Viana (depois barão do Rio das Contas), presidente; desembargador Francisco Carneiro de Campos, secretário, e como vogais Francisco Martins da Costa Guimarães, capitão-mor Francisco Elesbão Pires de Carvalho e Albuquerque (depois barão de Jaguaripe), tenente-coronel Manuel Inácio da Cunha Meneses (depois visconde do Rio Vermelho), cônego José Cardoso Pereira de Melo e Dr. Antônio da Silva Teles, ouvidor em Ilhéus. No próprio dia 2 foi declarado governador das armas o brigadeiro Manuel Pedro de Freitas Guimarães. (Brás do Amaral, História da Independência na Bahia, Bahia, 1923, pg. 37).

Fonte

  • Graham, Maria. Diário de uma viagem ao Brasil: e de uma estada neste país durante parte dos anos de 1821, 1822 e 1823. Tradução e notas de Américo Jacobina Lacombe. 1ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1956. 403 p. (Biblioteca Pedagógica Brasileira Brasiliana Série grande formato, vol. 8).

Imagem destacada

  • Dom Pedro IV de Portugal (Dom Pedro I do Brasil). Acervo do Museu Histórico Nacional.

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