Introdução da Reedição

A reedição do Diccionario Bibliographico Brazileiro de Sacramento Blake decorre de uma decisão do Conselho Federal de Cultura, que aprovou indicação do Conselheiro Djacir Menezes da Câmara de Ciências Humanas.

Na justificação de sua proposição, afirmava aquele eminente companheiro: “Com fundamento no programa de expansão cultural deste Conselho, venho propor, por intermédio da Câmara de Ciências Humanas, a reedição do Diccionario Bibliographico Brazileiro, de Augusto Victorino Alves Sacramento Blake”.

Pelo alcance e valia da obra, creio desnecessário expor, detidamente, as razões que justificariam a medida, bastando recordar alguns aspectos esquecidos e indicar os pontos essenciais, que decerto não passaram despercebidos aos ilustres membros deste colegiado. Os que se dedicam aos estudos históricos e sociais no Brasil estimam, como recurso de alta prestância, o precioso instrumento de trabalho que constitui aquela fonte de informações e documentação sobre obras e personalidades eminentes do país.

Sacramento Blake era baiano, nasceu a 2 de novembro de 1827, formou-se em medicina e entrou para o corpo de saúde do Exército, indo servir como cirurgião na campanha platina em 1852. Após, desempenhou várias comissões, nas quais se distinguiu pelo seu espírito público e rara dedicação às atividades profissionais vinculadas ao interesse coletivo.

Começou a escrever o Diccionario nos vagares de sua aposentadoria, no intuito de aplicar-se em passatempo útil. Sucedeu que um amigo viu a documentação acumulada e dela falou ao Imperador, que logo quis conhecê-la. Era de ver que o imperial Mecenas animou-o a persistir na tarefa – e em 1883 a Tipografia Nacional estampava o 1º tomo. No prefácio, explicando a exiguidade dos nomes ilustres nos dois primeiros séculos, o autor recorda-nos os contingentes humanos que vinham de Portugal, “audaciosos aventureiros, ávidos de fortuna e alguns governadores ou capitães generais, em geral estúpidos e só tendo merecimento por carunchosos títulos de nobreza”. Daí concluiu que a metrópole não tinha interesse na cultura da colônia “no banquete do funcionalismo público – diz pitorescamente – não havia talheres para os nascidos no Brasil, se até lhes era vedado possuir fortuna…” Não se permitam prelos nem associações literárias, – como, pois, aparecerem, para registro naquela obra, manifestações intelectuais?

Claro que o crescimento político e social romperia esse conluio colonial – e, nas primeiras tentativas culturais, em certa fase, os escritos deveriam varar a dupla censura do desembargo do Paço e do Santo Ofício, as duas cortinas de ferro daquela época. Depõe Sacramento Blake que a única tipografia que se fundou antes da vinda do Príncipe Regente, com o assentimento do Conde de Bobadela, previamente amolecido pelos elogios que o moveram à aquiescência, publicou apenas aplausos ao bispo frei Antônio do Desterro e duas obras sobre artilharia e bombeiros: e logo a metrópole cuidou de “abolir e queimar para não propagar ideias que podem ser contrárias aos interesses do Estado”.

Assim recorda, no longínquo prefácio de 1883, – o nosso paciente e preclaro dicionarista biográfico. E continua acalentando mágoas contra aquele governo de ultramar, que, lá de longe, fechava “manufaturas e teares de ouro, prata, linho, lã ou algodão, excetuando-se somente a fazenda grossa e algodão para uso dos negros, índios e famílias pobres!” Logo, porém essa paisagem muda com D. João VI, com a Independência, com a Regência: e as academias surgem, vão se fundando tipografias, aparecendo bancos. Sacramento Blake arrola, no seu prefácio, os acontecimentos culturais mais à vista, justificando o critério seletivo que adotou no joeirar da documentação.

O 7° e último volume já saiu em 1902 – a nação se transforma: as instituições republicanas haviam dado seus primeiros passos e tropeços. Abrindo o volume com a biografia de D. Pedro II, o autor reconhece a sua altura moral. Reconhece-a na hora em que ainda se murmura sobre a traição ao Imperador. Sacramento Blake cita-lhe as palavras: “Traição consciente e premeditada, não. Trair afigurasse-me coisa muito difícil, deve exigir extraordinário esforço. E trata-se, ademais, de homens com honrosos precedentes e serviços ao país”.

Tal escrevia o autor ainda no momento cálido, em que muitos evadidos da monarquia celebravam suas adesões ao novo regime, comprovando a fidelidade recente com abjuração à fidelidade anterior, – o eterno espetáculo dos oportunistas de todos os tempos.

Perfilei o autor, – para pedir a reedição da obra.

Arthur Cezar Ferreira Reis

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