Dona Teresa Cristina Maria

Sua Majestade, a Senhora Dona Teresa Cristina Maria, terceira Imperatriz do Brasil, nasceu a 14 de março de 1822. É irmã de S. M. o Sr. Dom Fernando, atual rei das Duas Sicílias, por sucessão a seu pai, o Rei Francisco I.

Ornada pela mão pródiga da Providência de todas as virtudes que podem realçar o alto valimento do trono, a imperatriz do Brasil, nascida sob um outro horizonte, é, na opinião unânime dos brasileiros, uma protetora desvelada e amante, em cujo seio augusto se entesoura uma afeição sincera ao seu povo.

Se em algumas resoluções da monarquia pode-se crer que as inspirou de mais perto esse espírito divino que outrora, diz-se, iluminava os apóstolos e os arúspices, na escolha da augusta soberana do Brasil, mais que nunca poder-se-á adotar como um mistério celeste o acerto e o seu resultado feliz.

Há quinze anos que o Brasil goza a ventura de elevar-se sob os auspícios da imperatriz atual; e desde o solar faustoso até a choça modesta do operário é lembrado com júbilo o dia 3 de setembro, em que S. M. I. acolheu pela vez primeira as saudações festivas do seu novo povo; já nessa hora prometendo-lhe no seu aspecto doce a soberania branda e carinhosa que ele até hoje aplaude e abençoa.

Foi, com efeito, um belo dia o dessa data, em 1843, apesar do aspecto melancólico do céu e das torrentes de chuvas que dele se despenhavam.

Eram talvez nuvens arredadas ao impulso de suspiros tristes do límpido horizonte de Nápoles, que vinham derramar na verde alcatifa de nossos campos as lágrimas vertidas no derradeiro adeus do povo napolitano a sua princesa adorada.

Palpitava, no entanto, demais forte e ansioso o regozijo dos brasileiros para que essa expressão dos elementos o pudesse tolher ou abafar.

Edoardo de Martino – Chegada da Fragata Constituição trazendo D. Teresa Cristina, via Wikimedia Commons

Na tarde do dia 3, às 5 horas e 35 minutos, entrou em nosso porto a fragata Constituição, conduzindo ao seu bordo a imperatriz, entregue, no dia 1º de julho do mesmo ano, no palácio de Chiatomoni, em Nápoles, ao embaixador de S. M. o imperador do Brasil, o Sr. José Alexandre Carneiro Leão, pelo príncipe de Cila, ministro e secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, na qualidade de delegado de S. M. o rei das Duas Sicílias.

A fragata Constituição fora precedida pela corveta Euterpe, que anunciou aos brasileiros a propícia vinda da imperatriz; entraram depois a corveta Dois de Julho, e uma nau e três fragatas napolitanas.

Chegada a fragata defronte da fortaleza de S. João, foi saudada por todas as fortalezas do mar e vasos de guerra nacionais e estrangeiros surtos no porto.

Ao anoitecer, apenas fundeara a fragata, dirigiu-se a seu bordo o imperador acompanhado pelos ministros de estado, e ali demorou-se algumas horas.

No dia 4, desembarcou a imperatriz no cais cujo nome comemora esse fato.

Cais do Valongo e da Imperatriz
Cais do Valongo e da Imperatriz

Esse ato a que se seguiram as bênçãos do imperial consórcio teve lugar da maneira mais solene.

A S. M. o imperador acompanhava S. A. R. o príncipe Luís, conde d’Aquila, irmão da imperatriz, e o cortejo seguindo pelas ruas da Imperatriz, Larga de S. Joaquim, Campo da Aclamação, S. Pedro e Direita, parou às portas da Capela Imperial, onde receberam a SS. MM. o Exmo. bispo Conde de Irajá, capelão-mor, e o cabido.

Procederam-se então as sagradas bênçãos; e terminada esta cerimônia, dirigiram-se os augustos noivos para a imperial quinta da Boa-vista entre filas de povo que anelava conhecer a graciosa soberana, cujo sorriso afável respondia a cada ovação que surgia das turbas. Eram as primícias da influência benéfica que a Imperatriz devia exercer sobre o coração de seus súditos.

No oitavo dia, depois do consórcio de SS. MM. II., a multidão enchia o recinto da capela imperial onde celebrava a missa de ação de graças por tão jucundo sucesso.

A cidade iluminou-se; e os atavios de maior gala enfeitaram esses dias de festa.

Assim, subiu os degraus do trono brasileiro a imperatriz atual; e jamais o diadema monárquico brilhou sobre uma fronte mais reveladora de raros dotes de coração e dessa inteligência materna, que parece a depuração do espírito até o seu maior grau de sensibilidade e delicadeza.

Ao esplendor do trono nada mais falta; o futuro da Nação porém carecia de um novo penhor, de um laço que a ligasse em vínculos estreitos à imperial estirpe.

Palácio Imperial de Petrópolis atual Museu Imperial

Deus ouviu as preces da Nação, e no dia 23 de fevereiro de 1845, ela soube que a imperatriz era mãe; que mais uma raiz profunda segurava a monarquia ao solo brasileiro.

Nascera o príncipe Dom Afonso.

Grande foi a ventura da Nação; mas também grande tinha de ser a dor que cedo a acompanhou.

No dia 11 de junho de 1847, o anjo da morte estendeu sobre o berço imperial o crepe dos finados; e a esperança dos brasileiros, o príncipe Dom Afonso, foi valer de mais alto pela paz e felicidade de seus súditos.

Nesse transe supremo, nessa provança difícil, a imperatriz mostrou o quanto a resignação e a fé nos decretos do Céu suavizam as angústias que a humanidade partilha.

As lágrimas da mulher umedeceram por algum tempo a tela suntuosa do trono; a saudade sombreou por alguns meses essa fronte serena onde a bondade da alma se reflete, até que, debruçada sobre o berço imperial, respondeu novamente aos vagidos do segundo príncipe que, como tênue meteoro, perpassou também em face do seu povo, e, serafim celeste, foi, como o primeiro, sorrir à luz dos planetas, implorar às plantas do Criador pelo bem, pela sorte dos brasileiros.

Era o príncipe Dom Pedro.

D. Pedro II e a Imperatriz Teresa Cristina nos jardins do Palácio Imperial de Petrópolis, por A. V. de Perini, via Wikimedia Commons

Por duas vezes a alegria da Nação sucedeu em curto espaço de tempo a aflição mais sincera; por duas vezes do trono brasileiro transladaram-se para o trono celeste duas joias de imensurável valia, dois príncipe herdeiros da coroa.

Submissa ao novo golpe como sofrera o primeiro, a imperatriz, chorando essa perda irreparável, mereceu do seu povo esse tributo de admiração e respeito a que tem sempre jus as íntimas e verdadeiras dores.

Atualmente, dedicada à educação das princesas Isabel e Leopoldina, S. M. ensina às mães como, entre as galas do poder, se desvela o coração no cultivo dos grandes sentimentos.

Mãe inteligente e amorosa, como é esposa terna e amante, a imperatriz é hoje o modelo augusto, em que os brasileiros estudam o desenvolvimento e a beleza dos maiores afetos.

Protetora de muitas associações filantrópicas, S. M. ampara-as a um mesmo tempo com o auspício de soberana e com o desvelo feminil; os pobres invocam-na como assídua esmoler; os órfãos, como mãe; e o seu povo, como a mais eficaz das protetoras.

Tais são em traços indeléveis as qualidades eminentes que ornam a atual imperatriz do Brasil, soberana por escolha feliz de seu augusto esposo, duplamente soberano pelo culto reconhecido que, em geral, lhe consagram brasileiros.

Fonte

Pessoas citadas

  • Dom Pedro II (Segundo e último Imperador do Império do Brasil)

Mapa – Cais do Valongo e da Imperatriz