Casamento da Princesa Dona Maria Teresa

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Querendo a cidade do Rio de Janeiro festejar, e aplaudir os reais desposórios da sereníssima senhora princesa, Dona Maria Teresa com o seu prezado primo, o sereníssimo senhor infante de Espanha[1], o ilustríssimo conselheiro intendente geral da polícia, Paulo Fernandes Viana, tomou a seu cargo a direção, e a execução de todo o festejo: e assim se construiu debaixo das suas ordens no Campo de Santa Ana uma praça, que pela sua extensão, grandeza, e elegância, levou a palma a todas quantas jamais se fizeram nesta cidade; e também pela vastidão da obra, concluída em menos de cinco meses, se mostrou não só o zelo incansável deste digno magistrado, mas também o gosto, e prontidão, com que os oficiais, que a construíram, e a ornaram, se empenharam em agradar, e bem servir ao nosso amável soberano com a fatura, e perfeição de uma obra admirável, consagrada ao ditoso consórcio da sua augusta filha, e digna da sua real presença. Esta praça do curro era um polígono de doze lados quase oval, tendo de comprimento de trincheira a trincheira quatrocentos e setenta e quatro palmos, e de largura trezentos e cinquenta e um: das trincheiras aos camarotes corriam as bancadas em forma de anfiteatro, e tinham de altura quinze palmos; e desde o terreno até à cimalha tinha de alto, a praça, quarenta e dois palmos em toda a sua circunferência. Os camarotes ocupavam dois andares em número de trezentos e quarenta e oito, todos muito espaçosos, e cômodos. Por cima da entrada principal se via de um lado o Himeneu, e de outro a América, e em torno da praça sobre a cimalha real serviam de adorno pirâmides, e vasos; no frontispício do camarim de Suas Altezas Reais sobressaíam as musas, e troféus; nas extremidades descansava a Justiça, e a Fama; e no alto as Reais Quinas Portuguesas coroavam a frente, realçando ao mesmo tempo a beleza de todo o artefato. O camarim real tinha de largura cinquenta e dois palmos em frente, e outros tantos em comprimento; nele havia várias repartições interiores para maior comodidade da real família, e terminava para a parte, que olha para a Igreja de Santa Ana, com uma varanda, onde havia três janelas com vidraças, as quais se podiam correr, como fosse necessário. Todo o adorno desta majestosa peça era rico, e digno da grandeza de quem a havia de ocupar com a sua real família; porquanto no exterior tudo era artificialmente pintado a óleo com muito primor, e no interior era todo ricamente forrado de damasco, veludo, e ouro, acrescendo para maior realce a linda pintura do teto. Na frente da praça se apresentava uma espaçosa escadaria de dois lanços, com a sua balaustrada, para onde se podia subir para o real camarim; e na face do Campo havia também outra espaçosa escada, para a qual se entrava por um portão, que ficava inferior à janela central da varanda. Serviria esta escada para Suas Altezas Reais subirem por ela para o camarim, sem ser necessário entrar pela praça.

Franz Josef Frühbeck, , O Campo de Santana, no centro do Rio de Janeiro, 1818, via Wikimedia Commons.

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Muitos dias antes de começarem as magníficas festas saiu, por ordem do ilustríssimo conselheiro, intendente geral da polícia, um bando, composto de mascarados burlescos a cavalo, anunciando com bastante folia, e estrondos de foguetes do ar, por toda a cidade, ser permitido a qualquer (pessoa) vestir-se de máscara, formar danças, apresentar-se no curro, e discorrer pelas ruas públicas, não só nos dias das festas reais, mas ainda em todos os domingos, e dias santos, que depois delas se seguissem até ao fim do ano, para maior aplauso, e pública alegria pelos felizes desposórios de Suas Altezas. Havendo o Príncipe Regente Nosso Senhor declarado ser do seu real agrado, que estas festas, que se haviam de dar na praça do curro do Campo de Santa Ana, tivessem o seu começo no dia 12 de outubro, aniversário do nascimento de Sua Alteza Sereníssima, o senhor príncipe da Beira, nas antevésperas deste ditoso dia, e tão suspirado de todos, de novo saiu outro bando, muito solene, e aparatoso, indo os almotacéis com grande séquito dos oficiais da Câmara, todos a cavalo, com bandas de música igualmente montadas, e acompanhados de muitos criados da Casa Real, e de uma grande guarda da cavalaria da polícia, a fim de publicarem os festejos, que em nome desta cidade do Rio de Janeiro, se haviam de executar por sete dias sucessivos na mencionada praça do curro. Esta cavalgada se dirigiu primeiramente ao Terreiro do Paço, e ali, depois de se soltarem muitos, e estrondosos foguetes do ar, se leu, na augusta presença do Príncipe Regente Nosso Senhor, e das pessoas reais, o edital de aviso; e depois de repetidos aplausos do muito povo, que se achava na praça, passaram a girar pelas ruas da cidade, e seus subúrbios, excitando por toda a parte grande, e universal contentamento, e desejos da chegada do aprazado dia.

Casa de Paulo Fernandes Viana, Revista Kosmos, Ano 2, Número 4, Abril de 1905.

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Com efeito, amanheceu o dia 12 de outubro tão desejado, o qual desde a aurora até à noite esteve assaz belo, e sereno, e que foi ao nascer do sol festejado com as salvas das fortalezas, e navios de guerra, que todos se embandeiraram. Ao meio-dia concorreu ao Paço o corpo diplomático, a Corte, e grande número de pessoas mais condecoradas de todas as ordens do Estado, para cumprimentar a Suas Altezas Reais pelo fausto motivo dos felizes anos do sereníssimo senhor príncipe da Beira. Pelas quatro horas da tarde saiu do palácio o Príncipe Regente Nosso Senhor em grande estado, com a real família, nos coches mais ricos da Casa Real (por ser este dia de grande gala), e se dirigiu para a praça do curro, seguido de outros muitos coches, que conduziam os oficiais mores, camaristas, damas, e outras pessoas do seu real serviço. Muitos destes coches eram puxados a seis, e a quatro bestas e os criados tinham fardas ricas, competentes à solenidade do dia. Já neste tempo os camarotes todos se achavam ocupados pelo corpo diplomático, pela fidalguia, nobreza, e pessoas mais distintas da cidade, por quem foram com antecedência distribuídos pelo ilustríssimo conselheiro, intendente geral da polícia; e o grande número de senhoras, pelo ornato, e riqueza, com que se apresentaram, realçava a magnificência do anfiteatro, cujas bancadas se viam cobertas de muitas mil pessoas, vestidas com o asseio, e decência, que convinha, o que fazia um espetáculo assaz brilhante, e superior a tudo quanto se tinha visto no Rio de Janeiro até então em festas desta natureza. A chegada do Príncipe Regente Nosso Senhor com a real família foi anunciada por girândolas de fogos do ar, que se desenvolveram com grande estrondo, e ao tempo que se correram as cortinas do real camarim, e apareceram Suas Altezas, foram os augustos senhores aplaudidos com muitos vivas pelos seus leais, e amantes vassalos, que divisavam nos reais semblantes de Suas Altezas o excessivo prazer, e satisfação, com que recebiam os obséquios, que o seu povo consagrava ao feliz consórcio da sua prezada filha, e prezado sobrinho, os quais, estando também ali presentes, como que davam maior realce, e esplendor ao pomposo aparato das festas, animando ao mesmo tempo, e vigorizando a pública alegria.

Mausoléu do Infante de Espanha Dom Pedro Carlos colocado na Capela da Conceição, pertencente aos Terceiros, ao lado da Epístola da igreja do convento.

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Entretanto rompeu uma numerosa, e excelente orquestra, e entrou pela praça do curro o primeiro carro artificiosamente composto, e ornado com delicadeza: fingia ele um monte, sobre o qual estava em pé a América com a aljava ao ombro, e arco na mão, tendo na cabeça um cocar de plumas de várias cores, e um saiote das mesmas: discorriam pelo monte vários animais, e pássaros do país, que por entre as ervas, e flores se apascentavam. Este belo carro servia para aguar a praça, e por esta razão esguichava água por diferentes repuxos, que saíam por entre as flores, que eram todas artificiais. Vinham adiante dele muitos índios, adornados ao seu modo, com o seu cacique à frente, e estes caminhavam, dançando ao som de um assobio, que um deles tocava; e depois de chegarem defronte do real camarim formaram outras danças muito dificultosas, entrançando uns com os outros umas varas de cor vermelha, em forma de arco, e fazendo outras evoluções, que deram muito prazer. Este primeiro carro, e dança anexa a ele, foi oferta dos mercadores. Seguiu-se o segundo carro muito rico, que os ourives do ouro, e prata ofereceram para esta real função, dentro do qual vinha a dança dos chinas, vestidos de ricas sedas do mesmo país, e se dividiam em duas bandas, uma de azul claro, e outra de amarelo. Estes chinas, descendo do carro, executaram no meio da praça, danças muito engraçadas, ao som de vários instrumentos, com geral satisfação. Apareceu um terceiro, e elegante carro, conduzindo uns dançarinos, que no traje imitavam os antigos portugueses, os quais, pelo asseio, e riqueza do vestuário, e perfeita execução das danças, mereceram a geral atenção, e aprovação. Foi este carro dado pelos negociantes de molhados. Após dele entrou o quarto carro, representando uma ilha do Mar Pacífico, com dança de índios próprios, que os caldeireiros, latoeiros, e ferreiros ofertaram. Entrou logo o quinto carro, fingindo um castelo, sobre o qual tremulava a real bandeira portuguesa: deu este castelo uma salva real na augusta presença de Suas Altezas, e saindo de dentro dele uma dança militar executou com muita certeza várias evoluções. Este carro foi ofertado por dois oficiais de carpinteiro, que fizeram a obra do curro. Rematou esta pomposa entrada dos carros um grande escaler, cuja maruja vinha cantando em ação de remar, segundo o seu estilo, e com muita graça, e, havendo desembarcado, fizeram, uma mui divertida dança. Finalmente, entraram pela praça os ciganos a cavalo, trazendo as mulheres na garupa; trajavam todos ricos vestidos agaloados de ouro, e prata, e, descendo dos cavalos, formaram, na frente do camarim real, uma dança ao som de instrumentos, que foi grandemente aplaudida pelo acerto, e primor da sua execução. Entre outras muitas danças, que se apresentaram no curro, deu muito prazer a dos macacos, não só pelo ridículo das suas figuras, saltos, e trejeitos pantomímicos, mas também pelo desenvolvimento da mesma dança, que, sendo toda ela mímica, rematou com formarem um círculo, e sobre os ombros destes se puseram em pé outros quatro, fazendo um grupo, sobre o qual se firmou um pequeno macaco, o qual desenrolou os retratos dos sereníssimos consortes, e os mostrou aos espectadores entre repetidos aplausos, em que rompeu toda a nobilíssima assembleia. Além dos máscaras, que formavam as danças, via-se a passear pela praça do curro um avultado número de máscaras, vestidos com asseio, e riqueza, uns sérios, outros burlescos; pois lhes havia sido permitido fazer estes giros pelo recinto do curro até chegar a ocasião de entrarem os cavaleiros: e esta mesma afluência de tantos mascarados, além de divertir os olhos pela variedade, e engenhosa invenção dos vestuários, e das máscaras, dava um público testemunho do gosto, com que todos competiam entre si por agradar ao nosso amável soberano, concorrendo como podiam para festejar as núpcias da sua augusta filha.

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Concluídas as danças se recolheram os carros; e os máscaras tomaram assento nas bancadas, que lhes haviam sido reservadas. Imediatamente entraram muitos criados da Casa Real com grandes uniformes, trazendo à destra soberbos cavalos das reais cavalariças, enfeitados com fitas, e penachos sobre a cabeça, e cobertos com ricos telizes. Seguiam-se vários carros de campo, sobre os quais vinham os caixões com os aprestos necessários para as cavalhadas, que nesta primeira tarde se haviam de executar naquela praça. Logo depois apareceram trinta e dois cavaleiros, divididos em quatro bandas de oito cada uma, distintas pelas diferentes cores dos seus vestidos: a primeira era cor de rosa, a segunda azul claro, a terceira amarelo, a quarta verde; as duas primeiras tinham bordaduras de ouro, e as duas últimas de prata sobre as casacas, que eram de fino belbute; todos os cavaleiros vinham muito louçãos, e magníficos, não só respectivamente às suas pessoas, como também à formosura, e adorno dos seus cavalos. Cada cavaleiro trazia junto de si um servente, vestido de cetim da cor relativa à do seu amo, e todos trajavam jaquetas com os seus saiotes, franjados de ouro, ou prata, e traziam barretinas com plumas de várias cores. Feitas as competentes cortesias ao Príncipe Regente Nosso Senhor, aos augustos desposados, e mais pessoas reais, se dividiram os cavaleiros em duas filas, e passaram a girar em torno da praça, cortejando também os espectadores, que altamente os aplaudiam; e tornando-se a reunir deram princípio às escaramuças, passaram ao depois às justas, aos jogos de canas, às alcancias, etc., desenvolvendo todos muita habilidade, primor, e galhardia na execução das difíceis, e delicadas regras da cavalaria, quer nas carreiras, quer nos jogos, quer nos tiros de pistola ao alvo, quer, enfim, em todas as mais evoluções, e merecendo uma geral aprovação, manifestada pelos repetidos aplausos dos espectadores. Com a chegada da noite se pôs termo às festas deste dia; e ao retirar-se o Príncipe Regente Nosso Senhor com a real família, de novo se soltaram outras girândolas, que avivaram a alegria, e a satisfação de todos. Nesta noite houve teatro de Corte pelo motivo dos anos do sereníssimo senhor príncipe da Beira, o qual foi honrado com a real presença de Sua Alteza, o Príncipe Regente Nosso Senhor, e de parte da sua augusta família, e onde também foram Suas Altezas festejados com muitos vivas dos seus fiéis vassalos, que ali se achavam congregados por tão plausível motivo.

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No dia seguinte, destinado para o divertimento da corrida dos touros, logo que o Príncipe Regente Nosso Senhor chegou com a real família pelas quatro horas da tarde à praça do curro, começaram a entrar por ela os carros, e as danças, como na tarde antecedente, e tendo cada uma delas divertido por largo espaço aos espectadores, que naquele anfiteatro ocupavam tanto os camarotes, como as bancadas, a um sinal dado se recolheram os carros, e os máscaras despejaram o terreiro, para dar lugar ao combate dos touros. Apareceu então o neto muito bem montado, com o séquito dos capinhas, e demais serventes, que conduziam o trem necessário; e, depois que o neto fez as suas cortesias, passou-a postar-se no competente lugar, para ali receber as ordens, que Sua Alteza Real fosse servido mandar dar-lhe. Logo entraram dois valentes, e animosos campeões, montados em soberbos ginetes, acompanhado cada um deles de dois capinhas, e tendo feito ao Príncipe Regente Nosso Senhor, aos augustos consortes, e à real família as devidas vênias, como também as cortesias aos espectadores, segundo o estilo da cavalaria, voltaram para fora da praça, a fim de mudarem de cavalos; o que tendo feito, sem muita detença, tornaram a entrar na praça, estando já solto no meio dela o primeiro touro, e passaram a recebê-lo em duelo, e depois deste os demais, que sucessivamente se soltaram para este fim. A medida da ferocidade, maior ou menor, destes animais, assim os toureadores tiveram ocasião de ostentar, mais ou menos a sua destreza, e valor no combate, conforme os encontros, e acometimentos, que houveram; e os capinhas executaram da sua parte muitas sortes com desembaraço, e ligeireza. Desta sorte se passou o resto da tarde, até que, sobrevindo a noite, se deu fim à corrida dos touros com soltarem-se muitos fogos do ar ao tempo, que o Príncipe Regente Nosso Senhor se recolheu com a real família para o interior do camarim.

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Nas tardes dos seguintes dias se repetiram alternadamente os mesmos festejos, com igual pompa, e júbilo, por terem estado aqueles dias sempre serenos, e claros constantemente, e não haver acontecimento, que causasse o mais leve dissabor. E, para nada faltar ao esplendor de tão magníficas festas, o ilustríssimo conselheiro, intendente geral da polícia, em cada uma destas tardes de cavalhadas, e touros, fez preparar um suntuoso (dessert) nos quartos interiores do real camarim, onde Suas Altezas Reais descansaram, e foram servidos tomar uma refeição; contendendo entre si, naquele respeitável lugar, a riqueza da baixela de ouro, e de prata com a profusão, e delicadeza dos manjares; mas a tudo levou a palma o afeto, o amor, e a reverência, que o digno magistrado consagra ao seu, e nosso augusto príncipe, e senhor, aos sereníssimos consortes, e a toda a real família. Não se limitando só àquele nobilíssimo recinto a munificência do ilustríssimo conselheiro, intendente geral da polícia, ela se estendeu pela maior parte dos camarotes, administrando-se às pessoas, que neles se achavam, doces, e refrescos em abundância, que em ricas bandejas eram ofertados por criados destinados para esse obséquio.

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Na noite de 21 de outubro se apresentou na praça do curro uma cena muito brilhante de iluminação geral por toda ela, acendendo-se repentinamente a fachada dos camarotes por todo o âmbito do anfiteatro, desde as trincheiras até às pirâmides, e vasos sobre a cimalha real, à chegada do Príncipe Regente Nosso Senhor, e da real família. A tudo sobressaía a rica, e bela iluminação da frente do camarim de Suas Altezas, a qual era toda de cera em polidos lustres de cristal, globos, e mangas de vidro; e pelo recinto da praça haviam muitos lampiões de dois, e três lumes igualmente de cera. Os camarotes, e as bancadas estavam ocupados com ainda maior afluência de pessoas, do que nas tardes antecedentes, além de povo imenso, que passeava por fora do curro, por já não ter podido achar lugar nas bancadas, em que se pudesse acomodar tanta gente, quanta concorrera nesta aprazível noite. Entraram na praça os carros com as suas danças, e igualmente os ciganos a cavalo com as mulheres à garupa, e da mesma sorte muitos máscaras avulsos, que giravam por uma, e outra parte: os carros vinham todos iluminados, o que muito realçava a beleza dos seus ornatos; e havendo parado cada um no seu lugar, distantes uns dos outros, ao mesmo tempo as diferentes danças tomaram o terreno, que lhes foi assinado, em todo o circuito da praça, sem que umas empecessem as outras, e começaram os seus movimentos ao som das suas respectivas músicas; porém os ciganos tiveram a honra de ficar na frente do real camarim. Concluídas as danças se recolheram os carros: e logo entraram os cavaleiros vestidos de branco, com tochas acesas na mão, os quais, depois de cortejarem a Suas Altezas Reais, passaram a dar carreiras, e a fazer outras várias escaramuças em torno da praça; depois disto fizeram diferentes jogos, que muito agradaram a todos, e entretiveram até à meia-noite a numerosíssima assembleia. Então o Príncipe Regente Nosso Senhor deu por concluída a função desta noite, que tantos, e tão lindos objetos apresentara aos olhos dos espectadores, e de que Suas Altezas Reais muito se satisfizeram, sendo servidos dar públicas demonstrações do seu real agrado ao ilustríssimo conselheiro, intendente geral da polícia, que tanto se esmerou no arranjo, e execução destes festejos, os primeiros, que se fizeram no Rio de Janeiro na real presença do soberano, e por este tão honroso motivo dignos de eterna celebridade.

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Nesta mesma festiva noite a praça do curro, não podendo, apesar da sua vastidão, conter o desafogo da pública alegria, esta se espalhou pelas ruas da cidade, saindo os carros iluminados com as respectivas danças, e outros muitos máscaras, a passear por elas, fazendo o entretenimento do povo, que os acompanhava, e das senhoras, que chegavam às janelas, atraídas da suavidade dos instrumentos músicos, beleza dos adornos, e da iluminação, que os aclarava. Também na noite do dia 25 se dirigiram os carros, e as danças para o Terreiro do Paço, indo os mesmos carros muito iluminados, e entre eles um brigue de guerra, igualmente cheio de luzes, o qual, chegando defronte do quarto do senhor infante, deu uma salva real, com muitos vivas da sua tripulação, e aplauso do numeroso concurso, que atraído desta novidade se havia congregado na praça, e que admirava tão grande máquina mover-se sem vento, que enchesse as velas, e navegar sem água. Ali houve danças, e outros divertimentos por grande parte da noite; e, havendo-se afinal retirado os carros, ficou o brigue, como ancorado, por alguns dias naquele mesmo lugar, todo embandeirado, e muito vistoso.

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O grande fogo artificial, que havia sido destinado para à noite do dia 21, se transferiu para a de 26, não só para fazer mais plausível o dia natalício do sereníssimo senhor infante D. Miguel, como também para dar tempo de formar-se uma nova, e elegante perspectiva no Campo de Santa Ana; porquanto, tendo sido a primeira determinação, que se desenvolvesse o fogo dentro da praça do curro, o Príncipe Regente Nosso Senhor sugeriu ele mesmo o arbítrio de que fosse armado no dito Campo; pois assim não ficava privada deste espetáculo a maior parte do povo da cidade, e do que a ela concorrera, atraído da fama de tão magníficas festas reais, querendo Sua Alteza que todos pudessem gozar do divertimento do fogo, e de uma nova iluminação, que se fez no dilatado Campo. Formou-se, portanto um passeio, imitando um jardim com várias ruas, que se cruzavam; por um, e de outro lado das ruas corria um engradamento de altura de quatro a cinco palmos, entrelaçado com ramos de plantas aromáticas, e adornado de vasos, e pirâmides; nas bocas das mesmas ruas havia arcadas de madeira muito bem pintadas, e de espaço em espaço se plantaram palmeiras, que faziam muito bela vista, estando tudo iluminado com grande cópia de lampiões, e copos de vidro de diversas cores.

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No centro deste jardim se elevava uma peça de arquitetura muito vistosa, de figura oitavada, tendo cada face vinte palmos de largo, e quarenta e oito de altura, e terminava com uma grande pirâmide, rematada por um sol. No corpo, que servia de base à pirâmide, se liam em transparentes quadras alusivas ao grande objeto, que motivava estas reais festas; por toda esta máquina, que figurava uma torre, e fora dela, por um, e outro lado, se armaram as diferentes peças do fogo de artifício. Logo que anoiteceu chegou o Príncipe Regente Nosso Senhor com a real família, e, acompanhado da Corte, examinou o jardim, passeando por todo ele, e dando as mais alegres demonstrações da sua real satisfação; e depois passou a recolher-se ao real camarim da praça do curro, para das varandas do mesmo assistir ao desenvolvimento do fogo, que lhe ficara fronteiro, e em distância de vinte braças, pouco mais ou menos. Com efeito, depois das nove horas começou a arder o mencionado fogo, fazendo muitas, e diferentes vistas de rodas, chuveiros, estrelas, iluminação, e outras invenções agradáveis aos olhos; e ao mesmo tempo, de espaço em espaço, subiam ao ar girândolas de fogos volantes, que com grande estrondo se desmanchavam com diversas vistas, até que subindo o rastilho ao sol, se iluminou este com muito esplendor, dando o final remate não só ao fogo artificial, mas também a toda a festividade, que o Rio de Janeiro consagrou aos felizes responsórios da augusta filha do Príncipe Regente Nosso Senhor. A este último espetáculo seguiram-se os aplausos de um povo imenso, que cobria toda a vasta extensão do Campo, e que cheio do maior contentamento bendizia as festas, e o diretor, como também abençoava o augusto enlace de Suas Altezas, pedindo ao céu que nos conceda motivos de maior alegria, honrando os brasileiros com o nascimento de um patrício das Reais Casas de Bragança, e Bourbon. Devo acrescentar, que o Príncipe Regente Nosso Senhor premiou com generosidade a todas as pessoas, que concorreram para estas festas reais, tanto aos que entraram nas cavalhadas, como aos diretores dos carros, e danças, concedendo a uns, hábitos das ordens militares, a outros, postos, e a todos, gratidão, segundo os merecimentos de cada um, posto que o afeto, e amor, com que serviram, fosse igual em todos.

Nota do Editor

  1. Carlos de Bourbon, Conde de Molina, nascido Carlos María Isidro Benito de Borbón (Aranjuez, 29 de março de 1788 — Trieste, 30 de março de 1855), conhecido na literatura lusófona pela designação de Infante Carlos de Bourbon, foi o pretendente ao trono de Espanha que esteve na origem do carlismo e das guerras carlistas que dilaceraram aquele país durante boa parte do século XIX. Casou em segundas núpcias com D. Maria Teresa de Bragança, a Princesa da Beira, irmã da sua primeira esposa, não deixando descendência deste casamento. (Wikipédia)

Fonte

Imagem destacada

  • Retrato da Infanta D. Maria Teresa, 1816, por Taunay, Nicolas Antoine (1755, Paris-1830, Paris). Acervo do Palácio Nacional de Queluz, via Direção-Geral do Património Cultural. Fotógrafia de Luisa Oliveira, 2012.

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