Estrada de São Cristóvão

ESTRADA DE SÃO CRISTÓVÃO – O auto de correição do ouvidor Luiz Nogueira de Brito, de 25 de novembro de 1628, comprova que por essa época já se achava franqueado ao povo o caminho de São Cristóvão, no qual se deveria levantar uma ponte, por ser caminho real. Em 1640, a vereança de 27 de junho, a requerimento do procurador do conselho, mandou consertar a ponte de São Cristóvão – que é serventia geral de toda a cidade, porquanto está muito danificada e se se não reparar, em breve cairá e se perderá uma obra tão útil e necessária. No século XVIII era a estrada de São Cristóvão (que vai desta cidade para todos os distritos de terra firme) o percurso, por vezes preferido pelos viajantes do interior do país, que se não dispunham a atravessar a Baía de Guanabara e percorrer as estradas que partiam de Iguaçu e se comunicavam com o interior do sertão, até as capitanias mais remotas deste Estado – assim o diz Pizarro no 7.º volume de suas Memórias Históricas do Rio de Janeiro.

James Hendersen, viajante inglês, em sua History of Brazil (1821), descreve-nos as duas estradas do norte da cidade do Rio de Janeiro, ambas partindo do Campo de Sant’Ana e margeadas por lindas chácaras e habitadas por negociantes ingleses, segundo Afonso Arinos (Histórias e Paisagens). Iam desembocar essas estradas na altura do Engenho Novo [1], em comunicação com o extenso caminho das minas. Das duas, a de Mataporcos[2] que bifurcava com as do Engenho Velho[3][4] e São Cristóvão[5], era a mais antiga. A da Cidade Nova, embora mais nova, tornou-se mais frequentada depois de 1808. Henderson, que chegou ao Brasil em maio de 1819, e foi contemporâneo do grande naturalista Saint-Hilaire, ainda durante a permanência de D. João VI e sua corte no Rio de Janeiro, dá-nos em sua obra ilustrada, acerca das caravanas de tropeiros, bem interessante notícia: “A estrada da Cidade Nova a São Cristóvão está geralmente coberta de tais caravanas, tangidas por condutores de aspecto vário, vestidos de camisas de algodão e calças da mesma fazenda, usando chapéu desabado, cujas cores combinam com as dos cavalos e mulas e trazem também pessoas de maior distinção, vindas do interior do país, formando um total de, pelo menos, dois mil viandantes por dia”.

“Andei com eles frequentemente – acrescenta o historiador inglês – e achei-os sempre comunicativos e civis”. “A maior parte dessa gente frequenta determinadas ruas da cidade para a venda de carregamentos de gêneros e a compra de mercadorias manufaturadas”.

À margem da estrada de São Cristóvão ficavam as terras que haviam sido arrematadas em consequência do sequestro dos bens dos padres Jesuítas (Arquivo do Distrito Federal – 1.º vol. – pág. 140) e das quais tratam os autos de arrematações, inclusive os das chácaras de Miguel Pereira Tinoco, Francisco Xavier Teles e João Lopes Lisboa, tendo o segundo adquirido em 25 de novembro de 1761 enorme área por 400$000.

Até 1840 terminava propriamente a estrada no Barro Vermelho [6], junto à quinta imperial da Boa Vista, cordeando-se nesse ano o prolongamento até o litoral.

John Luccock refere-se a uma estreita ponte para a passagem de gado e que dava acesso em 1808 ao Campo de São Cristóvão, então coberto de mato.

Em 1835, o Barão de Taunay projetou a abertura de uma avenida do Aterrado (Senador Euzébio) [7] ao paço imperial de São Cristóvão, obra de incalculáveis vantagens para o trânsito público e que importava no aterro de terrenos do mangue da Cidade Nova – desde a Rua do Aterrado até o fim do Caminho da Bica dos Marinheiros. Só em 1872 foi possível a empresa de carris de que era concessionário João Batista Viana de Drumond (Barão de Drumond) iniciar o aterro para a locação da linha de bondes para Vila Isabel, mas em condições restritas. O Decreto n. 7.181, de 8 de março de 1879 [8], concedeu a Possidônio de Carvalho Moreira autorização para o aterro dos mangues inclusive no trecho entre a Rua São Cristóvão e os limites do bairro deste nome.

A natureza destas anotações não nos permite fazer outras referências no tocante a melhoramentos, vistorias, rios, pontes, desapropriações, etc. – que poderíamos aqui registar sobre a Rua São Cristóvão – tão cheia de recordações, oferecendo margem para um capítulo psicológico – político e social – cujo ponto culminante era a Quinta da Boa Vista.

Notas do editor

  1. Engenho Novo (arrabalde) ← estação do Sampaio – ✠ Inhaúma, no Engenho de Dentro → (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – pág. 2443).
  2. Estácio de Sá (bairro) (Extratos Sobre Aforamentos – Índice Atualizado dos Logradouros (1929) – Aureliano Restier Gonçalves)
  3. Engenho Velho ← rua de S. Christovão – Andarahy → (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – pág. 2443).
  4. Engenho Velho (rua do). – Veja Rua Haddock Lobo. (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – pág. 2443).
  5. São Christovão (rua de) ← largo do Estácio de Sá (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – pág. 2450).
  6. Barro Vermelho (travessa do) – Veja rua Fonseca Telles. (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro – 1891 a 1940 – pág. 2437).
  7. São Pedro do Aterrado, Rua (Rua Senador Euzébio) → Incorporada à Av. Presidente Vargas. (Extratos Sobre Aforamentos – Índice Atualizado dos Logradouros (1929) – Aureliano Restier Gonçalves)
  8. Decreto nº 7.181, de 8 de Março de 1879 Concede ao Dr. Possidonio de Carvalho Moreira autorização para, por si ou por uma empreza, arrazar o morro do Senado e aterrar os pantanos da cidade do Rio de Janeiro.

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