Igreja de São Francisco de Paula

IGREJA DE SÃO FRANCISCO DE PAULA – A Igreja de São Francisco de Paula foi a princípio pequena ermida, começando a edificar-se a 4 de abril de 1757, e terminada a 19 de janeiro de 1758 tendo a irmandade dispendido 1.508$716, com as obras principais. Estabelecida a Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, por provisão do bispo Dom Frei Antônio do Desterro Malheiros, de 9 de julho de 1756, dois dias depois recebia os primeiros irmãos que em cortejo se dirigiram à Igreja da Cruz dos Militares, depositando ali a imagem do patriarca canonizado em 1510. A 22 de janeiro de 1757, instalou-se a Ordem nessa igreja. A 29 de dezembro, ainda desse último ano, celebrou-se a cerimônia da trasladação da imagem para a ermida que se estava a construir em terreno doado ao bispo e a seu irmão, o mestre de campo João de Malheiros Reimão. Desejosos o prelado e seu irmão de que a Ordem possuísse um templo vasto e elegante, assentaram a primeira pedra da nova edificação ao lado da ermida. Ultimaram-se as obras em 1801, levando, assim quarenta e dois anos a se erigir a vistosa construção. O breve do Papa Pio VI, de 2 de setembro de 1779, aprovou a instituição da Ordem – com a cláusula de ficar sujeita exclusivamente aos frades mínimos de São Francisco de Paula . Não obstante esta determinação, receosa a Ordem de ver sua igreja transformada em sede do Cabido, suplicou ao Conselho Ultramarino um salvo conduto que a livrasse daquela usurpação. Alegavam os irmãos que, acabado de concluir o templo, os cônegos, sem pouso certo para residência efetiva, iriam infalivelmente para a Igreja de São Francisco de Paula. Temiam que a clerezia polvilhada se alojasse no novo templo, abandonando a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, onde infligia maiores vexames à humilde irmandade dos pretos.

Igreja de São Francisco de Paula – Rio de Janeiro – P. G. Bertichem – 1856 – Lithographia Imperial de Eduardo Rensburg

Suntuoso edifício do culto católico, a Igreja de São Francisco de Paula, merece demorada visita, para que se possa admirar detidamente a sua beleza arquitetônica, a execução artística do pórtico principal e, sobretudo, o caprichoso revestimento de obra de talha que a emoldura, atribuída em parte a Valentim da Fonseca e Silva – Mestre Valentim, nos primeiros anos do século XIX e a Antônio de Pádua e Castro, em 1855. Em recente estudo de Dona Nair Batista sobre Valentim da Fonseca e Silva, são apresentados interessantes documentos atinentes às obras artísticas desse templo (Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – n. 4). Dentre outras preciosidades artísticas, notam-se as imagens de santos, esculpidas por Chaves Pinheiro. Em 1855 iniciou-se a restauração das obras de talha e escultura geral desse templo, mas só dez anos depois (12 de abril de 1865) pôde terminá-las o escultor Pádua e Castro, cujo nome se recomenda por trabalhos da mesma natureza executados em várias igrejas, inclusive na do Sacramento e na do Rosário. O célebre sino, chamado do Aragão, colocado numa das torres, fabricou-o a fundição situada no segundo decênio do século XIX a Rua São Lourenço (Visconde da Gávea) n. 44. Havendo necessidade em 1825 de redobrarem de cautela as medidas policiais que haviam sido já recomendadas no edital do intendente geral da Polícia, Antônio Luiz Pereira da Cunha (futuro Marquês de Inhambupe), de 26 de maio de 1821, determinou o desembargador Francisco Alberto Teixeira de Aragão severas providências contra escravos e malfeitores. Um edital de 3 de janeiro de 1825 preestabelecera que, depois das 10 horas da noite, no verão, e das 9, no inverno, até amanhecer, ninguém estaria isento de ser revistado pelas patrulhas inexoráveis. E para que todos o soubessem – avisava o intendente Aragão – o sino da Igreja de São Francisco de Paula e o do Mosteiro de São Bento dobrariam, precisamente àquelas horas, por espaço de trinta minutos. Este costume refletia uma das antigas usanças portuguesas, com o sinal de recolher, dado às Ave-Maria, por três badaladas, como nos refere o grande historiador Alexandre Herculano. Introduzido nas vilas e cidades do Brasil, ampliaram-no os ouvidores em suas correições e o tornaram extensivos aos serviços públicos e, notadamente, àqueles que diziam de perto com a segurança social. Os sinos e os relógios das igrejas fiscalizavam não só os escravos delinquentes, como também as diferentes classes da sociedade. Serviam assim, de modo geral, para regularizar a vida de toda gente. Até em derriços amorosos, por eles se regulavam os cariocas. É expressivo flagrante da época, esta quadrinha trauteada pelo povo:

Igreja de São Francisco de Paula, via Museu J. Paul Getty
São Bento deu uma hora,
O Colégio já deu duas,
Vê que horas são estas
Que eu por ti ando nas ruas.

Cidade de frequentes e aparatosas festas religiosas e procissões, quase diárias, com foguetes a espocar e sinos a repicar, o velho Rio de Janeiro exteriorizava na música alegre dos sinos a alma simples e boa do seu povo. Em costumes mais íntimos das famílias infiltrara-se o domínio dos campanários. Houve época em que os sineiros das igrejas ganhavam de quatro vinténs a meia pataca, quando se incumbiam de anunciar o nascimento de pimpolhos, filhos de gente rica ou abastada. Se do sexo masculino o nascido, o sino da matriz paroquial dava nove badaladas. Apenas sete, avisavam o nascimento das meninas.

Fonte

Mapa – Igreja de São Francisco de Paula