Largo de São Francisco de Paula

LARGO SÃO FRANCISCO DE PAULA – Em terras que pertenceram ao campo da cidade[1], demarcadas a 22 de dezembro de 1705 pelos oficiais da Câmara, sob a presidência do juiz de fora, Francisco Leitão de Carvalho, procedeu-se em 1742 ao cordeamento da área destinada à Praça da Sé Nova, que fora cedida pela irmandade de Nossa Senhora do Rosário, a pedido do Conde de Bobadela, governador da Capitania. Essa medição discriminava as seguintes linhas divisórias do novo logradouro: oito braças de testada, desde o canto da Rua do Ouvidor, “assim hoje chamada e antigamente do Padre Pedro Pereira Homem e dezessete braças de fundos, até topar uns chãos da dita irmandade.” É o que se lê num documento incompleto, da coleção de logradouros públicos existente no Arquivo Municipal e através de traslado da certidão passado pelo piloto do Senado da Câmara João Manuel dos Barbés, a requerimento do tabelião Simão Pereira Barreto. O traslado parece haver sido extraído no período de 1797 aos primeiros anos do século XIX – porquanto, João Manuel de Barbés, nomeado por provisão de 28 de janeiro daquele ano, exerceu o cargo de piloto das demarcações até 1808 ou 1809. Fora da área cedida pela Irmandade do Rosário para logradouro público, figuravam como foreiros à Municipalidade nesse trecho de cidade, os terrenos de Antônio da Rocha Machado, Pedro Dias Paes Leme, cônego Henrique Moreira de Carvalho, Francisco Cordovil de Siqueira e Melo, provedor da fazenda real e outros – cujos nomes se encontram no “Tombamento”, de Inocêncio da Rocha Maciel e nos “Índices e Extratos de Aforamentos”, recentemente publicados pelo operoso esmerilhador de velharias, Aureliano Restier Gonçalves.

Monumento a José Bonifácio de Andrada e Silva, que se ergue no Largo de São Francisco de Paula

Destinado o logradouro à sede da catedral, passou por sensíveis melhoramentos, regularizando-se sua edificação, como nos esclarece o auto de correição do ouvidor e corregedor da comarca Dr. Francisco Antônio Berquó da Silveira Pereira, de 13 de setembro de 1749. Criou essa correição uma postura, tornando obrigatória a arruação e provendo que “daqui em diante nenhuma pessoa possa fazer casas nem reedificá-las sem primeiro recorrer à Câmara, para lhe mandar fazer a arruação, segundo a qual devem ser fundadas e com especialidade nas que se fizerem na Praça da Sé Nova e o que ao contrário fizer, perderá 6$000 para as obras do conselho e terá trinta dias de cadeia e se fará público por edital para não poder alegar ignorância.” Esta postura foi ampliada em 27 de agosto de 1783 pela correição do Ouvidor Francisco Luiz Alvares da Rocha.

Determinou este provimento da Ouvidoria que se não pudesse edificar da vala para o mar, sem que, pelo menos, na frente das ruas, fossem as casas de sobrado, para assim guardar o prospecto e a regularidade das cidades mais civilizadas deste Reino e da Europa. Providenciou igualmente a correição acerca dos pardieiros arruinados, nas ruas mais públicas e frequentadas, mandando reedificá-los, fazendo sobrado. Caso não dispusessem os proprietários de recursos para a obra dos prédios, os venderiam sem demora pelo preço da avaliação procedida pelo Senado da Câmara.

Até 1823 – informa Melo Morais – uma das faces da praça, cercada por tabuado, serviu de depósito de imundícies. Desentulhada a praça e removida a estrebaria do esquadrão de cavalaria, cujo quartel ficava no Largo do Rossio, conseguiu a Municipalidade regularizar em 1833 o arruamento dentro da pequena área de 140 braças quadradas, ladeada por trinta e um prédios.

Igreja de São Francisco de Paula, via Museu J. Paul Getty

O trecho que se estende da Rua do Ouvidor até a hoje Travessa do Rosário e a face da praça desse ponto até encontrar a Rua dos Andradas (antiga do Fogo) não possuíam prédios. Entre as ruas do Fogo e da Conceição, em terreno contíguo às cavalariças dos herdeiros de Rocha Machado e depois pertencentes a Francisco José da Rocha, estabeleceu-se em 1830 a célebre cocheira de carros do major – de João Guilherme de Suckow. De nacionalidade alemã, nascido em 1798, Suckow veio no regimento de Macklemburg, com outros alemães contratados pelo governo brasileiro. Em 1830 já se tornara uma das pessoas mais conhecidas da colônia alemã, o cicerone de seus patrícios nos passeios pela cidade e arredores, que conhecia a palmo.

Dispondo esse industrial de vistosas carruagens destinadas a recepções, cerimônias religiosas e passeios, conquistou em pouco tempo a primazia no negócio de viaturas. João Guilherme de Suckow, falecido com 70 anos de idade, a 12 de janeiro de 1869, foi um dos primeiros diretores do prado de corridas Jóquei Clube, inaugurado a 16 de julho de 1868.

Com a expansão da vida urbana, a Praça Real da Sé Nova, perdeu esta denominação, para se crismar São Francisco de Paula, onomástico do Santo calabrês e do patrono da Ordem dos Mínimos, cuja igreja se inaugurara no local. Pelo decreto n. 375, de 18 de março de 1897, do prefeito Dr. Furquim Werneck, passou a chamar-se Praça Coronel Tamarindo, em memória de Pedro Nunes Tamarindo, morto em combate pelos jagunços, na expedição Moreira César.

O decreto n. 1.165, de 31 de outubro de 1917, mudou a denominação do logradouro que ficou conhecido simplesmente por – Largo São Francisco.

Em 1885 crismaram-no de Praça da Liberdade em memória da libertação de escravos, pleiteada entre os moradores pelos sócios do Centro Abolicionista da Escola Politécnica entre os quais os professores André Rebouças, Enes de Souza, Benjamin Constant, Agostinho dos Reis, Getúlio das Neves, Carlos Sampaio e Paulo de Frontin.

Na histórica praça, a pequena distância da igreja que guarda a lembrança de procissões faustosas e dos Te Deum, ao tempo da eloquência de Mont’Alverne e ali bem perto do Hospital dos Terceiros da Ordem (inaugurado a 21 de dezembro de 1814) e das catacumbas, começou a funcionar em 12 de abril de 1812 a Academia Militar, criada por iniciativa de D. Rodrigo Antônio de Souza Coutinho (Conde de Linhares), a 4 de dezembro de 1810 e instalada em prédio construído sobre os alicerces que se destinavam à Sé Episcopal. Em 1851 mudou a velha Academia sua denominação para Escola Central e em 1874 recebeu o nome de Escola Politécnica (atualmente Escola de Engenharia[2]).

No pinturesco de cenários extintos, ainda se recorda o estacionamento em frente dessa escola, de tropas de animais de carga, com os seus almocreves, procedentes de vilarejos e fazendas de serra acima. Descarregavam na praça o café e outros produtos agrícolas e, por compra ou consignação, recebiam vários gêneros destinados ao interior. Não lhes era permitido pernoitar na cidade – segundo o que dispunha a postura municipal de 11 de setembro de 1838, na secção II – título III, parágrafo 10. Esta postura fora, aliás, adotada anteriormente pela Câmara Municipal para os cargueiros de mantimentos que se arranchavam em Benfica, no fim da Estrada do Pedregulho.

Meio século depois da proclamação do Ipiranga inaugurou-se no Largo de São Francisco de Paula, a 7 de setembro de 1872, a estátua do Patriarca da Independência, o sábio José Bonifácio de Andrada e Silva, por iniciativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

O singelo monumento, obra do insigne escultor da grandiosa estátua equestre de Dom Pedro I, custou apenas 50 contos de réis, produto da subscrição promovida pelo Instituto Histórico. O estatuário Louis Rochet esculpiu nas quatro faces do monumento as figuras simbólicas da Justiça, Ciência, Integridade e Poesia. Circundava a estátua um jardim, inaugurado a 7 de setembro de 1875, segundo o plano do engenheiro Mavignier, alterado pelo arquiteto paisagista Glaziou e desaparecido na administração Passos.

Calçamento e expansão predial – Desde que o edifício da Escola Central passara a apresentar outro aspecto arquitetônico, em consequência de grandes reformas, cuidou a Municipalidade de substituir o calçamento de alvenaria por paralelepípedos, dispendendo em 1856 com aquisição de material e pagamento de salários dos africanos calceteiros, a soma de 2:418$000. Em 1870, 1872, 1882, 1891, 1894 e 1899 foram efetuadas obras de recalçamento desse logradouro. Executou-se em 1904 completa remodelação do calçamento a ladrilho de asfalto, que se substituiu em fins de 1906 pelo lençol de asfalto, abrangendo toda a área do logradouro.

Possuía em 1808 dezessete casas. As faces da Rua do Fogo (Andradas) e da Rua do Ouvidor à Travessa do Rosário não eram edificadas nesse ano. Segundo R. Walsh (Notices of Brazil in 1828 and 1829[3], a sua área em 1828 era de 140 braças, com 31 prédios. Curvelo Cavalcante, na Nova Numeração da Cidade, registou em 1877 treze imóveis, 6 de um sobrado, 2 de dois sobrados e 5 térreos. O recenseamento municipal, de 20 de setembro de 1906, coletou igual número de prédios encontrados em 1877, sendo, 1 de um pavimento, 8 de dois pavimentos e 4 de três, com 186 habitantes, e a densidade de 14,31 por prédio e 20,67, por domicílio. Em 1920, o recenseamento federal apresentou a estatística de 15 prédios, dos quais eram de dois pavimentos, 3, de três, 10, e de cinco pavimentos, 2. O censo predial de 1933, levantado pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, arrolou 18 prédios: 1 de um pavimento, 6 de dois pavimentos, 10 de três e 1 de quatro pavimentos, todos de alvenaria.

Raros projetos de melhoramentos foram apresentados para a remodelação do Largo São Francisco, inclusive o de Henrique Stepple, que se propôs a destruir, em 1891, o velho prédio da Escola Politécnica, para ampliar a área do logradouro e alargar a Rua da Conceição, abrindo um túnel no morro do mesmo nome até a Gamboa, com linha de bondes de bitola estreita e de tração elétrica. Este projeto, como outros, constituiu um dos muitos sonhos do Encilhamento [4], delineando, porém, uma das faces da transformação da velha cidade colonial – o problema da ligação do centro comercial com o litoral, onde ficavam os trapiches e os grandes armazéns de mercadorias de exportação e importação.

Notas do editor

  1. Chamava-se Campo da Cidade toda a vasta superfície compreendida entre o antigo fosso (Rua da Vala) e os mangues de São Diogo (hoje Cidade Nova). Ainda em 1711 toda esta imensa área era assim designada nas memórias que relatam a tomada da Cidade pelos franceses, apesar de se achar já por esse tempo retalhada e edificada em muitos lugares por diferentes chácaras. (Haddock Lobo, Tombo das Terras Municipais, pág. 10, 1863)
  2. IFCS – Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ.
  3. WALSH, R. (Robert), 1772-1852 – Notices of Brazil in 1828 and 1829 – London, F. Westley and A. H. Davis – 1830
  4. “Encilhamento” foi a forma como ficou conhecida a crise financeira ocorrida no Brasil a partir de 1890. Fonte: Guia do Estudante

Fonte

Imagem destacada

  • Largo de São Francisco de Paula no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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