O Cano

Entre os serviços prestados pelo conde de Resende não são de menor valia os referentes à higiene desta cidade.

Por insinuação deste vice-rei, o Senado da Câmara, em 1798, dirigiu às sumidades médicas do tempo um programa, que tinha por objeto os quesitos seguintes:

1º. Quais são as moléstias endêmicas da cidade do Rio de Janeiro e quais são as epidêmicas.

2º. Se é uma das principais causas das primeiras e do mau sucesso das segundas o clima nimiamente quente e úmido.

3º. Se são causas da umidade: 1º, a suma baixeza da cidade relativamente ao mar e baía, que a cerca pelos três lados de Lés-Sueste, Nordeste e Nor-Nordeste; de sorte que apenas se eleva do nível das águas de marés cheias de 5 a 11 palmos desde as praias até à maior distância delas no Campo de Santana, distante do mar 700 braças; 2º, a pouca expedição, que têm as águas das chuvas copiosíssimas, principalmente no verão, e enxugadas, então, quase só à força do grande calor do sol, mas em muitas partes sempre estagnadas; 3ª, a pouca circulação do ar pelas ruas da cidade e interior dos edifícios.

4º. Se são causas do calor: 1º, o impedimento que fazem a entrada dos quotidianos ventos matutinos ou terrais, que sopram da parte Nordeste, Norte, os morros que correm de São Bento até São Diogo, na direção de Lés-Nordeste, e a dos vespertinos, ou virações mais fortes que os primeiros, constantes da parte do Sueste, Sul-Sudoeste, os morros do Castelo, Santo Antônio e Fernando Dias paralelos aos outros; de sorte que fica a cidade situada entre as duas cordas dos ditos morros ao abrigo dos ventos; 2º, a direção das ruas ao Nordeste e Sudoeste, de sorte que todas as casas são banhadas do sol inteiramente de manhã e de tarde.

5º. Se são causas das mesmas doenças: 1º, as imundícies, que se conservam dentro da cidade; 2º, as águas estagnadas nos seus arrabaldes, como em Mataporcos e Catete, pela baixeza do mesmo terreno.

6º. Quanto deverá ser elevado o pavimento da cidade e os edifícios para remediar aquela umidade e haver saída para as imundícies.

7º. Quais são as causas morais e diatésicas das ditas doenças.

Sem entrar na apreciação dos extensos relatórios dos profissionais consultados: os Drs. Manuel Joaquim Marreiros, Bernardino Antônio Gomes e Antônio Joaquim de Medeiros, deles nos serviremos para estudar a origem do primitivo nome, dado à atual Rua Sete de Setembro.

Responde a um dos muitos quesitos o primeiro desses médicos: “o desasseio das praças, provenientes dos despejos, cujos eflúvios voltam para a cidade envoltos com os ventos e os podem fazer pestíferos, as igrejas loucamente recheadas de cadáveres por uma indiscreta devoção; a vala, o cano, a cadeia, os esterquilínios vagos, enfim tantos depósitos de imundícies, que há bastante motivo para suscitar-se uma interessante questão: porque da reunião de tantas e tão poderosas causas de corrupção, esta se não levanta em um grau eminente. E assim seria, a meu ver, se não fosse correta pela saudável exalação dos grandes matos vizinhos à cidade, que são uma oficina de ar vital, conforme as recentes observações feitas sobre os vegetais; donde se deve concluir a importância da conservação e propagação de arvoredos dentro e nas vizinhanças de povoações, tais como o Rio de Janeiro”.

O Dr. Gomes, entre muitas e valiosas considerações, aduzia o seguinte: “quase toda a praia desta cidade da banda da baía, é por falta de cais extremamente imunda; uma semelhante imundície é a causa das doenças de muitos dos países quentes: as ruas da Vala e Cano são ingratas aos passageiros pelo vapor que exalam, e as suas casas dão uma bem pouco grata habitação pela cópia de importunos mosquitos, indício certo, segundo nota Lind, na deterioridade do ar; consta-me que num ano que se limparam os aquedutos destas ruas houve após da abertura uma terrível epidemia”.

Como conciliar estas referências com o que dizem diversos escritores – Rua Sete de Setembro, antes Rua do Cano, porque por ela passava o aqueduto, que abastecia o chafariz da praça do Carmo, mais tarde largo do Paço, praça D. Pedro II e hoje praça Quinze de Novembro?

Pois um simples condutor de água potável poderia causar os malefícios acima assinalados? Sabemos, com toda certeza, que tal encanamento só foi construído no tempo de Gomes Freire de Andrade, e entretanto existem documentos autênticos provando que antes de 1747 já esta rua era denominada do Cano.

Para instituição do Lava-pés em Quinta-feira Santa, doou (1738) à Misericórdia Ignácio da Silva Medello onze propriedades: três casas térreas ao pé do guindaste dos Jesuítas na Rua Direita indo de São José para a Misericórdia, à mão direita três sobrados, uma casa térrea na travessa da Cruz, partindo com o tenente-general Antônio Carvalho Lucena; quatro também térreas, uma na Rua do Cano, indo para o Campo à mão direita, partindo com os religiosos do Carmo; duas defronte da precedente, na Rua do Cano adiante do sargento-mor Luiz Vahia Teixeira de Miranda, partindo do lado do Campo com o padre Pedro Marques; ainda outra na mesma Rua do Cano pela rua arriba para o Campo, à mão esquerda, defronte das casas de Ventura da Fonseca, o armador.

Por esse mesmo tempo, Manuel Pinto Passos legou em testamento aos frades do Carmo um sobrado na Rua do Cano. Creio que essa propriedade pertence ainda hoje ao patrimônio dessa Ordem: é o sobrado de dois andares, em cujo pavimento térreo existe importante loja de louça, e faz esquina com a Rua da Quitanda. No canto existiu por muito tempo o conhecido oratório de Nossa Senhora do Bonsucesso.

Nos antigos livros de Tombo da Misericórdia encontrei, no primeiro quartel do século XVIII, propriedades dadas como fiança a esta instituição, situadas na rua chamada do Cano.

No livro 3º existe uma escritura de 1770, de uma casa na rua que vai para o Parto, esquina da rua chamada do Cano.

No Arquivo Público pode ser lida, no caderno de sesmarias, a concedida a Sebastião Soares Leitão, em 20 de outubro de 1706, pelo governador D. Fernando Martins Mascarenhas, em conformidade da lei de 22 de outubro de 1698. Constava a data de terras, de 30 braças na Rua do Cano, à mão direita indo para o Campo, com fundos correspondentes para a Rua da Cruz (hoje Moreira Cesar).

Não menos sugestivo é o alvará de sesmaria concedido ao licenciado padre Luiz Fernandes, em 1º de março de 1692, de 30 palmos de chão.

Eis em resumo o teor desse documento, lavrado no competente registo, liv. 3º, fl. 60:

“Luiz Cesar de Menezes, etc. Faço saber que por parte do licenciado padre Luiz Fernandes me foi dirigida uma petição, em que declarava ter e possuir umas casas com suas pertenças, que eram as em que morava e que a data delas era uma que se dera ao capitão Migue1 Barbosa, que consta do chão que se achar entre a data de Braz Cubas e a de Pedro da Costa, reservando delas trinta palmos para uma rua que se queria fazer e por que a dita rua se não fizera, antes estavam as referidas casas feitas em partes dos referidos chãos, nem era possível haver tal rua por sair a parte detrás do Carmo, por onde passa o CANO D’ÁGUA e por segurar algumas dívidas que me pedia lhe fizesse mercê de dar de sesmaria trinta palmos.

Visto se não fazer rua, nem poder ser, com a condição que querendo a Câmara fazê-la estaria a isso obrigada, etc.”

Esse requerimento foi favoravelmente despachado, satisfeitas as exigências da lei, sendo ouvidos o provedor da Fazenda e o procurador da Coroa, que a nada se opuseram.

Quando na governação de Aires de Saldanha e Albuquerque foi removido do Campo d’Ajuda, para junto da ladeira de Santo Antônio, o chafariz da Carioca, o Governo da Metrópole mandou construir um cano, que recebesse as sobras do chafariz e as levasse à praia. Esses fatos tiveram lugar, porém, de 1723 a 1727 e não explicam, à vista do exposto, a origem do nome que teve a atual Rua Sete de Setembro.

O primitivo lugar, em que as tripulações dos navios faziam provisão de água, era a embocadura do Rio Carioca, na hoje praia do Flamengo, antigamente conhecida pela praia da Aguada dos Marinheiros.

Tempos depois, abandonado esse local, a maruja escolheu para tal mister outra fonte colocada para as bandas de São Diogo, em terras pertencentes aos Jesuítas, onde foi outrora a residência do Arariboia e seus companheiros; local que até nossos dias conservou o nome de Bica dos Marinheiros.

Aumentada a população da cidade e o comércio, edificado o chafariz da Carioca, a Câmara representou ao rei a necessidade de ser derivada água dessa fonte pública e encaminhada para o largo do Carmo, onde para utilidade dos marítimos seria levantado novo chafariz. A Edilidade declarava não ter recursos para tal obra, e a Metrópole respondia (não haviam sido inventados os créditos suplementares): tivesse paciência e aguardasse melhores tempos. Tudo isso, porém, passava-se em 1735, e só muito mais tarde e após delongas, orçamentos, plantas e cálculos foi deliberado satisfazer os bons desejos do Senado. Demais, em 1747, como disse, foi começada a construção do respectivo encanamento, sendo o chafariz da praça primitivamente edificado, no meio dela, e inaugurado mais ou menos em 1752.

Para sair de tantos embaraços só encontro a seguinte explicação: no princípio, as ruas do Rio de Janeiro eram valadas, havendo pontes de madeira em determinados sítios. Grande parte dessas valas desapareceram, restando tão somente a grande, que corria em direção da hoje Rua de Uruguaiana, e uma menor, subsidiária da primeira, que em direção ao mar vinha pela atual Rua Sete de Setembro, atravessando terrenos do antigo Convento do Carmo. Esse pensar é corroborado pelo seguinte trecho do auto de correição de 4 de agosto de 1679: “requereram mais os ditos oficiais da Câmara, que era muito conveniente para esta cidade fazer-se um cano em a rua detrás do Carmo, que vá dar ao canto de Lucas do Couto continuando até a ponte de Dona Maria de Mello”.

Parece, pois, que o cano, a princípio descoberto, serviu de esgoto público às sobras da água da Carioca e para dar também passagem ao encanamento, cuja solidez pode ser atestada, por vários moradores da rua. Realizaram os antigos o rifão: “de uma cajadada matar dois coelhos”.

Foi ainda o conde de Resende quem fez importantes melhoramentos nessa rua, mandando calçá-la em abóbada, inutilizando a antiga valeta e mandando única e exclusivamente conservar o aqueduto, cujos tubos de ferro substituiu por outros de chumbo, encastoado em grossa camada de cal do Reino e azeite de baleia, tão dura como o granito.

Que isso lhe seja levado em conta de seus pecados.

5 de janeiro de 1904.

Fonte

  • Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. (t. 86, v. 140, 1919; t. 88, v. 142, 1920;t. 89, v. 143, 1921; t. 93, v. 147, 1923; t. 95, v. 149, 1924).

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