Rua da Misericórdia

RUA DA MISERICÓRDIA – À pequena distância da sede do governo da Capitania e da casa da Câmara, que ficavam no Alto da Sé, abriu-se depois de 1569 essa rua, que teve várias denominações: Rua Direita para a MisericórdiaRua para a Igreja do Bom Sucesso, conforme o autor do Santuário Mariano; Rua que vai de São José para a Misericórdia, em 1640 e, finalmente, Rua da Misericórdia.

“Foi a primeira rua do Rio – escreve Paulo Barreto. Dela partimos todos nós; nela passaram os vice-reis, os malandros, os gananciosos, os escravos nus, os senhores em redes; nela vicejou a imundície, nela desabotoou a flor da influência jesuítica… Dela brotou a cidade no antigo esplendor do Largo do Paço, dela decorreram, como de um corpo que sangra, os becos humildes e os coalhos de sangue, que são as praças ribeirinhas do mar. Mas soluço de espancado, primeiro esforço de uma porção de infelizes, ela continuou pelos séculos afora, sempre lamentável e tão angustiosa, franca e verdadeira na sua dor, que os patriotas lisonjeiros e os governos, ninguém, ninguém, se lembrou nunca de lhe tirar das esquinas aquela muda prece, – aquele grito de mendiga velha – Misericórdia!”

No Bairro da Misericórdia moravam nos tempos coloniais os mais importantes contratadores de produtos agrícolas e industriais; funcionavam os trapiches e conselho da Câmara, onde se reuniam os “homens bons”, e, aqui e ali, os armazéns e depósitos, com o cais do porto dos padres da Companhia, no qual carregavam e descarregavam mercadorias, com licença especial dos jesuítas.

Em 1806, determinou a vereança de 11 de junho prontas providências para o aterro dos charcos que “não davam passagem aos transeuntes que iam em caminho da Casa da Misericórdia”, achando os vereadores bem razoável a solicitação dos moradores da Rua Direita do Paço até à Misericórdia. Esta denominação, excepcionalmente citada em documento oficial, não a encontramos em papéis de outra natureza que temos consultado.

Dos becos coloniais que se comunicavam com a Rua da Misericórdia, cinco desapareceram com as obras da remodelação da cidade, restando em nossos dias os denominados do Cotovelo (hoje Vieira Fazenda), da Natividade, antigo da Torre; Dom Manuel, antigo Boa Morte até 29 de maio de 1871; Costa Velho – chamado do Guindaste até 1873, por haverem os jesuítas construído no local um aparelho para ascensão de materiais até o Morro do Castelo; da Fidalga – no qual se erguiam os prédios da nobre senhora D. Maria Antônia de Alencastro, que desabaram em abril de 1807 e o da Música, antiga travessa do Administrador.

Agripino Grieco, evocando numa de suas crônicas literárias os bequinhos do velho Rio de Janeiro, traça-nos colorida página, com o sabor de sua frase e através da qual ressurgem variados aspectos da cidade que guardamos ainda bem vivos na memória.

Fonte

Imagem destacada

  • Rua da Misericórdia no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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