Rua Detrás do Hospício

RUA DETRÁS DO HOSPÍCIO – A moderna Rua Buenos Aires foi aberta no segundo decênio do século seiscentista – provavelmente antes de 1624. Neste ano, Francisco Dias Alves e sua mulher venderam seis braças de chãos sitos na Rua Nova, que se abriu pela travessa de Antônio Martins de Palma (Candelária). Ainda no século XVII, cordeou-se grande trecho em direção ao campo da cidade[1], e foram construídas habitações, cercadas e muradas, não ultrapassando, porém, do caminho de Nossa Senhora da Conceição ou de Nossa Senhora do Parto para a Conceição.

Lentamente estendeu-se a edificação até à vala da cidade. No tempo do Conde da Cunha (1763-67) foi alinhada através de terrenos sesmeiros e da Ordem Terceira do Carmo, prolongando-se além da vala em direção ao Campo de Sant’Ana e absorvendo no trecho entre as atuais ruas Uruguaiana e Conceição terrenos particulares, desmembrados da antiga Chácara do Fogo, cujos posseiros são discriminados no tombamento municipal de Inocêncio da Rocha Maciel.

Em suas várias porções, teve os seguintes nomes: Rua da Portuguesa ou Margarida Soares, canto do Carrilho (entre a Rua da Candelária e o Beco das Cancelas), Sebastião Ferrão (tabelião Sebastião Ferrão Ferreira), personagem do O Garatuja, romance histórico de José de Alencar e talvez descendente de Miguel Ferrão, um dos primeiros tabeliães da cidade (denominação dada em 1681 a um dos pontos próximos à vala); Rua do Teixeira – segundo escritura de venda, em 1674, por 120$, de uma casa térrea, de pedra e cal, onde hoje se joga o truque, limitando com casas dos padres da Companhia de Jesus, escritura transcrita no O Economista Brasileiro (revista de Felisbelo Freire – n. 96 – 1909); Rua do Becão – da vala para o campo – em memória do cirurgião do Hospital da Misericórdia, Antônio Becão, que na provedoria do capitão-mor Inácio de Andrade Souto Maior fora, por negligência, privado daquele cargo, substituindo-lhe o cirurgião licenciado Antônio Carneiro. Aquela denominação aparece em documento de 1725, pelo qual D. Francisco de Brito Meireles (filha do antigo provedor da Santa Casa Francisco Antônio de Brito Meireles), fez doação ao pio instituto em 22 de julho de moradas de casas, que haviam pertencido a seu falecido marido Manuel Gomes Matos, na Rua do Becão. Chamou-se do Alecrim ou da vala do Alecrim, da Rua da Vala até o Campo de Sant’Ana. Fundado ao tempo do governador Aires de Saldanha, casa e hospital dos irmãos dissidentes da Ordem da Penitência, ali residiram dois frades missionários capuchinhos, italianos, nas edificações que davam fundos para a rua, que passou por este motivo a ser conhecida por Detrás do Hospício. A respeito deste nome encontram-se esclarecimentos no arquivo da Misericórdia e na notícia histórica da Ordem dos capuchinhos, escrita por frei José de Castrogiovanni, superior dessa comunidade religiosa. A partir de 1850 passou a ser conhecida simplesmente pelo nome de Rua do Hospício. A portaria do Ministério do Império, de 17 de julho de 1883, determinou que a Câmara Municipal informasse sobre a petição do vereador Dr. Fernando Francisco da Costa Ferraz, na qual recorria ao governo da resolução que mudava a denominação dessa rua para Desembargador Nunes Machado, em memória do Dr. Joaquim Nunes Machado, um dos chefes da revolução pernambucana de 1848.

Informando acerca daquela portaria, a comissão de justiça da Edilidade, constituída pelos vereadores Henrique Alves de Carvalho e Dr. Emilio da Fonseca, dizia em 19 de setembro do mesmo ano, serem improcedentes os fundamentos do recurso interposto pelo vereador Costa Ferraz, contra a mudança de nome da Rua do Hospício, pois, se fossem atendíveis, teriam prevalecido ao tempo em que foram mudados os nomes de outras ruas da cidade, e tudo provava o direito que tinha a Câmara em legislar a respeito. Apesar de todo o empenho manifestado pela Municipalidade, a mudança do nome não se efetuou, pois não mereceu o assentimento do governo imperial. Por determinação da Ilustríssima Câmara, de 14 de maio de 1888, passou a chamar-se Rua Costa Pereira, em honra do ministro conselheiro José Fernandes da Costa Pereira, do gabinete de 10 de março, que sancionou a lei extinguindo a escravidão no Brasil. Em 1890 foi submetida à deliberação da primeira Intendência Municipal, que dirigiu os negócios administrativos da cidade depois da proclamação da República, um abaixo assinado, pedindo que esse logradouro voltasse a ter a denominação de Rua do Hospício. Em sessão da Intendência, de 28 de janeiro de 1892, foi restaurada à antiga denominação de Rua do Hospício, confirmada pelo edital de 30 de abril do mesmo ano. O decreto executivo municipal n. 1.044, de 13 de novembro de 1915 alterou-lhe a nominação para – Buenos Aires, homenagem à culta e adiantada capital argentina.

Na revisão da nomenclatura dos logradouros públicos da cidade, em 1917, (decreto n. 1.165, de 31 de outubro) manteve a Prefeitura essa denominação.

Em 1869 pretendeu a Câmara alargar o trecho entre a Rua Uruguaiana e Andradas, desistindo de executar essa obra devido à escassez de recursos dos cofres municipais. Para o alargamento da Rua do Sacramento e da Rua do Hospício, entre a Rua da Conceição até àquele ponto, solicitou a Municipalidade à Recebedoria do Município da Corte informações sobre os valores locativos dos prédios ns. 222, 224 e 226, antigos.

Posteriormente, Carlos Maria da Mota Ribeiro de Resende, vindo ao encontro dos desejos do governo municipal, solicitou à Intendência Municipal, a 15 de julho de 1890, concessão para abrir um boulevard, abrangendo a Rua do Hospício, com a faculdade de desapropriar os prédios que fossem julgados imprescindíveis à execução dessa obra. Informando a respeito dessa pretensão, o diretor das obras municipais, engenheiro militar Cornélio Carneiro de Barros Azevedo, achou aceitável o projeto, mas ponderou que o proponente se esquecera de elaborar os estudos técnicos necessários. No mesmo ano de 1890, na época febril de grandes projetos e sonhos do Encilhamento, Joaquim José de Oliveira Sampaio se propusera a transformar radicalmente o estreito logradouro, dando-lhe a largura de 18,00m – desde a Rua Primeiro de Março até à Praça da República. Nenhum desses projetos foi convertido em lei.

Na administração do Dr. [[Prefeito do Distrito Federal (Rio de Janeiro)::Cândido Barata Ribeiro|Barata Ribeiro], em 1892, sancionada a lei de recuo de prédios que se construíssem, iniciou-se, em pequena escala, o alargamento do logradouro, que teve continuidade, mas muito vagarosamente nos anos subsequentes, até que, em fevereiro de 1913, ultimou-se o alargamento num pequeno trecho, entre as ruas Primeiro de Março e Candelária. O decreto n. 1.197, de 7 de março de 1918, desapropriou pequeno grupo de prédios, ainda necessários à execução do projetado alargamento, entre a Rua da Candelária e a Avenida Rio Branco, que restavam para o total alargamento.

Dois anos depois, o prefeito Dr. Carlos César de Oliveira Sampaio, tendo em vista o intenso tráfego de veículos da zona central da cidade para os bairros, que se estendem na direção Leste-Oeste, sancionou o decreto n. 1.457, de 25 de agosto de 1920, aprovando o plano de uma avenida, que partindo da Avenida Rio Branco, entre a Rua do Hospício, já alargada em toda extensão – e a estreita Rua da Alfândega, fosse terminar na Praça da República, desapropriando, para esse fim, prédios e terrenos indispensáveis.

Nota do editor

  1. Chamava-se Campo da Cidade toda a vasta superfície compreendida entre o antigo fosso (Rua da Vala) e os mangues de São Diogo (hoje Cidade Nova). Ainda em 1711 toda esta imensa área era assim designada nas memórias que relatam a tomada da Cidade pelos franceses, apesar de se achar já por esse tempo retalhada e edificada em muitos lugares por diferentes chácaras. (Haddock Lobo, Tombo das Terras Municipais, pág. 10, 1863)

Fonte

Imagem destacada

  • Rua do Hospício no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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