Rua do Sabão

RUA DO SABÃO – Antes do terceiro decênio do século XVII já estava aberto um caminho que se chamou de Gonçalo Gonçalves – cujo nome regista o livro Primeiro de “Ordens e Provisões”, das coleções do Arquivo Municipal – como possuidor de terras entre as marinhas e o campo da cidade[1].

Durante muito tempo não ultrapassou esse caminho da Rua da Candelária. À medida que se aterraram os charcos que se estendiam pela região, prolongaram-no e deram-lhe várias denominações, como a indicar os mais importantes moradores e proprietários.

Através de provisões, autos de correições dos ouvintes e de vereanças (impressos por iniciativa do Dr. Mario Aristides Freire, quando diretor da repartição de Estatística e Arquivo da Prefeitura), podem ser reconstituídos alguns aspectos topológicos dos primeiros tempos do Rio de Janeiro.

Cruzeiro da Candelária ou rua que vai para o Cruzeiro da Candelária – é a crisma que se lê na escritura de 12 de março de 1630, relativa à doação feita por Beatriz Gonçalves, viúva de Manuel Fernandes Lessa e na qual dava, por amor de Deus, ao Hospital da Santa Casa da Misericórdia, um lanço de casas térreas. Pouco depois, Gonçalo Gonçalves – “o moço”, transpassava à pia instituição, em 4 de julho de 1639, uma morada de casas no mesmo local. A Capela da Candelária estava então situada com frente para a Rua do Cruzeiro. Chamou-se rua ou travessa do Azeite de Peixe, por ter existido até 1668 em seu trecho inicial o depósito de azeite para iluminação domiciliar, transferido para o bairro de São José.

Canto do Roxas foi a nominação dada à esquina da Rua da Quitanda. Ali residiu o médico João de Azevedo Roxas, contratado pelo provedor da Misericórdia, Manuel Veloso Espínola, com o estipêndio anual de 36$, para servir de físico-mor.

Rua do Sabão é o nome adotado a partir de 1737 para um dos trechos do logradouro, onde se haviam localizado os armazéns daquele produto industrial. Naquele ano dependiam esses armazéns do contratante escolhido pelas autoridades da metrópole. Um dos apaniguados da corte ficara com o privilégio do fabrico de sabão para todo o Brasil. É o que se lê em nota a página 438 do O Brasil na História, de Manuel Bonfim.

Da Rua dos Ourives até o Largo São Domingos, chamaram-na – Bom Jesus, em homenagem à irmandade do Senhor Bom Jesus do Calvário cuja igreja se levantara no canto da Rua da Vala.

De São Domingos para o campo, teve o nome de Rua dos Escrivães por ser durante largo espaço de tempo o trecho preferido para o funcionamento dos cartórios de tabeliães.

Do lado da numeração ímpar – desde o Largo São Domingos até o Campo de Sant’Ana, prolongou-se através de sobras de quintais e fundos de terrenos baldios da Rua da Alfândega. Entre o Largo São Domingos e o local onde se levantou o asilo de caridade, da Ordem da Conceição, estendia-se o cemitério da irmandade daquele orago.

Por deliberação da Ilma. Câmara Municipal estabeleceu-se em 1840 que a rua deveria ter em toda a sua extensão um só nome – Sabão – da Cidade Velha, para diferençar do prolongamento em direção à Cidade Nova, que se chamava – Sabão da Cidade Nova. Confirmou a deliberação de 1840, a resolução municipal de 24 de outubro de 1843, mantendo aquela crisma. Retificou-se por este motivo a numeração do logradouro, que ficou independente do outro – a atual Rua Visconde de Itaúna.

Em 1855, por meio de um abaixo assinado, solicitaram os moradores que a Municipalidade desse o nome de Rua da Alfândega à do Sabão, passando aquela a se chamar – Mãe dos Homens. Alegavam achar-se a porta principal da repartição aduaneira bem em frente à Rua do Sabão, depois das obras de reconstrução do edifício [2]. Além disso, a Rua da Alfândega, devido à construção do prédio destinado à Associação Comercial, entre a Rua Direita e a que mais tarde se chamou Visconde de Itaboraí, não começava junto ao mar, como antes se verificava, e sim na Rua Direita. O pedido dos moradores nem chegou a ser objeto de deliberação dos edis de 1855, morrendo no nascedouro…

Em sessão da Ilma. Câmara, de 18 de março de 1870, os vereadores Drs. Antônio Ferreira Viana, Manuel Joaquim Fernandes Eiras, Evaristo Xavier da Veiga e Manuel Dias da Cruz propuseram a mudança da denominação da rua para – General Câmara – em homenagem ao brigadeiro Antônio Corrêa da Câmara – o vencedor de Aquidaban, em 1 daquele mês e ano, episódio que pôs termo à guerra do Paraguai. Aprovada na mesma data semelhante proposta, homologou-a a portaria do Ministério do Império, de 2 de abril de 1870.

A Travessa do Bom Jesus, aberta ao lado do hospital, em 1852, pela Ordem Terceira do Senhor Bom Jesus do Calvário e Via Sacra, segundo o termo de 12 de fevereiro desse ano, continuou a ter a mesma denominação, figurando até 1943 com a crisma que lhe deram no século XIX.

Projetos de melhoramentos e calçamentos – É de 1802 o mais antigo documento que coligimos a respeito de projetos de melhoramentos. Determinava que se fizesse o conserto de um cano que se dirigia para a vala da cidade. A vereança de 30 de setembro de 1809, acordou na arrematação da calçada da Rua do Sabão – desde a travessa do Oratório de Pedra até às casas do Conde de Linhares, incumbindo da obra João Inácio de Faria, que a executaria a 4$500 por braça quadrada. Esse calçamento se reconstruiu em 1815, sob a direção do mestre pedreiro do Senado da Câmara, Custódio Francisco da Silva. Idênticos consertos se fizeram em 1819, 1823, 1829 e 1835. Neste último ano alegavam os moradores que a rua estava esburacada, apesar de frequentada por pessoas mui respeitáveis e já possuir 23 lampiões de iluminação pública. Novas obras se executaram em 1842, para facilitar o tráfego de veículos, e em 1846, sob o orçamento de 1:560$, no espaço de 260 braças quadradas, interrompendo-se, porém, os trabalhos de 1847 a 1850. Em 1851, João Batista Bastos de Sá restaurou o trecho de calçamento que restava, cobrando 4$800 por braça quadrada. Novo orçamento foi organizado em 1853, na importância de 5:256$ , lavrando-se dois anos depois contrato com William & C., sob os auspícios do governo imperial. Já em 1860 estava toda a extensão da rua calçada a paralelepípedos, procedendo-se a restauração do novo sistema de pavimentação em 1874 e 1878.

A 9 de janeiro de 1881, aprovou a Câmara Municipal a proposta escrita por todos os vereadores para o alargamento da Rua General Câmara, além do edifício da Praça do Comércio, com as desapropriações de prédios necessários a esse empreendimento. Noutro trecho do logradouro, o decreto legislativo municipal, n. 6 de 16 de janeiro de 1893, providenciou sobre a desapropriação de prédios entre as ruas General Câmara, São Pedro e Núncio e a Praça da República, e mandou abrir concorrência para o acréscimo do paço municipal. Calçou-se em 1894 o trecho entre a Rua Primeiro de Março e Candelária, por sistema de pavimentação aperfeiçoado, dispendendo-se a soma de 10:961$379.

Para alargamento do trecho final, entre o Largo São Domingos e a Praça da República, aprovou o prefeito Pereira Passos os planos que haviam sido elaborados pelo engenheiro Alfredo Américo de Souza Rangel (decreto n. 475, de 18 de março de 1904). Em 1907, foi aberto um crédito de 55:396$ para calçar a asfalto os trechos das ruas São Pedro (596m2}, Núncio (828m2} e General Câmara (828m2}, que circundam o edifício da Prefeitura. Em 1930, o espaço entre a Avenida Passos e a Praça da República apresentava-se mais largo do que o resto da rua, existindo, porém, três ou quatro prédios fora do novo alinhamento, nas proximidades da Rua do Regente e da Avenida Passos.

Expansão predial – Desde o século décimo sétimo que se construíram prédios de sobrado, habitados por homens de haveres e distinção social, tais como João de Azeredo Roxas (na esquina da Rua da Quitanda – onde no pavimento térreo estabeleceu-se uma botica); Amaro da Silva (na casa adquirida a 24 de maio de 1755 por 600$ e penhorada em 1772) e Domingos Pereira Matoso (defronte do tabuado de São Bento, em 1792), além de outros.

Em 1808, o lançamento da décima urbana coletou 354 prédios – do lado direito 162 e do lado esquerdo 192. Era então o logradouro que possuía maior número de imóveis, achando-se relativamente bem valorizadas as propriedades ali existentes. Em 6 de setembro de 1815, o Dr. José de Oliveira Fagundes, notável advogado e sua mulher, venderam por 2:800$ a quinta parte de uma morada de casas de sobrado a Manuel Pereira Terra. No ano seguinte, João Teixeira e José Rodrigues negociavam em novembro a venda de casas que possuíam, o primeiro por 1:000$ e o segundo por 1:800$ (Sisa de prédios, terrenos e escravos – 1815-1817 – Arquivo Municipal).

Entre os numerosos prédios térreos situados próximos à Rua da Vala, havia ainda em 1825, uma correnteza de habitações chamadas dos pobres, contiguas à capelinha de Nossa Senhora da Conceição, pertencentes a Damião Pereira da Costa e Antônio dos Santos Coelho, que as alugavam por 6$ e 8$, mensalmente.

Do livro de receita e despesa da Municipalidade, relativo aos anos de 1830-31, consta haver Manuel Caetano Pinto, abastado negociante, vendido de abril a agosto de 1830, quatorze casas, sendo doze térreas, por 3:000$, cada uma, e duas de sobrado, por 1:800$000.

Na extensão de 765 braças, registou em 1828 o pastor protestante R. Walsh em seu livro Notices of Brazil [3], 619 prédios. Em 1877, a Nova Numeração da Cidade, de Curvelo Cavalcanti, inseriu os seguintes informes: para um total de 356 imóveis, eram térreos 197, de sobrado e assobradados 159 (sendo 5 de três pavimentos). O recenseamento municipal de 20 de setembro de 1906 coletou 285 prédios, dos quais eram térreos 59, de dois pavimentos 153, de três 69 e de quatro pavimentos, 4, tendo um total de 2.644 habitantes. Por ocasião da abertura da Avenida Central, haviam sido demolidos os prédios de sobrado, de numeração antiga 41 a 63 e 44 a 66. Posteriormente, para o alargamento da Rua Uruguaiana desapareceram sete prédios de numeração antiga 135 a 141 e 184 a 188. Ascendia em 1920 o número de prédios recenseados a 292, com esta discriminação: de um pavimento, 28; de dois, 193; de três 66; de quatro, 4 e de cinco 1. O arrolamento predial procedido em 1933 pelo Departamento de Estatística Federal coligiu os seguintes dados: número total de prédios – 283, de um pavimento 5; de dois, 198; de três, 66; de quatro, 8; de cinco, 5; e de mais de cinco pavimentos 1.

A história pormenorizada dessa rua, prestes a desaparecer, do seu comércio e dos fatos de maior relevo social ali ocorridos, não cabem nas páginas destas anotações, sendo-nos permitido, todavia, registar duas evocações do velho Rio de Janeiro: Durante muitos anos funcionou, num dos prédios demolidos para o alargamento da Rua Uruguaiana, o célebre restaurante G. Lobo ou o Globo dos pobretões, frequentadíssimo pela boemia literária e artística de 1892 a 1910. Já propriedade de José Gomes Valente, mudou-se o antigo restaurante G. Lobo para a Rua do Hospício n. 137.

No prédio n. 345, entre a Rua do Regente e do Núncio, esteve instalada a conhecida e popular livraria do Martins – de João Martins Ribeiro – o decano dos livreiros e alfarrabistas da cidade e sabedor profundo de assuntos bibliográficos, falecido a 24 de abril de 1926.

A abertura da Avenida Getúlio Vargas, projetada em março de 1941, fará desaparecer a Rua General Câmara. Em 1943 já estavam demolidos quase todos os prédios do lado da numeração par.

Notas do Editor

  1. Chamava-se Campo da Cidade toda a vasta superfície compreendida entre o antigo fosso (Rua da Vala) e os mangues de São Diogo (hoje Cidade Nova). Ainda em 1711 toda esta imensa área era assim designada nas memórias que relatam a tomada da Cidade pelos franceses, apesar de se achar já por esse tempo retalhada e edificada em muitos lugares por diferentes chácaras. (Haddock Lobo, Tombo das Terras Municipais, pág. 10, 1863)
  2. Em 1752, o Conselho Ultramarino autorizou a construção da nova alfândega (hoje Casa França-Brasil, depois de ter sido, por muitos anos, a sede do Tribunal do Júri). Fonte: Memória da Receita Federal – Alfândegas.
  3. WALSH, R. (Robert), 1772-1852 – Notices of Brazil in 1828 and 1829 – London, F. Westley and A. H. Davis – 1830

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