Rua São Pedro da Cidade Nova

RUA SÃO PEDRO DA CIDADE NOVA – Em fins século XVIII, Luiz da Rocha Machado fizera doação ao Senado da Câmara de chãos no caminho projetado, em frente à Rua São Pedro e a partir do Campo de Sant’Ana. Um documento de 26 de julho de 1799 faz referência ao plano de abertura de ruas naquelas terras, serpeadas de valas e canais. Em 1806 resolveu a Municipalidade mandar cordear definitivamente a nova via de comunicação para os mangais de São Diogo, denominando-se na linguagem do povo – caminho que vai para os mangues de São Diogo.

Com a chegada da família real, em 1808, os antigos mangues começaram a receber benefícios da administração pública, aterrando-se numa porção regular os pântanos que impediam o tráfego das carruagens da corte. Levantou-se forte estacaria destinada a conter a invasão das águas na estrada, por onde deveria transitar o príncipe regente. Para evitar possíveis desastres à noite, resolveu a Intendência de Polícia colocar lanternas pregadas em colunas de pedra, que, alimentadas por azeite de peixe, iluminavam a estrada, salvaguardando assim a vida do príncipe e de outras pessoas da corte, quando regressassem ao Paço de São Cristóvão, depois do anoitecer. Daí a denominação de – caminho das lanternas, pela qual ficou conhecida durante algum tempo. Sem nivelamento e frequentemente inundado pelas enxurradas de São Diogo, tornou-se de difícil trânsito o caminho e, mais do que o bonacheirão D. João, disso se queixavam os toma-larguras [1], afortunados serviçais da corte, que à custa de vexatórias extorsões e aposentadorias gozavam vida folgada.

Em 1815 os aterros já proporcionavam à fazenda real escolher local junto à rua então chamada do Aterrado ou Nova de São Pedro da Cidade Nova para instalação de armazéns. Considerando-a prolongamento da antiga Rua de São Pedro da Cidade Velha, Eduardo Teodoro Boesche [2], célebre aventureiro alemão, engajado em 1824 em nosso exército, escrevia em seus Quadros Alternados, que o Aterrado, muito reto, partia em direção a São Cristóvão e era tão extenso que se levava uma hora em percorrê-lo.

Restier Gonçalves em Índices e Extratos de Aforamentos (fasc. I – pág. 77) regista que, ainda em 1824, estava o logradouro sujeito a inundações do mangue e de forma a facilitar a navegação de canoas e a apanha de peixes.

Praça 11 de Junho vendo-se a Escola Benjamim Constant, de Augusto Malta, via Biblioteca Nacional

Nivelada em 1831, do rossio pequeno à bica dos marinheiros, contava então um grupo de prédios até pouco além da Rua Bom Jardim (Visconde de Sapucaí). Os sucessivos aterros de brejos justificavam plenamente a denominação de Aterrado dada à rua que, a partir de 1833, teve melhoramentos mais eficientes, notadamente em 1837 e 38. As valas abertas desde 1831, por ocasião das célebres febres de Macacu e a construção e reconstrução de pontes de madeira e de pedra, em 1832, 1839, 1844 e 1845, inauguradas, a primeira em 14 de janeiro e a terceira, em 26 de abril, daqueles anos, muito concorreram para tornar menos insalubre esse trecho da Cidade Nova e ativar, de certo modo, o tráfico comercial com o Bairro de São Cristóvão e a Praia Formosa, onde o francês José Francisco Derémusson abrira um caminho para seges, ligando o seu curtume com a Rua do Aterrado.

Por deliberação da Câmara Municipal, de 18 de novembro de 1869, aprovada por portaria do Ministério do Império de 29 do mesmo mês e ano, teve o nome de Senador Euzébio – significativo preito prestado à memória do conselheiro Euzébio de Queiroz Coutinho Matoso Câmara, nascido a 27 de dezembro de 1812 e falecido a 7 de maio de 1868.

Em 1873, João Batista Viana de Drumond projetara abrir uma grande avenida até o bairro de Vila Isabel – desde a ponte que a Companhia de carris estava a construir no Aterrado. Dez anos depois, o engenheiro Paula Freitas, no Saneamento da Cidade, sugeria igual providência, como necessária ao tráfego de veículos do centro comercial para os novos arrabaldes, que se desenvolviam entre o Andaraí e o Engenho Velho. Data de 1884 a reforma do seu calçamento, por iniciativa do engenheiro Ernesto da Cunha Araújo Viana. Pelo decreto n. 995, de 26 de maio de 1914, desapropriaram-se prédios para o seu alargamento, consoante projeto aprovado a 7 de janeiro de 1907, na administração do prefeito general Francisco Marcelino de Souza Aguiar. Na administração do engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin, inaugurou-se a 22 de julho de 1919, esse importante melhoramento, oferecendo o logradouro, desde a Praça da República, excelente perspectiva. Nesse ano o valor venal dos terrenos adquiridos, era de 1:700$ a 2:500$ por metro quadrado, subindo em 1923 de 2:000$ a 3:400$, por metro de testada – o que comprova a valorização trazida pelo alargamento da rua. O prefeito Alaor Prata determinou em 1923 o replantio sistemático da arborização ao lado do Canal do Mangue.

De conformidade com o plano de urbanização da cidade, discriminado em março de 1941 pelo prefeito Dr. Henrique de Toledo Dodsworth, foram desapropriados para a Avenida Getúlio Vargas todos os prédios da Praça da República ao princípio do Canal do Mangue inclusive a Escola Municipal Benjamin Constant. A 10 de novembro daquele ano, estavam ultimadas as demolições do lado da numeração impar, quando se inaugurou o trecho acima referido, formando essa rua e a do Visconde de Itaúna, um largo espaço, à espera de nivelamento do terreno e obras complementares.

Notas do Editor

  1. Anderson, em sua Historia do Brazil, cita, a esse respeito, exemplos curiosos. “Os cortesãos do Paço – diz o autor – são apelidados pelos brasileiros de toma-larguras para significar que essas personagens tomam toda a largura das ruas e não fazem cerimônias para atropelar o povo ou atirar o seu carro de encontro à carruagem, liteira ou cavalo de qualquer plebeu que encontrem no seu caminho.” Fonte: Impressões do Brazil no Século Vinte, por Arnold Wright.
  2. Eduardo Teodoro Boesche viveu alguns anos no Brasil, como soldado do terceiro Batalhão de Granadeiros, composto por alemães, aquartelado na Praia Vermelha – Rio de Janeiro. Ao retornar à sua pátria publicou um livro de memórias no qual ridicularizava, de forma irritante, os brasileiros e as suas coisas. A frase histórica, e mais contundente, dizia o seguinte: “tudo o que a natureza fez no Brasil é bonito e admirável; tudo o que o homem fez não vale nada”. Fonte: Caros Ouvintes

Fonte

Imagem destacada

  • Rua São Pedro da Cidade Nova no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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