Casa da Ópera

O Rio de Janeiro conheceu o seu primeiro teatro no ano de 1767, e isso mesmo devido a iniciativa particular. A cidade já fora elevada à categoria de Capital do Brasil (desde 27 de janeiro de 1763); a sede do Governo, transferida de Salvador, já aqui se instalara; o Conde da Cunha, nomeado vice-rei, já tomara posse do cargo; mas nenhuma providência iniciara a alta administração pública no sentido de oferecer ao povo qualquer distração. Dir-se-ia que a única incumbência que trazia o Vice-Rei era a de ativar ao máximo o trabalho na Colônia, para aumentar, mais e mais, a fortuna da metrópole. O povo nascido na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro não tinha, nem podia ter, uma ideia perfeita do que fosse a arte de representar; conhecia, tão somente, os autos religiosos, declamados, geralmente, em salões particulares ou em adros de igrejas, presenciados com curiosidade, mas nem sempre convenientemente compreendidos, dada a incipiente cultura de então. Em frente às igrejas de Santo Inácio, no Morro do Castelo, e da Misericórdia, na base do morro – e que ainda existe no esplendor de sua simplicidade – muitos desses espetáculos foram apresentados ao público em noites inesquecíveis. Mas teatro, propriamente dito, nunca fora visto na capital.

Quando surgiu a Casa da Ópera, “no caminho que vai para a pedreira”[1], o povo exultou. Ia ver no palco figuras reais movimentando-se, vivendo dramas ou comédias! E tão admirado ficou o povo que, logo depois das primeiras funções, apelidou o teatro de Ópera dos Vivos, querendo fazer notar a diferença entre ele e os espetáculos de fantoches, na ocasião em voga no Rio de Janeiro, armados em guignols ambulantes em vários bairros cariocas (então fluminenses). No teatro de verdade – diziam – era gente mesmo que cantava e falava, e não bonecos animados, cuja voz que se ouvia não era deles.

Segundo Velho da Silva, em sua preciosa obra Crônicas dos Tempos Coloniais, “as pessoas que tiveram a ventura de ir à Casa da Ópera, ficaram atônitas, sem compreender como aquilo tudo se fazia. As mutações à vista, a rapidez com que caía o pano, a colocação dos bastidores, a entrada e saída dos comediantes, os trajes, os diálogos, tudo parecia sobre-humano, era tudo um conto de fadas”.

O teatro, cujo fundador e principal entusiasta era um padre chamado Ventura, funcionava num prédio levantado especialmente para cumprir a sua finalidade. Situava-se, como já se disse, no “caminho que vai para a pedreira”, nas proximidades do Largo do Capim, logradouro este desaparecido em 1943 com a abertura da Avenida Presidente Vargas. Não era, por certo, uma sala de grandes dimensões, mas satisfazia plenamente a necessidade do momento. Representaram-se ali muitas peças, notadamente de autoria de Antônio José, cujo nome era o grande cartaz na ocasião.

O Padre Ventura, segundo as crônicas da época, era de cor parda, muito alegre, inteligência viva. Nunca tomou parte nos dramas ou comédias como ator; todavia, durante os espetáculos de variedades que se realizavam no seu teatro, muitas vezes subiu ele ao palco para dançar lundus e cantar fados.

A Casa da Ópera teve curta duração. Cerca de dois anos depois de inaugurada foi presa de violento incêndio e completamente destruída. Em poucos instantes o teatro do Padre Ventura era um monte de escombros e cinzas.

Acabou, assim, a primeira casa de espetáculos, com características de teatro, que teve o Rio de Janeiro…

Nota do editor

  1. A pedreira era o Morro da Conceição. O caminho passou a ser, mais tarde, Rua do Fogo, por se haver instalado nela uma fábrica de fogos de artifício. Atualmente é Rua dos Andradas, em homenagem aos irmãos José Bonifácio, Antônio Carlos e Martim Francisco.

Fonte

  • Ferreira, Augusto Maurício de Queiroz. Meu Velho Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1966. 218 p. (Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 10).

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Livro digitalizado

Imagem destacada

  • Planta da cidade de S. Sebastiaô do Rio de Janeiro, via NYPL. (Largo do Capim)

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