Manuel Luís

Somente cerca de sete anos depois de ter sido consumido pelo fogo o teatro do Padre Ventura é que o Rio de Janeiro teve a sua segunda casa de espetáculos, também, como a outra, de propriedade privada. Esse acontecimento ocorreu em 1776, já no governo do Vice-Rei Marquês de Lavradio (D. Luís de Almeida Portugal Soares d’Eça Alarcão Melo e Silva Mascarenhas, 4.º Conde de Avintes e 2.º Marquês de Lavradio).

Naquele tempo, ao que parece, não se cuidava de dar título às casas de diversões públicas. O teatro do Padre Ventura era Casa da Ópera, porque nela se representavam, além de peças teatrais, números variados de música e canto; o segundo teatro também era Casa da Ópera, e, para distinguir do primeiro, o povo acrescentava “de Manuel Luís”, nome do seu fundador.

O prédio, adrede construído para espetáculos do gênero, estava situado em terreno da então Praça do Carmo[1], com a frente voltada para o Palácio dos Vice-Reis, edifício em que hoje está instalado o Departamento dos Correios e Telégrafos Paço Imperial. Seu proprietário, que se chamava Manuel Luís Ferreira, e que em Portugal fora barbeiro, dançarino e tocador de fagote, aqui atingiu o posto de tenente-coronel do Regimento dos Pardos, e era figura de projeção na sociedade e amigo pessoal do Vice-Rei, que muitas vezes lhe honrou as récitas de arte com a sua presença. Esse fato muito influiu, por certo, para o sucesso que o seu teatro alcançou, desde a inauguração até o fechamento de suas portas.

O Rio de Janeiro, naquele recuado tempo (1776), embora capital do Brasil, era um simulacro de cidade, pontilhada de mangues infectos, cortada de ruas estreitas e tortuosas, quase todas sem calçamento; o logradouro de maior amplitude, ou de cunho menos atrasado, era mesmo a Praça do Carmo, por estar nela a residência do Governador. Ainda assim, nenhum conforto maior oferecia. E à noite, terminada a função no Teatro de Manuel Luís, os espectadores acendiam as lanternas que traziam, para com elas iluminarem o caminho de volta a casa, pois não havia sido ainda instalada luz nas ruas. Era, contudo, pitoresco verem-se os transeuntes munidos de focos luminosos, como grandes pirilampos, a andarem pelas vielas escuras e malcheirosas da capital da Colônia, saltando poças de água, desviando-se de latas de lixo…

A plateia do teatro era espaçosa e arejada; à sua volta, duas ordens de camarotes, que se estendiam até a boca de cena. À direita, a tribuna do Vice-Rei, ornamentada com cortinas de damasco e ouro, destacando-se, no alto, as armas heráldicas da Casa de Bragança. Pendentes do teto, lustres de cristal. O palco era pequeno; em compensação, apresentava um magnífico pano de boca, obra do pintor patrício Leandro Joaquim, autor de painéis maravilhosos que ainda hoje podem ser apreciados em vários templos do Rio de Janeiro.

Era o ensaiador do teatro, no tempo de Lavradio, o ator Silva Alvarenga, de tão reconhecida competência que todos os colegas lhe acatavam os ensinamentos.

Curiosos e grotescos certos apodos de artistas que integravam o elenco de Manuel Luís: José Inácio da Costa, conhecido por “Capacho”, Joaquina Maria da Conceição, a “Lapinha”; Maria Jacinta, a “Marucas”; e outros ainda, tão engraçados!

Segundo Mucio da Paixão, a “Lapinha” alcançou tão alta fama que foi levada a Lisboa para trabalhar no Teatro São Carlos.

Um fato singular ocorria no teatro: era vedado a qualquer estrangeiro assistir aos espetáculos. Segundo Joaquim Norberto, citado no livro de Mucio da Paixão, “Parny”, o elegante poeta francês que esteve de passagem pelo Rio de Janeiro em setembro de 1779, afirmara não ter podido satisfazer a curiosidade de conhecer a Ópera do Rio de Janeiro, “porquanto o Vice-Rei não quis nunca permitir aí a entrada de estrangeiros”. O alcance dessa estapafúrdia proibição – se é que havia – nunca ninguém o pôde compreender.

O teatro viveu muitas noites gloriosas, de grandes festas, e muitos artistas de brilho pisaram sua ribalta, e ali receberam o aplauso entusiástico e confortante do público fluminense.

Durou a Casa da Ópera de Manuel Luís pouco mais de trinta anos, quase sempre em pleno funcionamento.

No dia 7 de março de 1808 aqui chegava a família real de Bragança, que deixara Lisboa em virtude da invasão do Reino pelo exército de Napoleão. O séquito que trazia – fidalgos, fidalgotes, nobres de todos os matizes, agregados de sangue azul ou quase, etc. – era numerosíssimo: mais de quinze mil pessoas desceram no cais da Praça do Carmo para residir numa cidade sem conforto e de precárias condições de higiene. Eram eles, porém, os donos da terra, e por isso aqui haviam de ser bem recebidos. Começaram, então, os despejos, as desapropriações e os esbulhos, para a acolhida dos que chegavam.

E em 1810 coube ao Teatro de Manuel Luís cessar as suas funções, porque o prédio fora, como tantos outros, requisitado para residência de funcionários do Paço Real de Sua Alteza Sereníssima o Príncipe Regente D. João, que mais tarde, por morte da Rainha D. Maria I, em 1816, se tornaria o muito alto Senhor D. João VI, por graça de Deus Rei de Portugal, Brasil e Algarves, daquém e d’além-mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da índia…

Nota do editor

  1. Denominava-se Praça do Carmo, porque nela se achava o Convento dos Carmelitas. Teve, depois, vários nomes – Terreiro da Polé, Largo do Paço, Praça Pedro II – e hoje é Praça 15 de Novembro.

Fonte

  • Ferreira, Augusto Maurício de Queiroz. Meu Velho Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1966. 218 p. (Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 10).

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  • IHGB – Atlas da Evolução Urbana da Cidade do Rio de Janeiro – A Cidade do Rio de Janeiro nos princípios do Século XIX – Baseada na Planta Régia de 1808/1812.

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