Praça Tiradentes

Até os últimos anos do século XVIII, o centro propriamente urbano do Rio de Janeiro limitava-se na Vala (atual Rua Uruguaiana). Daí para o interior, a zona era considerada fora da cidade, sertão, terreno baldio, ora subindo pelas encostas dos morros, ora mergulhando aqui e ali, em pestíferos alagadiços. Essa vasta extensão de terra ainda inaproveitada denominava-se Campo de São Domingos – desde que se erigiu ali a igreja dedicada a esse santo [1], no princípio daquele século.

Com o correr do tempo, foram surgindo ali casas residenciais, as ruas passavam a obedecer a um traçado certo, apareceram novas igrejas, repartições do Governo; enfim a zona abandonada se ia povoando e estendendo, desbravando-se vitoriosamente o sertão. O Rio de Janeiro desabrochava, progredia, tomava, afinal, aspecto solene e digno de capital, que o era desde 27 de janeiro de 1763.

O logradouro hoje denominado Praça da Independência era “Rossio Grande”; servia então para acampamento de soldados, que nele executavam suas manobras militares e exercitavam o tiro de artilharia, visando alvos colocados na barreira do morro de Santo Antônio.

Em 1791 o Rossio Grande foi demarcado e aterraram-se os pauis que tornavam insalubre o local. Levantadas as primeiras habitações, ficou ao centro o espaço retangular que recebeu do povo o nome de Campo dos Ciganos.

No ano de 1810 Fernando José de Almeida iniciava no Rossio, esquina da Rua do Erário, a construção de um grande teatro, digno dos foros de civilização da cidade. Desde 1808 achava-se no Rio de Janeiro a Corte portuguesa, que deixara Lisboa por motivo da guerra de Napoleão.

Aumentada a população da cidade de cerca de 15.000 pessoas – de quanto se compunha a comitiva real… – um teatro de grandes proporções era imprescindível para divertimento, tanto mais quanto na ocasião não contava o Rio de Janeiro com um só. O que havia, o de Manuel Luís, na Praça do Carmo, fora transformado em residência de funcionários da Corte.

Praça Dom Pedro I em 1862, por Castro y Ordóñez, Rafael, (1834-1865), via Biblioteca Digital Mundial (WDL)

Desejando Fernando José de Almeida homenagear o Príncipe Regente, denominou o teatro de São João, para isso tendo solicitado permissão ao soberano, que logo assinou decreto, consentindo. Três anos depois, a 12 de outubro de 1813 (aniversário de Dom Pedro, príncipe herdeiro), foi o teatro inaugurado solenemente, com a peça O Juramento dos Nunes, enredo de Gastão Fausto da Câmara e música de Marcos Portugal. Dom João e toda a família real compareceram ao grande espetáculo.

Esse teatro, que teve sucessivamente os títulos de Dom Pedro de Alcântara, Constitucional Fluminense, São Pedro de Alcântara e São Pedro, é o atual João Caetano.

Diversos episódios históricos se registraram no Teatro São João.

A 25 de fevereiro de 1821 – já os franceses haviam deixado Portugal e o país estava entregue a uma regência – correu pela cidade o boato de que Dom João VI (rei desde 1816) se recusava a confirmar a decisão das Cortes que organizaram a Carta Constitucional. Pelas ruas do Rio de Janeiro o povo se agrupava, e manifestações de desagrado explodiam a cada instante. Urgia esclarecer a situação: Dom Pedro tomou a iniciativa, e a 26, pela manhã, apareceu no Rossio para desmentir a notícia. Era tudo boato. E da varanda do Teatro São João, entre aclamações do povo, leu o decreto real, datado de 24 de fevereiro, pelo qual Dom João VI garantia a sanção à Carta Magna e a sua adoção em todo o Reino.

Tornando Dom João a Portugal, em abril de 1826, o teatro voltou a ser cenário de manifestações que passaram à História. A 15 de setembro de 1822, após a gloriosa jornada de 7, que deu a independência ao Brasil, Dom Pedro compareceu ao espetáculo de gala promovido em sua honra. E, ali, ele e os seus companheiros, com braçadeiras de fita verde e amarela, lembravam o sucesso de São Paulo, e a legenda “Independência ou Morte” era gritada a todo momento.

Também a 25 de março de 1823, depois do juramento do Código Constitucional, Dom Pedro esteve à noite no São João, para ouvir, executado pela orquestra, o Hino da Constituição, que ele próprio compusera.

A 2 de março de 1822, por portaria do Ministro José Bonifácio, o Campo dos Ciganos mudava de denominação. Passava a ser Praça da Constituição, em homenagem ao juramento da Carta Portuguesa em 26 de fevereiro de 1821.

Na tarde de 30 de março de 1862 inaugurava-se a estátua equestre de Dom Pedro I, na Praça da Constituição. Era o primeiro monumento público que se elevava na “mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro”, e o fato revestiu-se da maior solenidade,

O tempo, naquele dia memorável, apresentava-se chuvoso, encoberto, ameaçador; contudo a cerimônia tinha de realizar-se, pois várias vezes fora transferida, sempre por motivo de tempestade. Assim, já não era possível protelar a grande festa cívica.

A estátua do grande vulto nacional, toda de bronze desde o pedestal, desenhada pelo nosso patrício João Maximiniano Mafra e fundida em Paris por Louis Rochet, desde pela manhã se achava coberta por um grande manto de cetim verde e amarelo, aguardando o momento de ser desvelada para maravilhar os olhos do povo. Pelas cercanias do largo logradouro público, multidões compactas, ansiosas, esperavam a chegada do Imperador, para realizar-se a inauguração oficial do belo monumento. Bandeiras nacionais, galhardetes, colchas vistosas debruçavam-se nas janelas das casas residenciais da praça, e pela encosta do vizinho morro de Santo Antônio espalhavam-se barracas, resguardando da chuva teimosa incontáveis pessoas que, de vista, compareciam ao ato.

Cerca das 17 horas, eis que chegam ao local, vindos de carruagem pela Rua da Constituição, e procedentes do Paço de São CristóvãoDom Pedro II e toda a família imperial. Saltaram os monarcas e seus acompanhantes em frente do Teatro de São Pedro, e encaminharam-se para a estátua sob luxuoso pálio.

Retirado o pano auriverde, um brado uníssono ecoou: “Viva a Independência Nacional!”, seguido do troar das salvas da artilharia formada e de hinos patrióticos. O Marquês de Abrantes, Miguel Calmon du Pin e Almeida, leu o autógrafo da primeira Constituição Brasileira, enquanto o Visconde de Cabo Frio desfraldava o pavilhão da Independência do Brasil.

Depois de cantado o Te-Deum de Neukomm, por cerca de 700 pessoas, acompanhadas por mais de duas centenas de instrumentos musicais, o Imperador Dom Pedro II montou a cavalo e passou revista à tropa, que se estendia em linha.

Terminada a imponente cerimônia da inauguração do monumento, dirigiu-se a comitiva para o Teatro São Pedro, onde, em presença do monarca, se pronunciaram vários discursos, lembrando a glória do primeiro Imperador do Brasil.

Nesse mesmo ano 1862 foi a Praça da Constituição embelezada com jardim, e devidamente cercada, como cercadas eram, aliás, todas as grandes praças do Rio de Janeiro. O gradil da praça, depois chamada Tiradentes, foi retirado no governo de Rodrigues Alves, em 1902, pelo Prefeito Pereira Passos, e atualmente serve de parapeito à Rua da Glória e à subida da Rua do Russell.

No dia 3 de maio de 1891, às 11h30min, inaugurava-se a estátua do notável artista João Caetano dos Santos, glória imperecível do teatro brasileiro. Esculpida em gesso, graciosamente, por Manuel Chaves Pinheiro, obedecendo à iniciativa de Correia Vasquez, e fundida em Roma, foi assentada na Travessa das Belas-Artes (situava-se esse logradouro no termo da atual Rua Imperatriz Leopoldina), bem em frente à porta da Academia Nacional de Belas-Artes. Revestiu-se de imponente solenidade o acontecimento; à inauguração estiveram presentes as figuras de maior projeção no cenário nacional, inclusive o Marechal Deodoro da Fonseca, Presidente da nascente República e seu proclamador em 15 de novembro de 1889. Uma banda de música abrilhantou a cerimônia, executando o Hino Brasileiro, depois a sinfonia de O Guarani. Exaltando os méritos de João Caetano, falou o jornalista Pereira da Silva, produzindo vibrante e comovente oração.

A estátua representa o artista, sabre em riste, vivendo impressionante cena da tragédia Oscar, Filho de Ossian, de autoria de Arnoult.

Mudando-se a Academia de Belas-Artes (hoje Museu Nacional de Belas-Artes) para a Avenida Rio Branco, foi a estátua removida para a então Praça Tiradentes [2], ocupando um dos ângulos do jardim, justamente aquele que olha para o atual Teatro João Caetano, que então era São Pedro.

No canto do jardim, à sombra de árvores enormes, permaneceu o monumento durante muito tempo, Demolido o São Pedro, e construído o atual João Caetano [3], a estátua foi novamente transferida, dessa vez para a frente da nova casa de espetáculos.

A Praça Tiradentes foi sempre – desde que a cidade se estendeu para além da Rua Uruguaiana – um dos pontos mais movimentados do Rio de Janeiro. Ali, no interior dos cafés e restaurantes, reuniam-se à noite escritores, jornalistas, artistas de teatro, que constituíam a roda boêmia do velho e saudoso tempo.

Para isso muito concorreram as casas de diversões ali estabelecidas: frontões, boliches, mafuás, jogos de toda sorte, o teatro Variedades, depois São José, o Santa Ana, depois Carlos Gomes, o Apolo, o Chantecler, de Paschoal Segreto, o Lucinda, o Recreio Dramático, atual Recreio, empresado pelo Antônio Neves e, depois, por Manuel T. Pinto, e ainda o velho São Pedro. Esses teatros, ou estavam na própria praça, ou se localizavam nas imediações.

A Praça Tiradentes é ponto inicial de todas as conduções que servem à zona norte da cidade – bondes, táxis, ônibus e outras viaturas; o bulício é constante, ininterrupto, nesse logradouro público.

Notas

  1. A Igreja de São Domingos de Gusmão, situada entre as Ruas General Câmara (antigamente do Sabão) e São Pedro, foi demolida em 1943 para a abertura da Avenida Presidente Vargas.
  2. Por edital da Municipalidade de 21 de fevereiro de 1890, a Praça da Constituição passou a ser Praça Tiradentes, em memória do Alferes Joaquim José da Silva Xavier, enforcado nas imediações, em 21 de abril de 1792.
  3. O Teatro João Caetano foi inaugurado em 29 de junho, por uma companhia francesa, com a opereta Rose Marie.

Fonte

  • Ferreira, Augusto Maurício de Queiroz. Meu Velho Rio. Rio de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de Educação e Cultura, 1966. 218 p. (Coleção Cidade do Rio de Janeiro, 10).

Imagem destacada

  • Monumento a Dom Pedro I na Praça Tiradentes.

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