Aleijadinho

Um Semeador de Beleza
Esforço biográfico do Aleijadinho conforme os dados mais recentes

Foi na madrugada de 24 de junho de 1698 que, “realmente se fixou a era cristã das Minas Gerais com a descoberta de Vila Rica”.

Surgiu neste período, entre outras, a capela do Padre Faria na mesma povoação. Opina Diogo de Vasconcelos que o altar-mor desta capela ainda deve ser considerado o mais rico de Ouro Preto (a Vila Rica dos tempos coloniais).

Multiplicam-se os caçadores de ouro; chegam levas de colonos continuamente, turbas de aventureiros dominados pela ferocidade da ganância; multiplicam-se os arraiais; Vila Rica prospera e enche-se de jardins.

Avulta a profusão do ouro, e com ela as pompas singulares, os quadros de magnificência ruidosa e fantástica.

Constroem-se os templos para a celebração dos atos necessários à compostura “de homens que se esforçavam em imitar o Reino”; foram generosos os colonos de Vila Rica nos estipêndios e subsídios para o culto religioso e construção de igrejas majestosas e ricas. Vinham de Portugal paramentos, frontais, plantas de altares, mobiliário, imagens. Até as negras, no dia de Santa Ifigênia, lavavam no templo a cabeça enfarinhada de ouro em pó, deixando a oferenda para enriquecimento da capela e esplendor das festas.

A solenidade, de 1733, o Triunfo Eucarístico, mostra o deslumbramento da mais rica das procissões de que há memória na História do Brasil, talvez de toda a América.

A obra do Aleijadinho “foi a flor extrema de um século de mineração”.

Data de 1724 a primeira notícia a respeito do pai do glorioso artista; chamou-se Manuel Francisco Lisboa.

Foi mestre de obras e habilíssimo construtor; confiaram-lhe o levantamento do Palácio dos governadores em Vila Rica, trabalho que lhe rendeu 7.000 (sete mil) cruzados; possuiu escravos, casas e uma propriedade. Teve da escrava Isabel um filho a que deu o nome de Antônio Francisco Lisboa.

Nasceu escravo aquele que seria mais tarde uma das glórias da Pátria brasileira. O pequeno e a mãe receberam liberdade no dia do batismo, no ano de 1730.

Casou-se depois Manuel F. Lisboa, nasceram-lhe três filhas e um filho; este recebeu ordens sacras e exerceu o ministério em Vila Rica; os documentos das irmandades daquele centro atestam que o Padre Félix Lisboa, irmão paterno do Aleijadinho, foi um dos pregadores mais procurados do seu tempo na zona.

Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto

Quando Padre Félix se ordenou, tinha o Aleijadinho 48 anos (1778). (I)

Chamou-se João Gomes Batista o mestre de desenho do artista; viveu em Vila Rica desde 1752 até 1784; exercera o cargo de gravador na Casa da Moeda, de Lisboa. Em 1770 era o Aleijadinho chamado para trabalhar na Igreja do Carmo de Sabará; contam os documentos que, no ano seguinte, o mesmo Antônio Lisboa trabalhava para a igreja de São Francisco de Assis, de Vila Rica. Em Sabará executou dois púlpitos, duas figuras de Atlantes, as imagens de São João da Cruz e São Simão Stock, o risco do frontispício, os ornatos da portada, o desenho para as grades do corpo da igreja, e o coro. Nos tambores dos dois púlpitos esculpiu duas cenas: 1.ª Jesus Cristo e a Samaritana; 2.ª Jesus Cristo e o Avarento.

Trabalhou na igreja de São Francisco de Assis, Ouro Preto, de 1771 a 1775; depois, no período 1778-1779. (Entre 1780 e 1789 silenciam os documentos quanto à atividade do escultor na igreja franciscana de Vila Rica.) O Aleijadinho executou ainda vários serviços na mesma igreja, no período 1790-1794. Trabalhando numa igreja de Terceiros Franciscanos Antônio Lisboa teria forçosamente de combinar com o Visitador dos Franciscanos do Rio de Janeiro, religiosos que dirigiam o sodalício de Vila Rica, as imagens, os temas iconográficos que deviam figurar no interior e no frontispício do templo.

Era advogado da igreja o poeta Cláudio Manuel da Costa. Antônio Lisboa executou para esta igreja franciscana dois púlpitos, que são indiscutivelmente duas joias de valor inestimável no patrimônio da arte colonial brasileira. O Brasil não possui no gênero trabalho igual. Nos tambores desses púlpitos esculpiu dois quadros de inspiração gótica. De onde teria surgido para o Aleijadinho o gosto pela arte ogival? Não sabemos. Teve ele diante dos olhos a Bíblia Pauperum? O livro Speculum Humanae Salvationis? Algum Libellus Precum?

Esculpiu no frontispício deste templo de Vila Rica um medalhão representando, entre flores, escudos, asas, ramalhetes e anjinhos, o busto da Imaculada Conceição e numa fita, a frase:

Dignare me laudare te Virgo Sacrata, da mihi virtutem contra hostes tuos.[1]

O medalhão em que Antônio Lisboa parece ter concentrado todos os recursos de sua extraordinária capacidade artística, seus dotes maravilhosos de escultor e ornamentista, é o de São Francisco de Assis recebendo as Chagas no Alverne. Sentimos imediatamente que não foi pequeno o esforço, nem foi leve o trabalho que o artista planejou e levou a termo. Um painel daquele gênero exigia estudo demorado e execução cuidadosa. Afirma Augusto de Lima que nem na arte brasileira nem nos templos de Portugal existe escultura, que se possa equiparar a este painel do Aleijadinho. O medalhão franciscano de Vila Rica é um dos tesouros mais estimáveis da arte do Brasil.

Antônio Lisboa deixou nesta cena um símbolo que ainda está à espera de explicação satisfatória: uma árvore decepada junto ao lugar em que o Santo, de joelhos, estende os braços. Quem explicará?

Esses dois medalhões, o da Imaculada e o de São Francisco de Assis, foram executados em pedra-sabão (esteatita).

Outro trabalho em pedra-sabão, rocha cujo mineral essencial é o Talco (Mg3Si4O10(OH)2), que saiu do cinzel de Antônio Lisboa é o Lavabo, o qual se encontra na sacristia da mesma igreja franciscana de Ouro Preto.

Este trabalho, joia preciosíssima de nossa arte sacra, foi oferecido pelos sacristães de 1777-1778 e 1779. O gravador João Gomes Batista, que foi provavelmente mestre do Aleijadinho, fazia parte da Fraternidade dos Terceiros Franciscanos de Vila Rica, e no ano de mil setecentos e setenta e oito desempenhava as funções de sacristão do sodalício. Este cargo outrora era de importância, e parece que era o sacristão quem se incumbia de contratar as obras do templo. Neste caso podemos formar a suspeita de que João Gomes assistiu de perto a execução deste Lavabo e que o Aleijadinho, ao traçar o desenho, ouviu a opinião do velho amigo e antigo mestre.

Em ronde bosse, ou relevo pleno, e em tamanho quase natural, surge na escultura um religioso Franciscano de olhos vedados e capuz cobrindo a cabeça; no alto esvoaçando um Anjo em atitude de depositar uma coroa sobre a cabeça do Franciscano; em baixo a bacia para purificação das mãos e ainda as cabeças de dois veados bebendo água.

Em derredor anjos com objetos que simbolizam o espírito franciscano de penitência e desprezo das coisas terrenas. Duas frases latinas adornam o Lavabo.

Influíram os Franciscanos na arte de Antônio Lisboa? Não tenho dúvida a respeito. Havia Franciscanos de alto valor no Rio de Janeiro; basta lembrar Francisco Solano (nasceu em 1753 e morreu em 1818; quatro anos depois da morte do Aleijadinho) e José do Amor Divino.

Igreja de São Francisco de Assis em São João del-Rei

Francisco Solano era músico, pintor e escultor.

Fez, em madeira, perfeita imitação de lindas jarras chinesas ou da Índia; acompanhou Francisco Conceição Veloso e fez os desenhos para o livro célebre Flora Fluminense.

Francisco José do Amor Divino foi lecionar geometria aos militares em São Paulo, a chamado do governador da capitania.

Quando Antônio Lisboa começou a trabalhar na igreja franciscana de Vila Rica, já estava terminada a capela da Ordem III franciscana do Rio.

Este templo pode ser apontado como um dos modelos mais expressivos do barroco no período colonial, pela riqueza e profusão dos ornatos e pela beleza dos altares.

Não é preciso estudar e pesquisar muito para que se chegue à convicção de que Antônio Lisboa sobrepujou todos os artistas que o Brasil possuiu através de todo o período colonial.

Ao Aleijadinho devemos a portada franciscana de São João del Rei; esculpiu também no mesmo templo um medalhão da Imaculada; entre ornatos variados inscreveu a frase:

Tota pulchra es, Maria, et macula originalis non est in te.[2]

A representação da cena do Alverne que ficou em São João del Rei está muito distanciada do apuro do medalhão de Vila Rica; é um trabalho menor, mais pobre, mais simples, menos adornado. Não tem as proporções nem o gosto apurado do outro de Vila Rica.

Dá-se em maio de 1789 o desenlace trágico da conspiração mineira; Dr. Cláudio, o amigo do escultor, é aprisionado e, dias depois, encontram-lhe o cadáver na prisão.

No ano seguinte, 1790, Antônio Lisboa trabalha no retábulo do altar-mor da igreja franciscana de Vila Rica; a talha desdobra-se em ornatos variados e desenhos caprichosos.

Ali estão as imagens da SS. Trindade; notemos que desde os dias da infância Antônio Lisboa contemplava por sobre o altar, que toda a vida foi o de sua predileção (altar da Boa Morte na Matriz de Antônio Dias), estas imagens da SS. Trindade.

Se deixava o bairro de Antônio Dias e chegava até a Matriz do Pilar, ali contemplava igualmente no interior do Templo a mesma representação iconográfica da SS. Trindade.

Encontram-se ainda, no retábulo de S. Francisco, o busto da SS. Virgem, doze anjos, um Cordeiro junto a um livro aberto (na parte superior do Sacrário), e o emblema das Cinco Chagas do Redentor.

A porta que abre o tabernáculo é ornada por uma cruz envolvida em ramos delicados. Também na Matriz de Antônio Dias, – onde se batizara o Artista e perto da qual residiu sempre, – tinha Antônio Lisboa diante dos olhos esse mesmo emblema. Hoje ainda encontramos esses ornatos na porta de um dos tabernáculos do mesmo templo. Pude verificá-lo pessoalmente. No frontal do altar-mor, a cena das Santas Mulheres, levando perfumes à sepultura do Salvador.

Digno de atenção particular o emblema das Chagas, em que se afirma, uma vez mais, o gosto do Aleijadinho pela arte da Idade Média: entre duas mãos feridas e dois pés traspassados, um coração vulnerado.

Esse brasão pertence à arte sacra do período ogival; representa ao vivo uma das devoções mais popularizadas naqueles séculos; o emblema foi ideado e representado muitas vezes nas gravuras e nos templos de então. A festa das Chagas vem do século quatorze; a Missa das Cinco Chagas data do século dezesseis; nos livros de Horas são numerosas as preces às Cinco Chagas. A catedral de Lincoln, no século XV, conheceu duas preces às Chagas:

Adoro te crucem, e Adoro te piissima.

A palavra inglesa que se encontra em Shakespeare, Zound’s, corrupção das palavras Christ’s ou God’s Wounds, era juramento muito em voga.

Até os feiticeiros daqueles séculos misturavam a invocação das Chagas às suas rezas e crendices.

O Aleijadinho representou com fidelidade escrupulosa no altar-mor da igreja franciscana de Vila Rica este emblema, tão usado na Idade Média.

Em 1796 estava o Aleijadinho trabalhando em Congonhas. Contratou com a Irmandade do Santuário do Bom Jesus a execução de 78 (setenta e oito) estátuas sendo 66 em madeira figurando os Passos da Paixão, e 12 em pedra-sabão representando 12 Profetas bíblicos.

Ali estão em esteatita as estátuas de Isaías, Jeremias, Baruque, Ezequiel, Daniel, Oseias, Jonas, Joel, Amós, Naum, Abdias e Habacuque.

Podia o Artista, já enfermo, executar sozinho uma encomenda de 78 estátuas? Parece que não. Procurou, por certo, a colaboração de muitos auxiliares. Isto na vida do Aleijadinho era comum. Quando ele trabalhava em Sabará (depois de 1770), já tinha quatro colaboradores ou auxiliares; os documentos conservaram os nomes desses ajudantes.

Passo do Caminho do Calvário no Santuário do Bom Jesus do Matosinhos

Agora as razões eram maiores e mais graves.

Um dos escravos de Antônio F. Lisboa aprendeu o ofício de entalhador e morreu em Congonhas.

As imagens dos Passos assim se dividem:

1.º Passo da Ceia: 15 figuras.

2.º Passo do Horto: 5 figuras.

3.º Passo da Prisão: 8 figuras.

4.º Passo da Flagelação – e Coroação: 14 figuras.

5.º Passo do Caminho do Calvário: 15 figuras.

6.º Passo da Crucifixão: 10 figuras.

Quem examina de perto e estuda cuidadosamente esses Passos, procurando descobrir o pensamento que guiou o Aleijadinho nos desenhos de tão numerosas figuras, descobre, sem grande esforço, que o desejo vivo do escultor, o propósito que ele teve em mira, foi falar à alma das multidões mineiras.

Esta grande impressão domina e há de dominar qualquer estudioso imparcial que se demore no exame dessas imagens de colorido variegado.

Aquilo foi feito para impressionar a imaginação do povo no tempo das Romarias de setembro.

Não esqueçamos que, já no tempo do Aleijadinho, o Santuário de Congonhas, atraía todos os anos (como ainda hoje) multidões de milhares e milhares de fiéis.

Calcula-se em nossos dias que visitam por aquele Santuário de Congonhas anualmente de 80.000 a 100.000 pessoas. Creio que é este o mais importante dos Santuários da devoção dos mineiros.

E aquelas imagens falam de maneira impressionante à piedade dos peregrinos.

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos em Congonhas do Campo

Quanto a mim devo confessar, com lisura, que vejo nessas imagens dos Passos de Congonhas mais uma prova inconcussa do talento e das qualidades raras do escultor que foi Antônio Lisboa.

Aquelas cenas foram feitas e pintadas de modo a penetrar na alma do povo, falando, comovendo e abalando a multidão. Compreendo imediatamente as razões pelas quais, muitas vezes, a estátua de Judas foi alvejada a tiros, conforme nos descreve Augusto de Lima.

Diante do Passo da Ceia, capela número 1, quando contemplava devotamente o quadro do Senhor Divino, cheio de tristeza entre os Apóstolos, e via também a figura torva do traidor, o romeiro da montanha sentia a indignação subir, crescer na alma e transbordar.

Alguns deviam dirigir, em voz alta, vilipêndios e doestos ao ingrato.

Outros, mais excitados e exaltados, puxavam a arma de fogo e esquecendo que estavam diante de uma imagem, que não lhes era licito estragar a estátua, apertavam o gatilho.

Era o milagre realizado pela arte do Aleijadinho nos recessos da alma do povo.

Será possível, nos domínios da escultura, empolgar de maneira mais forte, falar de modo mais eloquente, sacudir de modo mais impressionante a alma das multidões?

Pois bem, Antônio Lisboa fez isso. Duvidais? Ide a Congonhas: senti-lo-eis intensamente.

É em Congonhas que deparamos a solução de outro problema da biografia de Mestre Antônio Lisboa. Quando o elemento intelectual de Minas e do Brasil, com a exceção honrosíssima de Rodrigo Ferreira Bretas, desconhecia, esquecia, desprezava ou não descobria o valor do Aleijadinho, não prestava atenção aos primores que executara, como explicar que o nome do artista não saiu jamais da consagração popular e dos lábios da multidão nas montanhas?

De tantos e tão variados trabalhos de Antônio Lisboa nos centros de população mineira, qual foi a obra, quais foram as esculturas que mais de perto falaram ao povo, quais foram as imagens que estabeleceram mais íntimo contacto entre a alma do toreuta de Vila Rica e a multidão?

Passos da Paixão de Cristo – A Última Ceia – Santuário do Bom Jesus do Matosinhos

Quais as esculturas que tão vivamente, tão profundamente impressionaram a imaginação dos filhos de Minas de modo que nunca mais essas multidões esqueceram o nome do imaginário?

Ide a Congonhas; contemplai os Passos e os Profetas. Ali está a resposta solene, eloquente, insofismável.

Estive em Congonhas e fiquei impressionado. Ter-se-á dado, através dos séculos da arte sacra no Brasil, fato idêntico na vida de algum escultor?

Parece que não.

O romeiro chegava até Congonhas; rezava, contrito, fixando as imagens que enchem as capelas, e retornava emocionado aos seus pagos. Repetia a viagem, anualmente, pelo resto da vida. Lá um dia levava os filhos ao santuário; ajoelhava-se com eles diante das cenas impressionantes da Paixão do Senhor; dizia-lhes: “Vejam, meus filhos, estas imagens; parece que estão falando! Quando a gente reza aqui, olhando para esses quadros parece que Jesus está aqui perto de nós, para nos ouvir, nos escutar e consolar.

Foi Mestre Aleijadinho quem fez isto tudo.

Aquele homem devia ter mesmo um dom de Deus para fazer umas imagens tão bem trabalhadas!

Bendito seja sempre o nome do Mestre Aleijadinho!

A gente tem até vontade de dizer que Deus mandava os Anjos ajudarem aquele homem quando ele andou por aqui, fazendo essas figuras dos PASSOS, e preparando tanta coisa bendita que bole com o coração da gente!…”.

E o nome do Aleijadinho, durante cem anos, foi passando de geração em geração entre os filhos das montanhas.

Tentará alguém demonstrar que os fatos se passaram de modo diferente?

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos – Profeta Abdias

Creio que não encontrará argumento convincente.

Quem estuda a vida e a obra de Antônio Lisboa e procura depois no Santuário de Congonhas os motivos reais da admiração indefectível, inalterável dos montanheses ao nome do glorioso artista que lhe ungiu de emoção e fé a alma simples, chegará forçosamente a esta conclusão: os PASSOS de Congonhas perpetuaram no meio das multidões mineiras o nome do escultor.

Antônio Lisboa é o gênio da escultura cristã no Brasil.

Estou inclinado a crer que o Aleijadinho quando fazia os desenhos para as imagens dos Passos (e esculpia algumas), teve em mãos gravuras dos Passos do Santuário do Bom Jesus do Monte, de Braga. O confronto iconográfico entre as imagens de Braga e essas de Congonhas patenteia claramente que Antônio Lisboa tomou o propósito de não se tornar simples copista diante dos modelos europeus.

Não quis copiar as imagens do Passos de Braga; não perdeu sua personalidade, continuou escrupulosamente fiel à sua arte, a seus desenhos prediletos, à sua feição peculiar.

A fisionomia das imagens do Salvador dos Passos de Congonhas é a mesma que se observa na imagem de Jesus Cristo no alto do retábulo do altar-mor de São Francisco de Assis de Vila Rica. Das imagens do Santuário de Braga parece que só uma foi copiada: a do Senhor no Horto das Oliveiras; Antônio Lisboa copiou a atitude, os gestos dos braços e a posição do rosto, mas ainda aqui não deu o braço a torcer: procurou traços diferentes para a fisionomia do Redentor. (Estudei demoradamente este caso no Jornal do Comércio, do Rio, em 20 de junho de 1943).

Opina José Mariano que nas estátuas dos profetas (todas de pedra-sabão) a participação individual de Antônio Lisboa parece ter-se limitado à figura de Daniel, e aos bustos de Jonas, Jeremias, Ezequiel, Joel, Oseias e Isaías. Nas restantes cabeças a colaboração foi insignificante. Quem no adro de Congonhas tem o prazer de examinar cuidadosamente a figura de Daniel concluirá logo que a estátua inteira, sem a menor sombra de dúvida, é trabalho de Antônio Lisboa.

Quanto aos modelos procurados para essas esculturas, verifica-se que houve um para seis profetas aos quais se deu barba. Há outro modelo para Daniel; outro para Abdias e Baruque; outro para Amos.

Sete profetas parecem mongóis. A perna de Oseias, o pé de Joel e a mão de Jeremias são defeituosos. Daniel recorda a figura de Dante. Isaías relembra o Moisés de Miguel Ângelo. Amós é um tipo chinês. Naum é uma escultura gótica (de um gótico grosseiro).

As estátuas dos profetas estão no adro do Santuário, parte adornando a escadaria. As linhas e volumes de cada estátua obedecem, dentro da liberdade barroca, a um ritmo geral que unifica e equilibra “a composição e transmite ao conjunto expressão intensa de grandiosidade patética”.

Em cada estátua de profeta se lê uma inscrição,

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos – Profeta Daniel

Cheguei há pouco tempo à verificação curiosa e interessante: as inscrições dos profetas de Congonhas lembram as inscrições dos profetas da catedral gótica de Amiens.

Congonhas e Amiens citam os mesmos capítulos nas inscrições de Isaías, Ezequiel, Daniel, Jonas e Naum.

Em quatro outras inscrições vem relembrado o mesmo episódio bíblico. E mais outra curiosidade: o escultor de Amiens errou citando versículos que não pertencem a Abdias profeta, mas a outro Abdias. E o Aleijadinho corrigiu o erro de Amiens.

Quais são, entre essas estátuas, os dois trabalhos mais delicados, e de maior beleza?

Peço vênia para emitir uma opinião pessoal. Creio que nem todos pensarão como eu. Julgo que as duas peças mais lindas nessas esculturas de esteatita em Congonhas são o profeta Daniel (a imagem toda) e o rosto de Joel.

Uma pergunta que nós, estudiosos do Aleijadinho, fazíamos com insistência era a seguinte: não teriam surgido imitadores da arte religiosa de Antônio Lisboa, mesmo no tempo em que ele ainda vivia?

Fatos desta ordem patenteiam o prestígio e o renome de qualquer artista, em qualquer meio.

José Mariano, com a erudição e a agudez de sempre, acaba de responder: deve ser excluída do inventário artístico do Aleijadinho a porta da capela das Almas de Ouro Preto. Esta é a conclusão da cuidadosa análise realizada pelo próprio José Mariano que assevera: se há uma certa coincidência de concepção, deparam-se, entretanto, elementos de caráter ornamental (botão nas pilastras do nicho, e arrecadas lineares) que são completamente dessemelhantes daqueles de que o Aleijadinho usava.

Nesta porta da capela das Almas, revela-se a preocupação de plagiar o estilo do grande Mestre. (1792).

No livro recente sobre arte brasileira observa o publicista que se verifica absoluta falta de concordância artística entre a portada e o modesto templo (Cruz das Almas), em cujo frontispício veio a ser encartada.

Nos últimos anos o Aleijadinho ainda trabalhou no Carmo dando o desenho para dois altares, e dirigindo o serviço de um tal Justino.

Ao lado de um dos altares desta igreja do Carmo, de Ouro Preto, deixou o Aleijadinho pequeno medalhão representando a doença de Jó. E escreveu em derredor estas palavras tiradas da Sagrada Escritura: Ulcere Pessimo Percussit Eum. Em maio de 1943 eu contemplava emocionado, em Ouro Preto, a escultura do Mestre. Aquela frase é um gemido. Dentro da igreja e profundamente abatido pela enfermidade, o Aleijadinho abre a Bíblia e vai procurar a história de um leproso. Grava no medalhão a figura do Patriarca enfermo no horror da lepra. É como se o Aleijadinho dissesse: Esta é a minha história! Este é o meu sofrimento.

Suposto retrato póstumo de Aleijadinho realizado por Euclásio Ventura no século XIX. Abaixo, sua assinatura. Via Wikimedia Commons

A alma do Aleijadinho está gemendo nas linhas e nas palavras daquele medalhão do Carmo de Vila Rica.

Dizem os documentos que desde 1776 estava enfermo o escultor. Deve ter sido lenta a marcha da enfermidade. Qual foi a moléstia que vitimou o toreuta? Dizem que foi a Framboesia tropica, isto é a bouba.

Para outros foi a lepra mutilante, ou a lepra tuberosa de Hansen e Looft.

Os dois anos derradeiros passou-os Antônio Lisboa gemendo na casa humilde da nora Joana Lopes.

Era desolador o seu aspecto: alteraram-se-lhe os traços fisionômicos; engrossaram os beiços, o nariz e orelhas com exposição do globo ocular (ectrópio); caíram os dedos dos pés; um dos lados do corpo tornou-se inteiramente chagado; Antônio Lisboa ficou paralítico e quase cego.

Rezava frequentemente à imagem do Senhor Crucificado que mandara colocar defronte do grabato paupérrimo: três tábuas sobre dois toros de madeira.

Durante o largo período dessa moléstia derradeira, o Aleijadinho vivia sonhando com os trabalhos que executara nos vários templos de Minas.

Era natural que, nos meses derradeiros, a imaginação do gigante trabalhasse reavivando e colorindo de matizes formosíssimos tantas esculturas, tantos ornatos, tantos primores.

A 18 de novembro de 1814 expirava.

Nota do Autor

  1. Em pesquisa recente, soube-se que Padre Félix Antônio Lisboa, irmão do Aleijadinho, exerceu no ano de 1796 as funções de Mestre de Noviços na Ordem III Franciscana de Vila Rica.

Aqui damos a lista dos Comissários da Ordem III, desde 1771 até 1796:

  • em 1771 Revdo. Luís Vieira da Silva.
  • 1772 Revdo. Luís Vieira da Silva até 1778.
  • 1778 e 1779 Revdo. Inácio José Correia, fazendo às vezes de Comissário.
  • 1778 e 1779 Revdo. Tomás Machado de Miranda; faleceu em Vila Rica.
  • 1779 – 1780 Revdo. Antônio Correia de Sousa Melo.
  • 1781 Revdo. Inácio José Correia, fazendo às vezes de Comissário; faleceu em Vila Rica.
  • 1782 Revdo. José Carneiro de Barros Cerqueira e Sá.
  • 1783 Revdo. Antônio Correia de Sousa Melo – 2.ª vez até 1789.
  • 1790 Revdo. José Martins Machado.
  • 1791 Revdo. Manuel de Abreu Lobato; este exerceu o cargo até muito depois de 1802; em princípio do ano de 1797 (mil setecentos e noventa e sete) foi à Vila Rica O Visitador Fr. Francisco de S. Carlos.

Notas do Editor

  1. Dignai-vos conceder-me que eu vos louve, Virgem Sagrada, dai-me força contra vossos inimigos.
  2. És toda formosa, Maria, e em Ti não há mancha original.

Fonte

Imagem destacada

  • Passos da Paixão de Cristo – XI Jesus é pregado na cruz – Santuário do Bom Jesus do Matosinhos.

Texto original