Passeio Público

O Passeio Público, embora pequeno, perfeitamente plano, construído em estilo muito afetado e negligentemente mantido, reclama para si o primeiro lugar entre os sítios de divertimento do Rio. A entrada para esse retiro favorito é pela Rua das Marrecas, através de um belo portão, por cima do qual há um medalhão da Rainha com seu finado marido, Dom Pedro. Pela frente desse portão, a alameda principal se estende até um terraço, no lado oposto do Jardim, elevado de cerca de dez pés acima do nível natural do terreno. Em frente dele há uma gruta artificial, coberta de vegetação, em meio da qual se vêem engalfinhados dois jacarés de bronze, de cerca de oito pés de comprimento. Despejam água da boca e parecem a pique de mergulhar dentro de um tanque de pedra, em que aquela se precipita. Dali, a água é levada para dentro de duas outras vascas, ao nível do chão, uma de cada lado da alameda, por detrás das quais existem compridos bancos de pedra, ensombrados por belíssimas árvores e plantas sustentadas por treliças de madeira, onde, sob o abrigo da flor do maracujá, os tisnados brasileiros gozam o luxo de uma atmosfera fresca. Bem junto dali, erguem-se duas esguias pirâmides de granito, de boas proporções e bem lavradas, com inscrições adequadas. Em cada extremidade da esplanada há um amplo lance de degraus; perto do topo do que fica à esquerda, acha-se a pequena estátua de um cupido risonho e alado que com os pés se apoia numa tartaruga terrestre, através de cujo corpo a água se despeja numa casca de granito, em baixo, provida de uma concha que convida os sedentos a beberem. Sobre uma pequena tabuleta, frouxamente enroscada ao redor do braço direito, acha-se pintada a seguinte divisa alusiva: “Sou útil inda brincando”. A singeleza da sentença, o garbo da figura, e o frescor proveniente da bebida que fornece, agradam a toda gente e frequentemente inspiram um sorriso.

Panorama da cidade de Rio de Janeiro: Vista da Gloria Tomado do Passeio Público, de Louis-Julien Jacottet (1806-1880), via Biblioteca Nacional

O terraço tem cerca de cem jardas de comprimento e largura proporcionada, calçado num xadrez grosseiro de granitos de várias cores e provido de assentos. Para o lado do mar possui um parapeito, sobre o qual se acham vasos com plantas e flores; para o lado do jardim uma balaustrada de pedra bem talhada. Em cada extremidade há um pequeno quiosque, muito ornamentado de pinturas e douração. O formato interno deles é octogonal, com quatro janelas de vitrais e um par de portas de dobrar. O principal da mobília consta de uma cadeira dourada de estilo antiquado, em cada divisão, achando-se a mais distante da porta soerguida sobre um estrado baixo e servindo, antes, como uma espécie de trono para os poderosos e distintos. A cobertura é formada por uma pirâmide octogonal, sobre cujas faces, do mesmo modo que nas partes superiores dos compartimentos internos, se vêem pinturas. As de um desses edifícios representam as produções do país: plantações de anil, algodão e açúcar, mandioca e milho, bem como as respectivas colheitas, maneiras e maquinismos por meio dos quais são eles trazidos a ponto de vender. No outro se encontram representações de cenários do Rio e de alguns fatos notáveis da história da cidade; da entrada da baía, tal como é vista desse mesmo sítio; da maneira de apanhar baleias no porto, antes que elas dali tivessem sumido; de vistas de terra e do estado em que o local se achava antes de o terem transformado em jardim. Nesse quadro, os objetos mais dignos de nota são o convento de Santa Teresa, a velha casa branca, por causa da qual os habitantes da cidade são cognominados de cariocas, e os arcos do aqueduto, por baixo dos quais se vê fluir um verdadeiro rio. Acha-se também representado um boi atravessando a corrente e mostrando que o canal devia ter tido água até cerca do joelho; tal era, ao que me comunicam, o estado do local, ali por 1750, coberto d’água então; e agora ocupado por esses jardins e várias ruas boas. Outra das divisões representa um combate naval, tendo lugar na baía, cujo cenário não nos pode enganar; é certo que se trata do Rio, mas os navios inimigos levam as cores da Holanda e eu não conheço fato algum na história do lugar ao qual essa situação se possa aplicar. Desconfio que por uma pequena trama de falsidade e gabolice, aos quais os cariocas não são nada avessos, tiveram eles a intenção de se apropriar das glórias da Bahia. O último painel do zimbório representa o incêndio de uma grande nave holandesa; alguns escaleres estão a rebocá-la longe do restante da esquadra que se acha colocada por trás da Ilha das Cobras; rodeando por junto da ponta leste dessa ilha, deve achar-se próxima da Ilha dos Ratos. Da banda oeste deste último rochedo, jazem atualmente a quilha, o talha-mar, cadastes e alguns dos braços do cavername de um navio que dizem ser os restos daquele mesmo. Esses restos, cobertos de ostras, podem ser alcançados sem perigo, com tempo bom, embora quase que de todo cercados de rochedos.

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  • Passeio Público – Fonte dos Amores – Chafariz dos Jacarés e Pirâmide.

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