São João del Rei

CAPÍTULO XIV
MINAS-GERAIS
VILA DE SÃO JOÃO-DEL’REI
1818 A.D.

VISTA DA VILA – DESCRIÇÃO DELA – IGREJAS – SEDE DO GOVERNO – CADEIA – MISERICÓRDIA – CARÁTER DO GOVERNADOR – POPULAÇÃO E OCUPAÇÕES – MINAS E MINERAÇÃO – CASA DE FUNDIÇÃO – VALOR CALCULADO DO OURO – VALOR INTRÍNSECO – MERCADO MONETÁRIO – NOTAS PROVINCIAIS DE MINAS GERAIS – COMÉRCIO – MEIOS DE VIDA – TRAJES – COSTUMES – MANEIRAS E TEMPERAMENTO – MILITARES – CASAS DE CAMPO E JARDINS – FAZENDAS MERCADOS – CLIMA – “PAPOS” OU BÓCIOS – REMÉDIOS – MÉDICOS – OBSERVAÇÕES GEOGRÁFICAS.

Cerca de duzentos pés abaixo da Igreja do Bomfim, estende-se a Vila de São João-d’El-Rei. O primeiro dos epítetos pelo qual se a designa indicar ser ela um agrupamento de segunda ordem, somente inferior a uma cidade e munida de todas as repartições próprias de tal categoria. Do local em que estacamos muitas ruas são nitidamente visíveis, o curso de um ribeirão amplo e raso coleando através da cidade, as duas pontes que o transpõem, os edifícios públicos todos e muitas das casas particulares; entre estas, destacava-se muito a do meu amigo Aureliano, distinguindo-se, como aliás várias outras, pelas suas janelas envidraçadas e outros traços de superioridade. A mistura de numerosas igrejas com as casas, de telhas vermelhas e ainda não enegrecidas pelo fumo, de telhados não deformados pela intromissão de chaminés, de paredes feitas limpas e alvas pela aplicação de argamassa e caiação, do calçamento cor de cinza das ruas, das areias amarelentas do rio e do verde dos jardins, formava um quadro pitoresco e interessante. De um modo geral, a cidade é compacta, sua forma aproximadamente circular e sua situação e porte muito semelhante aos de Halifax no Yorkshire. O cenário vizinho é grandemente montanhoso, e apresenta estranha mistura de morros arredondados e rochedos fragmentados, de aridez e verdura, de pobreza do solo e riqueza da vegetação, de jardins em meio de desertos e de conforto em plena desolação. Após contemplar com espanto e prazer uma tão estranha paisagem, pensei cá comigo: “Será essa a cidade da qual por dez anos tanto ouvi falar! Onde será que se efetuam os seus tantos e conhecidos negócios! Onde se consumirão tantos gêneros que ela recebe! Onde estarão as habitações dos seus comerciantes, seus armazéns e suas lojas! Onde as residências de seus fregueses e auxiliares! Onde as lavouras que lhes dão os produtos e os fornecem de um excesso exportável!”

Tendo por algum tempo gozado desse panorama do local e tendo-me vestido e dispensado os criados, montei e segui morro abaixo, indo ter à casa do meu amigo, onde fui recebido cordial e cortesmente. Mostrou-se evidentemente surpreendido e pareceu algo desapontado com o fato de aparecer eu tão cedo, pois que estava prestes a partir, juntamente com alguns amigos, para Estiva, onde pensavam que eu almoçaria esse dia. Sinceramente satisfeito por se ter evitado tal cerimônia, embora agradecido pela intenção, prevaleci-me de outros sinais de bondade para pôr-me dentro em pouco completamente a gosto naquela casa.

Ao penetrar na vila, verificara que o número da última porta da rua era 887 e concluí ser esse o número exato de portas do lugar, pois que é costume dos brasileiros numerarem as entradas e não as casas, propriamente. A aparência geral de São João é a de todas as vilas portuguesas da mesma categoria; as casas são baixas, caiadas de branco, e munidas de janelas de rótula; as ruas são estreitas, torcidas, longe de uniformes, e muito escorregadias, sendo pavimentadas com grandes lajes lisas e azuis, com um canal ao meio. O assento das casas é de tal forma irregular que elas dominam e devassam umas às outras, sendo as que mais alto se colocam escolhidas para sede de repartições públicas ou para as residências particulares melhores. Muitas dessas possuem, quando não vidraças, venezianas pintadas, o que empresta uma alegria e graça à cidade, que por outra forma lhe faltariam. Em meio dela corre um rio largo e raso, por sobre o qual se lançaram duas excelentes pontes de pedra. Não existe mercado público e as casas de comércio são geralmente acanhadas e escuras, sem janelas como as do Rio e, na sua grande maioria, bem fornidas de gêneros.

Entre as igrejas, treze ao todo, existe uma que faz as vezes de metropolitana, situada junto à rua principal e construída de taipa; não obstante sua aparência exterior modestíssima, contém ela alguns ornamentos extraordinários. À direita do altar, há uma linda cópia de um dos antigos mestres, representando a última Ceia; à esquerda, uma outra, igualmente bela, apresenta Maria lavando os pés de Jesus e, em compartimentos inferiores, uns poucos quadros passáveis, de mau desenho, mostrando a chuva de maná no deserto, e outros motivos tirados do Velho Testamento. O teto dessa igreja, que é arqueado, foi recentemente pintado à custa única de um negociante da vila. As tintas são ótimas, mas não se combinam entre si e, compostas que são principalmente de vermelho, amarelo e azul, têm um aspecto bizarro que somente mesmo ao bom gosto brasileiro pode agradar. Ao centro, vê-se a imagem da padroeira, Nossa Senhora do Pilar, e o brasão de armas de Portugal; acima da cornija, à destra e ocupando o comprimento todo da nave, acham-se os quatro evangelistas e, com eles alternando, um anjo posto numa espécie de púlpito saliente, enquanto que seus auxiliares subalternos na tarefa de salvar os homens, situados em postos menos visíveis, se acham metidos em recessos. Logo por debaixo do coro e sob a proteção de São João, o artista esforçou-se por colocar um retrato do cavalheiro à cuja custa o serviço fora executado. No lado oposto do teto e esquerdo do altar, veem-se motivos de gênero diverso. Aparecem ali representações de frades e freiras, com alusões alegóricas a visões e comunicações de origem divina, com que são eles favorecidos. A ideia da inspiração foi representada ali da seguinte maneira esquisita: de uma nuvenzinha emerge uma trombeta falante, cujo som, representado por fortes raios amarelos, incide direto no ouvido do padre ao qual é endereçada a informação sobrenatural. O moço, que assim demonstrou sua habilidade, é natural do país e nunca viu uma pintura a óleo, com exceção apenas das que a própria igreja de São João contém; não deve portanto sua obra ser examinada com a severidade da crítica; os contornos e expressões são bons, o traço é rude e falta relevo às figuras; seus atributos, como bem se pode esperar, por vezes são incorretos e demonstram ausência de critério, bom gosto e instrução. Tal como tantos outros homens de talento, ele é pobre, pinta por preços vis e, se aqui permanecer, não deixará nunca de viver em miserável dependência.

A igreja que a todas as demais sobrepuja em aparência exterior, se bem que não em categoria, é a de São Francisco, que se acha numa praça de tamanho regular na melhor parte da cidade, mas que, porém, tal como grande parte dos outros edifícios sagrados, está ainda por acabar; não impede que nela tivéssemos ouvido missa, entre andaimes e guindastes, e ali observássemos uma congregação de fiéis, mais séria e atenta tanto às rezas como ao sermão, do que todas quantas até hoje vi, em qualquer país católico ou localidade da religião romana.

Quando terminada, essa igreja há de produzir excelente impressão; é toda feita de granito e terá uma frontaria flanqueada de duas torres e uma representação em escultura dos padecimentos de São Francisco. A outra, que já foi descrita, é atualmente munida de uma só torre, que se acha destacada dela; acham-se porém em curso, projetos de reconstrução da fachada, com dois campanários que, de acordo com o desenho apresentado, serão altos e bem proporcionados. Um terceiro desses edifícios, que ainda não foi consagrado, ocupa também posição proeminente, feito de arenito que contém certo teor de ferro, mas ainda não se acha pronto para ser aberto ao público e as obras parecem seguir com tardança. Numa quarta, na qual, devido a um atraso meu, não cheguei a entrar, dizem existir ornamentos esplêndidos e um interior todo recamado de ouro. Nalguns dos campanários acham-se suspensos sinos de peso considerável, circunstância essa que grandemente me admirou, pois que cada um deles deve ter sido trazido do litoral através das montanhas, suspenso entre dois burros feito uma liteira. Em prol da religião, contudo, os brasileiros primitivos venceram grandíssimas dificuldades, melhorando o mais que podiam suas igrejas e delas fazendo quase que os únicos exemplares de bom gosto arquitetônico.

A sede do Governo é numa casa grande e robusta, de dois pavimentos, bem situada tanto para observar o que se passa na vila, como para despachar os negócios públicos. Junto a ela, acham-se as repartições públicas que formam um dos lados de uma praça por acabar, ficando-lhes fronteiras algumas casas singelas e sólidas e, bem no centro, a forca das execuções públicas, que sempre se coloca “in terrorem” nalgum ponto muito frequentado de cada vila da província. O cadafalso é aqui encimado por uma figura de Minerva, brandindo alto um sabre desembainhado à mão direita, em vez da lança, e na esquerda sustendo a balança da Justiça; não traz venda aos olhos, nem tão pouco aparenta calma firmeza em sua atitude e fisionomia, mas sim a fereza toda de um Marte enraivecido.

A Cadeia fica na rua principal, edifício amplo e sólido, feio e rebarbativo, como talvez de fato deva ser; sujo e repelente, conforme se poderia esperar das maneiras e hábitos do povo. Numerosos são seus inquilinos, sempre visíveis através de grandes janelas sem vidros e gradeadas, e sempre a mendigar. Os crimes que se lhes imputam são na maioria capitais e, dentre estes, nenhum existe tão vulgar quanto o assassinato.

De casta bem diversa é a Misericórdia, ótima instituição, convenientemente arranjada, mantida em bom estado e que, em grande parte sustentada à custa de contribuições voluntárias, depõe muito em favor do caráter geral dos cidadãos. Seus fundos são bem geridos e, geralmente, empregados em auxiliar cerca de cinquenta doentes, todos eles homens. São eles admitidos sem indagações nem distinções, salvo aquelas que dizem respeito às suas doenças e miséria. Quando o atual Governador tomou posse do seu cargo, essa obra de caridade se encontrava em péssimo estado de gestão e seus negócios incertos e embrulhados. Após uma luta de dois anos, conseguiu pô-los em pé de respeitabilidade, trazendo, por esse meio, assistência médica ao alcance daqueles que pereciam à míngua dele, e difundindo, pela vila e “comarca” a seu cuidado, o mais caloroso sentimento de gratidão. Fazia quase um ano que alcançara esse triunfo sobre a vilania e crueldade e o povo estava preparando-se para comemorá-lo por meio de um banquete público no seu edifício. Para esse fim, fizera-se particularmente um retrato de corpo inteiro do Governador em suas vestes, pintado pelo jovem artista já citado; e uns poucos senhores de respeito, à cuja ideia e munificência se devia o quadro, permitiram-me contemplá-lo. A semelhança para com seu digno original estava boa, mas, sob outros aspectos, o retrato era extremamente defeituoso e seu mérito principal terá que decorrer da maneira pela qual ele vai ser apresentado ao público. O plano consistia em fazer uma surpresa a todos, no dia da solenidade, descobrindo-o subitamente por cima da poltrona do Presidente. O povo de São João gosta dessas homenagens a furto, e esse não é o único caso em que disso deram mostras.

Ao fazer minha visita de cerimônia, a fim de apresentar meu salvo-conduto ao Governador, o desembargador Manuel Inácio de Melo e Souza, verifiquei ser ele pessoa de estatura mediana, corpulento e firme, de aspecto que aparentava singular bom temperamento e desenvoltura, vivo, ativo, sem formalismo algum e demonstrando essas maneiras que são peculiarmente agradáveis a estrangeiros. Em seu gabinete tornei a encontrar-me com o meu recente conhecido francês que de poucos minutos me precedera com a mesma finalidade e se achava trajado agora com as vestes do Instituto Nacional. O temperamento do Governador logo se revelou, não somente pela sua franqueza para com estrangeiros e a facilidade com que admitia à sua presença todo indivíduo respeitável da localidade, como também pela bondosa atenção que deu a um pobre menino índio doente que casualmente se assentara nos degraus de sua residência; o interesse afetuoso que a situação desse mísero abandonado provocou no coração de uma pessoa que a fortuna colocara tão acima dele, conquistou-me inteiramente a simpatia e consolidou a estima por homem tão fidalgo e humano, sem que jamais tivesse eu mais tarde ocasião de modificar minha opinião. Como amigo, ele era abundante e sincero, como juiz, reto e inflexível. Sob este último aspecto, fora seu caráter ultimamente submetido a rude prova, pelo aparecimento à barra de seu tribunal de pessoa que até ali gozara de sua estima e por cuja absolvição havia geral interesse; apesar disso, não consentiu ele que o amigo usurpasse o lugar do juiz, e pronunciou uma sentença estrita. Foi isso motivo para que muitos o considerassem por demais severo; no entanto, além da satisfação de consciência de ter cumprido com o seu dever, possuía ele o respeito, a afeição e as bênçãos do povo. Sem reservas, exibição ou pedantismo, mostrava-se em meio dele, sendo por toda parte recebido como protetor e amigo.

De uma feita, andando eu em sua companhia pelas ruas e observando o respeito com que era recebido, a familiaridade que apreciava e animava, levaram-me a dizer-lhe: “Vossa Excelência é o maior dos tiranos que eu conheço, pois que mantém a população em sujeição maior que aquela que a espada lhe poderia conceder”. Respondeu ele: “O povo é bom, fácil de governar e o que me apraz é ser amado por ele”. Um exemplo impressionante de sua mútua simpatia me foi dado por incidente que ocorrera pouco tempo antes. Os Governadores são nomeados apenas por três anos e, em seguida, removidos; mas neste caso, ambas as partes, sem o mínimo conhecimento do que a outra pretendia, haviam solicitado da Corte uma prorrogação do mandato, encontrando-se as duas petições no gabinete da Secretaria de Estado. O invejoso Almeida teria, por essa razão única, denegado o pedido, concluindo que o Governador era bom e popular demais; mas felizmente o então Ministro agia segundo princípios diversos e de boa mente acedeu à recondução.

Dentro em breve, tive a honra de ser convidado à mesa desse fidalgo, ali encontrando os funcionários civis e militares do lugar e muitos dos seus principais habitantes. Foi o jantar servido com grandes mostras de hospitalidade, mas despido de qualquer exibição de superioridade ou afetação desnecessária. Não se consentia ali qualquer formalismo rígido, mas pareciam todos tão a seu gosto como se estivessem numa casa particular de pessoa igual. Pareciam todos contentes, demonstrando satisfação sincera. A parte que maior impressão causou em meu espírito foi a sobremesa, na qual serviram-se vinte e nove variedades diversas de frutas nacionais, feitas em compota, cultivadas e fabricadas nas vizinhanças do lugar. Muitas delas eram novas para mim e houve uma espécie de tangerina branca que me atraiu a atenção, tanto pela sua cor singular como pelo seu excelente perfume. A época das frutas principia em Dezembro e dizem ser muito abundante, coisa de que se não pode duvidar razoavelmente, por isso que atestada pela luxuriante aparência das árvores e pela natureza favorável do clima.

Há em São João cerca de seis mil habitantes, dos quais apenas um terço se compõe de brancos e o restante de negros e mulatos. Não existem, para o seu sustento ou emprego, fábricas nenhumas, salvo uma pequena, de chapéus desabados de lã, característicos das regiões mineiras e excelentes, em seu gênero. Faz-se, nas regiões vizinhas, uma grande quantidade de tecidos de algodão à custa de matéria prima nativa, que serve para os fins ordinários. As lojas ocupam, se é que a isso se pode chamar de ocupação, uma certa parcela da população, enquanto que outros se empregam em suas fazendas, viajam com suas tropas, ou preenchem cargos de confiança pública. Tanto os padres como os advogados parecem existir em grande número aqui, tal como se dá para outras localidades sujeitas à Coroa portuguesa, muito além mesmo do que o poderiam exigir os legítimos reclamos da Justiça e da Religião. Não se veem fisionomias atarefadas, nem azáfama de negócios, nem pretos à cata de biscates, nenhum pregão de pessoas anunciando artigos de geral consumo diário à venda, mas sim, ao contrário, uma aparência uniforme de vadiagem, displicência e repouso. Vivem todos os brancos, aos quais a cor privilegia, livres de qualquer preocupação ou esforço. As ocupações dos homens raramente exigem deles que saiam de casa, e quanto às mulheres de categoria e caráter respeitáveis, não estão elas afeitas a mostrar-se nas ruas.

A oeste da cidade, algumas das pessoas mais sem recursos da população ocupam-se, nos pontos mais rasos do rio, a juntar “cascalho”, ou seja, os pedaços arredondados de quartzo, que a correnteza traz, quebrando-os, examinando os fragmentos, e lavando-os numa vasilha, a fim de descobrir e extrair qualquer partícula dos preciosos metais que eles possam conter. Tiram outros a simples areia do fundo do rio, lavando-a com o mesmo propósito, enquanto que outros cavam um buraco no leito da corrente, ou bem desviam suas águas para um que adrede prepararam em suas margens. Uma vez o poço repleto de areia fresca, retiram-na, submetem-na ao mesmo processo elementar e chamam a isso de mineração. Mais para diante, e na mesma direção, acha-se uma obra considerável que se estende por muitos acres de terreno, estabelecida com a mesma finalidade, mas levada de maneira mui diversa. Acha-se situada sobre a declividade de uma colinazinha suave, elevando-se apenas umas poucas jardas acima dos campos circunjacentes. O solo é constituído de barro vermelho em que existe enterrada uma grande quantidade de quartzo, que parece ter estado sujeito a certo grau de atrito, embora não o bastante para lhe emprestar esse formato a que geralmente denominam de rolado. As faces do morrinho são cortadas em trincheiras, com paredes perpendiculares de cerca de dois pés de profundidade com dezoito polegadas de largura e afastadas umas das outras de outro tanto. Dentro delas se introduz um veio d’água que, separando a argila da pedra e levando-a para os pontos mais baixos, abandona os seixos dentro das escavações. Esses são então retirados, examinados cuidadosamente e partidos em pedaços, sempre que exista qualquer probabilidade de sucesso e lavados nas vasilhas como anteriormente. Examinei uma grande quantidade de pedras e achei tão difícil discernir neles qualquer aparência metálica, quanto já o achara para o cobre contido na ganga de Amlwch e que saltava aos olhos dos experimentados. As obras desse tipo são chamadas de “lavras de talha aberta” e por vezes as conduzem em muito grande escala.

Desde as míseras criaturas que por esses modos desperdiçam seu tempo à cata do metal precioso, através de todas as categorias sociais, até os mais afortunados, quase que toda a população anda empenhada em especulações mineiras, ou, de algum modo, com elas relacionadas e, a julgar pelas aparências, auferem delas pouco mais que pífia compensação. Muitos há que, nestes últimos anos, perderam as fortunas que seus predecessores haviam conseguido e alguns que de todo se arruinaram; não, creio eu, que estejam as jazidas exaustas, que o rio traga areia menos rica que dantes, ou porque seja o cascalho mais difícil de encontrar, ou ainda, forneça teor menor de ouro; mas sim porque o trabalho subiu, o preço dos escravos aumentou, os produtos agrícolas estão com maior procura, emprestando assim valor à terra. Também as ideias do povo estão passando por uma revolução, essa mesma alteração comum que o estabelecimento do Governo no Brasil introduziu; cenários novos por isso se abriram, novas perspectivas surgiram e animaram-se.

A mina única que deu origem à vila, levando-a à celebridade, da qual tamanhas fortunas se extraíram e tamanhos tesouros se canalizaram para Portugal que pasmaram todos os outros reinos da Europa, fica situada dentro da cidade, muito próximo da casa do Governador. Não é nada mais que um poço, de paredes verticais, com cerca de vinte e cinco pés e aproximadamente redondo, constituído de uma espécie branquicenta de arenito, que contém algumas piritas. Acha-se situado no foco dos morros que por detrás dela se elevam majestosamente, formando a Serra do Lenheiro. As águas, na estação das chuvas, descendo dessas alturas, reuniam-se e convergiam para esse poço. Escavaram-se também alguns canais artificiais a fim de encaminhar para o local as águas que, por natureza sua, para ali não correriam. E assim, mercê da natureza e do artifício, o poço se enche quando as chuvas caem, com as águas superficiais e o excesso passa adiante por sobre a margem norte, onde escavou uns tantos rasgos irregulares e tortuosos e, após ter corrido por pouco mais de cem jardas, despeja-se pelo flanco de uma íngreme declividade e alcança o nível do rio. Quando da minha primeira visita a esse repositório natural de tesouros, todos os seus canais estavam a seco e a água estagnada, de suja cor esverdeada, não atingia mais de dez pés além das margens. Dizem ser esse reservatório propriedade coletiva, donde qualquer um pode retirar o que conseguir encontrar. Durante a seca, por isso, muitas pessoas se dispõem, por vezes, a ali instalarem escravos que se ocupam em bombear, a fim de retirar toda a água que puderem e em seguida esquadrinhar os buracos do leito irregular, em busca do metal que possam conter. É então que logo se descobre dever existir alguma comunicação com as águas interiores da montanha, pois que se o trabalho for intermitente, dentro em breve a água do poço volta ao seu nível primitivo.

Esse fato geralmente dissuade as pessoas de iniciarem semelhantes trabalhos, pois que, sempre muito dispendiosos, podem muito bem revelar-se inúteis. Alimenta-se geralmente a opinião de que as águas da mina têm ligação com as do rio e que se faz necessário esgotar a um, antes que o outro dela se libere. Baldado| foi objetar contra essa hipótese, mostrando que a superfície d’água no poço estava pelo menos a cinquenta pés acima da do rio e que esse fato demonstrava claramente que comunicação subterrânea alguma podia existir entre elas e que, se alguma houvesse, a mina secaria naturalmente. Igualmente inútil era falar em processos mais expeditos e perfeitos de esgotar a água, fosse metendo abaixo a parede do poço fronteira ao rio, perfurando a encosta junto ao fundo, ponto em que o dreno não atingiria a mais de umas cem jardas; pelo uso de sifões, para os quais o feitio do morro se adapta admiravelmente, ou colocando uma plataforma por cima d’água e usando instrumentos de mexer, com a forma de colherões, para juntar o ouro em pó, ou então munidos de redes para juntar cascalho. Este, na realidade, parecia o mais exequível dos modos, mas o povo contentou-se em observar que os ingleses têm sempre uns processos extraordinários de fazer as coisas, que os brasileiros não entendem. Sinto-me, porém, propenso a crer que a razão principal da mina andar assim largada, enquanto que todos falam com entusiasmo nas riquezas nela escondidas, está em que o povo acha que o trabalho humano pode ser empregado mais proveitosamente noutros misteres.

Não me consta que mineralogista profissional nenhum, mesmo na época em que a Mina era mais produtiva, tenha jamais examinado a Serra do Lenheiro, com o fim de verificar as origens primeiras donde procede o ouro, ou a maneira de sua formação; e mesmo agora tem isso que ser feito, se o for, apenas por um amador da ciência. As pessoas que nisso possuem interesses imediatos são por demais ignorantes para semelhante empresa, e aqueles que indiretamente se interessam podem conseguir fortuna sem se darem ao trabalho das investigações, e, quanto às minhas próprias observações, terão elas necessariamente que ser imperfeitas e insatisfatórias. Para discutir este interessante assunto conforme ele o merece, deveríamos investigar cuidadosamente a estrutura e a composição dessas montanhas de granito e gnaisse e, muito particularmente, as desses veios de quartzo que correm pelo meio delas, segundo planos mais ou menos inclinados sobre o horizonte. Esta substância parece-me ter-se formado, em tempos desde muito idos, à custa das partes componentes da água e da matéria que esta mantinha em solução; pois que os veios tendem sempre para algum outro maior e afinal terminam numa massa geral, que atualmente preenche o que parece ter sido uma passagem ou câmara no corpo da montanha e que, de acordo com a linguagem dos mineradores brasileiros, pode ser chamado de “caldeirão” ou centro, ou, talvez, o núcleo do quartzo. Imagino que esses veios são as únicas jazidas naturais do ouro; a matriz em que ele se forma, embora nem sempre enriquecida com esse metal e correspondendo, sob vários aspectos, aos filões algo semelhantes, em diversas espécies de montanhas, em que se encontra o chumbo.

A Serra de que estamos a falar parece ser internamente composta de uma variedade mole de gnaisse, notavelmente cheio de finas veias de quartzo que correm em planos aproximadamente perpendiculares ao horizonte. Somente nesses e em parte outra mais nenhuma, o ouro é encontrado em sua matriz, correndo através do espato em pequeninos filetes, ou enchendo todo interstício que encontra entre os cristais, de maneira tão compacta a ponto de parecer que o metal foi fundido e despejado num molde de que tomou a forma exata. Desta e de outras demonstrações, concluo eu que o ouro é produzido pela ação da água sobre o quartzo já existente, debaixo de influências peculiares e ainda desconhecidas. Se o metal existisse como substância nativa e já feita completamente, por entre os fragmentos moles de espato que por vezes mesmo atualmente ainda aparecem descobertos, é muito provável que ali o tivessem encontrado, coisa que creio jamais ter-se dado; e, se essas preciosas partículas metálicas, pela cristalização e endurecimento desses rudimentos, tivessem adotado vulto mais compacto e tangível, deviam elas ter permanecido escondidas nos veios até que eles próprios fossem desgastados, reduzidos e fragmentados. O cascalho comum da região que contém ouro, parece, na realidade, consistir nos fragmentos desses veios que, por algum modo, foram quebrados, talvez em eras remotíssimas, rolados pela ação das águas agitadas e enterrados por elas no barro que compunha o leito delas. Esses fragmentos e massas semi-arredondadas, está claro, deviam já conter o metal inteiramente constituído antes do momento de sua desagregação, por mais remotamente que se tenha dado esse acontecimento; apesar de tudo, nenhum destes casos prova que esse processo não tenha estado continuamente em andamento e que não exista ouro de formação recente. Dizem os mineradores velhos que ele cresce, que jazidas outrora exploradas contêm atualmente quantidade maior do que a que seria de esperar que seus antepassados tivessem deixado; a mim, no entanto, isso não é de forma alguma comprovante.

Na parte superior dessa Serra e mesmo nos muitos barreiros pelos quais passamos, conforme frequentemente já se tem notado, existe uma grande quantidade de feldspato e quartzo em nódulos; diz-se no entanto que nunca ouro algum se encontrou neles, na realidade, tenho a impressão de se formaram em período mui diverso, e por processo completamente outro, que não aquele que produziu os filões auríferos. Que outra qualquer seja a jazida natural do ouro, além desses veios, penso ser evidente para todos quantos já examinaram as minas com cuidado e espero que se fará visível para aqueles que puderem ouvir as descrições delas, que agora farei; no entanto, são esses veios de tal modo estreitos, duros, tão pouco afetados pela ação da água e de tal modo isentos de qualquer atrito, salvo em seus bordos externos, que é impossível imaginar que a quantidade que foi obtida na mina de São João deva sua origem exclusivamente aos veios que terminam nela. Uma certa porção do metal precioso poderia já existir no solo da montanha e ter sido arrastado pela sua superfície abaixo pelas águas que por sobre ela corriam. Fora ali colocada, imagino, por meios semelhantes aos que depuseram a mica, quando as rochas sólidas se decompuseram.

Os “caldeirões”, ou sejam, esses lugares, no âmago das montanhas, em que o metal existe em grandes massas e quase puro, são de duas sortes: os que se encontram nos rochedos graníticos sólidos semelham câmaras, para as quais convergiu o fluido que continha em solução o precioso minério, onde repousou e depositou o metal de que se achava saturado, os que se encontram em montanhas mais moles parecem ser de formação mais recente, eram provavelmente contidos nas partes inferiores do leito de uma corrente, de um lago ou de um oceano, para os quais o metal, anteriormente existente sob a forma de pó, por entre o tijuco do seu fundo, foi ter e afinal juntou-se. De um modo geral, parece-me que todo o ouro encontrado sob a forma de pó, seja no leito dos rios, entre terras ou areias, seja em meio de xistos, esteve de qualquer modo sujeito à ação da água, tendo sido transportado da matriz em que primitivamente se formou. Daí, provavelmente, o fato de o encontrarmos mais abundantemente nos vales que nos cumes e encostas dos morros e em massas, seja em consideráveis profundidades abaixo da superfície das montanhas, ou na proximidade das pequenas altitudes, e nunca, sob tal forma, em situação diversa.

Ponte do Rosário em São João del-Rei

Por onde quer que os objetivos da pesquisa sejam o ouro ou os diamantes, seria de esperar que todas as energias do espírito fossem chamadas à ação, a fim de imaginar meios de facilitar a tarefa e de aproveitar ao máximo da munificência da natureza; é no entanto verdade que, conquanto uma sede inexaurível por essa espécie de riqueza se suscitasse, é quase totalmente impossível a pessoa residente na Inglaterra fazer ideia de quão ignorantes são os brasileiros em quanto diz respeito aos processos mecânicos de minerar. Não que, conforme anteriormente já se disse, sejam os brasileiros por natureza falhos de inteligência, ou mesmo destituídos dessa energia que em muitos casos os habilitaria a se destacarem; mas é que não possuem eles máquina alguma, não se enfronharam em assuntos de filosofia experimental, nunca se habituaram a contemplar a natureza e a acompanhá-la em seus sombrios recessos. Muitos deles consideram tais conhecimentos e cogitações como maléficas e ainda de todo não perderam o terror que professam por esconjuradores e feiticeiros. Um clero, quase tão ignorante quanto o das épocas de maior obscurantismo, mantém sua influência sobre os espíritos, esforça-se por conservar-se afastado das luzes e por difundir um horror sempre ativo, entre o povo, até pelo simples nome de Filosofia. É impossível descrever quão ociosa e descuidada, sob circunstâncias tais, pode o espírito humano tornar-se, quão envilecido e tolhido em suas faculdades.

A “Caza de Fundiçam” Real do ouro, é um edifício sólido e bom, lindamente situado em terreno elevado. Para ali deve ser trazido todo o ouro encontrado nas vizinhanças e creio mesmo que em toda a “Comarca”, com o fim de o fundirem, pagando os direitos impostos, que ascendem à quinta parte do peso bruto. Ali também todas as operações de refinação, determinação do toque e emissão da barra com seu respectivo certificado, se executam com a maior das precisões e dos formalismos. A fusão é feita com menor perfeição, mas com maior rapidez, do que aquela que encontrei na primeira refinação de Londres. A princípio era de uso avaliar mensalmente a quantidade enviada a ser refinada em quintais e o quinto real em arrobas, mas agora fazem-no somente em marcos de oito onças. Segundo a opinião geral, a quantidade de ouro atualmente extraída da terra é muito menor que antigamente; como amigo que sou desse país, espero que de fato assim se dê e que seus habitantes encontrem ocupação mais lucrativa na cultura do solo, do que andando à cata de metal entre os seixos. A facilidade de fazer contrabando, porém, deve-se observá-lo, cresceu de muito e onde quer que se imponham direitos pesados e impolíticos, é evidente que eles serão fraudados. Isto é que o Governo não consegue compreender, nem há de corrigir e provavelmente ainda tem que permanecer por muitos anos na escola da experiência antes que aprenda os princípios mais rudimentares da aritmética política.

As contas relativas ao ouro são feitas aqui em marcos, onças, oitavas e “vinténs”, sendo que doze vinténs valem uma oitava, ou oitava parte da onça e oito onças um marco. O peso integral ou onça do metal quando puro, ou de vinte e quatro quilates fino e após satisfeito o quinto real, é estimado em 13,090 Réis, o que, ao câmbio de sessenta dinheiros por mil réis, dá 3 £ 5 x. 5,5 d., isto é, perto do valor esterlino do ouro puro, ao sair da casa de fundição; ou para o ouro padrão inglês que contém apenas vinte e dois quilates de ouro fino, menos de três libras esterlinas por onça. O valor relativo de cada qualidade de ouro pode facilmente ser encontrado multiplicando-se o número de seus quilates por 75, ou então, com uma única operação, usando como multiplicador o número 130.9166 que dá o produto em “farthings” ingleses. Daí se conclui que o valor intrínseco do ouro, ao sair da mina e sem que nenhum direito sobre ele se pague, é um pouquinho menor que quarenta e oito xelins por onça, segundo o padrão inglês, ou seja, essa variedade que contém vinte e dois quilates de fino.

Essa é a taxa à qual se entrega o ouro no Tesouro do Rio de Janeiro, ali o cunham e o tornam a emitir em moedas de 6400 réis cada qual, ou bem 4000 réis; as primeiras rendem para o Tesouro ao câmbio já referido, uma fração de mais de setenta e cinco xelins, nove dinheiros, três “farthings”, e as segundas quase nada mais de oitenta e quatro xelins, cinco dinheiros e meio. Não será demais acrescentar, em benefício daqueles que desejem verificar estes cálculos, que ambas essas moedas são cunhadas ao toque padrão de vinte e dois quilates, que uma delas deveria pesar vinte e nove grãos e a outra vinte e oito; mas as últimas cunhagens de ambas estas duas moedas foram leves demais.

Já de há muitos anos também que tem acontecido, primeiro por causa do valor extraordinário do lastro ouro na Europa durante a guerra, e por último devido à sua procura no Oriente, que se paralisou com a mudança da Corte de Lisboa e que a seguir ressuscitou com intensidade sem precedentes, que nenhuma quantidade de ouro se consegue para a exportação, sem primeiro pagar-se ao portador dele um prêmio de dez por cento sobre as moedas maiores e de um por cento sobre as menores e ainda é com este gravame que ele atualmente, 1818, deixa a costa do Brasil. Por notícias que me chegaram do Rio, datadas de 3 de junho de 1820, esse prêmio ainda é cotado à taxa extraordinária de 16 a 17%, enquanto que o câmbio comercial caiu para cinquenta e oito dinheiros por mil réis. Em 16 de junho sua cotação era de 17 e 18%, estando também a prata proporcionalmente alta.

Que esta alta do ouro poderá tornar-se geral e permanente, resulta das seguintes circunstâncias. Enquanto que a produção das minas brasileiras aumentou de 16 a 17 por cento, a que é devida a outras regiões da América do Sul subiu, no mesmo período, de mais de 20, e a procura dele a tal taxa existe no Oriente, justamente o setor do mundo onde a Europa outrora se fornecia do precioso metal. Acrescente-se a isso que a prata, conquanto estejamos dispostos a cotá-la baixo em Londres, está mais alta, nas vizinhanças das minas, do que se achava há dez anos atrás, de bem um quinto do seu valor primitivo, isto é, os meios dobrões de Espanha subiram na proporção de 108 para 130 ou 132. Prata de 75 a 90 ou 91.

Essas proporções não encontrariam guarida nestas páginas se o valor do ouro e dos outros metais preciosos afetassem somente ao Brasil ou ao continente sul-americano. Parece-me que é tempo do Legislativo britânico adotar umas tantas medidas decisivas e rápidas, no sentido de localizar e fixar essa espécie de riqueza que mais imediatamente se liga com o comércio; pois há de parecer verdadeiro solecismo político, não só que a primeira nação comercial do mundo não possua controle nenhum sobre o mercado de metais preciosos, estando na dependência, ao menos a esse respeito, de estrangeiros; como também porque, se a dívida pública da Inglaterra, que não taxarei de enorme, for jamais paga em ouro, amoedado ou não, ou qualquer coisa que o represente, qualquer alta nesses artigos terá que se transformar em gravame adicional para a população.

A Casa da Fundição de São João-d’El-Rei funcionou também como uma espécie de Banco para toda a Comarca. Ali se emitem notas do Governo, pagáveis à vista, desde quantias tão baixas quanto a de um xelim, e tanto pela impressão, como pelo papel, essas notas são tão más que pouco melhores são que os nossos bilhetes de pedágio. Nada há de extraordinário, portanto, em que surjam muitas forjicações delas, nem tão pouco em que predomine uma desconfiança geral a seu respeito. Disseram que algumas delas, recebidas num dia da Casa e sem mesmo trocar de mãos, foram recusadas imediatamente. Não há dúvida de que fraude existe e igualmente de que a Instituição traz seus olhos fixados sobre os dolos que se cometem, sem contudo conseguir sempre impedi-los ou descobri-los. Observei ali alguns modos curiosos pelos quais se tentava contrabandear ouro em p6 e outros destinados a lograr compradores ignorantes desse metal. As contas referentes às notas são feitas em réis e mil réis, mas as somas cunhadas são adaptadas à “pataca” de 320 réis [1] e usam também de “vintém” de quarenta réis em vez de vinte, que é o quanto vale nas outras províncias. O vintém de ouro, que atrás mencionamos, é igual em valor a seis grãos em peso de metal fino.

Sem embargo das aparências já registradas de grande ausência do que fazer nas ruas de São João, essa vila, além do comércio de ouro, desfruta de considerável quinhão no comércio do país. Consistem as importações principalmente de artigos ingleses, e não somente o valor deles atualmente é grande, como a sua procura terá que aumentar paralelamente com a população, a cultura e a riqueza do distrito, que exige roupas pesadas e está aprendendo a gostar do conforto doméstico. Essas importações são inteiramente pagas com os produtos da região, tais como bois, cavalos e mulas; toicinho, queijo e aves; algodão, açúcar e café; com uns poucos artigos manufaturados, tais como panos de algodão, chapéus e couros; a essa lista deve-se ainda acrescentar ouro e pedras preciosas. Antigamente, o comércio com o Rio resultava numa balança desfavorável à vila e comarca, sendo a dívida estimada em quarenta mil cruzados. Desde, porém, a vinda da Corte, o valor dos produtos aumentou tanto que não só a dívida se liquidou como a região se tornou credora da Capital, em avultada quantia. Esse comércio é mantido principalmente por meio de quatro tropas regulares, consistindo cada qual de cerca de cinquenta burros, que perfazem geralmente oito jornadas por ano.

Já citamos a opinião que por aqui domina segundo a qual a quantidade de ouro encontrado está diminuindo muito. Provavelmente isso é verdade, o que não impede que à partida de uma dessas tropas ficasse eu pasmo com a quantidade de barras de ouro trazidas. Os volumes eram geralmente de tamanho tal que uma escrava os pudesse facilmente carregar nos braços; eram em geral frouxamente atados em sacos de algodão e transportados com pouco cuidado e desconfiança, embora tanto a própria escrava como todas as pessoas com as quais encontrava soubessem muito bem do seu valor. Quando uma propriedade como essa pode andar em tal segurança, não é isso prova de que a própria escravidão não é sentida como imposição pesada!

Devido ao sistema que o Governo adota com respeito ao ouro e especialmente à sua transmissão direta para o Tesouro, é muito grande aqui a escassez de numerário metálico, e o valor da produção, apesar do seu aumento, é ainda bastante baixo. Resulta disso que o custo da vida é muito razoável; todas as elegâncias da vida, que a região pode fornecer, obtêm-se por umas cento e cinquenta libras por ano [2] e aqueles que vivem com o maior dos luxos não gastam mais do triplo dessa quantia, e poucos, na verdade, consomem o dobro. O povo vive principalmente de carne de vaca, toicinho, feijão e outros vegetais. Possuem excelente pão de farinha de trigo, mas preferem-lhe a farinha de mandioca e guisados de milho. Enquanto se está dentro de casa, uma roupa ligeira é tudo quanto se possa necessitar ou desejar; para andar a cavalo, fazer visitas ou aparecer em forma, veste-se um casacão de lã grosseira, geralmente azul ou pardo, e, à noite, usa-se de cobertor de lã mais grosseira ainda.

Uns ligeiros cuidados com os negócios e a direção doméstica ocupam a maioria das famílias durante a manhã. Ao meio dia, geralmente, serve-se o almoço e, logo a seguir, o calor torna uma sesta agradável até cerca das quatro da tarde, hora na qual os cavalheiros se vestem para fazer visitas de cerimônia. Ao anoitecer, ambos os sexos se encontram, nalguma casa amiga, e juntam-se nas ativas danças ou em jogos de cartas que pouco esforço exigem quer da inteligência quer da memória. No decurso da minha estada, houve uma série de reuniões dessa espécie; algumas delas se prolongaram até horas tardias e tinham todas por objeto menos a exibição e a vaidade que um real divertimento. Um desejo de felicidade, social e razoável, pareceu-me ser a mola principal que dá vida a essa agradável cidade, e jamais sociedade alguma, com a qual tenha eu travado relações íntimas, alcançou tão plenamente semelhante objetivo. O bom humor e as maneiras conciliatórias do Governador eram tidas, e provavelmente com razão, como o principal motivo a contribuir para situação tão invejável.

Embora exista uma grande deficiência de educação no povo de São João, possui ele uma boa dose de bom senso e alguns deles têm discernimento bastante para se capacitarem de suas falhas e sinceridade suficiente para lamentá-lo. A falta de livros, professores e sociabilidade, constitui sua grande desgraça que, creio eu, só muito lentamente virá a ter remédio. Entre as classes mais altas, as maneiras, embora não cheguem a ser polidas, são desenvoltas e agradáveis; o povo possui bom-humor, espírito independente, revela menor propensão à intriga e maior à sinceridade do que geralmente se dá por estas bandas do mundo; é preciso, todavia, reconhecer-se que o desejo que têm de agradar leva-os frequentemente à bajulação. Gostam apaixonadamente de dançar, são amáveis e bondosos. As classes mais baixas dizem ser aqui, como aliás o são em tantas outras partes, indolentes e libertinas, mas não existem mendigos, com exceção de alguns poucos aos quais se concede permissão de pedir, por tempo determinado, como meio de lhes mitigar uma pobreza honesta ou insólita calamidade. As famílias, na sua maior parte, são patriarcais. Em geral os escravos já são nascidos em casa de seus senhores e as misérias naturais de sua condição são suavizadas o quanto possível, mesmo os escravos comprados gozam de tanta indulgência quanto sua própria índole e temperamento permitem.

A força militar desta Comarca, como nas demais partes do Brasil, consiste principalmente na Milícia, que aqui é composta de um corpo de cavalaria, de que todo homem livre tem obrigação de ser membro. Daí cada homem de categoria de São João ter alguma patente, de coronel, tenente-coronel, capitão, “tenente” ou alferes, que constituem a hierarquia deles, sendo eles todos mui ciosos de suas distinções militares, mesmo quando a tratar de seus negócios comuns. Percebem-se nisso os remanescentes de instituições que eram necessárias ao tempo em que seus antepassados alcançavam e conservavam suas propriedades por meio da espada, mas que já agora se fizeram, com o estado de quietude do pais, no mínimo no que diz respeito a mineradores e negociantes, pouco mais que qualificativos honorários. Quanto aos soldados de linha, são eles recrutados dentre as camadas mais pobres dos camponeses; acham-se todos eles sob o comando de um tenente, mas raramente se reúnem e são mal disciplinados, soldados que são quase que só de nome. Em 1815 e 1816, o Governo adotou o sistema de levantar tropas regulares nestas regiões a fim de preencher os claros dos exércitos do Rio Grande do Sul e Montevidéu; mas os homens seguiam sempre com relutância, desertando logo que para isso encontrassem uma oportunidade e por vezes revoltando-se. Apesar disso, em 1817, durante a insurreição de Pernambuco, uma excelente unidade composta de soldados desses esteve de serviço no Rio.

Muitos dos comerciantes de São João possuem casas fora da vila, nelas passando boa parte de seu tempo. São elas agradavelmente situadas sobre eminências, descortinando lindos panoramas das cercanias, ou então no recesso de fundos vales que as interceptam; o vale de São José é o que contém número maior delas e é indubitavelmente o mais belo de todos. Na propriedade do senhor João Batista Machado, que mercê de sua grande fortuna, levou a alcunha de Meio-Milhão, encontramos todas as belezas da natureza, mas nenhum dos confortos de que abunda a casa do mais humilde dos negociantes de Inglaterra. Os quartos eram compridos, mas sujos e vazios de mobília; não havia vidros às janelas, nem tão pouco dependências, fora da casa, apropriadas à categoria de seu dono, embora fosse ele o único em toda a vizinhança a possuir coche. Seus cavalos eram bons e, conquanto já de muita idade, cavalgava-os com muito garbo. Contém o jardim, talvez, dois acres de terras e o solo, apesar de situado sobre a Serra do Lenheiro, é mais fértil que quantos tivéramos jamais ocasião de examinar. É arranjado com a maior das faltas de gosto, contendo, porém, grande variedade de flores, frutos e plantas esculentas. Um trecho do cercado é adaptado à lavagem do linho, em tanques adrede construídos; noutro trecho, um belo veio d’água, para o abastecimento da casa, é encaminhado para uma construção quadrada, feita à maneira de gruta, enfeitada da maneira mais tosca e fantástica, com potes quebrados, copos e botões de tampas de terrina. Há também retratos de animais ferozes e uma representação alegórica dos quatro quadrantes do mundo, e ao centro, como objeto principal, vê-se uma das coisas mais indecentes que se possa imaginar, referente a fato muito conhecido que se deu no Rio de Janeiro. Daí é que a maior parte dessa palhaçada foi trazida pelo proprietário que se gaba de que “não perde nada, ao contrário, aproveita o que outros põem fora.” Um edifício rústico, com um pequeno pórtico à frente, ocupa uma outra parte da área e em seus pilares veem-se pintadas figuras de sátiros, macacos e índios; do lado de dentro acham-se europeus, vestidos à maneira de Portugal. Aberta de par em par uma porta de duas folhas, descobre-se uma peça grande, feito gruta incrustada de conchas, que representa uma montanha quase de todo coberta de árvores, sobre a qual se viam numerosas figurinhas de gente e de gado, arrumadas de maneira tal que perfazia uma história completa e resumida da existência e padecimentos de Jesus Cristo. Está visto que muito me admirei com o que via, mas já me preparara ao encontro de algo de sagrado pela reverência com que o cavalheiro abrira as portas. Fizeram-me saber mais tarde, que fora eu favorecido muito além do que se costumava conceder a heréticos comuns.

Em alguns outros jardins desta vizinhança domina gosto muito mais fino tanto considerado em relação aos princípios antigos como aos modernos referentes a ornamentação; possuem todos eles veios d’água encaminhados ao lado de canteiros, dos quais alguns são elevados, entre paredes, a cerca de três pés acima do nível comum dos passeios, à maneira do que se usa nas nossas estufas, ou mais ainda, talvez, imitando jardins orientais. Alguns desses pousos de Flora são ornamentados com vasos e estátuas e plantados de árvores que seriam capazes de propiciar gratos retiros, não fossem elas talhadas à moda rígida e artificial das avenidas de Versalhes, sem consideração pelo fato de o clima quente daqui exigir o abrigo e a sombra de folhagens largamente espalhadas. Também Pomona partilha do local e as árvores frutíferas maiores medram com exuberância que parecia verdadeiramente milagrosa. Entre elas, ocupam posto saliente a “jabuticaba”, a laranja e o café, que concedem seus frutos em abundância nunca vista, e, de mistura com a “tata” ou pinho, a manga, a cabaça, a maçã e o pêssego compunham estranha casta de pomar. Por debaixo da coma frondosa dessas árvores e logo junto aos seus troncos, veem-se crescendo a ervilha de cheiro e a de comer; cravos junto com rosas, violetas com papoulas e peônias; mangerona, resedá, rosmarinho e tomilho, entrelaçando suas raízes e combinando seus perfumes, enquanto que flores dos climas tórridos florescem luxuriantes, sob a influência do mesmo sol, expostas à mesma face e sobre o mesmo solo.

Em casa do Vigário, que reside em Matosinhos, povoação que dista duas milhas de São João, algo de mais sólido e sistemático pode contemplar-se. Uma vasta porção de terra, arrancada do sertão há cerca de seis anos, com o auxílio de apenas seis escravos, foi murada e convertida numa espécie de viveiro; uma parte dela está plantada de parreiras, que crescem bem, uma outra de árvores fruteiras e plantas peculiares ao Brasil, enquanto que uma terceira ficou destinada às produções europeias. Nesta última divisão do viveiro, o trigo, a cevada e a aveia medram com extraordinária porém inútil exuberância, dando pés enormes, com espigas de longe em longe e pequeníssima porção de grãos de qualidade inferior. Por causa da fertilidade do solo e da poderosa influência das estações, as espigas não amadurecem ao mesmo tempo e, uma vez maduras, derrubam imediatamente seus grãos no chão. O proprietário dessa plantação possui muitas das nossas frutas comestíveis e algumas das nossas árvores frutíferas, tais como maçã e pera, que ele anda se esforçando por modificar e aclimar, por meio de diferentes tipos de enxertos. É um apaixonado da agricultura, tendo-a, mui justamente, por base de toda prosperidade política. Como sacerdote, homem culto e cientista, nunca que o classificariam entre os mais eminentes da Europa; mas como homem piedoso, ativo e benevolente, muito fará no promover o bem estar de sua terra, merecendo-lhe o afeto e a gratidão. Quando lhe fui levar minhas despedidas, estava ele a examinar umas figuras e descrições de teares, que arranjara em seu distrito para o Governo do Rio de Janeiro. A novidade que mais lhe atraíra a atenção, e que admirou saber que nós outros já usávamos desde muito, era a lançadeira de mola, aperfeiçoamento que o desleixo do povo de sua terra tornara de pouco proveito.

Do lado oposto da Vila, num estabelecimento rural encantadoramente situado em profundo valado e à beira de um regato diminuto mas límpido, encontramos uma casa grande e ótima, a esse tempo desabitada, mas possuidora de todas as acomodações necessárias para uma família numerosa. A terra era extraordinariamente boa, conquanto por toda parte inculta, com exceção de pequeno jardim em que plantas de todas as espécies floresciam na mais selvagem das confusões. Mais para baixo havia açudes e tanques para peixes, com dispositivos para aguada e alimento de animais. Havia também nessa propriedade, ruínas de uma grande lavra de ouro, que constava de uma parede construída em través de um boqueirão, a título de dique para segurar as águas e coar qualquer sedimento que essas trouxessem. Havia uma comporta para o esvaziamento do dique sempre que fosse necessário, para que assim se pudesse retirar o sedimento e extrair dele o ouro que acaso contivesse. A porção maior do paredão era sustida por sólido aterro que lhe haviam encostado, mas o trecho que atravessava o leito ficara sem proteção, a fim de que servisse de escoadouro para as águas quando o dique estivesse repleto. Conquanto fosse o que gozava de maior reputação naquelas paragens, o engenheiro que o construíra nada entendia de pressão de fluidos. Construíra sua barragem com perto de trinta pés de altura, doze de espessura na base e seis no topo; mas as fundações haviam sido lançadas com insuficiente solidez e como que a fim de amarrar a obra toda, a fiada superior compunha-se de pedras muito grandes, pesando de duas a três toneladas cada qual e ali colocadas com enorme despesa. Um mecânico habilidoso e prático perceberá facilmente que uma estrutura dessa espécie tinha que rebentar na base logo que fosse aberta a água para dentro do dique; e o seu custo total que perfazia, ao que me disseram, dezesseis mil libras, perdeu-se num instante.

A fazenda, com todas essas benfeitorias, estava à venda ou, se melhor conviesse ao pretendente, para alugar. Continha um quarto da légua “de testada” e seu comprimento era indefinido, mas quando se falava nesse assunto com o dono, replicava este: “o senhor pode caminhar quanto quiser nessa direção, pois que não sei de nenhum reclamante por aí.” A propriedade toda, pelo que se podia julgar por esse trecho, constava de fértil barro vermelho, provavelmente seco e duro no verão e despido de vegetação, exceto umas poucas árvores frutíferas que cresciam no pomar. O preço pedido pela propriedade era de um conto e duzentos mil réis, ou sejam, trezentas libras esterlinas, inclusive as despesas todas da transação, a décima, ou sisa, e as dos títulos de venda.

O fracasso da “lavra”, que fora concebida em grande escala e construída segundo os melhores princípios que até então tinham sido empregados por essas paragens, foi talvez um dos acontecimentos mais felizes que jamais se deram nas cercanias, por mais desastroso que tivesse sido para o seu respectivo autor e família. A superfície dessas terras há de produzir riqueza maior e mais sólida que a oriunda do mais aurífero dos rios que jamais correu, maior do que a mina de diamantes mais rica que jamais se descobriu.

Quando pela primeira vez avistei a vila de São João-d’El-Rei, ficou ela muito aquém da ideia que anteriormente fizera de seu tamanho, e as terras em redor pareceram-me menos populosas do que seu comércio me levara a supor. Ao ter-me melhor enfronhado em quanto lhe dizia respeito, tive que corrigir essas ideias errôneas e, embora haja poucas povoações em suas vizinhanças, existem numerosíssimas casas isoladas disseminadas em quase todos os vales, das quais muitas ligadas a fazendas consideráveis. Estendem-se estas por todos os recantos da “Comarca” que é, ela própria, maior que o reino todo de Portugal, rica e fértil por natureza, em muito alto grau. Em minha rota para ali, tinha eu viajado por sobre espigões áridos e secos, mas soube agora ser esse o trecho de terras mais estéreis que eu podia ter seguido; que para ocidente, e muito particularmente nessa região em que as águas reunidas formam o Rio Grande, existem exuberantes pastagens perenes, em que o gado vive por todas as estações do ano sem sofrer sede; sem guarda e sem contagem. Diariamente há novos colonos que se dirigem para esses distritos ocidentais. Estes, e mais os vastos trechos de Minas-Novas, é que provêm ao comércio de São João-d’El-Rei, onde se realiza uma pequena feira de produtos todas as quintas-feiras. Vi ali cana de açúcar trazida de distâncias de nove milhas, outros artigos miúdos de distância tripla, enquanto que artigos de maior valia alcançavam a vila após viagens de muitos dias.

De março a novembro o clima é bom e seco; à noite, por vezes, o ar se faz frio e traz geada, forma-se gelo e cai neve, mas nenhum destes consegue vencer o sol de meio-dia. Este ano, a estação seca interrompeu-se em outubro, sendo o fato tido por muito insólito. Em geral começa a cair chuva um mês mais tarde e, antes do fim de novembro, desaba em grandes aguaceiros com fortes relâmpagos e trovões. Com tempo úmido prolongado a atmosfera fica desagradavelmente fria. A chuva aqui vem sempre do sul, e, por mais pesadas que pareçam as nuvens no quadrante oposto, as chuvas correspondentes jamais ultrapassam o Rio das Mortes. Existe um provérbio que diz que elas não podem pagar o pedágio instalado na ponte que transpõe o rio e o povo o repete em tom de sarcasmo.

Por todo o distrito das minas grassa essa terrível doença do bócio, a que aqui chamam de “papo”, afligindo pessoas de todas as classes e cores; nem o próprio gado escapa. Tentei atribuí-la à frialdade das águas e ao seu teor em substâncias minerais e vegetais, mas não fiquei satisfeito com nenhuma dessas soluções. Numa propriedade muito grande de junto de Sabará, por tal forma grassava, tanto nas pessoas da família como no gado, que seu dono resolveu vendê-la. Tendo o comprador observado que um de seus lados confinava com um rio que corria por entre densas matas naturais e atribuindo o mal, como em geral o fazem, às águas, mandou escavar um valo no chão de modo a obrigar o gado a procurar de beber numas nascentes que ele abriu e manteve, mandando ainda que dessas mesmas nascentes se tirasse a água do uso doméstico. Desde então não mais apareceu papeira nessa propriedade embora tivesse ele ficado na posse dela por muitos anos.

Num outro caso, do criado de um oficial de São João, com quem me dava muito, houve remédio diverso que deu resultado positivo. Esse homem acompanhou seu patrão ao Rio, onde este se fixou numa casa a cerca de duas milhas da cidade, dali tendo o criado que ir diariamente a pé ao mercado e, por serem os panoramas marítimos novos para ele, geralmente seguia pela beira do oceano. Tendo achado agradável o paladar da água do mar, de vez em quando tomava um pouco; dentro em breve verificou-se que seu papo amolecia e diminuía e, ao cabo de dois meses, desapareceu por completo. Atribuí a cura ao sal contido na água e desde então tenho frequentemente recomendado o uso em larga escala do sal de cozinha em casos semelhantes, apesar de que naquele a cura foi seguida por uma outra moléstia desagradável e que talvez proviesse de outras causas. Existem certamente também comedores de sal que são atacados de bócio; no entanto, um fato que muito depõe em favor desse remédio é que por todo o interior da América do Sul o sal é artigo de extraordinário luxo; por falta dele, o gado de proveniência europeia definha e morre e é de pasmar ver-se a ganância com que bois e bestas lambem e mordem o chão dos “ranchos” em que algum carregamento de sal esteve deitado por uma noite que fosse. As pessoas ricas, que têm meios de se dar a esse luxo, são também menos sujeitas a tais afecções que as pobres; por outro lado, essa doença predomina geralmente em regiões montanhosas tais como os Alpes em que existe menos sal no solo e pequena é a quantidade que para lá transportam das planícies.

Conquanto essa doença especial esteja de tal modo espalhada, a região pode ser tida por extraordinariamente saudável; existem nela apenas dois ou três homens educados que praticam a medicina e no entanto muito me agradou verificar ao passar pelo Registro de Mateus Barbosa que entre os livros, que, de todos os artigos suspeitos são os que mais se examinam, havia um exemplar da Medicina Doméstica de Buchan, traduzida para o português; e numa ocasião infeliz em que um cavalheiro sofrendo de moléstia pulmonar consultou ao mesmo tempo um físico eminente de Londres e um professor de medicina de Sabará que gozava de grande reputação em casos tais, as receitas de ambos foram semelhantes, tendo por base a Digitalis, planta que, aliás, cresce com grande abundância no Brasil.

Dizem por aqui que os mapas ingleses da província de Minas Gerais são extremamente errados, enquanto que os de Mato Grosso são o contrário; a vila de São João-d’El-Rei fica a cerca de três milhas para o sul do Rio das Mortes, logo abaixo da confluência de dois ribeirões, dos quais o que passa por Estiva já foi mencionado; o outro acompanha pouco mais ou menos a estrada que eu segui. A cerca de uma milha mais a jusante, suas águas reunidas recebem um outro córrego, que, através de um vale encantador, provém da povoação de São José, atirando-se, mais adiante, todos eles no Rio das Mortes. Esse curso d’água principal da região surge a trinta milhas a leste da vila, corre mais ou menos em rumo oeste-sudoeste e atinge perto de cento e cinquenta pés de largura no ponto em que passa pela Ponte Real, próximo de Matosinhos; mais adiante, joga-se no Rio Grande, a que os donos nativos do país chamam de Pará e que constitui um dos principais ramos do magnificente Paraná. O leito do Rio das Mortes é extremamente irregular, atingindo por vezes grande profundidade, enquanto que noutros pontos é muito raso; são suas águas turbulentas em certos trechos e, por toda parte, de coloração carregada e saturadas de argila vermelha. Contudo fornece a São João excelente pescado, com peças de mais de dez libras de peso. O terreno da margem meridional do rio, depois de ter passado pela vila, é extraordinariamente acidentado e repleto de minerais preciosos; do lado norte, com exceção da Serra de São José que contém muito enxofre e várias espécies de metais, mas ouro não, o terreno é mais suavemente inclinado; desse lado, os cumes dos morros não se elevam nunca a mais de quatrocentos ou quinhentos pés acima do nível do rio, enquanto que no outro geralmente atingem a altura de mil e quinhentos e alguns a de dois mil pés.

Nota

  1. Há evidente engano por parte do autor, pois que 320 réis é o valor do cruzado; a pataca valia 400 réis. (Nota do Trad.)
  2. 50$000 por mês. (Nota do Trad.)

Fonte

Imagem destacada

  • Ponte da Cadeia e Prédio da Prefeitura em São João del Rei.

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