Viagem a Vila Rica e Mariana

CAPÍTULO XV
MINAS-GERAIS
VIAGEM A VILA-RICA E MARIANA
1817 A.D.

TAMANDUÁ – VIAGEM A CASA DO CAPITAO JOÃO RIBEIRO – MANEIRA DE AMPLIAR UMA PROPRIEDADE – PALMEIRAS – LAVOURA – QUELUZ – ORNITOLOGIA – UMA JARARACA MORTA – MOLE DE MINÉRIO DE FERRO – OURO-BRANCO – FAISCAÇÃO DE OURO – MEIO-SERRO – “ALTO DO MORRO” – BOA-VISTA – MINERAIS – CHAPON – MINAS DE OURO E DE TOPÁZIO – JÓIAS FALSAS – VILA-RICA – PRIMEIRAS IMPRESSÕES DO LUGAR – EDIFÍCIOS PÚBLICOS – FORMAÇÃO E SISTEMA DE EXPLORAÇÃO DE SUAS MINAS – DIFERENTES ESPÉCIES DE OURO – ÓXIDO DE FERRO – COMÉRCIO – MANUFATURAS – CARRUAGENS – TALENTO DE UM TRABALHADOR – SISTEMA DE COLONIZAÇÃO – UM MORADOR INGLÊS – CARÁTER DO POVO – CERIMÔNIAS RELIGIOSAS – VIZINHANÇAS – OUTROS PROCESSOS DE MINERAÇÃO – MARIANA – ÍNDIOS – SITUAÇÃO DA SOCIEDADE – CLIMA – PÁSSAROS.

Achamos o solo extraordinariamente fértil nas poucas primeiras milhas de nosso avanço, bem recoberto com aquilo a que poderíamos chamar de grama nativa, ou bem com o “araçá”, arbusto pequeno, atualmente florescido, cuja raiz contém um suco de agradável paladar, principalmente para o viajante sedento. O dia estivera excepcionalmente desfavorável, com alguma chuva, tal como os de abril na Inglaterra; quando no litoral, por muitos anos a fio, não ouvira vento tão barulhento nem o sentira tão asperamente frígido. Vinha de nordeste. Passamos por um pequeno agrupamento de choças, depois do que abandonamos a estrada grande que leva a Tamanduá [1], nome de localidade que significa “armadillo”. Dela pouco me cabe dizer e isso mesmo apenas louvando-me no relato de um cavalheiro cuja sorte o favorecera recentemente com o grande prêmio de 30:000$000 da Loteria Brasileira. Descreveu-a ele como importante povoado, a trinta e três milhas a noroeste de São João, situado sobre uma eminência desprovida d’água, salvo aquela que a seu pé o Lambari veicula, rio que contribui na formação do São Francisco. O nome desse curso d’água apresenta um dos poucos vestígios que ficaram da lama que outrora habitou o Brasil; esse meu amigo não conseguiu no entanto lembrar-se de ocasião nenhuma em que esse animal tenha sido visto pelas suas cercanias.

Tendo deixado a estrada real, passamos a encontrar apenas trilhas de cargueiro, até bem próximo do nosso pouso. A distância de duas léguas do Rio das Mortes, transpusemos o Caraindé por sobre uma péssima ponte de troncos. Corre esse rio rumo a oeste, através de um rasgão coberto de mata, rolando por fim grandes quantidades d’água. Para além dele, a região faz-se mais pedregosa, adquirindo forte semelhança para com a dos pantanais de Yorkshire. Árvores pesteadas e mirradas que por toda a parte se erguiam, apesar de apenas aos magotes, estavam a vestir seus trajes primaveris, pois que por estas bandas todas elas perdem ao mesmo tempo suas folhas em certa época do ano, dando à região um aspecto de inverno nórdico. Inúmeras lindas variedades de urze já se achavam em flor. Penetrando numa região mais fértil, subdividida em grandes talhões por meio de sebes vivas e tendo varado um serrado, alcançamos a casa do Capitão João Ribeiro, cavalheiro de mesmo nome que aquele que me hospedara em Sepetiba, embora não pertença à mesma família. Tínhamos avistado fumaça a subir no mato, sinal único da existência de habitação humana, com exceção das poucas cabanas que observáramos logo ao depois de deixar os subúrbios de São João, pela distância de trinta milhas; e não encontráramos mais de duas pessoas no decurso de todo o caminho.

Nossa rota era pouco mais animada pelo aparecimento de pássaros e bichos que pelo de gente. O tempo desfavorável que fazia, assustara os primeiros para o mato, enquanto que os segundos haviam buscado abrigo em suas tocas. Topamos com milhares de buracos de tatus, mas não avistamos nem um só desses animais. Entre os poucos pássaros que atiramos, havia um que na forma se parecia com o alcião, suas pernas e bico eram pretos, suas penas de belo azul claro, salvo as do pescoço e cabeça que eram de amarelo vivo, descendo para os escapulares, feito uma ponta de lenço.

A casa do capitão forneceu bem-vindo abrigo a homens molestados pela chuva e pelo vento. Fica num agradável rincão, é grande, cercada de dependências, e não somente a melhor das residências de toda a vizinhança, como talvez a única dentro de um raio de muitas milhas. Demonstrava seu dono ser possuidor de ótimo e bondoso coração, unido a grande apatia e desleixo. Era por demais indolente para que fosse capaz de saborear prazeres requintados, tinha vivido isolado do mundo por tempo excessivo para que ainda fosse sensível ao estímulo dos objetos comuns da ambição ou do prazer, e, todavia, tudo quanto pudesse sua casa fornecer – e nela não há escassez de coisa alguma – ele o dava de bom grado e generosamente. Tivemos mesa farta, quartos limpos e confortáveis e ótimas camas. A singularidade do meu dormitório torna-o merecedor de menção, já que não só era caiado como os demais, mas também forrado com uma espécie de esteira feita de taquara, trançada formando figuras e pintada de cores várias; o branco era fabricado com cal, o vermelho e o amarelo com argila, o rosa e azul com substâncias vegetais.

Durante minha estada em São João o termômetro brincara de 60°F (15,6°C) a 50°F (10°C), andando o tempo geralmente nublado, com chuvas frequentes; aqui, às 5 da tarde, ele marca 57°F (13,9°C). Nossa rota correu por norte-noroeste e achamo-nos provavelmente a seiscentos pés acima de São João.

Depois de várias pequenas dificuldades, oriundas dessa imprevidência tão comum entre os brasileiros e para as quais meu guia contribuíra, passamos adiante, através de complicadíssimas trilhas de cargueiro, para uma região de belíssimas pastagens, por vezes divididas por sebes vivas, e bem fornida de vacas, éguas e carneiros; feios animais estes, de pernas magricelas e focinhos esgrouvinhados. A distância de cerca de uma légua uma da outra, encontramos casas e fazendas; uma ou duas delas inteiramente novas, as outras de data mais recuada. Numa destas últimas, casarão enfeixado dentro de altas muralhas, nosso guia fez alto e manteve uma conferência secreta com um senhor de venerável aspecto; a quem, conforme mais tarde o soube, esteve dando trabalho desnecessário e impertinente, a meu respeito. Deixara descuidosamente meu relógio no último pouso e esse cavalheiro comprometeu-se a mandar de volta alguém à casa que deixáramos e empós de mim a Vila-Rica.

Tendo transposto o leito de considerável corrente que flui rumo ao sul e cujas margens são muito desbarrancadas, vimos, à nossa esquerda e no alto de um elevado morro, a povoação de Lagoa-Dourada, juntamente com extensa mas passageira vista para os lados do norte e do oriente; dentro em pouco, tal como dantes, o terreno se abriu aos nossos olhos. O aspecto dessas paragens é muito semelhante ao das campinas de Dorsetshire, embora em maior escala; sua imensa extensão inda mais agrava a melancolia de viajar-se por terras das quais poucas são as que apresentam qualquer vestígio de cultura; e onde, em cada elevação maior, se avista o mesmo horizonte montanhoso, à distância de cinquenta a cem milhas.

Quando estávamos a trepar num dos morrinhos curtos e íngremes, a lisura do caminho fez com que o burro do guia caísse e seu dono desse mostras de brutal e revoltante ferocidade. A única causa que o impediu de sacrificar a pobre criatura em holocausto à sua cólera, foi, creio eu, a oportuna lembrança de que se o fizesse teria que prosseguir a pé carregando seus arreios.

Pouco depois alcançamos uma casa, situada em férteis e lindas terras e que, comparadas com a esterilidade geralmente reinante, podiam bem ser tidas por vastamente cobertas de vegetação. Fora outrora lugar de fartura, mas atualmente, junto com a fazenda a ela anexa, se mostrava em mísero estado de abandono. No começo, ao que me disseram, essa fazenda era extensa e ainda fora aumentada por meio de um processo algo usado no Brasil. Permite-se que o dono de uma fazenda deixe de pagá-la juntamente com os respectivos impostos à “Fazenda Real”, até que a gleba toda é penhorada pelo Governo, à instigação de algum vizinho rico que, pagando os atrasados, passa a dono de tudo. Nessa transação observam-se estritamente as formalidades legais e tem-se a ilusão de que a propriedade foi adjudicada ao maior ofertante da hasta pública; mas na realidade, o favoritismo prevalece sobre a justiça e o direito, pois que não há ninguém bastante atrevido para aumentar o lance de uma pessoa de fortuna e influência. Na realidade parece ser de regra que no Brasil todo a justiça seja comprada. Esse sentimento se acha por tal forma arraigado nos costumes e na maneira geral de pensar que talvez ninguém o considere torto; por outro lado, protestar contra a prática de semelhante máxima, pareceria não somente ridículo, como serviria apenas para atirar o queixoso em completa ruína.

No decurso de nossa jornada de hoje, que seguiu rumo norte-nordeste, apanhamos alguns espécimes de um fóssil que muito se parece com hulha. Ao cabo dela alcançamos Palmeiras, propriedade de duas léguas em quadra, ou sejam, cerca de quarenta mil acres ingleses; a terra era fértil, rica e bem regada. Existe nela uma casa e, à distância de uma légua, dois ou três “Retiros”, que são estabelecimentos menores, com choças e telheiros miseráveis. A roça é extensa, sendo que um trecho considerável é reservado ao milho, que parecia estar em excelente ordem. É, no entanto, fazenda de engorda e criação, com cerca de mil cabeças de gado, uns poucos cavalos, doze ou catorze escravos e uns poucos brancos como feitores, perfazendo ao todo uma população de vinte homens e mais metade desse número de mulheres e crianças. Sua produção anual para o mercado é:

Réis
400 bois a 4000 réis por cabeça, ou sejam, 20 xelins 1:600.000
Queijo, no valor de 1:200.000
Cavalos 200.000
Total 3:000.000

As despesas da propriedade são desprezíveis, cobrindo-se geralmente com a venda de manteiga e outros artigos nas vilas da vizinhança.

Ao entardecer, cerca de vinte vacas se reuniram no cercado e número maior de bezerros, que, após terem sido tirados de seu galpão e reconhecido suas respectivas mães, lhes foram atados às pernas dianteiras, pela maneira já descrita; uma vez as vacas ordenhadas até certo ponto, deixavam, com grande cuidado e bom-senso, que os filhotes mamassem. A época de criar começa aqui em agosto e dizem exigir grande atenção e esforços pois que as vacas buscam locais retirados nas matas e cerrados para ali darem cria, ali amamentando-a por uma ou duas semanas, e acontecendo frequentemente de perderem-nas por obra do frio ou dos animais ferozes. Nesse período os cavalos têm que trabalhar muito, tornando-se frequentemente magros, debilitados e desanimados. Um sistema semelhante se usa em fazendas de criação desta e de outras províncias.

O dono da casa, homem vivo e agradável, recebeu-me com pouca cerimônia e muita cordialidade; para a primeira, não havia de fato motivo, sendo sua casa extraordinariamente desprovida de acomodações e mobiliário. Parece também que estamos completamente fora da região da pedra calcária, já que ali não se via vestígio algum de caiação ou reboco, mas que de novo penetramos em região de terras auríferas, o que me levou a imaginar que essas duas substâncias raramente ou nunca se encontram juntas. Estando o termômetro à baixa temperatura de 60°F (15,6°C) pela parte mais cálida do dia e a atmosfera, à tarde, cortante, fizemos um fogo no piso de terra de um dos principais aposentos e, em redor dele sentados em tamboretes e blocos de madeira, passamos agradabilíssima tarde em sociedade. Um padre muito afável, para quem me haviam munido de cartas de recomendação, de muito contribuiu para os seus atrativos; andara por três meses numa espécie de volta de visitação, estando agora chegado de Juruoca e pretendendo passar o domingo seguinte em Queluz, no desempenho de suas sagradas funções, regressando então para Vila-Rica, local de sua residência costumeira.

Tendo tomado a grande estrada do norte que, através de Barbacena leva a Vila-Rica e passado pela pequena aldeia de Resquinha, principiamos a subir uma considerável eminência. A direita havia uns tantos morros, impropriamente chamados de Catas Altas, coroados de florestas e que pareciam pertencer às grandes matas que ficam para as bandas do oriente. Fiz tudo por saber que largura tinham os “morros” despidos que jaziam para ocidente, mas, não estando certo de que minhas perguntas foram compreendidas, menciono aqui com desconfiança a informação obtida de que a distância de floresta a floresta, em linha reta, traçada de este a oeste, media cerca de cinquenta léguas. Para os lados de nordeste e sudoeste, pareciam as terras despidas não possuir limites com matas, pois que nenhuma das pessoas com as quais encontrei fora jamais até a orla da floresta em ambas essas direções. É neste lugar que nasce o Parapeba, uma das principais nascentes do São Francisco.

Do cume do morro descortinou-se-nos uma encantadora vista. O panorama mais próximo constava de um semicírculo de montanhas, que começavam a sudeste e, estendendo-se pelo norte para oeste, alcançavam quinze milhas de amplidão. No seu interior, o terreno ondulante, descendo para o norte, era enfeitado de muitos trechos de mata e apresentava esse aspecto de parque que é tão admirado nas cercanias de Sheffield. No meio fica a vila de Queluz, com suas casitas caiadas, formando um dos traços mais graciosos da paisagem. Para o sul, surgia o áspero morro de São José e para ocidente deste as remotas terras do Rio Grande.

A medida que avançávamos, assumiam as montanhas feitio mais escarpado, tornando-se mais semelhantes às de Caernarvon, conforme elas aparecem para aqueles que delas se aproximam por Gwindu, em Anglesea. A vila de Queluz consta de umas cem casas, dispostas ao longo do espigão de um morro, cuja largura é o exatamente bastante para uma rua. Nela existem três igrejas; uma delas, no coração da cidade, é bela e contém algumas hábeis imagens de santos, a cuja proteção devotamente encomendou-se meu guia, enquanto que eu me entretinha em admirar-lhes o feitio. Nos arredores, os pés de fumo medram, nativos, com espantosa exuberância.

Para que mantenha opinião favorável de Queluz é melhor que o estrangeiro se satisfaça com sua aparência externa; não deverá entrar em suas casas nem tão pouco travar relação nenhuma com qualquer de seus habitantes. O estado interno miserável das primeiras é tão revoltante quanto as maneiras dos segundos. O ouro, que a principio se procurou com amplo sucesso em seus arredores, acabou falhando e deixou o povo com mentalidade envilecida e hábitos de preguiça. Há qualquer coisa de insolitamente baixo em seu aspecto e maneiras, mais, creio eu, do que tudo quanto já vi em qualquer parte, mesmo no Brasil. Após conhecimento mais íntimo, descobre-se que aliam a impudência à ignorância e a impertinência à curiosidade. A tarde recebi a visita do magistrado principal da localidade, por motivos que não consegui compreender bem; não deixou ele, porém, de demonstrar o quanto se parecia com seus concidadãos. Depois dele veio-lhe o filho, labreguinho espigado de dezessete anos, montado num corcel branco e trajando o grande uniforme de oficial de cavalaria. Fora nomeado lugar-tenente no comando das tropas do distrito, e adquirira nesse cargo farta provisão de petulância, sem que perdesse os modos desajeitados de um soldado sem disciplina. Depois que ele se foi, fui eu de tal maneira acossado por outros palhaços impertinentes que, a fim de evitá-los, procurei refúgio em meu quarto de dormir, mas mesmo ali de tal modo me incomodaram, que me vi compelido a despedir dois deles e a tratar um terceiro tão asperamente que provavelmente firmei e deixei atrás de mim um estigma qualquer sobre o caráter da minha nacionalidade; mas o fato é que eles seriam capazes de esgotar a paciência dos que a tivessem em maior dose e irritar os mais mansos.

Não é mais do que justiça eximir desta geral censura ao povo de Queluz, o senhor em cuja casa nos hospedamos. Tratou-nos com grande atenção e cortesia e, como existe mais uma casa de hóspedes na vila, convém acrescentar que ele reside fronteiro ao pelourinho. Aqui, este é encimado por um busto, de capacete à cabeça e, como que para demonstrar que nada pode proteger contra a mão da autoridade justamente ofendida, vê-se um sabre metido em seu crânio até as orelhas e penetrando no aço e nos ossos.

Seguindo rumo norte-nordeste, aproximáramo-nos agora de vinte milhas do nosso destino, tendo subido mais cerca de quatrocentos pés. Apesar disso, o sol, ao meio-dia, esteve muito quente, mas o termômetro não estava à mão para que verificássemos a verdadeira temperatura; às sete da manhã seguinte, num quarto fechado, marcava ele 57°F (13,9°C).

Dentre os objetos pouco comuns da história natural por nós observados, achava-se o anu branco, cujas penas são barbadas, feito as da cauda da ave-do-paraíso. A parte mais compacta delas é de um pardo-escuro, enquanto que as barbas são de pardo-claro, tirante a branco, o que empresta este geral matiz ao pássaro. As costas são azuis, as partes junto aos encontros das asas de puro branco e as penas destas de pardo sombreado. A cauda, que é muito longa, consta de quatro penas de cada lado; três delas são brancas com uma larga faixa preta de atravessado; a quarta que é a mais de dentro e cobre as demais, quando a ave está em repouso, é parda. O bico é reto e forte, tem um tufo à cabeça e as pernas são esgalgadas com três dedos para diante e um para trás. No tamanho e feitio, parece-se com a pega.

O melro desta região é completamente negro, com cerca do tamanho de uma calhandra. É o corvo do Brasil e por esse nome o chamam em vários lugares.

O “ariba raba”, ou rabo-de-galo, é muito vulgar, bastante parecido com a calhandra, no porte e na cor, mas não nos hábitos de cantar. Provém seu nome da maneira que tem de trazer a cauda que é muito longa e, na sua atitude, parecida com a da pega, embora muito mais erguida. Por causa disso, sempre que pousa, seja num galho, seja num cômoro, dá a impressão de estar desequilibrada para a frente, balançando com dificuldade.

A ornitologia do planalto é, em geral, totalmente diversa da dos distritos mais baixos; todavia, observei em baixo um outro dos pássaros desta região, o gavião-pomba. Sua cor é de cinza azulada, semelhante à do nosso pombo bravo; o bico e as esporas são aduncos, como os do falcão; cada asa possui seis penas compridas; a cauda, quando fechada, parece inteiramente negra, e quando aberta, cada pena mostra uma grande malha branca junto à extremidade; as pernas são vermelhas e grossas, com três dedos para a frente e um para trás. É ave de rapina. Merece, contudo, menção o fato de que esses, como outros pássaros que nesse dia atiramos, enrijeceram com o frio, coisa que nunca dantes observara no Brasil, e tão ao norte.

Uma cobra, chamada jararaca e tida por mui venenosa, foi hoje à tarde morta próximo de nossa estalagem. Media cerca de oito pés de comprido e, pelo desmaiado de suas cores, azul e amarelo, penso que era ou muito velha ou doente. A pancada com que a mataram havia deixado à mostra os dentes de seu maxilar inferior, assim ficando ela descuidosamente abandonada ali; uma galinha de raça comum, aproximando-se com seus pintinhos do local, deu de súbito o grito de alarme, juntou a prole aterrada por detrás de si, abriu as asas, eriçou as penas, parecendo pronta para o combate ou para o vôo. Vendo, porém, que o réptil estava imóvel, ganhou ânimo, aproximou-se aos poucos e afinal desfechou um rápido ataque com seu bico contra o maxilar aberto retirando-se, a seguir, imediatamente. Prosseguiu em tais ataques até que tivesse arrancado algo de cada banda do queixo, devorando-o. Depois disso pareceu achar que nenhuma outra precaução se fazia necessária e levou seus pintos a esgravatar mais perto da carcaça. Já frequentes vezes observara eu aves domésticas comerem formigas e escorpiões e vigiara com interesse seus combates com centopeias; jamais, porém, vira alguma atacar réptil tamanho, ou em tal criatura procurar alimento. Nem podia eu imaginar que as vesículas venenosas da mandíbula de uma serpente pudessem constituir alimento agradável ou mesmo sadio para qualquer ser vivo que fosse.

Apesar dos cuidados dos meus amigos de São João e das ocasionais recorrências de meu guia a assuntos de perigo, até então não percebera razão nenhuma de temor. Os receios de bandidos, seja qual for o fundamento que para tais já tenha havido, mantêm-se sempre por muito tempo após terem suas depredações cessado. Por outro lado, eu bem via que o meu guia desejava conservar-se junto a mim até o fim da viagem, podendo talvez, por isso, achar de boa política repisar semelhantes assuntos. Em todo caso achei de bom aviso verificar que minhas armas todas se achavam em ordem e levá-las de modo a que estivessem sempre prontas para serem usadas. Concordei também em que meu guia continuasse acompanhando-me, sentindo-me muito mais à vontade por assim ter procedido.

A partir desse ponto, a primeira légua de caminhada conduz-nos por sobre uma região desinteressante, ao cabo da qual transpusemos uma pequena corredeira, o Parapeba, prosseguindo ao longo de sua margem esquerda, em seu curso através de um vale estreito e coberto de vegetação. Suponho que deva ter sido a súbita transição de um imenso e triste deserto para um cenário de caráter tão diferente, aquilo que mais contribuiu para produzir em mim essa impressão de espanto de que meu espírito se achou então possuído. Embora logo emergíssemos da floresta, o prolongamento do vale, com a grande variedade dos seus aspectos, foi de efeito insolitamente grato e repousante.

Mostrava-nos agora um morro à esquerda objeto de singular maravilha: uma mole toda de ferro, de tal modo destituída de qualquer mistura com terra comum, que vegetal nenhum nela crescia, estando sim coberta de uma camada contínua de ferrugem ou óxido de ferro. A montanha é tão elevada e íngreme que seu cume não é visível; mas de suas partes mais elevadas, alguns nódulos de metal corroído tinham rolado, estorvando grandemente a estrada. Ao pé da montanha, o solo é constituído de argila vermelha misturada com um pó pesado e pardacento. A medida que avançávamos parecia o metal tornar-se menos puro, até que, após distância de duas léguas e meia, sumia de todo, sendo substituído pelo terreno argiloso comum. Ao fim do vale, de novo passamos o ribeirão, já ali muito aumentado e, por sobre ótima ponte, passamos da Comarca de São João para a de Vila-Rica.

Já muitas vezes ouvira falar dessa massa metálica imensa, mas nenhuma das descrições apresentará quadro apropriado à imaginação. O próprio miolo da montanha, até onde se podia julgar, parecia consistir de vastos blocos de metal dispostos em camadas; e é de tal modo livre de qualquer liga que, quando fundido, produz noventa e cinco por cento de metal puro.

A cerca de uma milha de Ouro-Branco, encontramo-nos com a mala postal que vinha do norte para o Rio de Janeiro. Vinha dentro de um saco de tamanho médio, ao lombo de um mísero cavalo e a cargo de um negro, com a costumeira mistura de azul e escarlate em sua jaqueta e o indefectível tricórnio à cabeça. Poucos sinais havia de que atribuíssem qualquer importância a tal incumbência, seja por parte daqueles que lha entregaram, seja pela dele próprio. Vinha armado apenas de um velho espadim e ficou a conversar conosco por cerca de um quarto de hora, enquanto que seu cavalo se afastava por um morro acima. Esse fato levou-me à conclusão de que existe muito menos perigo de viajar por estas bandas do país do que se me tinha dito, fortalecendo-me na convicção de que mais se deve temer dos conluios de um guia e dos artifícios de pessoas que aparentam amizade, que da violência franca de “valentes” e salteadores que atacam sem conhecimento prévio de suas vítimas.

A povoação de Ouro-Branco, situada no sopé de extenso Serro, consta de cerca de cinquenta casas miseráveis, de mistura com as quais encontram-se duas ou três de categoria melhor, muitas “vendas” e uma igreja que, em lugares tais como esse, é chamada de metropolitana e exerce uma certa autoridade sobre os demais edifícios sacros das vizinhanças.

Dali viramos direito para leste e prosseguimos pela falda de altaneiro morro, parecidíssimo com um que há perto de Chaple-en-le-Frith, no Derbyshire, quando nos aproximamos dessa cidade por Woodhead. Seu flanco ocidental termina abruptamente, com quase mil pés de altitude, face vertical e seu cume descendo gradualmente para leste e apresentando à nossa esquerda uma face que, embora escarpada, não é inacessível. Ao pé dessa montanha, a cata de ouro está-se tornando novamente intensa e é levada da mesma maneira lamentável que já descrevemos: raspa-se a superfície do solo e lava-se o detrito, afim de encontrar os seixos rolados de quartzo, de que abunda. É de desesperar ver-se uma região toda que, em seu estado natural, produz excelente madeira e lindas matas, transformada em meros montões de pedras e cenas de desolação. E é de fato uma felicidade que por causa do progresso da lavoura e encarecimento da mão de obra, coisas de que os ignorantes se queixam amargamente, as pessoas empregadas nessas obras de destruição sejam geralmente pretos quase inválidos e imprestáveis para qualquer serviço de maior monta. Atingido um ponto em que a cumiada da montanha se tinha feito relativamente baixa e a subida fácil, torcemos para o norte, volteando morro acima, rumo a oeste; o cenário tornou-se mais rico e coberto de vegetação, mas o ar parado e o consequente calor opressivo impediram-nos de gozar dessa mudança.

Vimos ali vários pássaros grandes e bonitos, dos quais um se parece muito com o jacu de outras paragens do Brasil. A espingarda deitou abaixo um que, pelo seu modo peculiar de se agarrar às árvores, pode talvez ser classificado juntamente com o pica-pau, embora dele diverso pela cor. No alto da cabeça e no papo, a plumagem era de pardo-escuro; as costas da mesma coloração, listado de pardo mais claro, em ondas; cerca dos olhos, no pescoço e por debaixo das asas, cor de laranja vivo; no peito as penas eram também alaranjadas, mas pintalgadas de triângulos de pardo-escuro; as da cauda eram pardo carregado, embora as mais de cima tivessem listas de alaranjado claro; os pés tinham dois dedos para diante e dois para trás. Em outras partes do Brasil encontrei aves parecidas, mais enfeitadas, porém trazendo um lindo topete amarelo à cabeça, algo de semelhante, embora muito mais rico, que o da cabeça do pavão.

Deixando as matas e a região de acumulações, pois que assim se podem denominar os terrenos que jazem ao pé das montanhas, notamos algo de muito estranho na estratificação de uma serra e penetramos num terreno constituído de arenito muito mole, por vezes muito brilhante e, em outras, apresentando veias amarelas de atravessado. Nesse singularíssimo trecho, os cascos das mulas e cavalos, subindo e descendo a montanha, escavaram buracos feito degraus, uns acima dos outros; por outro lado, a superfície não é impenetrável às raízes de um vegetal ousado e por mim desconhecido. Esses arbustos se vêem por ali disseminados de longe em longe, com seus caules cênicos que se elevam até a altura de cinco pés e parecendo-se, pela casca e colorido, com os de certas palmas. De seu tope saem alguns galhos curtos em ângulo agudo, que parecem dedos abertos, com as extremidades apinhadas de folhinhas pontudas. O aspecto desolado dessas paragens, como bem se pode imaginar, pouco lucrava com tão escassa vegetação, sendo essa a única que por ali se produzia. Acima e além, viam-se grandes massas de arenito escuro, de forma tabular, inclinadas para o norte; e, avançando-se para terrenos mais elevados ainda, a terra vermelha vulgar do país apresentava-se misturada com quartzo e geralmente coberta de fina vegetação, através da qual surgiam grandes pedras ásperas, recobertas de líquen. No alto, são frequentes as pirambeiras estreitas, profundas e quase a pique; nalguns casos lindamente ornamentadas com mato e arvoredo anão.

A pouca distância da desolada região de nossa subida, fica um “rancho” de primeira classe entre os estabelecimentos de sua espécie e a que chamam, pela sua posição a meia encosta, de Meio-Serro. Fica no flanco de um rochedo e é circundado de pedras que em nada correspondem a nenhuma das minhas noções anteriores de Geologia e que recomendo à atenção de todo o viajante apto a explorá-las. Reclinado a uma dessas pedras encontrei o nosso companheiro da jornada de Itamareté a Mateus Barbosa. Estava agora de caminho para o distrito que fica além de Sabará, afim de comprar açúcar que pretendia levar para o Rio. O reencontro com companheiro de viagem agradável e já conhecido foi especialmente grato, embora logo seguido de pena pelo fato de nossos arranjos não nos permitirem passar a noite sob o mesmo teto. No breve espaço de tempo durante o qual ali permanecemos juntos, ele colheu, de trás da casa, uns bons pés de alcaçuz, que ali eram nativos; depois do que divertiu-me indicando os principais aspectos da paisagem que se nos descortinava.

Avaliamos a altitude do local em mil e cinquenta pés acima do nível do que deixáramos naquela manhã. A atmosfera estava singularmente transparente, embora pintalgada de umas nuvenzitas flocosas; isso nos proporcionava extenso panorama da região, a distância tal que raramente os olhos alcançam, tornando os objetos notavelmente nítidos. Para sudoeste, o morro isolado de São José era visível em detalhe, embora se achasse a mais de sessenta milhas distante em linha reta. Muito mais para além, e formando um ângulo mais aberto, o horizonte se descortinava meio embaçado, parecendo-se muito com o oceano. As ondulações dos planos intermediários, se bem que enormes e abruptas quando vistas de junto e agora diminuídas e desmaiadas, de muito acrescentavam à beleza da paisagem, pela variedade de luz e sombra que produziam. Para leste e sudeste, as montanhas achavam-se próximas e cobertas de matas; aquela sobre a qual nos encontrávamos descia em declive longo e lento. Para oeste e paralelamente à sua falda, surgiam outros “serros”, elevados e distantes; enquanto que os do norte se apresentavam com imponente grandeza, em massas pesadas e escuras, com o pico de Itacolomi a todos sobrepujando.

Junto ao ponto em que paramos, chamado “alto do morro”, vimos um tucano de belíssima plumagem, trazendo muitas listas de penas encarnadas em través de seu peito amarelo, mas baldados foram os esforços feitos para apanhá-lo. Enquanto se estava a arrumar a bagagem, deixei que o termômetro refrescasse e, entre duas e três horas da tarde, marcou ele 60°F (15,6°C). Passamos a tarde agradavelmente e, provavelmente, um dos motivos que mais contribuíram para tanto foi o fato de ser a casa mantida por uma mulher. Essa senhora era uma viúva e perfazia as honras da mesa com todas as cerimônias usadas pelos fidalgos do país quando recebem um hóspede. Era ela irmã de um comerciante do Rio que, tendo sabido que eu me destinava a Vila-Rica, mui galantemente enviara empós de mim cartas de recomendação a São João-d’El-Rei e sem dúvida é a esse fato que se devia a recepção favorável que me dispensou essa dama. Divertiu-nos com anedotas sobre viajantes anteriores, tanto ingleses como franceses, descrevendo-nos suas maneiras e mais aquilo que pensava serem suas intenções e temperamentos. Entre outros, citou ela dois frades carmelitas espanhóis, que não me eram desconhecidos e que, tendo de ir para Lima, preferiram fazê-lo através de Goiás e Mato-Grosso, a incorrer no risco de, no mar, caírem nas mãos dos corsários do Prata; escolhendo assim uma viagem que no dizer deles exigiria dois anos, em parte através de imenso trecho de florestas quase impenetráveis e expostos aos ferozes ataques de selvagens e animais ferozes, a uma de catorze dias com ligeiros perigos de se tornarem prisioneiros de inovadores em matéria religiosa e política. Tinham, no entanto, prazer em exagerar os males e difundir o rumor dos perigos que a prudência deles os levara a evitar. Quão diversos são os motivos de prazer na humanidade! Quão vários os de seus temores!

O sol ergueu-se esplendoroso na manhã seguinte e, às sete horas, o termômetro marcava 54°F (12,2°C). Era domingo e apresentava mais o aspecto de um dia inglês de observância religiosa do que qualquer um dos que ultimamente observara. A dona da casa, quando a encontrei ao café da manhã, estava vestida para a missa e pronta para montar em cavalo, esperando apenas pela nossa partida. Na dúvida de saber se a deveria considerar como uma estalajadeira, propondo-me pagar pela hospedagem, deixei o assunto aos cuidados do guia, que sempre se prontificava a representar o papel de pagador liberal. Nesse caso, porém, e após muitos debates e manobras, ficou ele inteiramente vencido; pois que, embora ela apresentasse conta, era esta tão baixa que afastava qualquer ideia de considerar-se como pagamento. Não me restava senão tomar conhecimento da cortesia da dama e muitos cumprimentos foram trocados entre nós ambos, acabando por me oferecer, à maneira de sua terra, um lindo ramo de flores. Um iniciado teria compreendido inúmeras coisas através dessa dádiva; fui eu porém obrigado a confessar minha ignorância da linguagem mística das flores e a sofrer da parte dela como de muitos outros que ali se achavam um sorriso bem-humorado pela minha ingenuidade. Embora sob a docência dela, nenhum progresso fizesse nesse saber, aprendi nessa entrevista algo de mui maior valia, isto é, que havia um caminho mais curto saindo de Ouro Branco do que o que havíamos seguido e que, embora fosse essa estrada a mais íngreme das duas, dessa é que ela sempre usava ao ir à missa e que a cavalaria de Vila-Rica passara por ali sem apear quando fora a serviço para o Rio de Janeiro.

Nosso avanço subsequente foi por sobre dunas secas e sáfaras, até as barrancas de um rio estreito que corre para leste e, unindo-se a vários outros, forma o Piranga, que por seu turno dá origem ao Rio Doce. Observamos diversas instalações para a lavagem de ouro, semelhantes às que já foram descritas, mas não tivemos oportunidade de verificar o mínimo aperfeiçoamento nos processos usados.

A orla de um cerrado, situado em meio de estreito desfiladeiro, o guia passou cuidadosamente em revista a tropa toda, e exprimiu o desejo de que nos não apartássemos, falando abundantemente de bandidos, roubos e assassinatos. O local, é preciso que se o reconheça, era particularmente favorável aos desígnios da malícia, pois era o terreno muito acidentado de fundos regos e a senda escavada e torcida. Foi minha atenção especialmente atraída para uma casa à nossa esquerda e um moinho à destra, ambos em ruínas que meu guia, falando em voz abafada, o que não lhe era habitual, disse terem sido reduzidos a esse estado pela polícia, por causa das muitas mortes ali cometidas. Se o fato é verdadeiro, a autoridade em questão agiu mui desassisadamente, pois difícil é conceber esconderijo melhor para ladrões e assassinos do que esse que as ruínas lhes podiam fornecer, junto com as vizinhas matas. Passamos, no entanto, sem que ninguém nos molestasse, nem a menor aparência de perigo; apesar de que as admoestações do guia tiveram o efeito de nos aguçar a atenção, como aliás já acontecera quase da mesma forma no dia anterior.

Ao sairmos dessa estrada estreita, penetramos de novo numa região árida e aborrecida, em que as águas corriam para oeste até que, ultrapassada Sicara, pequena povoação de apenas quatro ou cinco casas, a dez milhas de Vila-Rica, alcançamos Boa-Vista. Essa localidade, além do dobro do número de casas inda agora referido, possui uma igrejinha, que fica junto à estrada, em ponto mais elevado que qualquer dos que tenhamos que encontrar daqui por diante. A vista para oeste e noroeste é maravilhosamente ampla e magnífica. Seu traço principal consiste numa montanha de feitio cônico, alta e lindamente conformada; à direita, fica o arrogante Itacolomi.

Neste contraforte, jazem os minerais dispersos na mais estranha das confusões, com formatos e atributos totalmente diversos de quantos tenha eu até agora visto. Diz-se ser o cobre ali abundante; a pedra de ferro e o xisto alternam frequentemente, predominando gradualmente este último, à medida que avançamos e mostrando grande variedade de colorações e aparências, sendo azul, preto, pardo, e, por vezes, muito brilhante. Próximo de “Chapon”, passamos por sobre uma mole rochosa, laminada e densa, com esplendor metálico; dela ainda possuo uma amostra, que mesmo em nosso clima úmido conserva seu brilho. Dizem, porém, que não contém metal de espécie alguma, embora Mawe o chame de rico minério de ferro.

Em Chapon, visitamos as minas de ouro e de topázio, cujos proprietários diz-se serem ricos; se assim se dá, porém, faz-se em meio de tamanha ausência de conforto que qualquer inglês, e não dos mais exigentes, ali se sentiria positivamente miserável. Produziam grande quantidade de topázios verdadeiros e fizeram tudo por me convencer de que uma massa cúbica de espato amarelo e transparente, embora diferindo largamente da forma usual, era pedra dessa qualidade; depois que os apertei um tanto, procuraram então insinuar, que se compunha de partes prismáticas. Deveríamos estar em condições de distinguir entre as pedras preciosas e tais espatos, que no país abundam, em variadíssimas colorações, e que, embora tenham valor intrínseco pouco superior ao de meros pedregulhos, se lapidam à maneira de topázios, esmeraldas, ametistas e até brilhantes e, como tais, frequentemente são passados a compradores inexperientes. O aparecimento do falso topázio é muitas vezes de maiores consequências que o do verdadeiro da América do Sul, pois que jamais vi um destes em perfeito estado, mas sim, invariavelmente quebrado em uma ou em ambas as pontas. Das pedras enviadas para a Europa debaixo de nomes deslumbrantes, especialmente como topázios, águas-marinhas e ametistas, muitas não passam de fragmentos de espato achados nos leitos dos rios e rolados pela comum ação da correnteza. Corresponderá este parágrafo ao seu intento, se tais imposturas forem de qualquer modo coibidas. A instrução e a lealdade nas transações devem constituir o fundamento de uma prosperidade sólida e é de esperar-se que a idade do mistério tenha passado para sempre.

A mina de Chapon não passa de uma espécie de pedreira em aberto e como tal é ela explorada. Contém farta quantidade de cascalho, engastado em argila e areia, cuja superfície, tal como se vê nos lados das catas, é irregularmente manchada de vermelho, cinza e branco. É desse cascalho que se retira o ouro, segundo o processo costumeiro, mas os topázios se encontram em ninhos no meio da terra comum. Variam consideravelmente na cor, desde um branco puro, passando por todos os matizes do amarelo, até o pardo carregado, sendo que muitos deles apresentam tonalidade avermelhada. Na mesma mina encontram-se pedras de coloração esverdeada que suspeito serem a origem ou então ligadas a essas que chamam de águas-marinhas. Nas vizinhanças desta serra dizem encontrar-se uma espécie de pedra comum que é flexível, mas eu não vi nenhuma delas.

A cerca de duas léguas de Boa-Vista e três de Vila-Rica, principia o desfiladeiro através do qual corre a estrada que vai ter à segunda dessas localidades. Segue de leste para oeste, tendo à sua banda norte um morro escarpado e despido, de contorno liso; ao sul fica uma região acidentada que parece repleta de estreitas e profundas pirambeiras. O rio, por cuja margem a estrada passa, é rápido e poderoso; impele grande número de moendas de farinha, alegrando com suas águas uns tantos jardins agradáveis que se unem a casitas caiadas para enfeitar suas ribanceiras.

A primeira vista de Vila-Rica, ou Ouro-Preto, conforme dantes lhe chamavam, é grandemente sedutora. Dá a impressão de um agrupamento de aldeiazinhas brancas e bem construídas, empoleiradas nas pontas salientes da montanha setentrional. Ao chegar-se mais perto, descobre-se que esses objetos não são mais do que algumas das igrejas e edifícios públicos e que as casas de moradia se encontram no fundo dos vales interjacentes.

A estrada entra na cidade pela sua extremidade ocidental, transpondo um riacho que lhe corre ao pé. Nas águas límpidas desse córrego, umas mulheres quase de todo nuas estavam a lavar roupa. Como primeira impressão, davam elas péssima de seu povo, pois sua atitude e aparência revelavam o abandono da pobreza e sua linguagem e maneiras a depravação e licenciosidade.

Antes que atingíssemos nossa “estalagem”, situada bem no meio da vila, foi o guia reconhecido e familiarmente abordado por grande número de vagabundos que, amarrados todos juntos a uma corrente, trabalhavam na rua. Indagando eu do motivo de tal conduta, contou-me serem assassinos que ele conduzira a Vila-Rica, em missão oficial, dois meses antes. Era natural imaginar como devia ser considerado pelo povo o homem que agora chegava à vila sob idêntico acompanhamento. Contudo, não havia mais remédio e nós prosseguimos calmamente juntos. Nossa hospedaria ficava situada próximo do meio da vila e foi esse o motivo de sua preferência sobre a única outra casa de hospedagem que a localidade contém.

Era um edifício espaçoso, colocado em local elevado, à esquina de duas ruas, perto da igreja de Santa Rosa, tendo uma sacada ao longo de duas das suas faces, para a qual os aposentos abriam, sem que tivessem comunicação nenhuma uns com os outros. Escolhi o cômodo do canto, por causa do panorama que dominava, pois que era este quase que o único ponto no qual diferia dos restantes que, todos eles, tinham janelas sem vidraças e munidas de escuros varões verticais, como muitos dos nossos estábulos. No meu dormitório havia duas camas, outras tantas cadeiras velhas e uma pobre mesa suja; para ali trouxeram minha bagagem, sela, arreios e o mais tudo que me pertencia, com exceção única dos cavalos e burros. Fiz questão de que meu guia não ocupasse a outra cama e sim tivesse um quarto separado; escolheu ele o cômodo pegado ao meu, exigindo por seu turno que meus criados pretos ficassem hospedados num terceiro.

O estalajadeiro era homem taludo e bronco, com um aspecto que parecia estar sempre a perguntar: “devo eu ser amigo ou inimigo!” Evidente é que ele era capaz de ser ambas as coisas. Incidentemente demonstrava-se servil, mas nas mais das vezes não era nem sequer polido, revelando sua total ausência de educação; naquilo, porém, que mais eu desejava, a saber, liberdade de locomoção, não se mostrou ele falho nem um pouco. Logo veio informar-me de que eu deveria dar conhecimento de minha chegada ao Ouvidor, e Antônio foi despachado com idêntico recado para o Governador.

Estava eu passeando pouco depois ao longo da sacada e tendo deixado aberta a porta do meu quarto, quando o patrão da casa notou esse fato, para ele chamando-me a atenção em altas e nada respeitosas vozes: “que tolo que o senhor deve ser, que deixa assim sua porta aberta.” Virei-me, replicando: “Que significa isso? Há ladrões aqui?” “Sim,” disse ele, “milhares; e quem deixa a porta aberta será roubado na certa.” Foi então que notei que todas as demais portas e venezianas estavam cuidadosamente fechadas, que nenhum objeto passível de ser carregado se via exposto, havendo grandes arcas com sólidos cadeados e chaves para a sua guarda. A má impressão que tive foi confirmada pelo guia, em seu regresso e, naturalmente, mantive-me mais em guarda do que anteriormente imaginara ser necessário.

Vila-Rica é, talvez, um dos lugares mais estranhamente situados no mundo todo e somente mesmo o poderoso amor do ouro poderia ter dado origem a uma cidade grande em tal posição. Todavia, a aparência de suas ruas é digna e mais ainda o de seu calçamento. Uma delas estende-se através de vários contrafortes em linha reta, medindo cerca de duas milhas de comprimento. Das cinco mil casas que o local possui, consta uma quinta parte de boas construções, sendo as restantes construídas ligeiramente. São todas elas caiadas por fora, fato que demonstra a existência de calcário em suas vizinhanças. São numerosas as pontes e, algumas delas, bem feitas, transpondo córregos que se despenham das montanhas. As fontes públicas, catorze ao todo, acham-se dispersas pela cidade; são, geralmente, belas construções e providas abundantemente de água pura.

Os edifícios públicos, de comércio e de diversões são feitos de pedra, com algum direito a serem classificados de belos; alguns deles possuem de fato um aspecto de grandiosidade, desconhecido em outras vilas e cidades do Brasil. A pequena distância à frente do palácio do Governador, encontra-se um grupo de que os vila-ricanos muito e justamente se ufanam, constituído pela prefeitura, o teatro e a cadeia. O paço, por sua vez, domina um lindo panorama da cidade toda; fica-lhe fronteiro um espaço em aberto, circundado por uma espécie de parapeito, junto ao qual uns poucos morteiros de bronze constituem uma defesa de artilharia. Numa das partes baixas da vila fica o Tesouro, onde, indo eu munido de cartas para alguns dos cavalheiros ali empregados, fui cortesmente recebido, tendo oportunidade de observar que as salas são solenes e cômodas. Sob o mesmo teto acham-se a casa da moeda e a alfândega.

Existem dez igrejas, das quais algumas das mais antigas são construídas de taipa. Muitas delas são faustosamente ornamentadas, possuindo lindas pinturas e imagens. Uma das mais bem instaladas tem de estranho o fato de não possuir janelas; e o efeito que produz no espírito, com somente a luz de suas lâmpadas, em esplêndido dia de sol a pino, é poderosíssimo. Penetrei nesses edifícios sacros e examinei-os com irrestrita liberdade e, aparentemente, sem mesmo provocar, como estrangeiro, curiosidade alguma, prova de que a população de Vila-Rica está acostumada a ver estrangeiros.

O arranjo, mobiliário e funcionamento do Teatro não correspondem à sua aparência exterior. Fica sobre um terreno irregular, tendo a entrada por detrás, ficando o saguão e as frisas no mesmo nível que a entrada. Nestas últimas não era permitida a entrada de estranhos de outras nações, motivo pelo qual desci para a plateia. Não é com facilidade que jamais me hei de esquecer da impressão que recebi ao olhar para uma escada comprida, estreita e sombria, em cujo fundo se avistava um clarão; pareceu-me:

…………………… “um abismo ardente;
Uma torva aparição, tremenda e bravia:
Um horrendo calabouço, fechado em redor,
Como enorme fornalha, chamejava” …

Ao chegar em baixo, dei com uma sala acanhada, sofrivelmente pintada e a plateia cheia de uma gente muito modesta e mal-encarada, muitos dos quais usando “capotes”, traje esse favorito dos ladrões e assassinos e nisso, como em outros pontos, bastante repelente para quem está inteiramente iniciado no conhecimento dos modos dos brasileiros. Não mitigava ao menos o aspecto desse público a presença de mulheres, pois que nenhuma é admitida nessa parte do teatro. Quanto aos homens, apesar de sua aparência rebarbativa, eram eles corteses, abrindo caminho rapidamente e fazendo-me um lugar. Via-se no palco, uma mulher sentada, não no chão e de pernas cruzadas como é costume aqui, mas numa cadeira europeia e costurando à maneira nossa, enquanto que um rígido figurão, com os olhos cravados no teto e os braços grudados ao corpo, dirigia-se a uma outra mulher num compasso lento e monótono; ao que, replicava ela, com idêntica apatia e inflexibilidade de estátua. Era impossível representar-se cena mais aborrecida e como aconteceu de estarem outros órgãos sensoriais da minha pessoa irritados, além dos olhos e dos ouvidos, deixei meu lugar e de novo tentei conseguir entrar num dos camarotes ou, no mínimo, num dos corredores que lhe ficam por detrás; e como isso não pudesse ser, fui-me embora. Foi esse fato relembrado em meu desfavor e, na realidade, comprometeu de todo a minha reputação como homem de bom gosto em Vila-Rica.

Entre os edifícios públicos que contribuem para a ornamentação da vila, já foi citada a cadeia. Afim de lhe realçar o aspecto não devemos, contudo, olhar-lhe o interior, já que, tal como todas as demais do Brasil, parece destinada a ser a habitação da desgraça. Aliás, países muito mais adiantados em cultura ainda em grande parte estão por aprender que um cárcere não passa de lugar de detenção temporária para réus acusados ou condenados e que o único objeto legítimo do castigo é a regeneração e não a vindita. Não é de admirar-se portanto que no Brasil nada se saiba dos luxos que emprestam conforto aos criminosos e dos dispositivos que visam atingir os efeitos morais das leis, instituições e penalidades.

Por esta parte do mundo tais progressos pouca atenção atraem, pois que o Ouro é o primeiro e quase que o único a merecê-la. A esta, qualquer outra preocupação é sacrificada com pouca hesitação.

Afim de bem apreciar a situação das minas de Vila-Rica, é necessário lembrarmo-nos de que o terreno é composto de xisto, ou seja, uma casta de argila disposta feito ardósia, que repousa sobre um núcleo de granito, gnaisse ou arenito, por vezes também laminado, em outras, s6lido, estando o ouro disseminado em partículas no xisto e no barro superjacente; e, ainda, de que a vila se acha situada na confluência de vários regatos, cujas águas todas possuem um único escoadouro, através de um rasgão apertado, aberto pela violência delas, na superfície, até as camadas mais firmes. Antes que essa saída, chamada Rio do Carmo, ficasse tão funda quanto atualmente se acha deve ter existido um pequenino lago entre os morros, pelos quais passavam todas as águas provindas das terras mais altas, com elas trazendo e depositando em seu fundo, uma grande variedade de material pesado. Assim, parece que o terreno se foi aos poucos alteando, enquanto que a saída das águas se aprofundava, até que de todo a água se drenasse, deixando o fundo a seco, com a forma de um plano horizontal, composto de toda a sorte de detritos que, pela natureza aurífera da região, continham considerável teor de ouro, tanto sob a forma de pó misturado ao xisto triturado, como engastado no quartzo, feito “cascalho”. A extensão dessa planície é de trinta a quarenta acres, comunicando por meio de passagens estreitas, com outras de igual tamanho. As montanhas que circundam esse hipotético lago de outrora, elevam-se de setecentos a mil pés acima de seu nível, e é na encosta do que fica mais para o norte que se acha construída a vila. Não há dúvida de que nos flancos de todos eles ainda se encontra muito ouro, não obstante a grande quantidade levada pelas águas e a que já foi extraída.

A planície relativamente pequena que acima mencionamos pode, contudo, ser considerada como a galinha que, no decurso de muitos anos, pôs ovos de ouro para a Coroa de Portugal. Sua superfície fica quase que ao mesmo nível que o do regato que através dela corre e, após chuvas pesadas, fica toda ela inundada. Alguém, então, se posta à beira da corrente que, juntamente com quanto dentro dela existe, parece ser considerada propriedade pública e principia a cavar um fosso com uma enxadinha, fosso esse que pode ter de um a três pés de largura e cerca de seis polegadas de profundidade, depondo cuidadosamente a terra aos lados de maneira que parcela alguma das águas dele escape. Dirige o seu fosso no rumo que melhor lhe aprouver, contanto que o terreno já não tenha sido ocupado anteriormente por outro aventureiro, e, na ponta, levanta uma barragenzinha, afim de evitar que qualquer partícula seja levada embora. Em geral abre-se a entrada d’água para esses fossos logo pela manhã, fechando-se antes do anoitecer, pois que se reputa seu conteúdo por demais valioso, para que se o deixe exposto aos riscos decorrentes da escuridão. Colhe-se então um belo sedimento preto, com o maior cuidado; a esse levam-no num pote para casa, afim de o lavar. Não pode haver dúvida de que existe sempre uma quantidade maior ou menor de ouro misturada nessa massa; o que não impede que não tenha sido jamais capaz de discerni-la, no mais minucioso dos exames e com o auxílio de poderosa lente.

Esses mineradores, conforme vaidosamente a si próprios se denominam, são as criaturas mais baixas com as quais tentei jamais travar conversa; e seu número era, nessa época, tão desprezível quanto suas prendas. Uma meia dúzia deles, foi o mais que me aconteceu de ver, juntos na planície; no entanto, não se deve esquecer que estávamos na seca e que, logo depois do lugar ter sido recentemente inundado, dizem que para ele afluem os habitantes em massa, afim de prosseguir com ardor, na busca do ouro, de que não desistem enquanto não tiverem posto a saque a totalidade da superfície impregnada pelas águas.

No flanco do morro, que é escarpado, adota-se processo diverso. Por onde quer que um riacho corra, esquadrinham-lhe frequentemente o leito, muito especialmente nos pontos em que a correnteza tenha encontrado qualquer impedimento ao seu curso, pois que neles o metal precioso fica frequentemente detido. Nos pontos em que a natureza não concedeu água, abrem-se poços que se escoram com fortes muros ou paliçadas e para os quais se desviam córregos distantes. O excesso d’água, despejando-se por sobre o bordo de uma barreira, é geralmente recebido num segundo poço, mais abaixo, e, por vezes ainda, num terceiro. Em épocas próprias são os poços esvaziados, retira-se o sedimento e trata-se-lo como anteriormente. Em geral as águas ficam saturadas de barro vermelho e a reiteração desse processo teve por efeito privar o morro de sua terra como de sua vegetação, por toda parte em que foi possível encaminhar um ribeirão que as levasse.

Também se meteram horizontalmente esteios nas partes mais moles da montanha, até perfurar completamente o revestimento xistoso ou de argila e atingir o núcleo sólido; a água, coando pelas massas de cima, é recebida em bacias, juntamente com o metal que porventura traga. Em geral verifica-se que a maior quantidade desce até a extremidade dessas covas, ponto esse em que os materiais moles da montanha aderem aos mais sólidos. Essas covas raramente atingem a mais de vinte jardas de comprimento, cinco pés de alto e três de largo. Alguns dos morros menores e mais permeáveis da vizinhança foram, é verdade, perfurados até maior distância e um vi eu que fora completamente traspassado de um lado ao outro de sua base. Grandes ou pequenos, contudo, esses furos são fechados e cercados de garantias que bem demonstram o temor que têm de ladrões.

Logo que esse local foi descoberto pelos faiscadores de ouro, dizem que nada mais faziam senão arrancar os tufos de capim dos flancos do morro e sacudir-lhes o pó de ouro das raízes. Será isto provavelmente tido por lenda romântica, mas creio que a coisa pode facilmente explicar-se. A íngreme encosta da montanha é coberta por uma variedade rude de grama, em pequenas touceiras ou tufos; portanto, quando as chuvas caem com violência, a enxurrada passa em redor e por entre as raízes e tudo que for por natureza mais pesado e que nela venha tem que ser retido, sempre que lhes aparecer empecilho à descida. Isso acontece com qualquer touceira de mato que fique diretamente no caminho da corrente no riacho, e assim, pelo que presumo, puderam essas raízes fazer-se ricas em metal e permanecer intactas por muito tempo; portanto aqueles que arrancassem o capim tinham que encontrar o ouro e aqueles que saíssem em busca de uma segunda colheita tinham fatalmente que ficar desapontados. A medida que essas enxurradas desciam por essa forma a montanha, recolhendo quantidades maiores d’água, adquiriam ímpeto maior, escavando assim no solo um leito, com vazios nas partes mais moles, que persistiriam sob a forma de bacias e o metal que descia ficaria retido nelas; daí a formação desses pequenos caldeirões que, frequentemente, num abrir e fechar de olhos, enriqueciam um aventureiro e dos quais tanto falam aqueles que lhes invejam a sorte boa. Não resta dúvida de que uma grande quantidade de metal passou adiante, sem qualquer impedimento, indo juntar-se no largo, em baixo, ou, talvez, misturando-se aos muitos detritos com que esse se cumulou, ali terá que ficar até que se adotem processos melhores de exploração.

Um barão alemão ergueu recentemente um moinho d’água, nessa planície do ouro, afim de britar e lavar o cascalho que se encontra com grande abundância a pequena distância dali. Uma das partes da máquina quebra o quartzo por meio de pilões que trabalham feito os que nós usamos nos nossos moinhos; consiste a outra de duas enormes cubas, como as das cervejarias, para as quais o quartzo quebrado é encaminhado e em que é remexido por meio de pás fixadas à parte de baixo da tampa a que se imprime movimento de rotação por meio de uma roda dentada horizontal. A cada uma das cubas é levado um filete d’água que, depois de atravessar a massa do cascalho, escorre por uma pequena bica fixada junto ao fundo das cubas, com ela saindo uma parte do ouro. A máquina tem toda ela péssimo acabamento e montagem; não tanto, creio eu, por qualquer falta do necessário conhecimento e habilidade de seu autor, como pela completa ausência de destreza por parte dos que a construíram.

Conquanto imperfeito, o moinho do barão é grandemente gabado, bem o merecendo, aliás, pois que é única coisa do gênero em toda a região. Quem o projetou é digno da nossa estima, já que é homem capaz de imaginar planos mais extensos, e realmente já fez e ainda está a fazer um grande benefício, entre seus descuidosos vizinhos, pondo em voga ideias novas. Há no mínimo um exemplo em que não o louvam sem conhecimento de causa do benefício alcançado, pois que construiu ele, para sudeste da vila, uma ótima estrada, que serve de passeio aos vila-ricanos. Distinguiram-no, também, com postos e honrarias oficiais, por parte do governo; mas, feito isso de acordo com a costumeira parcimônia em tal assunto, não deu para animá-lo de maneira mais eficiente.

Parte da região parece andar arrendada, a troco de foro anual, a pessoas que queiram empregar seus capitais em aventuras mineiras. Meu estalajadeiro era um deles; pois que, enquanto me mostrava sua fazenda, que disse ter seis milhas de comprimento, não falou em nenhuma outra produção da terra além de suas “minerações”. Estava, aliás, com a razão, já que não plantava para mais do que se consumia em sua estalagem, enquanto que seus seis escravos, a dar crédito a seu relato, traziam-lhe grande quantidade de topázios, ametistas, esmeraldas e outras pedras preciosas. Quando, porém, com ele instei para que me mostrasse algumas delas, não o pôde, ou bem, não o quis.

Além do ouro amarelo e brilhante que é comum, encontra-se nestas paragens ouro branco, que desconfio ser platina; ouro preto, que aparece sob a forma de uma poeira escura; e ouro envenenado, que, provavelmente, é alguma espécie mal formada ou corroída do metal; mas eu não vi nenhum exemplar deste último. A região produz, ainda, em abundância, um outro metal mais útil; afora o ferro em minério, segundo sói ocorrer, há uma vastíssima quantidade dessa substância, que semelha a ganga do metal e em situações que creio que os mineralogistas haviam de ter por contrária à natureza. Parece, no entanto, em pura perda essa dádiva da natureza, pois não observei nem uma instalação com o fim de fundir e tornar maleável o ferro.

Vila-Rica tem alguma importância do ponto de vista comercial. Até pouco tempo atrás, desfrutava ela da quase exclusividade do comércio de Goiás e Cuiabá, que atualmente partilha com São João-d’El-Rei. Também São Bartolomeu, nestas proximidades, tem fama pelos seus doces e envia grande quantidade de marmelada para o Rio de Janeiro. Se alguém estiver disposto a sorrir de um comércio de compotas, deverá esse lembrar-se de quão grande é a falta de emprego generalizado por este país e de que por esse meio há frutas, açúcar, lenha e trabalho que se tornam úteis. De qualquer modo, é isso preferível, tanto para o povo como para o estado, a andar fuçando atrás de ouro.

Devido, talvez em parte, ao fato de estar livre das canículas de que padecem as províncias brasileiras situadas ao comprido de sua costa, o povo desta região acha-se alguns passos à frente do restante de seus conterrâneos no que tange à indústria. Fiam e tecem lã e algodão; suas manufaturas são, porém, puramente de ordem doméstica; seu instrumental e maneiras de usá-lo, o que há de mais antigo e atrasado. Talvez que quando se aplacar a fúria da mineração, possa este distrito tornar-se mais rico, por obra de suas empresas comerciais, das quais estas constituem o embrião, do que pela de todo o ouro que jamais tenha recolhido. Isto, contudo, será dito por muitos como extravagante estimação do valor de suas manufaturas, quando souber-se que, em pouco mais de cem anos, segundo as entradas na Casa de Fundição de Vila-Rica, somente essa localidade pôs em circulação mais de dois milhões de libras peso de um arrátel de ouro. E se a essa massa acrescentarmos tudo o que foi extraído de outro lugares, não será natural perguntar: “onde está tudo isso agora?”

Por íngremes que são as ruas desta vila, os veículos de rodas são nela quase tão inúteis quanto em Veneza. Como sucedâneo, usam de uma espécie grande de cadeirinha, carregada por burros em vez de homens. A construção delas é bastante tosca, e o arreio muito inferior ao que usamos. Tendo porém acontecido de uma sela inglesa ir ali parar, o seleiro mui louvavelmente desmanchou-a em pedaços, armou-a de novo, e de tal maneira o fez que nem o próprio dono nada percebeu. Teve o homem o engenho de imitar o que examinara e eu vi um arreio feito por ele que pouco aquém ficava do seu modelo.

Quando a vila se torna tão repleta de vício e miséria que chega a inspirar cuidados, faz-se circular o rumor da descoberta de que, em local distante e nas florestas, se encontra ouro em abundância. Os inquietos e aventureiros ficam ansiosos por ir empós de tal lugar; juntam-se em turbas e, sob a direção de alguém de sua própria escolha, abalam à procura dessas minas novas e sem igual. Alguns, cansados pelo que lhes parece jornada inútil, estacam pelo caminho e estabelecem-se em locais diversos. Outros há, no entanto, que prosseguem até a meta, ou bem o que tal lhes parece, verificam ter havido enorme exagero, mas apesar disso ali permanecem e, dentro em pouco, consideram a região como deles. E assim Vila-Rica se alivia e novas colônias se fundam. Um plano dessa espécie foi posto em execução em 1812, época em que cerca de mil pessoas partiram em busca de um filão de ouro que um viajante desconhecido qualquer vira a dois dias de viagem rumo a oeste.

Ao retirar-me para uma antecâmara, de volta do cumprimento da desagradável obrigação de apresentar meus respeitos ao magnífico cavalheiro que preenchia as funções de Governador de Minas-Gerais, fui, da seguinte forma, abordado em bom inglês: “Cavalheiro, creio que o senhor é inglês?”. “Sou-o, senhor, e admiro-me de ouvi-lo falar tão bem meu idioma.” “Ah! senhor! Também eu sou inglês, mas estou neste país já há muitos anos; tenho um emprego público que me traz a Vila-Rica.” “Onde mora, então?” “Pouco além da Tijuca, onde obtive a concessão de uma grande gleba, através da qual corre um rio cheio de ouro e de diamantes”. “O senhor tem muito sorte,” respondi olhando-o com admiração incrédula. Seu aspecto e maneiras eram em parte de inglês, mas em parte, também, de estrangeiro; a cabeça calva estava coberta de pó de arroz; vestia um casacão coçado, um colete de algodão mais coçado ainda, camisa suja e gravata retorcida e rasgada, calças curtas pretas, meias de algodão e botas de sanfona, grandes demais para suas pernas, escovadas mas não engraxadas e desbotadas por essa negligência. Considerar um tal indivíduo como o possuidor de um rio “repleto de diamantes” tinha muito de ridículo; contudo, dirigi grave convite a que meu conterrâneo visitasse meus aposentos, garantindo-lhe ter ainda uma garrafa de vinho do Porto e uns poucos charutos paraguaios, que estavam à disposição dele. Tais atrativos eram irresistíveis; trouxe consigo um moço de Goiás e obtive de ambos fartas informações a respeito da região setentrional da província de Minas-Gerais e meridional de sua limítrofe.

A uns poucos habitantes de Vila-Rica, dos quais alguns membros da Igreja e outros negociantes, tornei-me devedor por essas amáveis atenções que tanto cativam a estrangeiros. É possível, por isso, que meu juízo esteja algo influenciado pela bondade que demonstraram, mas o fato é que me pareceram eles possuidores de bom coração, sendo suas maneiras de uma simplicidade e cordialidade muito atraentes. Pareciam-me a mim esses amigos como exceções à índole predominante e ser, se me permitirem tomar de empréstimo uma metáfora sacra, o sal do lugar. Poucos lugares, de fato, de tal modo carecem desse preservativo.

A fim de entravar essa decadência moral tornaram-se deslumbrantes as cerimônias religiosas, havendo uma grande regularidade na frequência aos seus serviços de que porém parece estar o coração ausente. Numa grande procissão a que assistimos, a impressão geral provocada no espírito era a de que os padres cumpriam com as obrigações que lhes tocavam, mas a populaça era turbulenta e indecorosa. Não se percebiam sentimentos verdadeiramente religiosos nessa demonstração; e, no serviço comum da Ave-Maria, que, tal como no Rio, se executava às esquinas das ruas, a pessoa que o conduzia ficava animadamente a conversar, em seus intervalos, voltando a prestar atenção quando chegava sua vez.

Guiado por alguns de meus amigos, fiz proveitosas visitas a muitos pontos dos arredores. A moleza do material de que grande parte da região é composta facilitou a ação das correntes d’água, ocasionando uma multidão de rasgões, dos quais alguns atingem profundidades muito grandes e deixando a nu, em grande parte, os minerais encravados no solo.

Seguindo de Vila-Rica para oeste, passamos por uma estrada apertada, a meia encosta de um morro, em parte pavimentada e boa, dali alcançando um lindo panorama da vila ao olharmos para trás e, para frente, outra vista do rasgão do Rio do Carmo e regiões adjacentes. Antes de alcançarmos Passagem, aldeia de cerca de cento e cinquenta casas, com uma boa ponte por sobre uma torrente, indicaram-me um ponto bem no cume de um morro que ali se inclina para o norte, que é tido por ter sido um dos mais ricos do Brasil. Nesse local não somente a mineração foi conduzida em larga escala, como também por processos que, embora imperfeitos, se colocam entre os melhores e mais geralmente adotados nesta parte do continente. Encaminha-se, com enormes despesas, um rio através de canal artificial, até o ponto desejado, empregando-se ali todo o seu ímpeto em lavar o solo, dele separando o metal contido, sendo ele obrigado a passar do espigão do morro para dentro de pequenas catas em que se colocam couros, tecidos de lã e outros objetos afim de interceptar e recolher o ouro. As primeiras colchas inglesas por mim vendidas no Rio foram empregadas para esse fim.

Enquanto contemplava o local e prestava ouvidos aos enlevantes relatos que as gentes faziam sobre a quantidade de ouro ali recolhida, fui mais uma vez levado a indagar: para onde tinha ido todo esse tesouro? onde estão seus afortunados donos? onde os sinais permanentes do seu sucesso? A única resposta foi “foram-se e nada mais resta.” O avô começou a obra que pareceu ir de vento em popa; entre as mãos do filho, decaiu; já os netos estão mergulhados em miséria profunda; a propriedade foi posta à venda e não apareceu comprador. “Mas em nome do bom-senso,” repliquei eu, “que esteve essa gente a fazer”? Lavaram aquele rio, tirando-lhe tudo quanto possuía de valioso, largando o mero rochedo nu. Não teria sido melhor cultivar o solo, tornando-o, por meio de melhoramentos, cada vez mais produtivo? Estaria a família nesse caso ainda rica e seus descendentes poderiam por essa forma continuar durante muito tempo. Mas afinal, para que todo este apêlo! A procura do ouro é verdadeira mania e geralmente incurável.

Praça Minas Gerais, onde estão situados a Câmara Municipal de Mariana, as Igrejas de São Francisco de Assis e de Nossa Senhora do Carmo, bem como o Pelourinho, estes três últimos vistos na foto.

A primeira visão que tivemos de Mariana, outrora povoado do Carmo e elevada hoje às mais altas honras cívicas, mercê de sua lealdade, foi através do rasgão que gradualmente se amplia até formar uma vale de encostas escarpadas, em meio ao qual corre o rio. O efeito é insolitamente grato, pois que, por entre as rochas despidas cujos flancos produzem um efeito telescópico, se avista lindíssima planície para além delas, semeada de casas e igrejas. A medida que avançávamos, a vista naturalmente se estreitou, até que subimos sobre um morro, que constitui um dos lados e a partir de cujo cume de novo se abria ante nossos olhos de maneira mais desimpedida. Logo ali se encontrava uma igreja por acabar, dedicada a São Pedro, e a trezentos pés abaixo de nós, a planície em que se acha a cidade; coroavam suas igrejas aos outeirinhos e contrafortes das montanhas circundantes, o palácio do Bispo com seus jardins enfeitava a perspectiva à direita, e o colégio com suas dependências estendia-se para além dele.

Estando a cidade de Mariana encostada a quinhentos pés abaixo de Vila-Rica, e, além disso, cercada de elevados montes, é ela confinada e quente. É aproximadamente quadrada, consistindo principalmente de duas ruas bem calçadas e traçadas com regularidade, que conduzem a uma espécie de largo ou praça. As casas, que ascendem a quinhentas, apresentam aspecto asseado, por motivo de serem regularmente caiadas. As igrejas são bonitas e, entre elas, acha-se uma espaçosa Catedral. Goza esta de altos privilégios tanto de ordem eclesiástica como civil e parece destinada, se acaso alguma tolice humana não lhe entravar o progresso, a transformar-se dentro em pouco na Universidade da América do Sul. O abastecimento d’água é farto, auxiliando grandemente no cultivo de muitos belos jardins, entressemeados de casas. A situação deles não lhes impede exibir uma grande variedade de frutas e de flores. Para além deles, estendem-se lindas pastagens verdejantes, em meio às quais corre o rio, como um fio de prata; e em redor fica um anfiteatro de montanhas, enfeixando e protegendo tudo. Há no lugar um insólito ar de felicidade, que me sinto propenso a atribuir à relativa ausência de espírito daninho das minas.

A pedra calcária, como bem o demonstra a caiação das casas, não é rara em suas vizinhanças. Refere Cazal, que num trecho de terreno dessa espécie, a seis milhas da cidade, existe uma formação de estalactites cristalinos.

A cerca de dez milhas para o sul da cidade, ergue-se o altaneiro Itacolomi, pináculo da massa interior que empresta forma e solidez a esta parte do continente, e por tal forma discernível de todos os pontos ao redor que frequentemente o citam os relatos das paisagens dali. Constitui sua base uma vasta montanha com nada menos de mil pés de altitude, sobre a qual se assentam dois rochedos, um maior e outro menor, ambos despidos e laminados e tendo em redor deles grande quantidade de matéria fragmentada.

São suas vizinhanças habitadas por índios aborígenes, que dali por vezes descem para a cidade. Outrora eram visitas tais motivos de muitos danos; vêm eles, no entanto, agora em missões pacíficas e portam-se muito bem. Tais como são atualmente, descrevem-nos aqueles que os têm visitado na intimidade, como em nada selvagens; quando porém se acham excepcionalmente excitados, seja pela ação da bebida, seja pelo efeito da cólera, perigoso é encontrar-se com eles. Em tal estado, são capazes de matar um amigo, transformando logo sua raiva em lamentação e tão logo esquecendo não só o que fizeram como o que sentiram. Um dos meus amigos clérigos, com quem sobre o assunto palestrei, reconheceu que ainda se não fizera tudo o que era possível no sentido de trazê-los mais para o interior da sociedade. As pessoas a quem especificamente se cometera a tarefa de os ajudar a civilizar, ou bem faltava zelo na obra, ou bem firmeza bastante para arrostar com as muitas dificuldades e alguns perigos que ela oferecia. Esqueceu-se também de que era necessário algum tempo, como também sacrifícios, tanto por parte dos mestres como pela dos índios, para que se estabelecesse uma aproximação nos modos de pensar e maneiras de agir, tão flagrantemente díspares. Cerca de vinte anos antes da minha visita, um grupo dessa gente havia sido mantido por largo tempo perto da casa do Governador, verificando-se que se dera gradual melhoria em suas maneiras; foi quando a senhora do Governador se deu por ofendida com alguma das suas venetas de selvagens e obteve a expulsão imediata, e desconfio que permanente, de todos eles para as suas matas originárias. E assim, por causa do capricho de uma mulher, um ramo considerável dessa raça esquecida, viu-se condenada a permanecer na infância e, talvez, a ser exterminada.

A alguma distância para noroeste de Vila-Rica, adquiriram essas tribos os primeiros rudimentos da civilização; constituem-se ao que me disseram, em bandos, para fins de ladroagem e chegam a roubar das tropas de burros artigos a que dantes não emprestavam valor nenhum. Diz-se que eles possuem armas de fogo e inventam maneiras de arranjar pederneira e pólvora. Disto resultam perpétuas guerras entre eles próprios, de que outra coisa não poderá provir senão o extermínio, enquanto que os brancos, agindo mais de acordo, ficam de lado e, imperturbáveis, assistem à sua mútua destruição.

Numa situação social dessas, é evidente que cada um deve ser disposto e preparado a defender-se por si próprio; daí, talvez, é que provém essa espécie de ferocidade que se verifica existir aqui nas classes mais baixas, que também elas por vezes saem a saquear aos bandos, desafiando o braço da autoridade; por isso também é que os estranhos, ao cruzarem-se na estrada, fazem-no a distância e com evidentes sinais de desconfiança, mostrando muitos que estão armados. Vi eu um dia duas mulheres entrando na cidade, montadas, como aqui se costuma, de escarrancho; trazia uma coldres e pistolas e a outra um facão suspenso a um talabarte de soldado, a tiracolo no ombro; tinham consigo apenas um meninozinho que cavalgava atrás de uma delas, donde concluí serem habitantes da vizinhanças e que vinham de perto. Estavam bem vestidas, pareciam pertencer à classe dos fazendeiros ou dos mineradores, e não provocam no povo sintoma algum de surpresa.

A temperatura de Vila-Rica e de seus arredores é baixa; pela manhã, durante a minha estada, o termômetro pouco variou ao redor de 60°F (15,6°C); ao meio-dia, geralmente, estava a 64°F (17,8°C) ou 65°F (18,3°C) à sombra. Há grande quantidade de umidade na atmosfera; as madrugadas eram geralmente nevoentas, o que por vezes se transformava em garoa, vinda sempre do norte por sobre o espigão do morro. Cerca das dez horas, a atmosfera clareava e o sol se fazia crestante até as quatro; há, no entanto, algo de insalubre nesse calor que queima a epiderme sem aquecer sensivelmente o ar. As tardes eram límpidas e lindas, brilhando intensamente as estrelas à noite, como nas de geada da Inglaterra, sem que as ofuscasse uma luminosidade geral que tornava distintos os mais remotos objetos.

Nos jardins, muitos dos quais possuem solo de extraordinária feracidade e são dispostos com grande regularidade, do mesmo modo que no capinzal dos pastos, via-se estranha mescla de plantas e de flores, que parecia indicar as influências conjugadas dos climas tórrido e temperado. O aloés sofre com o frio e, sobre as montanhas, as árvores perdem suas folhas, mas já andam agora a deitar brotos novos. Tudo mais parecia, em outubro, estar ainda em pleno inverno, devido, talvez, à desusada secura da estação.

Nas vizinhanças da cidade, atirei um Melro, pássaro que pelo porte e feitio semelha um pica-pau. A cabeça, pescoço, costa e cauda eram de pardo-esverdeado; o peito, barriga, encontro das asas e a parte mais próxima da raiz da cauda, eram de lindo amarelo vivo; as pernas esguias, os artelhos longos, com três para diante e um atrás. O Bem-te-vi, outro dos habitantes alados da região que pude observar, é semelhante ao pássaro de mesmo nome do Rio de Janeiro, tirante que sua plumagem é mais viva e o bico de bela cor de palha. Quando contemplado em diferentes posições relativamente à luz, a plumagem do Taniazú parece verde, azul ou parda, sendo as cores algo mais desmaiadas na barriga e por debaixo das asas que nas demais partes do corpo; no tamanho e feitio, semelha um pardal. O Guarisa ou Guaricha grande é pardo-pálido, com um leve matiz avermelhado; seu tamanho é quase o de uma calhandra e sua forma delicada; o bico é comprido, esguio e ligeiramente adunco; tem uma cauda curta e suas pernas finas parecem desproporcionadas, longas.

Nota

  1.  Não é a primeira vez que o Autor confunde tamanduá com tatú. (Nota do Trad.)

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