Cais Pharoux

Quando Mr. Pharoux chegou ao Rio de Janeiro, em 1816, era ainda bem moço. Vinha de França, trazendo do tropel das lutas napoleônicas, bem vivo, no coração amargurado, com recordações do grande Corso, todo o desmoronar daquele sonho, que foi glória em Wagran, em Iena e em Lutzen, para, depois, esvair-se pelas campinas ásperas da Bélgica, em um bocado de sangue e um bocado de fumo.

L’Hôtel Pharoux (Largo do Paço), de Revert Henrique Klumb (ca. 1826-ca. 1886), via Biblioteca Nacional

Não se sabe, exatamente, porém, das razões que o trouxeram à terra joanina, rincão triste e sujo, cheirando a rapé, a almíscar e a bodum. Desgostos há, porém, que, muitas vezes, podem levar um homem até ao suicídio…

Muito a esse Mr. Pharoux devemos. Muito. Devemos-lhe, por exemplo, a ideia da criação do primeiro hotel, com certo aspeto de grandeza e decoro, instalado entre nós, o erguido no prédio que ainda hoje existe no ângulo da Rua Clapp com a Praça Quinze, e que, em 1901, mostrava, em letras colossais, sobre a fachada, este letreiro: Casa de Saúde do Dr. Cata Preta. Era um imóvel de proporções avantajadas, olhando para o mar.

Apareceu quando ainda sorria pelas nossas ruas, de olho desconsolado e de beiçola pálida, o Sr. D. João, que os “toma-larguras”[1] precediam, seguidos do famoso criado-do-vaso… Apareceu como uma maravilha, capaz de honrar qualquer pátria estrangeira, o hotelzinho do francês.

Note-se como devemos aos franceses que aqui nos chegavam, embora em número muito diminuto, benefícios que outros nunca pensaram em nos trazer. Benefícios e exemplos. Que eles não criaram, em matéria de melhoramentos da cidade, como talvez se acredite, apenas a formosura, a elegância e a distinção da Rua do Ouvidor, arrancada ao esterquilínio colonial. Há por toda a cidade traços da passagem desses estrangeiros inteligentes e amigos, recordações amáveis para nós.

O Hotel Pharoux era, realmente, na sua época, coisa muito de ver e apreciar. Que instalações! Que asseio! E os móveis de estilo, vindos de França, todos forrados de tapeçaria ou seda? E os espelhos florentinos, amplos, com as molduras largas e douradas? E o gosto das flores postas em grandes jarrões de porcelana, sobre toalhas alvíssimas? Era tão grande o prestígio desse palácio de fadas que até as negras que vendiam pamonha, pipoca e gergelim, quando passavam, caminho da Praia do Peixe, junto ao casarão luzido, comovidas, calavam os seus pregões…

Criou fama o francês.

Contam os cronistas do tempo que, um belo dia, o Sr. D. João VI quis conhecê-lo de perto. E o recebeu em palácio. Não dizem, entretanto, se para lhe pedir novas receitas culinárias, uma vez que, até cá, já viera o renome desse poulet Marengo, que um cozinheiro do corso heróico achou de criar, nas planícies do Piemonte, de tal sorte provando que a glória de França, pelo tempo, chegava até às caçarolas.

Logrou Mr. Pharoux, entre nós, notável simpatia e larga popularidade. Rico e cansado, muito tempo, depois, vendeu o seu hotel. E foi morrer em França, isso pelo ano de 1868. O Rio dele se lembra, entanto, sempre, e com a maior saudade. Não fosse ele, como foi, criador de benefícios em terra de gente grata.

Quem, hoje, quiser falar do que outrora se chamou Largo do Paço terá, fatalmente, de evocar a imagem singular desse amável francês, que ali viveu durante tantos anos, o seu albergue e o seu Cais. Não há fugir.

Nota do Editor

  1. Anderson, em sua Historia do Brazil, cita, a esse respeito, exemplos curiosos. “Os cortesãos do Paço – diz o autor – são apelidados pelos brasileiros de toma-larguras para significar que essas personagens tomam toda a largura das ruas e não fazem cerimônias para atropelar o povo ou atirar o seu carro de encontro à carruagem, liteira ou cavalo de qualquer plebeu que encontrem no seu caminho.” Impressões do Brazil no Seculo Vinte.

Fonte

Imagem destacada

  • Hotel Pharoux no Guia e Plano da cidade do Rio de Janeiro, 1858, publicado por A.M.Mc. Kinney e Roberto Leeder, via Biblioteca Nacional.

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